A Torre do Amor

Eloisa James · Capítulo 19 de 47

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A Torre do Amor

Capítulo 17

 

Edie sonhou que estava dançando com Gowan. Rodopiavam por um salão de baile, em círculos cada vez maiores, em perfeita sincronia. E então ela parou no meio de uma volta, puxou a cabeça dele para junto de si e o beijou.

Acordou sentindo-se feliz, tarde, depois da hora do desjejum, por isso praticou por algum tempo até a hora do almoço. Quando desceu, encontrou Layla na sala de jantar com um ar abatido, mas parecendo bem mais animada do que em muito tempo.

– Querida! – exclamou ela. – Junte-se a mim. Jonas estará aqui em breve.

– Não quero detalhes – declarou Edie, contornando a mesa.

– Como se eu fosse capaz de fazer algo tão grosseiro – rebateu Layla, abanando a mão e batendo-a na testa com um gemido abafado. – Estou com uma terrível dor de cabeça, querida. Não pode imaginar. Seu pai e eu ficamos acordados…

– Espero que tenham conseguido ter uma conversa racional.

Layla deu uma risadinha.

– Eu não conseguiria me lembrar. Acho que não. Coelhos, querida. Coelhos!

Edie tinha a firme opinião de que correr atrás de coelhos pela noite, embora pudesse ser um bom começo, não era um jeito muito eficiente de curar uma rixa matrimonial.

– Para sua sorte – prosseguiu a madrasta –, sou capaz de planejar um casamento mesmo quando minha cabeça parece estar prestes a partir ao meio. Isso sem falar de compras: precisamos comprar alguns presentes para sua nova filhinha. Ou melhor, tecnicamente, sua meia-cunhada ou algo parecido.

Edie mordeu o lábio.

O olhar de Layla se suavizou.

– Você será uma mãe maravilhosa para aquela pobre criança, Edie. Você vai ver. Assim que a encontrar, seu coração se derreterá.

O coração de Layla se derretia ao ver qualquer criança. Era capaz de interromper qualquer passante com crianças de colo para fazer carinho e admirar os bebês. Edie, por sua vez, tendia a se segurar. As crianças eram muito pequenas e frágeis. Não tinha a menor ideia do que fazer com elas ou do que dizer.

– Vamos passar no Egbert’s Emporium hoje à tarde – continuou Layla. – Ela vai precisar de uma boneca, é claro. Talvez uma fazendinha de brinquedo também, bem como alguns daqueles mapas da Inglaterra para crianças.

– Seria mais apropriado um mapa da Escócia – interveio Edie.

– Inglaterra, Escócia, seja lá o que for. Vi a mais adorável das bonecas há alguns dias. Vinha acompanhada por três chapéus. Se eu soubesse da existência da menina na ocasião, teria comprado, mas seu pai não havia mencionado Susannah nem para mim.

Edie tinha uma boa ideia do que levara o conde a não contar nada para a mulher. A simples ideia de existir uma pobre pequena órfã já trazia lágrimas aos olhos de Layla, e seu pai obviamente escolhera o silêncio em vez de uma conversa difícil. Estendeu o braço, atravessando a mesa, e apertou a mão da madrasta.

– Vai me visitar, não vai? Por favor?

– Claro! É bem provável que eu seja a tia mais indulgente que uma criança já teve. Aviso agora que pretendo cobri-la de fitas, sapatos e todo tipo de futilidade. Juntas, vamos compensar a ausência da mãe.

Naquele momento a porta se abriu e o pai de Edie surgiu na soleira. Ao contrário da esposa, ele parecia bem-cuidado como sempre. Edie sentia enorme dificuldade de imaginar seu pai vestido de uma forma menos do que imaculada, embora, naturalmente, ela não tivesse nenhum interesse em desperdiçar sua imaginação neste tema.

Assim que se sentou e o primeiro prato foi servido, ele anunciou:

– Cheguei a uma conclusão em relação à sua cerimônia de casamento, Edie.

Edie assentiu. Decidira que se recusaria a esperar por mais quatro meses.

– O duque espera me pressionar com a licença especial. Reconhecer o fato não faz com que eu seja contrário à ideia. Além do mais, os boatos provocarão estragos quer aguardemos quatro meses quer não. É uma grande infelicidade que lady Runcible tenha sido informada do pedido de Kinross.

Ele lançou um olhar de desaprovação para a esposa, o que fez Edie compreender que estava certa: caçar coelhos não curava problemas conjugais.

