A Torre do Amor

Eloisa James · Capítulo 17 de 47

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A Torre do Amor

Capítulo 15

 

O duque de Kinross estava magnificamente vestido com uma casaca de veludo escuro e botões de prata. Deu um passo para trás, fazendo uma reverência que poderia ter sido destinada a um príncipe.

– Lady Edith. – Ele se levantou. – Lady e lorde Gilchrist.

Voltou a se curvar.

Edie ficou de pé, consciente de que sorria como uma lunática.

– Imagino então, Vossa Graça, que tenha concluído os negócios em Brighton antes do esperado.

Gowan tomou sua mão e ergueu-a até os lábios.

– Dei uma surra naqueles banqueiros. Ficaram felizes em me ver pelas costas.

– Pois eu fico feliz de vê-lo pela frente.

O sorriso dele foi uma resposta mais do que suficiente.

– Boa noite! – exclamou Layla, com a voz um pouco mais musical, agora que estava ligeiramente engrolada. – Voltou bem a tempo, Vossa Graça. Lorde Gilchrist anda pensando em anular seu noivado. Ele está muito volúvel nos últimos tempos.

Era assombroso perceber como Gowan, de repente, começara a irradiar puro perigo, sem mexer um músculo sequer.

– Acredito que lady Gilchrist esteja enganada – disse ele, encarando o conde.

O pai de Edie se levantara.

– Minha esposa exagera. Como expliquei, Vossa Graça, tenho dúvidas sobre sua futura felicidade matrimonial, mas tais preocupações não justificam o rompimento de um noivado.

– Como tenho uma visão mais otimista em relação ao nosso futuro, trouxe comigo uma licença especial – anunciou Gowan, tomando a mão de Edie e pousando-a em seu braço. – O arcebispo de Canterbury foi muito compreensivo em relação ao pedido.

– Um casamento às pressas? – indagou o conde fazendo uma careta. – Lançará mesmo uma sombra sobre a reputação de minha filha?

Gowan olhou para Edie.

– Como sou escocês, não compreendo as minúcias da sociedade inglesa. Seria tão terrível assim?

– Sim, seria – respondeu Edie. – Nós nos tornaríamos párias por algum tempo, embora por menos tempo do que se fugíssemos para nos casarmos.

O sorriso nos olhos do noivo transmitia a Edie tudo o que ela precisava saber.

Assim, ela respondeu à pergunta que não havia sido feita.

– Não tenho medo de escândalo.

Layla ficou de pé, ligeiramente trôpega.

– Não vai demorar mais do que uma semana. Duques agem como duques. Que ideia encantadora! – Ela se virou. – Betsy, ma chère, onde você estava? Minha querida enteada vai se casar amanhã de manhã. A maré do amor verdadeiro a arrebatará para os braços de um duque.

Lady Runcible saltou de uma das mesas próximas, parecendo tão curiosa quanto possível para uma mulher cuja maquiagem borraria se fosse tomada de fortes emoções.

– Que encantador! – exclamou ela. – Vi o anúncio no Morning Post, mas não tinha ideia de que o evento em si aconteceria com tanta rapidez.

– O amor verdadeiro não pode ser negado – explicou Layla. – A senhora sabe muito bem, tendo em vista suas tristes experiências. A vida é fugaz, é preciso colher os botões de rosa… ou seriam os arco-íris? De qualquer modo, é melhor aproveitar antes que seja tarde demais.

– Vossa Graça tem muitos assuntos importantes para cuidar na Escócia – disse o conde com precisão gélida. – Assim, ele pediu que o casamento fosse marcado para breve.

– Exatamente – confirmou Gowan, sorrindo para lady Runcible. – Mal posso esperar para levar minha bela noiva para o castelo de Craigievar.

Ele trouxe Edie mais para perto de si.

– Estou certa de que falo em nome de todos quando desejo aos dois uma vida muito feliz – pronunciou lady Runcible.

– O amor derruba todas as barreiras – intrometeu-se Layla, parecendo um pouco rouca. Voltou a se sentar.

Lady Runcible abriu um sorriso cheio de dentes e partiu depressa, sem dúvida para espalhar a notícia sobre a rapidez escandalosa com que se desenrolaria o casamento do duque de Kinross com a filha do conde de Gilchrist.

