A Torre do Amor
Capítulo 4
Passaram-se mais dois dias antes que Edie se sentisse suficientemente bem para se arrastar para fora da cama. Layla finalmente insistira na visita de um médico. O homem apenas confirmou o que o bom senso de Edie lhe dizia. Ela deveria permanecer na cama, no escuro. Não tinha permissão para tocar violoncelo.
– Papai fez alguma pergunta sobre meu estado de saúde? – perguntou ela na manhã em que se sentiu bem o bastante para tomar o café da manhã no quarto da madrasta.
Layla usava um robe que se abria em uma cascata de babados de seda. Lembrava uma vistosa torta de pêssego.
– Não, não perguntou – respondeu Layla, escolhendo mais uma uva com a seriedade de alguém que seleciona um anel de brilhante.
Devia ter começado mais uma dieta.
Edie sentou-se à sua frente, pegou três fatias de queijo e colocou tudo na boca.
– Terrível! – exclamou ela, sem muito rancor. – Sua única filha poderia ter morrido de gripe e ele nem teria percebido.
– Ele teria percebido – disse a madrasta, voltando a inspecionar as uvas. – Talvez não percebesse se eu exalasse meu último suspiro. Mas se ele não tivesse mais ninguém com quem tocar o violoncelo, ah, isso chamaria a atenção dele.
– Coma mais algumas!
Edie apanhou um bocado de uvas e jogou-as no colo de Layla.
Não havia nada que Edie pudesse fazer pelo casamento da madrasta, mas o quadro geral fez com que, depois de voltar a seu quarto e entrar na banheira com água quente, ela começasse a refletir sobre o assunto.
Estava noiva de um duque a quem não seria capaz de reconhecer no meio da multidão. Tal fato não a incomodava tanto assim.
Desde os 5 anos, ela sabia que seu dote de 30 mil libras e seu sangue azul garantiriam que seu casamento seria uma questão de linhagem, uma forma de ter filhos e concentrar riqueza. Nunca concebera que o casamento fosse mais do que um encontro de mentes (na melhor das hipóteses) compatíveis.
No entanto, com toda certeza não desejava viver o tipo de drama que cercava a união de Layla com seu pai. Se desse sorte, o sujeito com o encantador sotaque escocês seria razoável, tão sensato quanto ela, sem tempo para bobagens.
Apesar de ter ficado irritada com a ausência de rituais de corte por parte dele, a verdade era que aquela proposta rápida era um ponto a favor de Kinross, pois indicava que sua decisão não levara em conta nada pessoal. Era provável que ele tivesse decidido se casar com ela antes do baile e que a tivesse tirado para dançar apenas para garantir que ela não era corcunda nem tinha uma perna de pau.
Edie escorregou mais na banheira, deixando a água bater na altura do queixo. Achou muito reconfortante a explicação para uma proposta tão precipitada. Não gostaria de um homem impulsivo. Preferia pensar que Kinross tomara uma decisão racional.
Nunca quereria enfrentar aquela espécie de tempestade emocional que cercava seu pai e Layla. Nunca.
Quando por fim saiu da banheira, com a pele rosada e enrugada, o otimismo natural de Layla tinha sido restaurado pela primeira vez desde que ela adoecera. Poderia lidar com um homem como seu pai.
A madrasta cometera o erro de se apaixonar, provavelmente por ter sido cortejada pelo conde com inesperado ardor. Se Layla não se importasse tanto, não flertaria com outros homens para chamar a atenção do marido. E, se ele não se importasse tanto, não ficaria tão zangado. Com certeza Edie e Kinross poderiam evitar aquele círculo vicioso se tivessem uma conversa madura, que estabelecesse regras claras.
De fato, por que esperar até que voltassem a se encontrar? Talvez fosse uma boa ideia expressar suas intenções por escrito.
Quanto mais pensava no assunto, mais gostava da ideia de se corresponder com Kinross. Escreveria ao noivo e explicaria o que considerava fundamental para um casamento bem-sucedido. Ele estava em Brighton. Pois bem, ela enviaria um criado até lá para entregar a carta pessoalmente. Levaria apenas um dia, se ele fosse pela carruagem postal. Não devia ser difícil localizar um duque que viajava com duas carruagens e oito lacaios.
Enrolada no xale, ela esperou até que a criada saísse do quarto para sentar-se à escrivaninha. Suas demandas deveriam ser apresentadas com todo o cuidado possível. O respeito mútuo era uma exigência óbvia. Assim como bastante tempo sozinha. Ela não queria um marido que a seguisse o tempo todo e interrompesse seus estudos de violoncelo.
