A Torre do Amor

Eloisa James · Capítulo 25 de 47

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A Torre do Amor

Capítulo 23

 

Quando a noite começou a cair e a carruagem passou da estrada para uma rua pavimentada por pedras, Edie acordou e descobriu que se encontrava nos braços de um Gowan adormecido. A carruagem alcançou uma esquina, dirigindo-se a um pátio interno. Os braços dele a prenderam, mas ele não despertou até que ela o beijou.

Gowan fez uma careta, e, antes que ela pudesse falar, ele anunciou que nunca tirava sonecas.

Edie segurou a língua. O pai tinha convicções semelhantes: tinha certeza de que nunca perdia a cabeça.

O Queen’s Arms, em Palden, costumava abrigar a nobreza, que chegava com um séquito de criados. O estalajadeiro conduziu-os a uma sala privativa, onde Gowan beijou Edie distraidamente e então se sentou com o lacaio que chegara da Escócia naquela manhã, para ouvir os relatórios mais recentes.

Relatórios!

Edie começava a detestar o som daquela palavra.

Estava cansada das longas horas trancada numa carruagem, e frustrada pois fazia dois dias que não tocava violoncelo. Para seu desespero, descobriu-se à beira das lágrimas. Deu uma desculpa e seguiu para o quarto. Queria tomar um banho quente. Mary chegou agitada, tagarelando.

Bardolph também não era muito querido entre a criadagem. Edie teve vontade de sair da banheira e gritar.

Infelizmente, nem mesmo mergulhar na água quente foi uma experiência inteiramente confortável. Edie não conseguia imaginar como suportaria outra noite fazendo amor, muito menos como desfrutaria dela. Uma onda de pânico a envolveu. Não conseguira confessar tudo ao marido. Perdera a coragem depois que ele contou como ficara feliz por ela ter sentido prazer. Estava prestes a enfrentar mais uma noite de fracasso. Mais uma noite em que teria que mentir.

– Mary – disse ela, a voz soando mais alta do que o esperado. – Gostaria de papel e pena, por favor.

– O Sr. Bardolph providenciou uma secretaire para Vossa Graça – avisou Mary, com um tom de voz gélido ao pronunciar o nome do administrador.

Quando Edie saiu do banho, Mary abriu sobre a escrivaninha do canto uma encantadora caixa de couro, equipada com tudo que um escritor poderia desejar.

Querida Layla, escreveu Edie e então hesitou. Claro que não fazia ideia se Layla continuava com os pais em Berwick-upon-Tweed. Será que seu pai resolvera afinal buscar a esposa? Com um suspiro, ela se lembrou do rosto do conde e decidiu que era mais provável que um lacaio localizasse Layla na casa dos pais dela, sem muita dificuldade.

Queria convidar a madrasta para visitar o castelo. Berwick-upon-Tweed ficava na fronteira com a Escócia, então não seria uma viagem terrivelmente longa. No entanto, que urgência deveria imprimir ao apelo? Não podia dar detalhes sobre o que estava acontecendo.

Ao concluir a carta, ela manteve a concisão: Por favor, venha me visitar, escreveu. Por favor, Layla. Lembra-se daquele segredo que você me ensinou? Preciso de você. Com amor, Edie.

Algum tempo depois, quando ela e Gowan estavam sentados na sala de jantar privativa da estalagem, Edie mostrou a carta.

– Minha madrasta está morando com os pais dela, em Berwick-upon-Tweed. Então escrevi convidando-a para nos visitar na Escócia.

Gowan não demonstrou o menor vestígio de irritação diante da ideia de ter a companhia da madrasta da esposa. Por que se irritaria? Passava todas as horas do dia com Bardolph, Jelves e o resto da comitiva. A menos que exigisse que tivessem privacidade na carruagem, a interação conjugal era limitada à hora das refeições e às visitas ao seu quarto durante a noite.

– Vamos mandar um lacaio até Berwick-upon-Tweed – respondeu Gowan. – Se ele partir imediatamente, é possível que sua madrasta consiga se juntar a nós na estrada.

– Não podemos mandar alguém agora, Gowan. Já é noite.

– Precisamos dar à sua madrasta todo o tempo possível para considerar o seu convite – declarou Gowan.

Ele ergueu um dedo e um lacaio saiu correndo do aposento, retornando com Bardolph, que, sem dizer uma palavra, deixou implícito que a atitude de Edie, de enviar uma carta àquela hora, era algo totalmente impensável.

Edie olhou os bigodes de Bardolph e conteve o impulso de desautorizar Gowan. O marido já estava muito acostumado a fazer as coisas do jeito dele, isso era claro. E ela poderia dizer a mesma coisa em relação a Bardolph. Edie se recusava a dar a qualquer satisfação ao administrador.

