A Torre do Amor
Capítulo 11
Gowan seguiu para a biblioteca com os outros cavalheiros, bem consciente de que estava incapaz de falar. Sentia-se como se tivesse levado um soco, desmaiado e despertado em um mundo diferente.
Como se tivesse despertado no meio de uma peça.
Talvez ele fosse Romeu. Talvez tudo terminasse com a morte dos dois.
O mais chocante era que ele conseguia pensar naquilo sem se abalar muito. Se Edie morresse…
Em que diabo ele estava pensando? Ainda nem tinham se casado. Ele mal a conhecia. O pai de Edie estava sozinho, de pé, com o olhar perdido nas chamas da lareira. Gowan aceitou um cálice de vinho do Porto e se juntou a ele.
– Lorde Gilchrist.
– Não tenho mais certeza de que seja o homem certo para minha filha – disse o conde de forma abrupta.
– Lamento ouvir isso, mas temo que seja tarde para voltar atrás. Casarei com lady Edith.
A força do ducado estava presente em seu tom.
Por trás de uma breve irritação e arrogância aristocrática – quem o conde pensava que era para colocar o noivado em xeque? –, havia algo mais primitivo: Edie lhe pertencia, e se fosse necessário voltar às tradições dos pictos, antigos habitantes da Escócia, tirá-la da Inglaterra e levá-la para a Escócia no lombo de um cavalo… ele o faria.
O conde o encarou com intensidade e voltou o olhar para o fogo.
– É disso que estou falando.
– De quê?
– Está consumido pelo desejo, não está? Edie pôs aquele vestido, que na verdade pertence à minha esposa, e agora o senhor perdeu a cabeça.
– Algo assim – concordou Gowan.
– É um desastre – disse Gilchrist, com a voz pesada. – Um desastre.
Gowan abriu a boca para contrariá-lo, mas o conde prosseguiu.
– Eu o escolhi exatamente por achar que era improvável que sucumbisse à paixão. Posso afirmar por experiência própria que as paixões da carne não servem de base para um casamento.
– Ah.
Gowan ainda tentava encontrar um meio de responder àquele comentário feroz, quando o conde voltou a falar.
– Minha filha é uma musicista dedicada. Eu desejava um casamento racional para ela. Um casamento em que o marido respeitasse seu talento… sua genialidade.
– Genialidade?
Gowan pousou o cálice sobre a lareira.
– Ela toca violoncelo como nenhuma outra mulher neste país e como pouquíssimos homens.
Gowan não conhecia nenhuma mulher que tocasse o violoncelo – para ser sincero, também não conhecia nenhum homem –, mas sabia que era melhor não contrariar um sujeito cuja expressão combinava sentimentos como orgulho e fúria.
– Edie toca melhor do que eu, e imagino que teria tido uma excelente carreira se não houvesse nascido aristocrata. Se não fosse minha filha, ela poderia estar tocando nas maiores salas de concerto do mundo. Sabe quem me disse isso?
Os olhos pareciam tão ferozes quanto seu tom de voz.
Gowan fez que não com a cabeça. Por que diabo deveria saber? Ele mal sabia o que era um violoncelo.
– Robert Lindley!
A expressão do duque devia ter traído sua ignorância.
– O maior violoncelista da Inglaterra – completou Gilchrist, com indiferença. – Edie tocou para ele… em particular, é claro… e ele me revelou que, se não fosse uma mulher, ela rivalizaria com o próprio filho. Na verdade, penso que ela seria uma rival à altura dele, e não de seu filho.
– Não tenho muito conhecimento sobre música – disse Gowan, pigarreando –, mas fico encantado com o fato de que a futura duquesa possui um dom como esse.
O conde abriu a boca, e então a fechou com determinação.
– Não posso fazer nada – comentou Gilchrist, com desespero na voz. – É a única descendente de minha linhagem. Deve se casar.
O rosto do homem estava desfigurado pelo arrependimento. Que diabo ele achava que Gowan faria? Que jogaria o violoncelo de Edie pela janela? Não que ele soubesse como era um violoncelo. Era um tipo de instrumento de cordas, imaginou. O único que conhecia era o violino.
