A Torre do Amor

Eloisa James · Capítulo 10 de 47

Páginas do PDF

A Torre do Amor

Capítulo 8

 

Fensmore

Propriedade do conde de Chatteris

Cambridgeshire

Edie percebia que não vinha se comportando de forma normal. Estava acostumada a sentir emoções fortes apenas quando tocava uma partitura ou travava alguma batalha com o pai. Tinha orgulho de manter um rígido controle da própria sensibilidade.

Naquele momento, porém, faltava menos de uma hora para que ela se encontrasse com o conde de Chatteris, a noiva dele e os convidados no salão, antes do jantar. E, por falta de uma expressão melhor, estava com os nervos à flor da pele, como se fosse explodir. Estava irrequieta demais para conseguir se sentar.

Pegou-se andando de um lado para outro no quarto de hóspedes, rejeitando todos os vestidos que Mary lhe oferecia. Edie não era o tipo de mulher que perdia tempo preocupando-se com a própria vestimenta. O que não queria dizer que ignorasse o poder das roupas para virar a cabeça dos homens.

Não tinha prestado muita atenção no dia anterior, quando Mary arrumara seu baú com roupas para alguns dias em Fensmore e para o casamento do conde de Chatteris. Sua concentração voltava-se para a partitura de Boccherini. No entanto, depois de chegar e ser informada por lady Honoria Smythe-Smith (a futura condessa de Chatteris) que o duque de Kinross já estava na residência, seus sentimentos em relação ao que vestir mudaram completamente.

O duque estaria presente na refeição vespertina. Ela o veria pela primeira vez desde o pedido de casamento. Aquela ideia a deixou com a sensação de estar febril outra vez.

Qualquer mulher em seu juízo perfeito desprezaria a ideia de encontrar o noivo vestida como uma virgem – e obviamente um vestido branco com um discreto babado na bainha confirmaria essa ilusão em particular.

Depois da troca de cartas, ela tinha certeza de que Kinross desejava se casar com uma mulher sensual e audaciosa. Alguém que pudesse falar coisas como ponteiro ereto, palavras que Edie mal conseguia compreender. Queria mais do que nunca olhar nos olhos dele e ver desejo. Até mesmo luxúria. Se ele a olhasse e o ponteiro não ficasse ereto, usando uma linguagem lírica, ela se sentiria humilhada.

Queria deixá-lo atordoado.

O mais ridículo era que Edie nem sabia se o reconheceria. Estava noiva de um homem alto com sotaque escocês, mas não conseguia se lembrar do rosto de Kinross.

No entanto, a carta – aquela carta – lhe dera elementos para concluir que ele tinha olhos risonhos. Não eram olhos libertinos nem com expressão canalha. Eram risonhos e cheios de desejo.

Só depois de Mary lhe oferecer todos os vestidos do baú e de Edie rejeitar todos eles, por considerá-los sem graça, ela finalmente cedeu ao inevitável e pediu que a criada chamasse Layla.

– Posso usar um de seus vestidos? – perguntou Edie, quando a madrasta apareceu na soleira da porta. – Odeio os meus. Ele me fazem parecer tola e insípida.

– Sabe perfeitamente bem que jovens donzelas devem usar apenas tecidos claros.

Layla atravessou o aposento e abriu a janela.

– Nada de fumar! – ordenou Edie, apontando para uma cadeira.

A madrasta suspirou e se sentou.

– Estou praticamente casada. Kinross está aqui e não posso aparecer com um desses vestidos horríveis.

Não sabia como dizer aquilo de outra forma, mas, se não visse desejo nos olhos dele, talvez rompesse o noivado por puro constrangimento. Não conseguia parar de pensar que ele talvez só tivesse pedido sua mão por causa de seu silêncio.

– Querida, você tem mais curvas do que eu – contestou Layla. – Não que eu não a compreenda, pois realmente compreendo. Seu tom de pele nunca foi valorizado pelos tons suaves. No entanto, não temos tempo para ajustar miraculosamente um de meus vestidos.

