A Torre do Amor
Capítulo 6
Aparentemente o pai e a madrasta de Edie tinham feito as pazes, mas só a ponto de tornar o clima na hora das refeições frio, em vez de gélido.
– Ele ainda não quer se deitar comigo – confidenciou Layla durante o almoço, alguns dias depois.
O conde era esperado, mas não apareceu.
Edie suspirou. Não gostava de monitorar a loucura matrimonial de seu pai, mas com quem mais Layla poderia contar?
– É o mesmo problema? Papai acha que você está tendo um caso com Gryphus?
– Ele disse que acredita que não o estou traindo com Gryphus. Só que, como deve ter percebido, não foi suficiente para ele passar as noites em casa.
Naquele momento Willikins entrou, carregando uma pequena bandeja de prata com a mão enluvada.
– Bom. Espero que seja um convite para o espetáculo do general Rutland. A Sra. Blossom disse que me convidaria a acompanhá-la em sua frisa.
– Carta para lady Edith – anunciou o mordomo, contornando a mesa para fazer a entrega. – Um lacaio levará sua resposta amanhã.
Edie pegou a carta. Com toda a certeza era uma missiva digna de um duque, escrita em papel grosso, que cheirava a moedas de ouro, e lacrada com uma farta bolota de cera vermelha.
– É de Kinross? – perguntou Layla, baixando o garfo. – Suponho que seja aceitável uma correspondência entre noivos, mas minha mãe…
Continuou a falar por algum tempo enquanto Edie rasgava o envelope e lia o conteúdo.
E leu de novo. “Dividir a cama” parecia bem claro, embora o homem tivesse ilusões de grandeza. Noventa anos? Ela soltou uma risada de desprezo. Bastava olhar para o pai, que ainda estava na casa dos 40.
A resposta de Kinross sobre a questão da amante era precisamente o que qualquer mulher gostaria de ouvir. Mas “tripa de porco”? Como aquilo poderia impedir a concepção?
Foi o quinto e último item que ela leu e releu. Seu futuro esposo tinha senso de humor. Ela apreciava o sarcasmo. De fato, fazia com que ela tivesse uma visão surpreendentemente diferente a respeito de seu iminente casamento.
– O que diz? – perguntou Layla, com a cabeça pousada na mão. – Estou com uma dor de cabeça terrível e não consigo ler nada. Conte-me.
– Ele está crente que dançaremos nos lençóis até os 90 anos.
– Não pode ser tão pedante quanto parece, então. Na verdade, parece perfeito. Completamente diferente do seu pai.
Edie dobrou a carta e deixou-a a seu lado. Não era exatamente uma declaração de amor, mas, como era a primeira correspondência vinda de seu futuro esposo, tinha a intenção de guardá-la. E de respondê-la.
– Você acha que poderia ter uma conversa racional com papai a fim de determinar os pontos de discordância no casamento de vocês, de forma a evitá-los daqui por diante?
Layla ergueu a cabeça o suficiente para estreitar os olhos e deixou-a cair de volta nas mãos.
– Quando diz isso você soa tão pretensiosa quanto seu pai.
– É mesmo? – Não foi um pensamento agradável. – Sinto muito.
– Conversar não funciona muito bem conosco. Nossa comunicação se dá num nível mais íntimo, o que significa que não nos comunicamos de forma alguma nesses últimos tempos.
– Por falar nisso, tem ideia do que pode significar “a mão indecente do mostrador”?
– De forma alguma. Seu pai ficaria chateado se soubesse que seu noivo escreveu uma carta grosseira. Kinross não fez nenhuma alusão imprópria, fez?
Edie deu um sorriso malicioso.
– Então sugere não mencionar a papai que o duque promete manter sempre o ponteiro ereto apontado para o meio-dia?
Layla ergueu a cabeça novamente.
– Ele usou a palavra ereto? Escreveu isso? Com todas as letras? O ponteiro ereto apontado para o meio-dia?
– Escreveu.
Edie abriu a carta e releu. Começava a gostar cada vez mais dela. Se não estivesse com febre no dia do baile, talvez tivesse mesmo apreciado conhecer o duque. Agora que estava completamente restabelecida, era constrangedor pensar que havia seduzido seu futuro marido por ter se mantido em silêncio, o que não era, decididamente, seu estado normal.
Naquele momento a porta se abriu e seu pai entrou no aposento.
– Peço perdão pelo atraso – declarou. – Lady Gilchrist – disse ele, permitindo que um lacaio arrumasse um guardanapo de linho em seu colo –, está se sentindo bem?