Gowan perdeu a vontade de beber vinho, e não queria passar mais tempo na companhia de Gilchrist, que estava ficando transtornado de um jeito que não lhe agradava.
Havia algo mais, pensou, algo a ver com o relacionamento turbulento entre o conde e a condessa, que em nada dizia respeito a Edie. Com base nas cartas inteligentes de Edie, ele podia, sim, afirmar que estava se casando com a mulher certa. Sem dúvida, ela aprendera a valorizar a comunicação racional precisamente por suas opiniões acerca do casamento do pai.
Gowan fez uma reverência.
– Com licença, lorde Gilchrist, creio que vou dar uma caminhada pelos jardins.
O conde meneou a cabeça sem tirar os olhos do fogo.
O duque deixou a biblioteca por uma porta lateral e saiu, iniciando uma inspeção lenta e cuidadosa de Fensmore. A propriedade dos condes de Chatteris era feita de tijolos e pedras, algumas adicionadas por ancestrais sábios, outras por tolos.
Cerca de uma hora depois, ele já havia apreciado os dois pátios, o extenso gramado dos fundos, a quadra de tênis, o labirinto de cerca viva e… as varandas.
Havia seis no total. Duas contemplavam um pátio interno, e quatro estavam voltadas para o gramado. Todas eram acessíveis, embora ele não fosse suficientemente tolo para arriscar sua vida escalando a trepadeira. As que tinham vista para o pátio, analisou ele, provavelmente haviam sido construídas há pouco tempo. As quatro que ficavam nos fundos eram bem mais antigas e deviam pertencer à primeira encarnação da casa. Pareciam mesmo o balcão de Julieta.
Sua astúcia lhe dizia que as antigas varandas correspondiam aos quartos destinados ao senhor e à senhora, bem como aos dois maiores e mais grandiosos quartos de hóspedes. Edie não deveria ter sido designada para nenhum deles, pois não fazia parte da família nem era amiga íntima de lady Honoria.
Gowan voltou ao pátio e mais uma vez examinou as varandas internas, que tinham balaustradas de mármore. Eram, determinou ele, fortes o suficiente para suportar uma corda.
Percorreu novamente os jardins raciocinando sem parar. Jamais desonraria sua futura duquesa. Isso não queria dizer que ficaria satisfeito em dormir sob o mesmo teto de sua noiva sem lhe dar um beijo de boa-noite. Um beijo casto e carinhoso, naturalmente.
Era perturbador aquilo que acontecera entre ele e Edie. Foi como ser surpreendido por um vendaval. Pensar nela lhe provocava uma fome aguda, um aperto na boca do estômago. Quando os dedos dela lhe roçaram a mão, um toque sensual e fugaz que logo se afastou como um cervo assustado, um fogo dentro dele foi aceso. Estava esfomeado. Fora de controle.
Obrigou-se a caminhar pelos jardins por mais meia hora, recorrendo ao ar fresco da noite para tranquilizar o corpo. Depois, voltou a se encontrar com os cavalheiros. Chatteris o chamou e eles se retiraram para um jogo de bilhar em seu escritório, seguido por outro amigo de infância dos dois, Daniel Smythe-Smith.
Jogaram em silêncio, até que, depois de encaçapar uma bola, Chatteris endireitou-se e falou abruptamente:
– Vi como falava com sua noiva durante o jantar.
Gowan o encarou.
– Eu estava sentado ao lado de lady Edith. Naturalmente, conversei com ela.
– Parabéns – disse Chatteris. – Lady Edith é mesmo muito bela.
Chatteris posicionou o taco e, com habilidade, encaçapou outra bola, que ficou pendendo numa bolsa, num dos cantos da mesa.
– Quando planeja se casar?
– Em quatro meses – respondeu Gowan. A ideia, porém, não lhe parecia mais tão palpável. – Ou talvez um pouco antes.
– Eu não era o único a observá-lo. O pai da dama não parecia feliz.
Gowan deu de ombros.
– Os documentos foram assinados, embora o conde preferisse que o casamento da filha se limitasse a ser um domínio da frieza dos aspectos práticos.
Chatteris encaçapou outra bola.
– A conversa não parecia ser, digamos, desprovida de emoção.