– Se vou me casar amanhã – disse Edie, atônita com a calma com que pronunciava tais palavras –, acredito que seja melhor voltar para casa agora.

– Não vai se casar amanhã – emendou o pai, sombrio. – Mesmo que eu concorde com a ideia da licença especial, a cerimônia acontecerá de modo prudente e bem-medido.

Gowan fez uma saudação, parecendo bem feliz consigo mesmo.

– Ficarei encantado em visitá-lo amanhã à tarde para discutir esses arranjos, meu senhor.

– Nesse caso, prefiro ficar aqui – informou Layla, ajustando na cabeça uma faixa bordada com pérolas. – Nem dancei e naturellement… – As palavras pareciam ter lhe escapado, então ela apenas acrescentou: – Recuso-me a voltar para casa tão cedo, de forma tão pouco elegante.

A última coisa que Edie queria era permanecer na companhia do pai e da madrasta. Ela lançou um olhar suplicante para Gowan.

– Sinto-me honrado em acompanhar minha noiva até sua casa – avisou ele ao conde. – Tenho apenas as mais honradas das intenções.

O pai de Edie estava tenso, mas ele conseguiu responder:

– Ficarei muito grato se acompanhar minha filha, Vossa Graça. Minha esposa e eu retornaremos no devido tempo.

– Não se Winifred também estiver na carruagem – completou Layla com dignidade. –Tenho padrões a obedecer.

Lorde Gilchrist sentou-se à mesa, com uma mistura de fúria e confusão estampando seu rosto.

– Poderia fazer a cortesia de me esclarecer quem seria essa tal Winifred?

– Não antes de conversarmos sobre coelhos – retrucou Layla, o queixo tão rígido quanto o do marido.

A mulher afastou uma taça vazia e com delicadeza segurou a haste de outra.

– Coelhos?

– Boa noite, Layla, papai – despediu-se Edie, arrastando Gowan, sem esperar por uma resposta. – Perdoe-me pela cena – falou ela para o noivo, quando estavam distantes o suficiente para não serem ouvidos. – Acredito que o casamento deles chegou ao ponto de ebulição.

– Acredito que podemos evitar esse tipo de emoção turbulenta – assegurou Gowan.

Edie riu.

– Está citando minha primeira carta.

– Parafraseando – corrigiu Gowan. – Temo que não me recorde de suas palavras exatas.

– Não consigo imaginar nós dois nesse tipo de embaraço.

Gowan começou a conduzir Edie até a porta, a multidão se abrindo para a passagem do duque como peixinhos diante de um tubarão.

– Você tem um temperamento forte? – perguntou ele. – Não quero ofendê-la, mas seu pai me pareceu um tanto irritadiço.

– Passei boa parte da minha vida desempenhando o papel de pacificadora – respondeu Edie. – A casa não teria sobrevivido se eu me permitisse ter crises de mau humor também. E você?

– Lamentavelmente, tenho um temperamento um tanto forte. – Os dois alcançaram a entrada e ele mandou um lacaio buscar sua carruagem. – Na verdade, eu e seu pai talvez tenhamos mais em comum do que eu poderia supor.

Gowan pareceu muito feliz com a constatação.

– Mas aparenta ter tanta compostura! – exclamou Edie. – De fato, fiquei um pouco preocupada a princípio, temendo que jamais abandonasse sua tranquilidade ducal.

– Acho mais preocupante que você nunca tenha vivido a experiência de perder a cabeça.

Edie riu.

– Eu falei para Layla que bateria na sua cabeça com o arco do violoncelo se arranjasse uma amante.

Gowan deu um sorriso torto.

– Perco a cabeça e digo coisas que não tinha intenção de dizer. Demorei 22 anos para admitir, mas de cabeça quente posso ser um imbecil.

– Creio que gostaria de vê-lo tomado pela paixão.

– Verá em breve.

A voz de Gowan acariciou sua pele como se fosse um beijo de veludo.

– Não foi isso que eu quis dizer!

– Quando perco a cabeça, grito como um louco.

Edie sentiu uma ponta de desconforto.

– Não parece muito agradável.

– Não é. Precisei submeter todos os empregados a um treinamento a fim de que aprendessem a me suportar. Nunca devem obedecer às minhas ordens quando estou tomado pela fúria.

