A Torre do Amor
Capítulo 27
Edie desceu da carruagem agarrando a boneca que comprara para Susannah. Acabou encontrando Gowan e companhia esperando-a diante do castelo.
– Sinto como se tivesse viajado no tempo até chegar a um feudo medieval – disse Layla, descendo ao lado dela. – Não era naquela época que o retorno de um duque era comemorado com os servos deixando os campos para saudá-lo ou coisa parecida?
Edie observava as pessoas que desciam pela ponte levadiça.
– Acho que sim.
Gowan postou-se a seu lado, o rosto sério como sempre. Ajudou Edie a saltar da carruagem, mas não falou muito. Naquele momento, estava em silêncio, com as mãos para trás. Edie teve a impressão de que ele estava zangado com ela, embora não entendesse bem o motivo. Quando Gowan perguntara sobre as regras, ela respondera a verdade. Se ele tivesse pedido, ela teria permitido que desfrutasse de sua cama.
Mas ele não havia pedido.
Naquele momento, todos os criados reunidos fizeram uma saudação em sincronia.
Gowan ergueu a mão.
Fizeram tanto silêncio que Edie conseguia ouvir o canto de um pássaro do outro lado da muralha.
– Apresento a duquesa de Kinross – anunciou Gowan.
Seu tom de voz era baixo, mas falava como um líder.
– Ela é sua senhora. Respeitem-na da mesma forma que me respeitam, obedeçam a ela como me obedecem, e amem-na como peço.
Todos fizeram mais reverências e saudações.
– Obrigada! – exclamou Edie, olhando para cada empregado com a sensação de que jamais conseguiria conhecer todos os habitantes de sua casa.
Mais do que isso, se não conseguisse convencer Gowan a abandonar o hábito de dar carta branca para todos terem acesso a seu quarto de dormir, à sala de café da manhã e à sala de jantar, ela teria que esbarrar com todos esses desconhecidos diariamente.
Bardolph deu um passo à frente.
– Em nome dos membros do clã, Sua Graça, damos as boas-vindas ao castelo Craigievar.
– Ah – reagiu Edie, fascinada ao ver os joelhos rugosos de Bardolph despontando sob um kilt. – Agradeço sua generosidade.
– Devo lhe apresentar agora aqueles que trabalham aqui. A governanta, Sra. Grisle.
A Sra. Grisle era uma mulher muito alta, com dentes tão grandes que pareciam chacoalhar na boca quando ela falava. Não aparentava ser o tipo de pessoa que necessitava de supervisão constante, mas Edie preferiu aguardar para emitir um julgamento.
– Já conheceu o Sr. Rilling, o Sr. Bindle e o chef, monsieur Morney – prosseguiu Bardolph.
– Boa tarde – cumprimentou Edie.
– Os funcionários da cozinha – anunciou o secretário.
Um grupo de vinte pessoas deu um passo à frente.
Houve uma breve pausa enquanto a governanta reunia um grupo de criadas, preparando-se para apresentá-las. Edie olhou de relance para Gowan e teve que conter um calafrio. Havia uma estranha distância entre eles, mas ao mesmo tempo…
Nenhuma mulher poderia olhar para Gowan sem pensar em beijá-lo. Ele emitia tanto magnetismo animal que seu simples andar era uma promessa de horas e horas de prazer.
– Edie, onde está sua nova filha? – perguntou Layla. – Seu pai não ficará feliz se ela não passar de fruto da imaginação do duque. Nem eu, apesar de ter a impressão de que posso comer os biscoitos de gengibre que trouxe para ela.
– Onde está Susannah? – perguntou Edie, virando-se para o marido.
Gowan ergueu um dedo. Bardolph imediatamente lhe dedicou atenção.
– Minha irmã.
Houve um burburinho nos fundos da multidão e outro grupo foi acompanhado até a frente.
– Srta. Pettigrew, a babá – anunciou Bardolph. – Alice, Joan e Maisie, criadas da ala infantil. Srta. Susannah.
A Srta. Pettigrew era uma mulher grande, coberta do pescoço aos pés por linho engomado, imaculado. Acompanhavam-na as três criadas, vestidas de forma idêntica. E ao lado, com os braços cruzados diante de seu pequeno peito, estava uma criança inteiramente vestida de preto, parecendo um corvo junto de quatro imensas cegonhas brancas.
Bardolph a chamou:
– Srta. Susannah, cumprimente o duque e a duquesa.
Havia um toque de aspereza na voz dele.
Lady Susannah flexionou o joelho de um jeito que vagamente lembrava uma reverência. Premiou Gowan com uma careta, atitude que não pareceu surpreendê-lo.
– Susannah, esta é minha esposa, a duquesa de Kinross.
A criança dirigiu a careta para Edie. O cabelo ruivo destacava-se como uma chama em torno de sua cabeça, contrastando com sua vestimenta. De repente, ocorreu a Edie que, apesar de Susannah vestir preto dos sapatos até as fitas no cabelo, Gowan não usava o luto pela mãe. Na verdade, ela nunca o vira de preto.
– Como vai? – tentou Edie.
Gowan cruzou os braços diante do peito.
– Faça uma reverência para a nova duquesa, por favor.
Susannah voltou a flexionar os joelhos.
– Ela se parece tanto com você! – exclamou Edie.
– Não, não pareço! – retrucou a garota, falando pela primeira vez.
Era impressionante como uma pessoa tão pequena podia ser tão altiva. Devia ser um traço de família.
Edie lançou um olhar com certo pânico para Layla, que ordenou num sussurro:
– Abaixe-se para que ela não precise erguer os olhos para você.