A questão mais delicada versava sobre as amantes. Até onde ela sabia, cavalheiros costumavam ter amantes. Não fazia grande objeção. Seria difícil considerar sacrossanto um voto realizado entre desconhecidos, motivado por poder e dinheiro. Por outro lado, não queria que seu marido a tratasse com o desdém indiferente demonstrado por seu pai em relação a Layla, passando a noite fora, e assim por diante.
E, com toda certeza, não queria pegar doenças de uma mulher que estivesse a serviço de seu marido. Não sabia se aquela era a terminologia adequada para tal arranjo. Edie pegou uma folha de papel de carta e hesitou. Deveria especificar que uma doença desse tipo seria justificativa para o rompimento do noivado?
Com toda certeza, seu pai teria perguntado isso.
Decidiu verificar o assunto mais tarde e começou a escrever. Depois de uma hora, havia preenchido duas páginas. Releu-as e considerou-as satisfatórias.
Era uma carta respeitosa, mas sincera.
Na opinião de Edie, a honestidade era o que havia de mais importante entre marido e mulher. Se seu pai dissesse a Layla que a amava loucamente e que ficava magoado toda vez que ela bancava a coquete com outros homens, e se Layla confessasse ao marido que era carente de afeto e que se sentia arrasada por não poder ter filhos, então eles teriam um casamento, em vez dessa série infindável de batalhas provocadas por um anel.
Tocou a sineta e entregou a missiva ao mordomo Willikins, com instruções para ser entregue em Brighton, sem demora.
No desjejum do dia seguinte, pareceu-lhe que o casamento do pai havia sofrido outro revés.
– Ele não voltou para casa de novo ontem à noite? – indagou Edie, ao perceber que Layla tinha chorado.
Uma lágrima deslizou pelo rosto da madrasta, que a enxugou com a mão.
– Ele só se casou comigo porque eu era jovem e presumivelmente fértil.
Como não sou mais, não vê motivos para continuar casado.
– Não faz sentido. Papai nunca pareceu fazer muita questão de ter um herdeiro. Ele gosta do meu primo Magnus.
Edie entregou-lhe um lenço.
– Você está errada. Ele me odeia porque não consegui ter um bebê.
– Ele não a odeia, Layla. Não mesmo.
– E, ainda por cima, enfiou na cabeça que o traí com lorde Gryphus.
– Gryphus? Por que raios papai pensa isso? É verdade que Gryphus é muito bonito e entendo que inspiraria ciúme…
– Não me importo com a beleza de Gryphus. Não descumpri meus votos nupciais – argumentou Layla, com voz de choro. – Tudo o que eu fiz foi permitir que lorde Gryphus me levasse para jantar duas ou três vezes, em bailes a que seu pai não me acompanhou. Eu não tinha ideia de que as pessoas estavam fazendo comentários maldosos!
– Imagino que papai esteja com ciúme porque você e Gryphus têm a mesma idade. Que desagradável pensar que alguém tenha feito mexericos.
– Jonas acreditou nessa fofoca horrível, sem nem me confrontar! E agora ele não… ele não quer ter qualquer relação comigo e diz que eu devo ir para o interior e instruir meu amante a me seguir. Mas não tenho um amante! – A frase foi concluída com um imenso soluço. – Ele diz que eu deveria ser mais discreta.
– É tudo um absurdo. Vou falar com ele.
Layla estendeu o braço e segurou o punho de Edie.
– Não deve. Não seria correto. Você é filha dele.
Edie franziu a testa.
– Quem mais poderia lhe abrir os olhos? É uma consequência de nosso relacionamento. Como em Hamlet, sabe? Minha preceptora tentou enfiar essa peça na minha cabeça tempos atrás. Restou pouca coisa, mas ainda me lembro de Hamlet lamentando “Que lástima é meu fardo esclarecer”. Ou alguma coisa assim.
– Jonas ficaria terrivelmente ofendido se você mencionasse o assunto – disse Layla entre soluços. – Além disso, não vai acreditar mais em você do que em mim.
Edie levantou-se e sentou-se ao lado da madrasta, abraçando-a.
– Ah, querida. Papai é um grande tolo. Ele a ama. Sei que ama.