– Temos a mesma altura. Posso ter os quadris um pouco mais largos, mas temos a mesma medida de busto.

– Meu busto tem a mesma largura dos quadris, o que está terrivelmente fora de moda.

– Pode chamar seu busto de fora de moda se quiser, mas eu gosto do meu. E somos quase do mesmo tamanho. Qualquer vestido vai caber – insistiu Edie. – Não entende, Layla? Kinross nunca me viu de verdade, embora eu aprecie o fato de ele ter escolhido uma esposa com base em uma análise racional. É verdade. Eu realmente aprovo.

Layla revirou os olhos.

– A análise racional é um motivo absurdo para o casamento. Uma vez seu pai me contou que depois da morte de sua mãe ele preparou uma lista com seis atributos que a próxima condessa deveria ter. Cumpri cinco deles. E veja como tudo acabou.

– Qual era o sexto?

Layla voltou a se levantar e começou a examinar uma pilha de vestidos.

– Fertilidade, claro – respondeu ela, revirando as roupas. – A capacidade de produzir pequenos condes, talvez dúzias deles. Que tal esse vestido verde? Não é tão sem graça quanto os brancos.

– Você e papai se amam – disse Edie, ignorando a tentativa de Layla de transformar o decote do vestido verde em algo mais sensual, o que seria impossível. – Vocês apenas não…

– Gostam um do outro – completou Layla.

Com um puxão, ela arrancou o acabamento em rendas no decote do vestido verde.

– Não acredito nisso. Acredito que se gostam. Acho que só precisam conversar mais. Mas por enquanto deixemos de lado as questões do seu casamento lamentável. Estou tentando garantir que o meu seja feliz. Não quero que Kinross pense que sou uma espécie de florzinha insípida.

– É improvável que ele pense assim depois de ter lido sua carta – observou Layla. – Graças a Deus seu pai tem aquele livro com citações de Shakespeare. Acha que Kinross acredita que você é uma sabichona que leu todas aquelas peças?

– Em breve vai descobrir que não é bem o caso – falou Edie. – Você está destruindo o vestido, Layla!

A madrasta ergueu o vestido verde, destituído de rendas brancas.

– Se baixar as mangas para desnudar os ombros, pode ficar bem atraente.

– Não quero ficar “atraente”. Quero ser o tipo de mulher que solta piadas maliciosas.

– Essa mulher, com toda certeza, adoraria esse vestido. Talvez eu deva fugir de seu pai e abrir minha própria loja de roupas.

Edie pegou o vestido.

– Não posso usar isso. Veja só: você rasgou a costura do ombro. Eu só não quero fazer o papel de cisne virginal.

– Mas você é virgem – retrucou Layla com um suspiro. – Pense nisso como uma fase inevitável da vida, como envelhecer, perder os dentes e ser obrigada a tomar sopa. Infelizmente os homens parecem achar que as mulheres são como vinhos: só prestam enquanto estão com a rolha.

Edie tentou, mas não conseguiu entender.

– Daí o motivo de mulheres na casa dos 30 anos… e casadas… ainda vestirem apenas roupas brancas. Considero que as senhoras que se aferram a tal ilusão são, no mínimo, lamentáveis.

Qualquer um poderia perceber tal desdém simplesmente vendo a diferença entre um vestido branco e os trajes ousados – e coloridos – de Layla.

– Não estou negando minha virgindade – disse Edie, voltando a se sentar no banco diante do toucador. – Só não quero interpretar a casta lady Edith de quando estava doente… Na verdade, foi o que eu fiz a vida inteira.

– Seu pai não vai gostar.

– Meu pai abriu mão da autoridade que tinha sobre mim ao assinar os papéis do noivado. Agora preciso garantir que meu marido não pense que foi convidado a assumir o papel de meu pai.