– E o que exatamente provoca tal comportamento?

Gowan fez uma cara feia.

– Muito ocasionalmente, expulso pessoas de casa e depois me arrependo. Mas posso assegurar que isso aconteceu apenas três ou quatro vezes desde que herdei o título.

– Devo esperar ser posta para fora de casa?

Edie não sabia o que pensar.

Seu pai com certeza tinha um temperamento forte, mas nunca ameaçara deserdar ou dispensar ninguém. Ele apenas disparava algumas frases zangadas e desaparecia.

O mordomo apareceu com a capa dela. Gowan a tomou e cobriu-a ele mesmo.

– Nunca. Embora não possa prometer não banir o homem que flertar com minha mulher.

Edie o encarou, sentindo uma emoção distintamente feminina, quando os olhares se encontraram. No entanto… embora essa possessividade masculina parecesse encantadora, não seria bem assim na realidade.

– Por favor, não se transforme no meu pai… O senhor já viu quanto ele pode ser ciumento. Acredito que já viu minha família em seus piores momentos. Na maior parte do tempo, somos sóbrios e sãos.

– Diferentes da minha famíia, então – declarou Gowan.

Edie aguardou até que estivessem sentados no luxo tranquilo da carruagem antes de perguntar:

– Já me falou sobre falta de sobriedade. E o que há em relação à sanidade?

Houve o brilho de um sorriso outra vez.

– Digamos que a loucura surge de forma branda. Tenho três tias, cada uma delas obcecada por seu cão. Os cães têm festas de aniversário, coleiras enfeitadas com joias e mais agasalhos do que eu.

– Mais agasalhos?

– Veludo para o inverno, linho engomado para o verão. O pelo deles, ao que parece, não protege dos ventos escoceses. Periodicamente, diversos outros animais frequentam a casa. Minhas tias, as damas Sarah, Letty e Doris, estão convencidas de que qualquer animal pode ser adestrado se houver dedicação à tarefa.

– Qualquer animal? O que esperam que aprendam? Um coelho pode aprender a latir?

– Um cão não é treinado para latir – destacou Gowan. – O adestramento, no que diz respeito aos animais, pode ser resumido por uma habilidade de responder a determinado nome, controlar a bexiga, confinar dejetos a determinada área (não estou me referindo ao tapete do salão de visitas) e a cumprir determinadas ordens.

– Suponho que seja possível adestrar um gato – disse Edie, embora tivesse dúvidas.

Nunca tivera contato próximo com muitos animais.

– No entanto, pelo que eu saiba, eles não reagem de imediato – continuou ela.

Gowan balançou a cabeça.

– Os gatos estão no passado remoto. Minhas tias se ocuparam com diversas espécies de aves, uma ratazana, um porco-espinho, três esquilos e uma família inteira de coelhos. No momento, estão cuidando de porcos. Leitoas, na verdade.

– Estão treinando leitoas?

– Preferem o termo “domesticar”. – O tom de voz de Gowan estava tão seco que Edie começou a dar risadas. – Na minha última visita, as leitoas tinham aprendido a atender pelos nomes: Pétala, Cereja e Margarida. A essa altura, devo presumir que as trigêmeas já são mães. Ou já viraram toucinho.

Ele esticou as pernas longas e sua bota esbarrou no sapato de Edie. Até aquele contato fugidio lhe provocava calafrios, o que era um absurdo. Absurdo.

– De minha parte – disse ela, recompondo-se –, consideraria a higiene pessoal muito mais premente do que os nomes.

– As porquinhas progrediram bastante – retrucou Gowan, sério. – Desfilaram para mim na hora do jantar, parecendo rosadas, bem lavadas e enfeitadas com fitas em cores combinadas. Alguns incidentes ocorreram, mas bem menos do que se suporia.

– Ficarei encantada em conhecê-las – murmurou Edie, com o mesmo tom solene; então voltou a rir. – Sabe, nunca tive muito contato com nenhum animal, a não ser cavalos. Sei cavalgar.

Gowan abanou a mão, com desdém.

– Os cavalos fazem parte da idade das trevas da história da domesticação.

– De onde suas tias tiram essas ideias sobre adestramento?

