A Torre do Amor

Eloisa James · Capítulo 7 de 47

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A Torre do Amor

Capítulo 5

 

Gowan contemplava com total descrença as páginas diante de si. A carta fora escrita com uma mão forte, forte demais para uma mulher. A avó dele tinha uma caligrafia delicada, ornamentada vez ou outra com alguns floreios. Não havia floreios naquela carta.

Não havia nada de feminino ali.

Na verdade…

Ele estreitou os olhos. Quase não acreditava que a carta tivesse sido escrita por uma mulher. Era direta demais, assertiva demais.

Não era o tipo de carta que poderia ter vindo da flor delicada com quem ele dançara, nem daquela mulher que modestamente mantivera os olhos baixos quando o pai anunciou ter aceitado a proposta de casamento feita em seu nome. Não havia a menor faísca de rebeldia no rosto de lady Edith.

Voltou a erguer a carta. Na verdade, não era exatamente rebelde.

Era…

Era contratual. Era isso. Ela empregava a expressão “Gostaria de pedir” quando claramente queria dizer “Eu exijo”.

 

Gostaria de lhe pedir que não mantenha uma amante, nem se envolva em diversões deste tipo até que tenhamos produzido o número necessário de herdeiros (número a ser decidido amigavelmente entre nós) e interrompido as relações conjugais, como acontecerá no tempo devido. Tenho relutância em contrair alguma doença de natureza íntima.

Já havia lido aquele parágrafo quatro vezes, mas tornou a reler. Diversões deste tipo? Amante? Interrompido as relações conjugais? Quando ele estivesse morto, talvez. O fato de ele ainda não ter mantido relações não queria dizer que ele não teria interesse em manter. Tinha um profundo interesse.

Na verdade, ele mantinha atualizada uma lista de coisas que estava ansioso por experimentar. Com sua esposa. Que aparentemente pensava que fariam amor segundo um cronograma. Um cronograma restrito, aliás.

 

Como tenho pouquíssimo interesse nos prazeres da carne, não

lhe darei qualquer motivo para expectativas em relação a esse aspecto.

Pareciam as palavras de uma freira. Tudo bem, não se importava tanto com aquela declaração em especial. Poderia convencê-la a se interessar pelos prazeres da carne. Ou poderia passar a vida tentando.

A sugestão seguinte era ainda mais irritante.

 

Proponho que não nos dediquemos a produzir um herdeiro

pelos próximos três anos, embora o prazo de cinco anos me pareça melhor. Somos jovens e não precisamos nos preocupar com a idade como um fator a ser considerado na procriação. Não estou pronta para esse fardo. Para ser franca, simplesmente não tenho tempo.

Ele fitou aquelas palavras por alguns minutos. Será que ela não queria ter filhos? Que diabo faria o dia inteiro para não ter tempo para filhos? Gowan estava pronto para reproduzir imediatamente. Susannah, sua meia-irmã, tinha 5 anos e seria ótimo se ela pudesse desfrutar da companhia de outras crianças.

Além disso, o trabalho de administrar a propriedade não ficaria mais fácil em cinco anos.

Por outro lado, gostou do parágrafo seguinte:

 

Estou certa de que suas responsabilidades são muitas.

Proponho que estabeleçamos um acordo para que não haja interrupções em nossas atividades durante o dia. Percebo que considerável parcela das infelicidades deriva do comportamento carente de um cônjuge. Confio que não considerará minha sugestão um insulto: como não existe nenhum prévio conhecimento entre nós, compreenderá que escrevo simplesmente por desejar um casamento feliz.

Ele concordava com ela.

Mas era um pouco arrogante. Não, era mais do que um pouco arrogante.

No entanto, se ele tomasse a iniciativa de escrever suas ideias – o que nunca faria, pois havia algo de perturbador em colocar tudo no papel –, era possível que criasse um parágrafo exatamente igual àquele.

Ou bem parecido.

Foi o trecho final que o fez sentir ganas de mostrar os dentes e rosnar para o papel como uma espécie de lunático:

 

Por fim, desejo destacar que aprecio muito a forma com que

dispensou as formalidades da corte. Embora a princípio eu tenha ficado surpresa, passei a respeitar seu comportamento depois de considerá-lo com mais atenção. Presumo que compartilhamos da mesma noção sobre casamento: é um contrato realizado para o bem de uma linhagem e para o bem-estar geral da sociedade. Uma celebração a ser respeitada e desfrutada mutuamente. Não se trata de um relacionamento que deve provocar demonstrações desordenadas de emoção. Pessoalmente, me desagrada a ideia de conflitos no lar. Acredito que podemos evitar todo tipo de cena desagradável ao esclarecer tudo entre nós antes de fazermos nossos votos.

Em poucas palavras, ela não o amava, não pretendia amá-lo e considerava que o amor estragava o casamento.

A raiva que o tomou foi completamente inadequada e Gowan sabia disso. Fora ele quem se abstivera de fazer a corte, fechara a porta de um salão cheio de homens e praticamente subornara o pai da jovem a lhe dar a mão dela em casamento.