– Bem observado – pontuou Layla. – Acha que a diferença de idade entre mim e seu pai o levou a me considerar uma criança?

Edie revirou os olhos.

– Isso nunca passou pela sua cabeça?

Aquilo pareceu calá-la. Layla jogou o vestido verde em cima da cama.

– Tenho o vestido perfeito para você. Mary, poderia ir ao meu quarto e pedir a Trotter meu vestido de seda cor de vinho? É um sacrifício que farei, querida – disse ela, voltando-se para Edie. – Eu estava pensando em usá-lo amanhã à noite, mas acho que você está mais necessitada.

Encaminhou-se para a janela.

– Não ouse acender uma cigarrilha! – ordenou Edie.

– Você deve ter herdado esse tom de voz de seu pai. É bom, até porque você precisará dar ordens ocasionais, quando estiver cuidando do castelo.

– Estou praticando com você. Está proibida de fumar enquanto estiver perto de mim.

– Estou tentando parar – falou Layla, apoiando-se no batente e olhando pela janela. – Seu pai não gosta e estamos dividindo o quarto durante nossa estadia.

Edie pensou em perguntar como estava se desenrolando aquela proximidade tão pouco costumeira, mas Mary reapareceu com uma pilha de seda furta-cor nos braços.

– Aqui está! – exclamou Layla, voltando-se para a porta no momento em que ela se abriu. – Olhe só essa cor. Não é a coisa mais linda que você já viu? Mais escura do que o vermelho, mais clara do que o vinho… quer dizer, é quase cor de vinho.

Momentos depois, Mary tinha despido Edie, deixando-a só de combinação.

– O vestido é feito para ser usado sem espartilho – destacou Layla, se aproximando.

Mary despejou a cascata de seda cor de vinho sobre a cabeça de Edie. O toque do tecido na pele era maravilhoso.

A própria Layla ajustou o corpete.

– Está linda. Deslumbrante. Está vendo as pregas aqui embaixo do corpete?

Edie virou-se e se olhou no espelho. A seda formava pregas perfeitas e um decote revelador. Mais pregas atravessavam os ombros, com a intenção de formar mangas, mas sem realmente se dar ao trabalho de concluí-las.

Estava sedutoramente descoberta na parte superior do corpo e então a seda formava pregas e ondulações a partir da cintura, amarrada com um laço na parte de trás.

Mary ajoelhou-se e ajudou Edie a calçar os sapatos de salto alto de Layla, na mesma cor do vestido.

– Não parece justo que calcemos o mesmo número e tenhamos quadris tão diferentes! – exclamou Layla.

Edie virou-se de lado para se contemplar. O vestido a transformara completamente. De Virgem Clássica para Layla Clássica. Deixava seus seios fartos e as pernas mais longas. Não era uma combinação ruim.

– Acha que ele vai gostar?

– Qualquer homem gostaria – afirmou Layla em um tom que não permitia discussões. – Está deslumbrante. Agora deve pintar os lábios. Volte ao toucador.

Desacostumada com os saltos de Layla, Edie percebeu que não conseguia se equilibrar. Quando dançara doente, deslizara pelo salão. Naquela noite, não deslizaria, apenas oscilaria, como um barco ancorado durante um vendaval.

O efeito era bastante feminino, o que não era frequente nos modos de Edie. Com certeza, não era muito feminino aquele gesto de abrigar um grande instrumento de cordas entre as pernas para tocar música. Se uma dama de verdade insistisse em fazer algo tão ultrajante quanto tocar violoncelo, ela posicionaria as pernas de lado, se equilibraria sobre o quadril e tocaria como se estivesse sentada numa sela lateral.

Edie podia fazer aquilo, mas nunca viu razão para isso. Não era suficientemente estúpida para acreditar que poderia ter uma carreira na música. Como filha de um conde, tocava apenas por hobby, então ela poderia se sentar da forma mais natural possível.