– Letty defendia a tese quando era jovem e as outras duas acabaram assimilando a ideia.

O pé dele voltou a tocar no de Edie, mas sua expressão não se alterou. Será que era acidental? Aquilo a deixava inquieta.

– O que as faz pensar que serão bem-sucedidas?

Ele pareceu surpreso com a pergunta.

– Por que não pensariam? Se há alguém capaz de domesticar um porco, eu apostaria particularmente na tia Sarah. Ela conseguiu que um esquilo comesse em sua mão.

A segurança de Gowan fez Edie sorrir. Fora criada sabendo que era um membro da aristocracia e que por isso tinha sangue azul e tudo o mais. A verdade era que seu pai só se importava com música, e ela também. Aquilo havia diluído o efeito da educação de elite. Em Gowan e, possivelmente, nas suas tias, não ocorrera nenhuma diluição. Centenas de anos de autoconfiança tinham sido inculcados neles com o mesmo rigor com que ela aprendera as escalas musicais.

A sobrancelha arqueada de Gowan deixava claro que as tias poderiam, com toda certeza, adestrar um porco – se é que um porco poderia ser adestrado, e provavelmente mesmo que não pudesse ser.

– É uma espécie de experimento científico, compreende? A curiosidade é uma característica da minha família. Nas gerações mais recentes, a maioria de nós ficou obcecada por uma investigação ou outra. Até a morte de meu pai pode ser classificada como uma tentativa infeliz de demonstrar algo.

– E você? – indagou Edie.

Gowan deu de ombros.

– Tenho algum interesse em trigo e estou cultivando uma nova variedade no momento.

O cultivo do trigo certamente parecia mais útil do que o adestramento de leitões. Por isso, Edie emitiu um som de aprovação e estava a ponto de perguntar se as tias tiveram algum sucesso com gansos – conhecera um ganso mal-humorado e agressivo na infância –, mas a carruagem parou. Haviam chegado à residência dela, na Curzon Street. Edie tateava o assento em busca de sua bolsa quando ouviram o chacoalhar de rodas que passaram por eles e pararam abruptamente.

Edie deslizou para junto da janela do seu lado da carruagem e ergueu a cortina. A carruagem do pai tinha acabado de estacionar. Um lacaio de farda desceu e abriu a porta.

– Meus pais chegaram.

Gowan foi para sua janela e observou a situação com o mesmo interesse.

– Seu pai provavelmente conseguiu convencer sua madrasta de que dançar trôpega não seria uma boa ideia.

– Por que não estão saindo? – indagou Edie, depois de um momento.

– Não posso afirmar com absoluta certeza, mas acredito que seu pai esteja se esforçando para carregar a condessa. Imagino que a bebida a tenha deixado sonolenta, talvez até inconsciente.

Havia um tom de crítica na voz dele do qual Edie não gostou.

Abriu a boca para defender Layla, mas naquele momento o pai emergiu da carruagem com a esposa nos braços. A seda azul-celeste farfalhava atrás dele enquanto o conde se dirigia até a porta da frente, com a cabeça de Layla apoiada em seu ombro.

– É verdade. Ela deve ter adormecido – concluiu Edie. – Eu pensava que para isso seria necessário consumir algo mais forte do que champanhe.

– Não é uma questão de qualidade da bebida, e sim de quantidade. Quanto ela bebeu?

– Talvez seis taças? O problema é que não comeu muito o dia inteiro.

– Quase uma garrafa – salientou Gowan. – Ela se afogou na bebida.

Quando o conde se aproximou da entrada da casa, Layla, de súbito, esticou o braço e puxou a cabeça do marido em direção à sua boca. Estava definitivamente desperta. Edie deixou a cortina cair e se recostou no assento.

– Minha nossa – disse ela. – Preferia não ter visto isso. De qualquer forma, sabemos agora que Layla não está exatamente inconsciente.

– Ela com certeza sabe beber.

– Não precisa falar assim – repreendeu Edie, franzindo a testa. – Layla não é uma alcoólatra.

– Na minha experiência, os ébrios não são tão pouco afeitos à garrafa quanto gostariam que suas famílias acreditassem.

