A Torre do Amor

Eloisa James · Capítulo 44 de 47

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A Torre do Amor

Capítulo 42

 

Seis anos depois

Charles Street, 37, Londres

Residência do duque de Kinross

Aos 11 anos, a Srta. Susannah era uma violinista bastante talentosa. Na verdade, era considerada uma espécie de prodígio e sabia disso, embora a mãe sempre fizesse o pai calar a boca quando ele falava algo sobre o assunto. A mãe considerava muito mais importante ser uma boa pessoa do que ser um gênio.

Susannah achava possível ser as duas coisas. Seu tutor, monsieur Védrines, acenou para ela de seu assento ao piano e a menina ergueu o arco.

Conhecia a peça do fundo de seu ser. E sabia que todos naquele aposento também a conheciam. Lá estavam seus queridos pais e lady Arnaut, que também tocava violoncelo, embora se queixasse de que não vinha conseguindo tocar porque esperava um filho e a barriga havia crescido.

Era uma desculpa muito esfarrapada, como Susannah poderia ter dito, pois Edie havia tocado todo o tempo durante suas duas gestações.

As primeiras notas se derramaram do piano e Susannah sentiu as batidas de seu coração se acelerarem. Não havia razão para estar tão nervosa, mas talvez fosse por causa da presença de Jamie Arnaut no salão, sentado ao lado dos pais. Tinha 13 anos e parecia extremamente crescido.

Era a vez dela, e o arco desceu no momento exato…

Ao fim da execução, Susannah se mostrou corada, sorridente e terrivelmente satisfeita. No entanto, ainda faltava uma peça, uma surpresa para Edie. Haviam guardado o segredo por muito, muito tempo, a ponto de Susannah se perguntar se Edie não saberia a verdade, se não estava apenas fingindo não saber. Os adultos faziam aquele tipo de coisa.

Jamie se aproximou com o pai, o lorde Arnaut, e Susannah disse a si mesma para não corar enquanto fazia uma reverência. Corou mesmo assim porque Jamie lhe dirigiu um sorriso e comentou que ela era uma violinista maravilhosa. Ele não falou para uma garota, nem mesmo parecia estar pensando aquilo.

Edie observou a cor nas faces de Susannah enquanto a menina recebia os elogios do jovem Jamie e sorriu. Nunca conseguiram saber se a mãe de Gowan e Susannah realmente se casara outra vez, e uma pessoa temerosa poderia ficar preocupada com a futura aceitação de Susannah na sociedade. Era óbvio, no entanto, mesmo aos 11 anos, enquanto ainda era uma menina magrela, que ela se tornaria uma grande beldade. E seu irmão era um dos homens mais poderosos da Inglaterra e da Escócia. Edie não se preocupava.

Layla apareceu ao lado da enteada e levou-a para uma cadeira na primeira fila.

– O recital ainda não acabou! – exclamou a madrasta de Edie, dando risadas. – Ainda temos uma surpresa de aniversário para você.

Houve muitas gargalhadas por partes dos amigos reunidos e da família, embora Edie não conseguisse entender o motivo.

Monsieur Védrines sentou-se ao piano. Um lacaio colocou uma cadeira de costas retas perto do instrumento.

– Alguém vai tocar um dueto para o meu aniversário? – perguntou Edie para Layla.

Os olhos da madrasta brilhavam e ela não conseguia parar de rir, embora corresse o risco de acordar um dos gêmeos, que dormia profundamente sobre seu ombro. Edie não tinha certeza de qual dos dois, pois eram idênticos. Tudo o que conseguia ver era uma nuvem de cabelo dourado pousada no ombro de Layla.

– Espere e verá – disse Layla.

– Posso adivinhar – falou Edie, sorrindo. – Não estou encontrando papai. Ele vai tocar uma nova peça, não é?

– Algo assim – respondeu a madrasta.

Edie suspirou feliz.

– Que belo presente de aniversário. Onde está Gowan? Não quero que ele perca.

Layla olhou para ela, vagamente.

– Tenho certeza de que está por aí.

Naquele momento, o pai de Edie entrou no salão carregando seu precioso violoncelo. Acomodou-se na cadeira e acenou para Védrines. A família considerava um de seus dias de sorte aquele em que o jovem francês aceitara ser o músico do castelo.