Mesmo assim, sentiu-se insultado.

Não, não insultado. Enfurecido. Insulto era algo para gente vulgar, cujos sentimentos se feriam com facilidade. Ninguém feria seus sentimentos.

E ela ainda não havia acabado.

 

Ficaria grata em receber sua resposta. Estou certa de que

também tem pedidos a fazer e prometo que terei a maior boa vontade em considerá-los.

Considerá-los?

Uma grande onda de fúria tomou seu peito. Ela pensava que ele seria capaz de desonrar os votos nupciais arranjando uma amante? Planejava levar os desejos dele em consideração?

E ela achava mesmo que ele lhe faria pedidos? Era um maldito duque. Dava ordens. Não fazia pedidos.

Gowan quase nunca perdia as estribeiras. Bastava erguer uma sobrancelha para que um homem soubesse que o duque tinha o poder de arruiná-lo. Bastava uma palavra para que Gowan pusesse qualquer um na cadeia. Não que ele fosse fazer tal coisa, mas tinha poder para isso.

Expressar raiva era uma arma grosseira, tão desastrada quanto desnecessária. E ele tinha consciência de que, nas raras vezes em que perdia a cabeça, tendia a dizer muitas palavras impensadas das quais se arrependia depois.

Infelizmente, naquele momento a raiva lhe subia das entranhas até a cabeça. A carta de lady Edith fora desrespeitosa à pessoa dele, a seu título e a seu pedido de casamento. Sentou-se à escrivaninha, pegou uma folha de papel. A pena perfurou a folha, rasgando-a.

Ele havia proposto transformá-la em duquesa. E não numa duquesa qualquer: na duquesa de Kinross. Um dos títulos mais antigos e mais respeitados da Escócia. Jamais ostentado por uma inglesa. Jamais.

Talvez houvesse um motivo para isso.

Pegou outra folha e começou a escrever.

 

Lady Edith,

Talvez seja o escocês que há em mim…

Não. Ele não queria que Edith se sentisse constrangida por sua infeliz nacionalidade inglesa. Não tinha culpa. E, como fora ideia dele se alinhar a uma família inglesa, não seria correto desdenhar da origem da noiva.

Respirou fundo. Era preciso manter o senso de humor. Sua noiva parecia prática ao extremo, nem um pouco espirituosa, mas ele nunca lhe perguntara se gostava da vida. Dera apenas uma olhada naqueles olhos de um verde-escuro e prometera a seu pai um arranjo digno de uma princesa.

Poderia ter sido um erro, mas agora era tarde demais. Aparentemente ficara noivo de uma burocrata azeda que odiava crianças.

Então uma imagem de suas curvas – e daqueles olhos – flutuou pela mente dele e todo seu corpo se manifestou em alerta. Talvez pudessem ficar afastados o tempo todo, a não ser quando estivessem na cama.

Pensando naquilo, ele voltou a erguer a pena.

Lady Edith,

 

Agradeço por sua carta. Sinto-me honrado por sua honestidade. Espero que seja capaz de perdoar minhas palavras audaciosas. Descrevo a seguir minhas expectativas para este casamento.

 

1. Tenho intenções de dividir a cama com a senhorita até chegarmos aos

90 anos ou, no mínimo, aos 85.

2. Para um escocês, a mão indecente do mostrador está sempre segurando

o ponteiro ereto apontado para o meio-dia. Em suma, só haveria um

motivo para que eu interrompesse as atividades do dia.

3. Arranjarei uma amante quando a senhorita arranjar um amante, não

antes.

4. Os filhos vêm de acordo com a vontade de Deus. Não tenho a mínima

intenção de usar tripa de porco em minhas partes íntimas, se é isso que

está sugerindo.

5. A senhorita sofre de alguma perturbação? Estou curioso. Os papéis do

noivado já foram assinados, portanto minha pergunta não é um pedido

de liberdade. Considere-a, então, uma manifestação de genuína

curiosidade.

Nunca havia escrito nada tão sarcástico. Um duque não perdia tempo mandando mensagens irônicas, a não ser para aqueles que lhes eram mais íntimos. Por acaso, ele não tinha intimidade com muita gente.

Na verdade, o conde de Chatteris, cujo casamento ocorreria em breve, era uma das poucas pessoas que se dirigiam a ele pelo primeiro nome. Os dois eram amigos principalmente porque não gostavam de chamar atenção. Anos antes, quando seu pai estava vivo e costumava levá-lo em visitas a outros nobres no verão, as crianças costumavam ser obrigadas a fazer encenações para entreter os adultos. Numa dessas vezes, ele e Chatteris interpretaram as árvores que se mudaram para o castelo de Dunsinane e que assustaram Macbeth. Desde então, concordaram silenciosamente que se achavam toleráveis.

Ele assinou a carta com seu título completo: Gowan Stoughton de Craigievar, duque de Kinross, chefe do clã MacAulay.

Depois, pegou a cera que raramente usava e lacrou a carta com o sinete ducal.

Era impressionante.

Ducal.

Bom.