– Isso pode ser verdade em relação a seus pais – declarou Edie. – Embora odeie insistir em uma diferença pouco lisonjeira entre nossas famílias, Layla e eu ficamos juntas quase o tempo todo, pois sou incapaz de convencê-la a não interromper meus estudos. Essa foi a primeira vez que a vi atordoada.

Os olhos de Gowan demonstraram empatia.

– Os protestos mais ferozes não impediriam que meu pai interrompesse meus estudos.

– Gowan. Não foi o que quis dizer.

Depois de um segundo, ele falou:

– Ahn?

Parecia que o duque não estava acostumado a ser contrariado.

Pois bem, ele poderia aprender.

– Apesar de seu cinismo despertar minha simpatia – prosseguiu Edie –, gostaria que reconhecesse meu ponto aqui. Minha madrasta não costuma beber em excesso. Nem temos o hábito de tomar vinho durante o jantar. Só quando meu pai vem para casa, o que tem sido raro nesses dias.

– Compreendo – disse Gowan, assentindo.

Ele lançou um olhar pela janela.

– Ainda estão se beijando. Seu pai é bastante impetuoso para a idade.

– Ele não é tão velho assim – comentou Edie, deixando o assunto da madrasta inebriada e passando à defesa do pai irascível. – Acabou de passar dos 40. Você mesmo se gabou de que os escoceses se mantêm ativos bem depois dessa idade.

– Achei mesmo que o homem tinha algo de escocês.

Era um absurdo que Edie precisasse apenas vislumbrar o sorriso de Gowan para ficar toda derretida, mas essa era a verdade.

– Pensei que talvez tivesse perdido o senso de humor.

– Peço perdão. Temo que meus pais tenham cultivado em mim uma antipatia marcante em relação aos abusos do álcool.

– É completamente compreensível – falou Edie. – Por favor, diga-me se meus pais já entraram, porque devo segui-los. Layla ficará histérica se entrar em minha alcova para me dar boa-noite e não me encontrar.

Gowan voltou a olhar.

– Eles entraram na casa.

– Nesse caso, devo me retirar. Noivos ou não, nós não devíamos ficar dentro de uma carruagem parada sem um acompanhante.

– Não parece justo – opinou Gowan, com uma faísca maliciosa surgindo em seu olhar. – Eu poderia levá-la para dar uma volta no Hyde Park.

– Não no escuro. Preciso entrar.

Mas a frase saiu com um tom um tanto rouco.

– Só depois do meu beijo de boa-noite – sussurrou ele, tomando-lhe as mãos e levando-a para seu lado da carruagem. – Minha quase esposa.

Edie inclinou a cabeça para encará-lo. Seus olhos estavam semicerrados e pareciam possessivos.

A cabeça dele se aproximou e ela prendeu a respiração por um momento, perguntando-se se aquele beijo seria tão inebriante quanto o primeiro… até que ela parou de imaginar. A língua dele deslizou para o interior de sua boca e Edie não conseguiu ter mais qualquer tipo de raciocínio.

Estava aprendendo que certas coisas não deviam ser avaliadas enquanto eram vividas; deviam ser apenas sentidas. Assim, ela se permitiu sentir como era macio e espesso o cabelo dele, e então, quando suas mãos desceram do pescoço para os ombros e para baixo, sentiu como as costas dele eram musculosas.

À essa altura, o beijo tornava-se mais insistente e Edie percebeu que se encontrava atracada a ele, quase sem fôlego, o corpo tomado por um ritmo que ela não conhecia, mas que instintivamente sentia em suas veias.

– Edie – murmurou Gowan, rouco, interrompendo o beijo com um gemido abafado. – Precisamos parar antes que…

– Não pare – interrompeu-o Edie, trazendo a boca de Gowan para perto da sua. – Ninguém sabe onde estamos.

E ele não parou, e só falaram outra vez quando Gowan pegou um dos seios de Edie, o que parecia tão maravilhoso que a fez balbuciar algo de incoerente. Ele riu baixinho e passou o polegar por seu mamilo.

A sensação fez Edie soltar um grito e roçar em sua mão. Sua capa, de alguma forma, havia desaparecido, embora ela pudesse sentir o calor e o poder das mãos dele sobre camadas e mais camadas de tecido, quando ele a tocava. Cada toque trazia consigo uma reação violenta.