O amor do pai pelo violoncelo, o fato de ela ter herdado o primeiro instrumento dele, em tamanho infantil, e de ter ganhado um Ruggieri quando completou 16 anos de idade… nada disso anulava a expectativa de que ela exercesse condição de dama.

Havia uma espécie de acordo tácito entre ela e o pai. Edie adiara sua apresentação à sociedade o máximo possível, mas os dois sabiam que ela se casaria com quem ele escolhesse. Era uma promessa, e Edie sempre cumpria promessas, declaradas ou não.

Seguiu até o toucador e sentou-se. Pouco antes, naquela tarde, Mary tinha modelado cachos em seu cabelo, cachos apropriados para uma dama, sem a bagunça que ela costumava apresentar.

Layla deu um passo à frente e começou a brincar com seus cachos, criando uma desarrumação singular.

– Você está arruinando todo o esforço de Mary – protestou Edie, enquanto Layla soltava mais um cacho.

– Não, estou deixando você com uma aparência um pouco menos perfeita. Os homens ficam apavorados com a perfeição. Agora vamos pôr um pouco de cor nos lábios.

Pintada de vermelho, a boca de Edie parecia ter dobrado de tamanho, em especial o lábio inferior.

– Não ficou um tanto vulgar? Agora sim eu tenho certeza de que papai não vai aprovar.

Estava muito diferente. Na verdade, ela sentia como se tivesse deixado a santinha febril para trás e passado a interpretar o papel de cortesã febril.

– É exatamente isso. Seu pai nunca entendeu que um pouco de vulgaridade faz bem.

– Como assim?

– Não seria bom se ainda estivesse à procura de um marido – explicou Layla. – Mas agora você precisa deixar claro para Kinross que ele pode ter se casado com você… ou melhor… que ele se casará com você… mas nunca será seu dono.

Edie virou-se, encontrou o olhar de Mary e fez um sinal em direção à porta. Enquanto a criada fechava a porta atrás de si, Edie falou:

– Layla, querida, será que essa técnica que acabou de me recomendar não pode ser considerada um fracasso no caso de sua relação com papai?

– Que técnica?

O cabelo de Layla estava preso no alto da cabeça formando um engenhoso ninho de cachos trançados com esmeraldas. Ficou diante do espelho convencendo uma mecha a despencar com gracioso desalinho sobre um ombro.

– Ter certeza de que um homem saberá que ele nunca será seu dono ou, no mínimo, dono da sua lealdade. Acho que isso pode ter criado algumas dificuldades conjugais para vocês dois.

Layla franziu a testa.

– Eu nunca seria infiel a seu pai. Ele deve saber disso porque me conhece.

– Mas se você não para de repetir, mesmo que de um modo silencioso, que nunca será dele… Ocorreu-me, depois de observá-los, que os homens são um tanto primitivos. Ou pelo menos meu pai é assim. Ele a contempla com dor e possessividade, tudo misturado.

– Garanti a ele que não dormi com Gryphus. Ele deveria acreditar em mim incondicionalmente. Sou esposa dele, afinal de contas.

– Acho que ele só quer que você garanta que não tem qualquer interesse em dormir com outro homem.

– Assim eu lhe concederia poder demais – disse Layla no mesmo instante. – Ele já pensa que é meu dono. Ontem à noite, exigiu que eu parasse de fumar!

Aquilo não surpreendeu Edie.

– O que você respondeu?

– Que nunca faria isso, é claro. Embora não tenha fumado hoje. – Layla demonstrou desânimo. – O casamento é mais difícil do que você pensa, Edie. Se não fizer nada além de tentar manter seu marido feliz, isso a levará à loucura.

Edie deu-lhe um beijo.

– Perdoe-me se eu disser que estarei em boa companhia? Você é gentil demais para meu pai rabugento. – Ela pegou as luvas e um xale de tafetá finíssimo. – Vamos descer para o jantar. Estou curiosa para conhecer meu noivo.