Viu quando ele saiu do aposento, com a carta em mãos, e teve uma sensação de esperança renovada. Se não conseguia desvendar o segredo da petite mort, Layla ajudaria. Deveria haver algum truque.

 

Gowan dispensou o valete e vestiu o roupão a fim de atravessar o corredor até o quarto de Edie. Parou à porta. Já estava tão excitado que sentia o calor emanando da própria pele.

Não podia se encontrar com ela daquele jeito, como um animal. Enlouquecido de desejo, inebriado apenas por pensar nela. Retirou-se no banheiro e fechou a mão sobre si mesmo. Momentos depois, voltava a ajeitar o roupão. A respiração ainda estava ofegante. Ainda estava faminto, mas sob controle.

Quando fechou a porta atrás de si, encontrou Edie adormecida, o rosto escondido nos braços, o cabelo em desalinho espalhado sobre os travesseiros. O quarto estava escuro, a não ser por um pequeno raio de luar que penetrava pelas cortinas pesadas e brincava com as tranças da esposa, deixando-as num tom de louro pálido. Ele se livrou do roupão, deslizou para baixo das cobertas e a abraçou.

– Gowan? – chamou ela, um segundo depois, numa reclamaçãozinha rouca.

– Dormiu a tarde toda – sussurrou ele, dando um beijo suave em seu rosto. – Acorde e venha brincar.

Edie bocejou, rolou e se deitou de costas, deixando a camisola apertada sobre seus seios exuberantes. Um gemido involuntário saiu dos lábios de Gowan.

– É tão linda, Edie.

Ele abaixou a cabeça para beijá-la, mas ela se afastou.

– Não vai beijar minha camisola – disse ela, parecendo bem mais alerta. – Na noite passada, foi bem desagradável dormir com o tecido molhado sobre meus seios.

Era justo, embora soasse um tanto frio.

Edie tirou a camisola pela cabeça. Um raio de luar cintilou sobre um dos seios até a curva da cintura.

O desejo golpeava o corpo dele e o deixava arfante. Com alguma dificuldade, ele conseguiu manter o tom de voz estável.

– Posso beijá-la agora? – sussurrou com carinho, fazendo-a se deitar de costas.

– Beijar meus peitos?

Parecia racional demais. Era um tanto decepcionante.

– Isso, aqui – disse ele, passando a mão em volta de um seio delicioso.

– Sim, você pode – declarou ela.

Parecia que ele havia perdido os sentidos, como se o mundo tivesse encolhido e se resumisse a um seio macio, o fogo em seu corpo, a respiração entrecortada de Edie enquanto ele sugava seu mamilo.

– Gosta disso – murmurou ele, passando de um seio ao outro.

Ele sabia que ela gostava. Estava aprendendo a conhecer seu corpo, que amolecia ao receber suas carícias. Não conseguia parar de beijá-la, as mãos vagando pela pele dela. Cada toque era inebriante.

A única coisa que ele queria…

– Edie – disse ele, e então pigarreou.

Era constrangedor como sua voz parecia gutural.

– Sim?

Ele teria preferido que a voz dela soasse um pouco mais como a dele, mas era tolice pensar naquilo.

– Você…

Ele hesitou.

Não poderia exigir que uma dama de boa educação o tocasse. Talvez quando se conhecessem melhor. Na noite anterior, ela havia acariciado o peito e as costas dele, e Gowan sonhava em ter as mãos dela passeando pelo resto de seu corpo. Mas hesitava em fazer o pedido… E se ela pensasse que ele era musculoso demais? Parrudo demais? Parecido demais com um trabalhador braçal?

Gotículas de suor se formaram em sua testa, mas ele continuou a beijar seus seios, determinado a não sobrecarregá-la.

– Isso é bom? – sussurrou ele, cerrando os dentes na mais suave das mordidas.

Edie estremeceu e soltou um pequeno gemido. Ele quase não conseguiu ouvir a resposta. O sim parecia apenas um fio de voz.

O desejo ardia nele com tanta intensidade que ele se sentiu sem rumo, como se cada momento que ele passava fora dela fosse um sacrifício. Não importava que tivesse acabado de dar prazer a si mesmo. Queria abrir as pernas dela, lambê-la ali até que o corpo dela contorcesse e se afastasse do dele, e então se enterraria dentro dela com tanta força e velocidade que suas bolas chegariam a roçar nela.

Precisou parar, se controlar e lembrar que era um homem racional, dono de seus pensamentos, casado com uma mulher ainda jovem…

Diabo, ele ainda era novo no assunto.

Devagar, devagar, ele foi beijando e descendo pelo corpo de Edie até abrir as pernas dela. Podia estar afogando em desejo… mas a parte lógica do cérebro ainda funcionava e fazia observações. E não eram encorajadoras.