Gowan parecia fascinado, observando atentamente como os seios dela escapavam de suas mãos.

– São bem grandes – sussurrou Edie, pensando em Layla caracterizando seu busto como deselegantemente amplo.

Ele lançou um olhar com um brilho fugidio que a fez querer se espremer contra ele e implorar por mais carícias. Carícias mais intensas.

– São perfeitos – elogiou ele.

O som da sua voz roçava a pele dela como se fossem as notas mais graves do seu violoncelo.

– Sonhei em tê-la em meus braços, Edie.

– Sonhou?

– Desde a noite em que a conheci. Mas nenhum sonho se compara à realidade.

Gowan fez algo tão agradável com as mãos que Edie só conseguiu se deixar recostar no assento. Ele prosseguiu, beijando então o pescoço, sem parar de acariciar seus seios, enquanto Edie pensava em como deveria ser o peso de um corpo masculino sobre o dela. E como deveria ser bom se ele pudesse tocá-la sem as barreiras do vestido e da roupa de baixo.

Imaginava que ele poderia ser pesado demais, mesmo apoiado nos cotovelos. Mas não era. Seu corpo adorava todos aqueles músculos e calor. Davam a ela o desejo de envolvê-lo com suas pernas. O que era uma ideia ultrajante, que a deixou chocada.

Ele alcançou a base do pescoço, mas, em vez de beijá-la, deu uma lambidinha, uma sensação tão boa que Edie, quase involuntariamente, gemeu e arqueou um pouco as costas. O corpo dele se encaixou no dela com mais firmeza.

Então ele beijou a curva dos seios e apertou a coxa no vão entre as pernas dela. Edie agarrou os ombros dele com tanta força que ficou convencida de que deixaria marcas.

Gowan murmurou algo tão baixo que ela não conseguiu ouvir, e então ele deu um forte puxão no seu vestido. O espartilho se rasgou e os lábios dele envolveram um mamilo. Edie nunca havia imaginado tal sensação. Com um gritinho, voltou a arquear as costas.

Gowan a acariciava, lambia e beijava em um ataque sensual tão avassalador que Edie parou de raciocinar e simplesmente sentiu. Sentia-se como as bombinhas que os meninos explodiam nos festejos de fim de ano. Estava pronta para explodir em algo mais iluminado e assustador e deslumbrante, só faltava… Forçou-se contra a perna dele, sentindo um ardor que se espalhava por todo o seu corpo e a fazia perder o fôlego.

No momento em que ela sentiu que seria consumida pelas chamas… Gowan parou. Um frio desagradável substituiu o calor de sua boca. Olhou para baixo. Na penumbra, seus seios pareciam pálidos mas os mamilos estavam rosados e protuberantes, implorando por mais atenção.

O olhar dele seguiu o dela, mas ele estava de novo com aquele ar, ou talvez não fosse um ar.

Aquilo era um problema, pensou Edie confusa. Ela despencara numa escuridão envolvente ao ser beijada e, para ser honesta, nem se importava com o fato de estarem casados ou não. Queria fazer amor naquele banco de carruagem. Ou no chão. Ou em qualquer lugar onde ele quisesse.

Por outro lado, ele parecia ter recobrado um pouco do juízo.

– Como consegue se recompor tão rápido? – indagou ela, um momento depois, quando ele a depositava no assento, encontrava sua capa e começava a prendê-la como se ela fosse uma criança.

– Não estou recomposto – revelou ele em seguida.

Sua voz fez Edie se sentir melhor, pois havia um tom feroz nela.

– Sinto calor em toda parte – sussurrou ela, beijando-lhe a testa.

Era a única parte dele que conseguiria alcançar enquanto Gowan se empenhava em produzir o laço perfeito.

– Sinto que não vou conseguir dormir. Sinto…

– Eu tenho certeza de que não conseguirei dormir. – Os dedos dele pararam de se mover e seus olhos encontraram os dela. – Nunca sonhei que dividiria a vida com uma mulher tão sensual.

– Não sou sensual – sussurrou Edie. – Na verdade, sou muito comum.

– Você não tem nada de comum – retrucou ele, segurando o rosto dela nas mãos e dando-lhe um beijo forte e acelerado.