Por sorte, Layla estava com a cabeça pousada sobre o braço e não percebeu a reprimenda silenciosa.

– Decidi que permitirei que o casamento aconteça num futuro bem próximo – anunciou ele. – A festa será pequena, claro. Pedirei que o bispo de Rochester realize os ritos. Frequentamos a escola juntos.

Edie percebeu que um sorriso involuntário se abria no próprio rosto.

– No entanto, devo insistir que o duque permaneça com você em Londres por alguns meses ou, se sentir necessidade de ir e voltar da Escócia, que o faça enquanto você permanece na cidade. Pretendo garantir que não passe pela cabeça de ninguém que o casamento teve que ser antecipado por conta de um comportamento impróprio.

– E se Edie ficar enceinte depois de uma ou duas semanas? – perguntou Layla, erguendo a cabeça. – Não vai fazer a menor diferença se ela ficar aqui ou for para a Escócia.

– Não engravidarei – disse Edie, apressada. – Tenho certeza de que isso nunca acontece.

– Aconteceu com sua mãe – rebateu o pai, cruel.

O queixo de Layla se manteve erguido de forma admirável.

– O duque de Kinross com certeza parece ser de uma virilidade notável.

– Não sei onde ficaríamos em Londres! – balbuciou Edie, o coração agitado diante da tensão à mesa de jantar.

O que aconteceria depois que ela partisse? Desempenhara o papel de pacificadora da família durante a maior parte do casamento do pai.

– O duque possui uma grande propriedade na cidade, a uma curta distância daqui – revelou o pai, com o tom de voz controlado e sem emoção. – Precisa aprender quais são os bens de seu marido, Edith. Ele é dono de um castelo e das terras que o cercam na Escócia, bem como de outras duas propriedades a alguma distância de sua residência. Uma delas, nas Terras Altas, é a sede de seu clã. Possui ainda uma casa em Shropshire, além da de Londres, que já mencionei. E – acrescentou ele, meticulosamente – houve menção a uma pequena ilha na costa da Itália.

– Ai, que romântico! – exclamou Layla. – Por favor, diga que vai me convidar para sua ilha, Edie.

No rastro do cruel diálogo anterior, a madrasta não conseguiu manter a mesma pose do marido. A voz vacilava um pouco.

– Claro! – concordou Edie. – Se houver uma casa na ilha, adoraremos recebê-los.

Sentia-se um tanto estranha em relação a todas aquelas propriedades. Então estava prestes a se casar com um homem abastado. Não que lhe desagradasse descobrir que o marido era rico, mas aquilo também não a enchia de alegria. Cansara de ver o pai exaurido pelas responsabilidades inerentes à administração de sua propriedade e de diversas casas.

Se não tivesse tanta coisa com que se ocupar, o conde poderia ter sido um dos mais renomados músicos do mundo. Edie sentiu uma pontada de tristeza por ele. Fora criada sabendo que as mulheres não tinham a menor chance de se apresentar em público, mas para seu pai a escolha deve ter se imposto em algum momento.

Examinando o rosto forte do pai, a verdade a atingiu: nunca houve uma escolha. O conde nunca teria dado costas a suas responsabilidades. Estava aprisionado pelo nascimento, da mesma forma que ela era prisioneira do seu sexo.

Se Gowan não houvesse herdado seu ducado, possivelmente teria passado a vida plantando trigo. Não era uma ideia tão interessante quanto se tornar um violoncelista de renome mundial, embora tivesse certo encanto bucólico.

– Devo informar ao duque da minha decisão em relação à cerimônia esta tarde – dizia o pai naquele momento.

– Como não vai haver tempo hábil para produzir um vestido de noiva especialmente para você, pode usar o meu – sugeriu Layla. – A moda não mudou tanto desde que eu o usei. Precisaremos fazer alguns ajustes, um ou dois pontos aqui e ali, e vai ficar perfeito.

– Ah, Layla, é uma oferta muito generosa.

Edie voltou a pegar na mão da madrasta, desejando de todo o coração que as coisas tivessem sido diferentes.

Layla vinha guardando o vestido para a própria filha… mas aparentemente havia abandonado aquele sonho.

Mesmo tomada pela indiferença da adolescência, Edie ficara encantada diante do vestido de casamento de sua então nova madrasta. Era feito de seda bordada com minúsculas lantejoulas, de forma que fluía como a água, refletindo a luz e dando a quem o vestia um ar bastante etéreo. Layla parecia flutuar pela igreja, sorrindo para o pai de Edie. A lembrança era insuportavelmente tocante naquele momento.