Gowan recusava-se a fingir que seu casamento era por conveniência. Aquilo mancharia o sentimento cada vez mais intenso que havia entre ele e Edie. Contentou-se em retorquir:
– O seu também é meramente prático, como pude perceber no início da noite.
O sorriso de Chatteris revelou que ele sabia precisamente o que Gowan queria dizer.
– Somos homens de sorte, nós dois. – Sua bola ricocheteou e parou. – Assim como você – acrescentou, acenando para Smythe-Smith, cujo casamento aconteceria dentro de mais ou menos uma semana.
Gowan posicionou a bola.
– Minha noiva disse que fora instalada em um quarto com varanda. – Ele olhou para Chatteris. – Imagino que a janela se abra para o pátio interno.
O conde franziu a testa.
– Não tenho ideia.
– Ah, pelo amor de Deus – interferiu Smythe-Smith. – Se lady Edith tem uma varanda, deve ter vista para o pátio interno, pois meus pais ocupam os cômodos que dão para os jardins. Você não ia querer cometer o erro de escalar o balcão da minha mãe, Kinross.
Chatteris apoiou-se na mesa, ignorando o futuro cunhado.
– Acredito que eu o conheça a vida toda, Kinross.
– Desde os 8 anos. – Gowan acertou a bola no buraco. – Foi numa festa, nesta mesma casa, pelo que me recordo.
– O que torna um prazer especial vê-lo ser vitimado por uma flecha disparada por uma criança vendada.
Estaria ele se referindo ao Cupido? Não era uma suposição pouco razoável.
– O roto falando do esfarrapado – retorquiu. – Afinal, Smythe-Smith está correto em relação ao balcão?
– É só uma suposição – disse Chatteris –, mas por que não poderia tomar o caminho mais simples? Como a escada, por exemplo?
Gowan ergueu os olhos, sabendo que continham uma malícia travessa que o amigo nunca testemunhara antes.
– Preferia surpreendê-la. Conversamos sobre peças de teatro durante o jantar.
– Ah, era sobre isso que falavam? – O conde caiu na gargalhada. – Posso lhe assegurar que metade dos comensais julgaram que não havia nada de literário na conversa.
– Era uma conversa letrada, posso garantir. Romeu e Julieta.
– Ah, coisas perigosas, esses balcões…
Gowan encaçapou outra bola.
– Estou em boa forma.
– Imagino que a velha escada da garagem de carruagens continue por lá, como nos tempos em que éramos crianças – sugeriu Smythe-Smith, rindo.
– Tenho certeza de que uma escada não alcançaria aquela altura – refletiu Gowan.
– Uma escada de corda – explicou Smythe-Smith. – De crina de cavalo, aliás. Talvez tenha sido feita com esse objetivo.
– Acho que a sugestão é extremamente inadequada – argumentou Chatteris.
– Bobagem! – retorquiu Smythe-Smith, cutucando o amigo. – Vai estar casado amanhã e eu tenho apenas uma semana a mais, enquanto o pobre Kinross contempla meses de espera, talvez mais. – Ele voltou-se para Gowan, com os olhos vivos e travessos. – Vou pedir que alguém a pegue. Meu criado cuidará do assunto sem que a aia da dama tome conhecimento.
Gowan matou a última bola, levantou-se e encontrou o olhar de Smythe-Smith. Caiu na gargalhada.
– Você já usou essa escada!
– Não tenho nada a comentar – disse o homem, revirando os olhos.
Ele se virou.
– As damas vão se recolher em uma hora, mais ou menos. Considere este meu presente de casamento.
Gowan observou Smythe-Smith atravessar o aposento, seguido pelo conde. Os dois eram sujeitos bastante bem-apessoados.
Ele sentiu uma súbita onda de felicidade por Edie não ter debutado no ano anterior, ou mesmo antes. E se ele só a tivesse conhecido como lady Chatteris?
Inconcebível.
Assim que se casassem, ele poderia beijá-la até na mesa do jantar se quisesse. Em Craigievar, ninguém lhe negaria nada se ele ordenasse que os lacaios os deixassem a sós de modo que pudesse possuir a esposa na própria mesa.
Com um grunhido silencioso, Gowan percebeu que o efeito tranquilizador do passeio nos jardins tinha passado por completo.