Quando tinham se beijado na carruagem, do lado de fora da casa dos pais dela, depois do baile de Chuttle, Edie se mostrara tão voraz quanto ele, as mãos voando sobre seu corpo. Agora não. Em determinado momento, ela gemia e um pequeno tremor percorria seu corpo, mas então, de repente, ficava parada. Não o tocava de verdade. Não acariciava seus braços, seu peito, nem passava as mãos por seu cabelo.

Por algum tempo, ele se perdeu cobrindo-a de beijos. Então soube que ela estava pronta. Estava intumescida, lânguida, e cada vez que ele a lambia ela emitia pequenos gemidos, as mãos segurando com força seu cabelo.

Os olhos lindos estavam firmemente fechados, mas, quando ele subiu sobre ela, Edie os abriu. Por um momento pareciam tontos de prazer e então outra coisa surgiu neles.

– Edie! – chamou ele, estarrecido. – O que houve?

– Nada – respondeu, ligeiramente ofegante.

Olhou para ela por mais um segundo, mas ela arqueava as costas e se esfregava nele.

– Devemos… devemos fazer amor agora, Gowan. Precisamos acordar cedo amanhã.

Seu toque mandou a mente de Gowan para um lugar escaldante onde se tornou impossível manter o pensamento racional.

– Avise se doer demais – pediu ele, e ela assentiu.

Penetrar nela, sua Edie, era a sensação mais maravilhosa que ele poderia imaginar. Por que as pessoas não ficavam fazendo amor dia e noite? Foi tão devagar quanto conseguiu, tentando não machucá-la. Quando finalmente se acomodou, ela envolveu o pescoço dele com os braços e escondeu o rosto no ombro dele.

– Como está, Edie? – perguntou Gowan, provocando-a com beijos na orelha. – Está bom?

– Tudo bem – sussurrou.

Ele ficou paralisado.

– Não, está… está melhor – disse ela, quase parecendo surpresa. – Não dói tanto.

Gowan foi tomado pelo alívio. Agora precisava manter o controle. Levaria trinta, quarenta minutos, mas, se ele mantivesse o prumo, ela o alcançaria e sentiria prazer. Uma onda de emoção, uma determinação de dar à mulher o mesmo êxtase que ele sentia, veio de suas profundezas. Gowan se apoiou sobre ela e começou.

Edie permaneceu deitada com os olhos bem fechados e, por algum tempo, ele se concentrou apenas em manter sua carne faminta sob controle.

– Edie, o que você está sentindo?

Os olhos dela se abriram subitamente, deixando-o surpreso. Não estavam tontos de desejo, mas sérios e concentrados. Gowan sentiu uma súbita vontade, um desejo ridículo, de que ela estivesse brincando. Não era justo. Sua Edie era séria por natureza. Seria até desleal nutrir pensamentos desse tipo.

– Está tudo bem – respondeu ela.

Mexeu-se, e o movimento varreu a parte baixa do corpo de Gowan como se fosse fogo.

– Você parece tão… Você faz eu me sentir cheia.

Cheia? Isso não podia ser bom. Dava a entender que estava falando de sua barriga depois do almoço de domingo.

– É uma sensação agradável? – perguntou ele.

Ela dobrou os joelhos e Gowan estremeceu com a sensação que invadiu seu corpo.

– Você deveria gozar – sussurrou ela.

– Não antes de você – disse ele. – Como isso poderia ficar melhor para você?

Edie encontrou o olhar do marido e sentiu puro pânico. Suas partes íntimas ardiam – não tanto quanto no dia anterior, mas não estava agradável. E pior, ela se sentia terrivelmente inadequada.

Desesperada.

Será que ela era a única mulher do mundo que achava profundamente perturbador ficar debaixo de um homem grande enquanto ele inseria uma parte de si dentro dela? Uma ou duas vezes, chegou a sentir uma pontada de prazer. Então Gowan mudava de posição ou dizia algo que a fazia voltar a pensar.

Acabava deitada debaixo dele odiando-se, desejando que acabasse logo.

Gowan observou quando Edie fechou os olhos com força mais uma vez, desejando saber no que pensava. Canalizou seu desejo em estocadas longas e lentas que acabariam levando os dois aonde precisavam chegar. Ao olhar para a esposa, foi tomado por uma surpreendente onda, um desejo de proteção tão feroz que quase o fez interromper o ato.

Queria a felicidade dela acima de tudo que sempre desejara para si. As fantasias não se comparavam à realidade com Edie: a beleza física era uma coisa, mas aquela seriedade, a gentileza atenta, o senso de humor ácido, eram outra.

– Edie – retomou ele, falando do fundo do coração. – Goze para mim – ordenou, beijando-a. – Goze para mim, mo chrìdh.