Abriu a porta da carruagem e a ajudou a descer para a calçada antes que ela soubesse o que estava se passando.

– Gowan! – protestou.

Abaixou a voz, percebendo que os lacaios tinham saltado da carruagem e aguardavam instruções, dois de cada lado do veículo.

– Não acha que tenho um ponto significativo a defender, considerando a licença especial que você adquiriu? Se nossas reputações estão prestes a ser arruinadas sob a suspeita de que nossos atos anteciparam nossos votos, não seria melhor realmente fazê-lo? – prosseguiu Edie.

Gowan enfiou a mão dela em seu braço e começou a caminhar em direção a Willikins, que permanecia iluminado pela porta entreaberta.

– De fato, é algo a ser considerado, mas precisa compreender: valorizo minha honra mais do que minha reputação.

O duque voltara a assumir aquela voz aristocrática em reação – Edie supunha – à presença de todos aqueles homens uniformizados em volta deles.

Edie parou de andar quando estavam na metade do caminho e, esperava ela, longe dos ouvidos dos lacaios e de Willikins.

– Gowan – chamou, ríspida.

Ele a encarou com uma espécie de tolerância plácida, embora fosse difícil discernir sob a penumbra da porta. Ela o achou tão irritante que sacudiu o braço dele.

– Está se comportando de forma empolada, senhor duque.

– Empolada? – Um humor sarcástico voltou a seus olhos. – Dirigir-se a mim pelo meu título também é empolado.

Edie sentia apenas o calor, a moleza, a premência, e era extremamente irritante ver Gowan tão calmo quanto um pároco depois do sermão de domingo. Então, ela ficou na ponta dos pés e lambeu-lhe os lábios.

– O que está fazendo comigo, Edie?

A frase saiu como um rosnado de algum lugar profundo do peito dele e a banhou de satisfação.

Talvez ele apenas fosse melhor que ela em disfarçar os sentimentos.

– Estava apenas garantindo que você tenha tanta dificuldade para dormir quanto eu.

Então ela o abraçou, puxou sua cabeça e o beijou.

Não era o quarto beijo deles, nem o décimo quarto, mas fora o primeiro em que a iniciativa partira dela.

Havia algo naquela percepção que a fez se derreter ainda mais. Porém, apesar de demonstrar sinais satisfatórios de entusiasmo, Gowan não a arrebatou em seus braços nem voltou para a carruagem, gritando ao cocheiro que os conduzisse para um refúgio em qualquer lugar.

De fato, depois de algum tempo, ele afastou a boca, retirou os braços dela de seu pescoço e rosnou:

– Agora vou levá-la até a porta, Edith.

Edie conseguiu recuperar o fôlego quando alcançaram o pobre Willikins. O mordomo mantinha um semblante inexpressivo que, por alguma razão, a deixou ainda mais zangada. Teria que passar o resto da existência sendo observada por estátuas vivas?

Então fez uma reverência para se despedir de Gowan, mas recusou-se a encará-lo. Tinha acabado de subir a escadaria da frente quando ouviu um som exasperado. Ele a virou com força e disse em um tom de voz baixo e enérgico:

– Duques não defloram suas futuras esposas em carruagens, Edie.

Ela olhou para o lado, mas Willikins demonstrara a compreensão intuitiva dos deveres mais delicados de um mordomo e havia desaparecido no interior da casa.

– Não é isso – disse ela. – É a forma como o senhor se comporta. Em um minuto, eu o estou beijando e, no seguinte, sou despachada por um homem que é tão expressivo quanto uma porta. Em um momento, o senhor me faz rir e, no seguinte, assume a expressão de um professor que passa um sermão num garoto travesso. Acho irritante. Extremamente.

– Um homem é o que ele faz – afirmou Gowan. – Se eu deflorar minha noiva, não serei eu, mas outra pessoa, alguém tão sobrepujado pela luxúria que é capaz de se esquecer das regras que governam a civilização.

De repente, Edie sentiu-se cansada demais para discutir.

– É, o senhor deve estar certo – disse ela.

Pensou em fazer mais uma reverência, mas poderia ser interpretado da forma errada. Assim, ela acariciou o rosto dele, porque era, afinal, um homem querido, embora equivocado. E tomou o caminho de seu quarto.