– Não, não ama. Encontrei-o no saguão ontem à noite e ele… ele comentou que desejava nunca ter se casado com alguém como eu. Acredito que tenha conhecido outra pessoa – contou Layla, com a voz voltando a falhar. – Tenho certeza, porque ele saiu e não voltou para casa.
Depois de algum tempo, quando a madrasta já havia se acalmado, Edie falou:
– Um momento, querida. Volto já.
Saiu correndo do quarto e atravessou o corredor. O violoncelo descansava num suporte ereto, no cômodo onde ela costumava estudar. Pegou o instrumento e o levou, dessa vez mais devagar, até o quarto de Layla.
A madrasta estava encolhida no canto do sofá, onde um soluço ocasional a fazia se sacudir.
Edie sentou-se numa cadeira com o encosto reto e arrumou as saias de forma a colocar o instrumento entre as pernas. A posição era de longe a melhor para trabalhar com o arco, mas, claro, só podia fazer isso quando estava sozinha. Ou diante de Layla, o que era praticamente a mesma coisa.
Verificou se o espigão estava firme no chão. Então passou o arco pelas cordas. Depois de ficar quatro dias sem tocar, o som estava sendo uma benção. Afinou o instrumento e começou, duas oitavas e uma meia ecoando no ar.
Layla perguntou com a voz embargada:
– É a minha favorita?
– É. Dona Nobis Pacem.
Dai-nos paz saiu de suas cordas como o bálsamo de Gilead, sempre imponente, sempre comedido, a alegria sob controle.
Talvez fosse consequência dos dias de repouso forçado, mas os dedos de Edie não falharam nenhuma vez, e o arco deslizou sobre as cordas em um ângulo perfeito, a música calibrada para que o coração do ouvinte pudesse ficar em paz.
No final do hino, Edie ouviu Layla respirar fundo. Então sorriu, abaixou a cabeça de novo e emendou com “Inverno”, movimento de As quatro estações, de Vivaldi, a peça que estava estudando quando adoecera.
Ao se aproximar do fim e, para ser honesta, ter se esquecido da presença de Layla, a porta se abriu. Quando ergueu os olhos, viu o pai.
Ele olhava fixamente para a esposa. O cabelo dourado, desarrumado, cobria o rosto de Layla, mas o lenço em sua mão era autoexplicativo.
Edie quase sentiu uma onda de simpatia pelo pai. Era alto, tinha ombros largos e era atraente, embora detestasse ouvir aquilo. Gostava de pensar em si mesmo como um estadista, em vez de um reles mortal.
Era aí que residia o verdadeiro problema. A lógica, para ele, vinha antes de qualquer tipo de emoção, embora, no que dizia respeito à esposa, ele costumasse ser bastante ilógico.
– Foi bem tocado – comentou ele, voltando o olhar para Edie. – Não estava perfeito, pois o último movimento é um allegro bem marcado. Sua execução não foi ágil o suficiente.
Edie olhou para Layla, mas a única reação dela à voz do marido foi encolher-se ainda mais.
– Posso pedir um momento a sós com minha esposa? – perguntou ele, com a voz tão indiferente quanto sua expressão.
Naquele momento, seu olhar pousou nas pernas abertas de Edie, uma de cada lado do instrumento, as saias mal cobrindo os joelhos.
– Minha filha!
– Pai.
Ela afastou o violoncelo, levantou-se e deixou que as saias descessem até o chão. Em seguida, enfiou o arco sob o braço, ergueu o violoncelo e virou-se para a madrasta.
– Layla, querida, estarei pronta quando decidir se retirar para o campo e começar uma vida de completa libertinagem.
O pai estreitou os olhos, mas Edie passou por ele e marchou porta afora. Meia hora depois, quando já havia pedido e consumido o desjejum – mais um, pois o primeiro permanecera praticamente intocado no quarto da madrasta –, ela começou a tocar as suítes de Bach para violoncelo.
A irritação não era um bom sentimento para a música. Parecia azedar as notas. Teve que tocar três ou quatro vezes até que as notas se impregnassem da emoção que Bach destinara à peça.
Em determinado momento, ela fez uma pausa apenas para comer o almoço trazido pela criada. Àquela altura, estava trabalhando numa sonata de Boccherini que era tão difícil, mas tão difícil, que ela precisava parar repetidas vezes para olhar a partitura.
Às quatro da tarde, seu braço estava dolorido, mas ela havia sido tomada por uma sensação de profunda satisfação.
Apesar das lágrimas de Layla, aquele era seu tipo de dia favorito.