– Estou com dor de cabeça – respondeu Layla. – Jonas, o noivo que escolheu para Edie enviou-lhe uma carta um tanto libidinosa. Achei que ele talvez…
– Não, de modo algum – interrompeu Edie. – O duque de Kinross escreveu uma resposta inteiramente adequada à carta que mandei para ele.
O pai estreitou os olhos.
– Foi inapropriado escrever para Sua Graça. Se desejava alguma informação, eu o teria comunicado seu pedido.
– Certo, mas, Jonas, será que ele escreveria a você sobre ponteiros eretos e relógios indecentes? – perguntou Layla.
– O quê?
O pai desempenhava muito bem o papel de fazer esse tipo de pergunta de forma estrondosa.
– Kinross estava apenas reafirmando sua nacionalidade – explicou Edie. – Escreve que na Escócia a mão obscena do mostrador segura sempre ereto o ponteiro, apontado para o meio-dia.
Para sua surpresa, a indignação desapareceu do rosto de seu pai.
– É de um texto de Shakespeare – explicou ele, erguendo o garfo. – Uma fala de mau gosto proferida por um personagem pouco respeitável, mas é mesmo de Shakespeare.
– Não entendi o significado – falou Edie.
– Claro que não. Expressões como essa não pertencem à esfera de uma dama bem-educada. – Ele baixou o garfo. – Eu estava mesmo pensando em mencionar, filha, que é provável que encontre na Escócia uma atmosfera mais rude do que aquela a que está acostumada.
– Então ereto é uma palavra rude?
Não era exatamente o termo que Edie teria escolhido, mas estava consciente de que faltava a ela todo tipo de conhecimento importante no que dizia respeito às atividades na cama.
– Não repita isso! – grunhiu o pai. – Uma palavra como essa nunca deveria sair dos lábios de uma dama.
Layla ergueu a cabeça. Havia uma leve malícia em seus olhos, como costumava acontecer no início do casamento.
– Talvez fique desapontado ao ouvir isso, Jonas, mas as mulheres costumam debater bastante sobre ponteiros e outras coisas eretas. Dependendo do tamanho, é claro que não faz sentido ser chamado de ponteiro. Em alguns casos, embora apenas nos mais infelizes, é mais apropriado chamar de alfinete. E não podemos esquecer a feliz existência das lanças.
Layla afastou o cabelo dos olhos para ver se estava conseguindo provocar o marido.
E estava.
– Esta conversa está imperdoavelmente vulgar – disse o conde, a voz falhando.
– Espada, poste, viga – acrescentou Layla, parecendo mais animada. – Edie logo será uma mulher casada, Jonas. Não podemos tratá-la como uma criança.
Edie grunhiu discretamente. Os dois estavam prestes a chafurdar naquela espiral que conduzia ao atoleiro emocional de sempre. O pai deveria ter se casado com uma puritana.
Por sorte, havia sinais de vida da parte de seu noivo. Tinha a impressão de que, caso se aventurasse a fazer uma série de piadas sobre lanças, ele acharia graça. Infelizmente, ela não entenderia as piadas dele, ainda mais se ele as tomasse emprestado de Shakespeare. Edie não sabia muito sobre literatura. Não tivera tempo de estudar.
– É uma citação de que peça? – perguntou ela.
– Romeu e Julieta – respondeu o pai.
Talvez pudesse dar uma olhada no texto antes de responder a Kinross. Não era uma grande leitora, para falar a verdade.
– Vamos mudar de assunto. Estou me sentindo muito mal. Acha que peguei uma doença que me fará definhar? Talvez algo que me faria desmaiar ao ver um bolinho?
– Você…
O conde engoliu as palavras.
Edie assumiu o controle da conversa com agilidade, antes que o pai pudesse dizer algo de que se arrependesse depois, embora fosse improvável.
– Estou ansiosa para rever Kinross.
Edie poderia ter jurado que viu desejo nos olhos do pai enquanto ele contemplava a madrasta. Como seria possível? Ele vivia criticando a esposa, implicando com ela por todo tipo de comentário impulsivo e indiscreto que Layla não conseguia evitar.
– Naturalmente, espero que você e o duque sejam felizes – disse o pai.
– E espero que tenham filhos! – exclamou Layla. – Muitos filhos.
O silêncio que se seguiu àquela declaração foi tão tenso e desesperador que Edie se levantou depressa e saiu correndo da sala sem poder fazer nada além de balbuciar um pedido de desculpas.
Layla e o pai com certeza se amavam quando se casaram, mas ele passara a criticar exatamente as qualidades que costumava adorar na esposa no passado. O pior era a decepção que pairava sobre os dois.
Acima de tudo, ela e Kinross precisavam evitar aquele tipo de situação. Deviam conversar um pouco – ou até bastante – para que aquilo não acontecesse.