– Vamos tocar o Concerto em Ré Menor de Vivaldi, em homenagem ao aniversário de minha filha – anunciou lorde Gilchrist, dando um sorriso para Edie antes de colocar a partitura na estante.

– Deve ter feito algum arranjo especial – comentou Edie com Layla. – A peça foi escrita para dois violinos, um violoncelo e cordas.

– Imagino que o piano ficará encarregado da parte das cordas – observou Layla.

Antes que Edie pudesse argumentar que mesmo assim ainda faltavam dois violinos, Susannah já havia caminhado para a frente da sala e se colocado ao lado do conde, pegando o violino.

Houve em seguida um murmúrio com a entrada do duque de Kinross. Gowan se tornara devastadoramente belo com o passar dos anos. Seu senso de comando tinha sido polido e temperado por um profundo amor pela esposa e pelos filhos, o que provocava suspiros em todas as mulheres.

Só que Edie não estava olhando para o rosto do marido. Na verdade, estava fascinada pelo violino que ele carregava casualmente sob o braço esquerdo, como se ele sempre tivesse tido o hábito de andar com o instrumento daquele jeito.

Ele se juntou ao grupo, sorriu para ela, ergueu o violino e começou a tocar. Edie ficou paralisada em sua cadeira. Se o telhado da casa tivesse sido levado pelo vento e no céu aparecessem multidões de porcos alados, Edie não teria ficado tão surpresa quanto ao ver o marido executar uma peça de Vivaldi.

Gowan não estava apenas seguindo a partitura. Tocava com o mesmo brilho imprudente com que fazia tudo na vida. Ficara absolutamente claro que, se ele se importasse com isso, poderia ter se igualado aos melhores instrumentistas do mundo.

E ela compreendeu no mesmo momento que ele não se importava.

Aprendera a mais difícil das artes por ela.

– Foram três anos de trabalho – sussurrou Layla, inclinando-se para se aproximar dela. – O pobre Védrines quase ficou louco com o projeto.

À medida que as últimas notas silenciavam, os convidados reunidos irromperam em aplausos entusiasmados. Lorde Gilchrist – pai de Edie, adorado marido de Layla, pai de Susannah e sogro e amigo de Gowan – virou-se para a plateia e fez um cumprimento.

– É com verdadeiro pesar que anuncio que o duque de Kinross acaba de fazer seu primeiro e último recital, pelo que me informou.

Mais aplausos.

Gowan deu um passo à frente.

– Os últimos três anos foram muito felizes. Foi um prazer aprender a arte do violino com o inestimável monsieur Védrines, com a ajuda de meu sogro, lorde Gilchrist.

Mais aplausos.

Gowan se curvou. Sendo Gowan, não houve floreio com o violino ou com o arco.

– Você nunca mais vai tocar? – veio uma voz do fundo do aposento.

Ele sorriu e voltou seu olhar para Edie.

– Ah, devo tocar – repetiu ele. – Mas provavelmente me limitarei a duetos particulares.

A duquesa de Kinross não havia se mexido. Lágrimas rolavam por seu rosto. O marido entregou o violino para a irmã e ergueu a esposa em seus braços.

– Por favor, aceite nossas desculpas – disse ele, inclinando a cabeça e sorrindo para o aposento. – Minha duquesa está indisposta.

E encaminhou-se para a porta.

Susannah deu de ombros. Como o irmão havia lhe confiado o instrumento, pôs o arco no Stradivarius e tocou algumas notas. Produziu um som de sublime beleza.

– Não acha estranho que o duque abandone a própria festa? – perguntou Jamie, aparecendo ao lado de Susannah.

Uma mecha de cabelo caía sobre seus olhos de maneira muito atraente.

– Meu irmão é assim – explicou Susannah. – Ele é louco por minha cunhada e não liga para muitas outras coisas. Além da minha sobrinha e do meu sobrinho, claro. Gostaria de me ouvir tocar algo?

Ela estava cheia de vontade de experimentar o Stradivarius.

Jamie afastou o cabelo da testa.

– Poderíamos tocar algo juntos se você me emprestasse seu violino. Não sou tão bom quanto você, mas dou para o gasto. Conhece As quatro estações, de Vivaldi? Estou aprendendo a parte do primeiro violino.

Susannah abriu um sorriso.

– Também estou trabalhando nessa peça! Posso tocar o primeiro ou o segundo.