E ela gozou, graças a Deus. Ouviu os gemidos com uma gratidão tão profunda quanto o próprio prazer. Perdeu-se em si mesmo, chocado pela alegria, pelo calor penetrante, pela profunda delícia que preencheu seu corpo.

 

Na cabeça de Edie, o fim da noite tinha sido o esperado.

A única diferença em relação às outras noites era que talvez Gowan tenha começado a perceber que ela não sentia o mesmo prazer que ele. Havia uma concentração no rosto dele que em nada lembrava a alegria selvagem com que ele possuíra seu corpo em outras ocasiões.

O pensamento deixou seu coração apertado.

O terceiro dia da jornada chegou e passou. Quando se acomodaram na estalagem para passar a noite, Mary contou a Edie, com uma risada, que o duque informara aos criados que ele e a duquesa jantariam no quarto dele.

A essa altura, Edie estava quase desfalecida de exaustão. Naquela manhã Gowan lhe avisara, pedindo desculpas, que não poderia dormir outra tarde. Assim, ele e Bardolph passaram o dia lendo sobre empresas que Gowan poderia adquirir, enquanto a carruagem sacolejava a caminho de Berwick-upon-Tweed. Edie havia praticado violoncelo por menos de uma hora quando Mary apareceu para vesti-la com a camisola, para que pudesse desfrutar de uma refeição íntima com o marido.

Foi ao quarto vizinho e encontrou Gowan recém-saído do banho, com o cabelo ainda úmido. Era estúpido, levando em conta o emaranhado de problemas que tinha, mas, no momento em que estavam a sós, ele a tranquilizava. A selvageria contida que era a essência de Gowan cantava dentro dela como um acorde, ressoando até o fundo de seus ossos. Era preciso apenas que ele a abraçasse para que se sentisse segura. Para que se sentisse no lugar certo.

Não fazia sentido, uma vez que tinham problemas insolúveis. Layla não havia mencionado qualquer poção para resolver as dificuldades de uma mulher na cama, apenas para os homens.

Meia hora depois, estavam deitados lado a lado. O camisolão de Gowan pendia nos ombros e as mãos de Edie passeavam pelo seu peito, indo até, audaciosamente, o abdômen musculoso. Embora Edie não tivesse ouvido nada, Gowan de repente ergueu a cabeça e rosnou.

– Pode entrar.

A porta se abriu e dois lacaios adentraram.

Edie puxou as cobertas sobre si, embora sua camisola cobrisse as pernas. O chefe dos lacaios começou a arrumar a porcelana ducal numa mesa lateral, sem nunca desviar o olhar para a cama. Fez diversas idas até o corredor, retornando com travessas de prata. Quando acabou, enfim, serviu vinho, saudou-os e recuou em direção à porta, com os olhos baixos, como se o duque e a duquesa fossem da realeza.

– Peters, não é? – perguntou ela.

Ele ergueu a cabeça, surpreso.

– Peterkin, Vossa Graça.

– Pode deixar a garrafa aqui, Peterkin. Obrigada por nos servir a refeição.

O lacaio baixou o queixo.

– Ficarei feliz em aguardar no corredor e servir o vinho quando quiserem, Vossa Graça.

Edie não conseguia imaginar nada mais constrangedor.

– Nós mesmos cuidaremos disso – assegurou ela.

Mais tarde, porém, depois de comerem, Gowan convocou Peterkin e outro lacaio para retirar os pratos, embora a camisola dela estivesse levantada acima das coxas, ainda que sob as cobertas. Eles tinham se beijado e Gowan passou a mão na perna dela. A sensação a fez ter vontade de se afastar e se aproximar ao mesmo tempo.

Assim que os pratos foram retirados, Edie sabia que não ia demorar até a hora de fazerem amor e, depois de pensar nisso, não conseguiu mais relaxar. Ainda assim, com toda a certeza, estava ficando mais fácil. Quando Gowan a penetrou, ela não soltou um grito, apenas tremeu. Mas não conseguiu relaxar.

O que tornava tudo pior era que Gowan parecia ser capaz de ficar fazendo aquilo a noite inteira.

– Quanto dói? – perguntou ele depois de um tempo, apoiando-se nos braços musculosos para fitá-la.

– Não muito – disse ela, esfregando-lhe o ombro. – A dor vai embora depois de algum tempo.

Era enervante se sentir tão feliz quando ele sorria para ela. Mas ela se sentia, embora ele sorrisse porque achava…

Pois bem, o que ele achava que estava acontecendo não estava acontecendo. Era tudo. Quando ela passou as pernas pela beirada da cama para voltar ao seu quarto, Gowan estava com um olhar tenso, quase zangado, mas ela manteve a cabeça baixa. Não podia explicar.

Não havia nada para explicar.