– Edith usará o vestido de casamento da mãe dela – declarou o conde, desdenhando a oferta.

Layla estremeceu.

Edie olhou-o zangada.

– Não sabia que mamãe havia me deixado um vestido.

– O vestido e as joias deveriam ser entregues na ocasião do seu casamento.

– Entendo.

Ela apertou a mão de Layla por debaixo da mesa.

Os olhos da madrasta perderam um tanto de brilho. Layla levantou-se e disse apenas:

– Acredito que bebi champanhe demais na noite passada para aproveitar esta refeição.

Edie e seu pai terminaram de comer em completo silêncio. Ela esperou para ver se ele ia correr atrás da esposa, mas, em vez disso, ele caminhou até o saguão e pediu sua capa. Um momento depois, a porta da frente se abriu e ele saiu.

Então Edie subiu e encontrou Layla cercada por criadas – com três baús abertos.

– Estou de saída para visitar meus pais em Berwick-Upon-Tweed. – Seu rosto estava da cor de um pergaminho, mas ela não chorava. – Agora que a gota impede meu pai de viajar para Londres, devo ir até eles.

Edie afundou numa poltrona.

– Apenas lamento perder seu casamento – prosseguiu Layla. – De qualquer forma, até onde sei, eu não seria bem-vinda na presença do vestido de sua mãe.

– Ah, Layla, não! – exclamou Edie.

Os olhos da madrasta estavam transbordantes de lágrimas não derramadas.

– Sabe quanto eu a amo. Mas a ideia de estar na igreja ao lado de seu pai durante a cerimônia, fingindo que ele não é indiferente a mim… Não consigo.

– Eu compreendo – disse Edie, levantando-se para lhe dar um abraço. – De verdade.

– A casa de meus pais no campo é próxima à fronteira com a Escócia, assim posso lhe fazer uma visita antes de… se eu voltar para Londres.

Layla engoliu em seco.

Edie apertou-a, com dor no coração. Abriu a boca para dizer que seu pai, com toda a certeza, mandaria alguém buscar a esposa, mas silenciou. Parecia bastante provável que o conde não se importaria.

– O importante é que você, minha querida, será feliz com aquele seu escocês deslumbrante – disse Layla, dando-lhe um beijo no rosto.

Como era de esperar, quando o pai apareceu para o jantar naquela noite, comentou com indiferença que não havia nada para fazer numa cidadezinha perto da fronteira com a Escócia.

– Minha esposa não encontrará frivolidades com que se divertir e logo voltará. Não vejo motivo para perder tempo e energia indo atrás dela.

– Se pudesse ser mais gentil com ela… – implorou Edie. – Ela o adora.

– Não sabe nada do que está dizendo! – retrucou o pai.

– Sei que o senhor a ama, mas a trata como se fosse uma autêntica concubina. Como se o fato de o senhor se conduzir com um tom moral tão elevado obrigasse todos a se ajoelharem ante a sua passagem. Sei que ela o ama…

O conde não aguardou o resto de sua análise. Levantou-se e deixou o aposento. Edie suspirou. O comportamento rude do pai era sinal de extrema agitação, levando-se em conta que ele julgava que bons modos eram quase divinos, ou até mais do que isso.

A casa se encontrava estranhamente em silêncio sem a gargalhada estrepitosa de Layla e sem sua voz exclamando comentários ultrajantes.

No almoço do dia seguinte, o rosto do pai parecia mais impassível do que nunca. Pela primeira vez desde que se lembrava, Gilchrist negou com a cabeça quando ela lhe perguntou se gostaria de ensaiar duetos. Quando ficou claro que ele não seria persuadido, Edie retirou-se para seu quarto e tocou durante horas, mas a música parecia tão vazia quanto seu coração.

Gowan apareceu no final da tarde e sugeriu que a cerimônia ocorresse o mais rápido possível, empregando o tom aristocrático que presumia obediência. O pai não se irritou, como teria acontecido antes. E então Gowan acrescentou que, no que lhe dizia respeito, era um absurdo permanecer em Londres apenas para calar os fofoqueiros e que qualquer um que quisesse acreditar em boatos difamatórios poderia ir para o inferno. O conde também não quis discutir. Simplesmente capitulou diante de todas as exigências do duque.