Os dois ficaram se olhando, dois jovens sem noção do que o futuro poderia lhes reservar. Enquanto a melodia de Susannah soava sob a de Jamie e a dele crescia até devolver o tema para ela, algo de profundo dentro de ambos sussurrava a verdade. Um dia, uma garota maluquinha de cabelos ruivos entraria na igreja para encontrar no altar um rapaz cujo cabelo vivia caindo sobre a testa.

Foi aquele dueto, contariam um para o outro, tempos mais tarde. Mesmo aos 11 e 13 anos, conseguiram ouvir o eco distante da música que viriam a criar no futuro.

No andar de cima, no quarto ducal, Edie não conseguia parar de chorar.

– Você me fez tão feliz! – disse ela, por fim. – Você me deu tudo o que eu poderia desejar.

Gowan beijou-lhe as lágrimas.

– Você é tudo o que sempre desejei.

O dueto deles naquela noite foi silencioso… mas, daquele dia em diante, os filhos se acostumaram com a música de um violoncelo e de um violino que tocavam juntos. Aquelas quatro crianças eram perfeitamente afinadas. Uma delas se tornou o maior violinista da Europa e apenas uma declarava odiar música.

Tinha 14 anos na época, o que explica muita coisa.

Uma nota sobre literatura – inglesa, alemã, persa – e

 

sobre violoncelos

 

Este romance deve profundos agradecimentos a duas histórias bem diferentes: Romeu e Julieta, de Shakespeare, e Rapunzel, dos irmãos Grimm. A paixão de Romeu encontra um eco em Gowan. A cena do balcão pega emprestado fragmentos da linguagem aqui e ali. Mas Gowan também tem uma dívida com a poesia do início da carreira de William Butler Yeats. Yeats foi o primeiro a ser “emaranhado pelas melenas” de sua amada. Perto do final do livro, mais amadurecido e provavelmente mais sábio, Gowan descobre a poesia de John Donne. Eu me diverti muito inserindo pequenas referências a Romeu nas primeiras cenas (no balcão e com Rosaline, entre outras), bem como na escalada da torre.

Se adaptar o final de Romeu e Julieta apresentou uma dificuldade (Edie e Gowan eram jovens, mas com toda a certeza não eram trágicos nem suicidas), a história de Rapunzel também ofereceu desafios. O cabelo, para começar! Numa referência à história, Gowan sobe até o balcão com a ajuda de uma escada de crina de cavalo. No fim, porém, ele escala a torre sem ajuda de qualquer tipo de pelo, equino ou não.

Tenho outra dívida com o grande instrumentista Yo-Yo Ma. Ouvi repetidas vezes sua versão das suítes de violoncelo de Bach e seu arranjo para o tradicional Dona Nobis Pacem enquanto escrevia o livro. Se quiser ouvir a playlist com todas as peças mencionadas por Edie, visite minha página

www.eloisajames.com. Para os leitores que adoram história, acrescento que os concertos de Vivaldi foram publicados em 1725 e estavam disponíveis não apenas no original manuscrito. Naturalmente, o violoncelo era um instrumento bastante novo na época, por isso a maioria das peças que Edie toca (incluindo As quatro estações) precisava ganhar arranjos para solo de autoria de um instrumentista apaixonado como Robert Lindley (1776-1855), considerado o maior violoncelista de seu tempo.

Queria que Layla tivesse um nome considerado exótico na Inglaterra dos anos da Regência, um que implicasse paixão imprudente. Encontrei algo assim na história de amor Leyli o Majnun, escrita pelo poeta persa Abd-Allah Hatefi. Foi publicado por sir William James em 1788 e depois traduzido para o inglês por Isaac D’Israeli como The Loves of Mejnoon and Leila (Os amores de Mejnoon e Leila).

E uma última nota literária: Julia Quinn e eu somos grandes amigas, o que nos levou a escrever, junto com Connie Brockway, dois romances em três partes, The Lady Most Likely e The Lady Most Willing. Um dia, conversávamos ao telefone e surgiu a ideia de inserir um casal de nossos personagens no livro uma da outra, com o simples intuito de alegrar nossos leitores. Se vocês ainda não tiveram o prazer de ler Simplesmente o paraíso, de Julia Quinn, e portanto não conheceram o atraente conde de Chatteris fora das páginas deste livro, devem se preparar para uma deliciosa surpresa!