Conseguiu manter uma expressão impenetrável por alguns dias, até a manhã do casamento de Edie. No fim das contas, acabou descendo a escadaria com o vestido de Layla, pois o vestido de sua mãe havia sido devorado pelas traças.

Edie costumava ser modesta, mas sabia que o vestido de Layla a valorizava. Todas aquelas pequenas lantejoulas refletiam a luz e pareciam diamantes. As mangas eram curtas e o corpete decotado, bem justo, dava forma ao seu busto e caía em graciosas dobras na altura dos quadris. Joias prendiam seu cabelo no alto da cabeça, como Layla fizera na época, embora Edie usasse as opalas da mãe, em vez das pérolas de Layla.

Foi apenas naquele momento que a fachada pétrea do pai cedeu. Ele se encolheu e a sombra de algo parecido com agonia surgiu em seu rosto, mas se curvou e declarou em seu costumeiro tom contido:

– Minha filha, você está muito bem nesse vestido.

Mesmo quando entraram na abadia de Westminster, o pai não se mostrou ressentido por Layla não estar a seu lado.

Edie, por sua vez, desejava desesperadamente que a madrasta estivesse ali. Odiava a ideia de deixar o pai sozinho, numa casa silenciosa, acompanhado apenas por quatro violoncelos, por mais consolo que ele pudesse encontrar na música.

Tinham decidido dispensar qualquer tipo de recepção, por causa da ausência de Layla. Então, depois de uma breve cerimônia, voltaram para a casa do conde e compartilharam um almoço bastante cordial, em que os três tiveram todo o cuidado para evitar mencionar o nome da condessa.

Gowan e lorde Gilchrist divertiram-se muito, aos olhos de Edie, denunciando o sistema de impostos britânicos, particularmente os esforços de certos políticos absurdamente antipáticos para reintroduzir um imposto de renda pessoal – o que alijaria gente inocente, como os dois nobres em questão, de seus merecidos rendimentos. Edie pegou-se olhando de um para o outro e percebeu que de fato tinham muito em comum. Foi um pensamento estranho que ela guardou para examinar melhor no futuro.

No final da tarde, depois de ter trocado o vestido de noiva por um novo chiquérrimo, e depois que todos os seus baús e pertences haviam sido levados pelos criados do duque, chegou a hora da despedida. Gowan ficou à espera ao lado da carruagem, ladeado por tantos lacaios fardados que ele mais parecia ser um membro da família real.

Ela tomou as mãos do pai e tentou mais uma vez:

– Por favor, mande buscá-la.

O conde assentiu, mas foi um gesto tão mecânico que ela sabia que ele indicava apenas que havia ouvido, e não que obedeceria.

Não podia fazer mais nada. Então Edie subiu na carruagem. Não era mais lady Edith. Não era mais a pacificadora do lar dos Gilchrists. Não era mais a filha solteira.

Era a duquesa de Kinross e, sentado diante dela, estava seu marido.

E seu marido…

Gowan parecia calmo e impenetrável, mas ela sabia a verdade: o duque tinha se mobilizado tanto quanto ela com os ritos nupciais.

Quando ele prometeu “amá-la e respeitá-la na saúde e na doença”, ela sentiu a cor tomar conta do próprio rosto ao perceber a expressão em seus olhos. A respiração ficou presa nos pulmões, e ela segurou as mãos dele como se fossem a única coisa capaz de mantê-la em pé.

Nunca havia sonhado que os votos matrimoniais pudessem significar tanto. Nem que ela encontraria o único homem do mundo que seria perfeito para ela.

E então, ao prometer “ser fiel até que a morte nos separe”, os olhos de Gowan reluziram com uma alegria que ela testemunhara apenas algumas vezes na vida.

Agora estava sentada diante dele, vestida com uma capa de veludo enfeitada com pérolas verdadeiras. Depois de um momento, permitiu que a capa escorregasse pelos seus ombros para que os seios reluzissem como as opalas no seu cabelo.

Uma chama ardia no olhar de Gowan, um interesse intenso que a fez se remexer no assento e erguer os ombros, o que apenas serviu para deixar seu busto mais proeminente.

– Você tem seios lindos. Mostre-os – dissera-lhe Layla.

Edie preferiu não julgar se a propensão da madrasta a exibir o busto em público tinha feito bem ou mal a seu casamento. Deixando de lado as propensões de Layla – e seu busto –, Edie sabia perfeitamente que Gowan gostava de seus seios.

Já haviam dito um ao outro tudo o que precisava ser dito.

O resto da noite?

Sem palavras.