Por um momento, as duas olharam para a boneca. Era uma dama muito elegante, com cabelo pintado de louro e um vestido enfeitado com renda de verdade. Susannah não quis pegar o brinquedo. Em vez disso, desviou o olhar para Gowan.
– Ela é minha irmã? – perguntou, apontando para Edie.
– É sua nova mãe – declarou Gowan. – E damas nunca apontam.
Susannah ergueu o queixo com determinação.
– Queria uma irmã. Eu falei para você. Falei que queria uma irmã. Não preciso de mãe. – A voz aumentava de tom a cada declaração. – Pedi que trouxesse uma irmã menor que eu.
– E eu lhe informei que não poderia trazer uma irmã para você.
Gowan nitidamente corria o perigo de perder seu jeito imperturbável.
– Não quero uma mãe porque já tive uma – falou a menina, voltando-se para Edie, que estava paralisada.
A menina deu mais um passo e ficou tão próxima que Edie conseguiu distinguir as sardas no nariz.
– Sinto muito – disse Edie, sem jeito. – Com certeza não quero substituir sua mãe.
Os olhos de Susannah ficaram sombrios.
– Ninguém pode substituir minha mãe, porque ela está morta. Foi embora. Não gosto muito de você. E aquela boneca é feia.
A menina estendeu a mão e deu um empurrão.
Edie estava agachada, precariamente equilibrada. O empurrão de Susannah a fez cair para trás, aterrissando com o traseiro no cascalho. Edie ficou tão atônita que não se moveu, apesar de suas pernas terem se aberto de forma muito pouco elegante.
Um murmúrio foi ouvido, vindo dos criados em volta. Provavelmente não testemunhavam um drama familiar tão interessante desde a morte do antigo duque. Sem falar nos tornozelos de uma dama, mesmo cobertos por meias brancas de renda.
– Que droga – resmungou Layla.
– Susannah! – berrou Gowan.
Abaixou-se e ajudou Edie a se levantar.
No mesmo momento, a Srta. Pettigrew deu um passo à frente, agarrando a garotinha pelo cotovelo com uma das mãos e dando-lhe uma forte palmada no traseiro com a outra.
– Peça desculpas agora mesmo – sibilou.
A babá tinha as faces avermelhadas e estava tão furiosa que os olhos pareciam duas ameixas pretas.
– Foi apenas um acidente – interveio Edie, sem gostar de como o corpo de Susannah fora jogado para a frente quando a babá bateu nela.
– Não foi, não – retorquiu Susannah, a voz tão firme quanto antes. – Não preciso de uma mãe e falei isso para ele. Não gosto de você. Então volte para onde veio. E leve aquela boneca feia com você.
A menina tentou se livrar da babá, mas não conseguiu.
Gowan deu um passo à frente, os olhos em fúria.
Edie curvou-se depressa diante da garotinha.
– Você está muito arrependida por ter me magoado, não está?
– Não.
Mas a menina percebeu algo no olhar de Edie.
– Sinto muito – disse ela, de má vontade.
– Se não quer a boneca, tenho certeza de que alguém aqui tem uma menininha em casa que adoraria ganhá-la.
Edie voltou a estender o brinquedo para a menina.
Os olhos de Susannah foram da cabeça loura da boneca para a de Edie.
– Não quero – insistiu ela, com dureza na voz. – Pode jogar fora.
Edie endireitou-se e entregou a boneca, sem perceber, para Bardolph. Sentia-se como se tivesse levado um soco no estômago.
– Edie, poderia me apresentar para a Srta. Susannah, por favor? – pediu Layla com delicadeza.
– Susannah, esta é minha madrasta muito querida, lady Gilchrist. – Edie colocou uma nota dura na voz. – Por favor, faça uma reverência.
Susannah se abaixou.
Layla ajoelhou-se sem levar em consideração suas saias.
– Olá, Susannah.
Edie lutava contra um sentimento agudo de completo fracasso. Olhou para baixo, tentando ver Layla agachada, com olhos sorridentes e boca doce através do olhar da menina. Com certeza, os ombros de Susannah relaxaram um pouco.
– Olá.
– Trouxe um presente também, mas não é tão bom quanto essa boneca linda.
Um brilho cauteloso apareceu nos olhos de Susannah.
– Mesmo?
Layla assentiu.
– É algo que eu adorava quando tinha sua idade.
Susannah deu um passo e aproximou-se o bastante para que Layla segurasse sua mão.
– O que é?
– Uma princesa de gengibre. Já comeu biscoitos de gengibre?
– Não. Onde está?
– Na carruagem – respondeu Layla, levantando-se. – Vamos tentar encontrá-la?
A Srta. Pettigrew avançou.
– Está na hora da aula de francês da Srta. Susannah. Ela se comportou extremamente mal essa manhã, o que, lamento dizer, não é uma situação incomum. Por isso, terá uma aula dupla, seguida por uma hora de prática de boas maneiras. Depois, ficará deitada numa tábua durante uma hora. Sua postura é deplorável.
Susannah lançou um olhar zangado para a babá, muito mais maduro que o esperado para a sua idade.
– Susannah! – trovejou Gowan.
Aquela cara feia também devia ser um traço familiar, como a capacidade de parecer altivo. E, ainda assim, Edie achou que havia uma vulnerabilidade tocante por trás da testa franzida de Susannah.
Com a voz bem baixa, Layla chamou:
– Edie.
Edie sabia exatamente o que a madrasta queria comunicar: a Srta. Pettigrew não era a pessoa adequada para cuidar da menina. Se Edie não a dispensasse, Layla provavelmente o faria, apesar de não ter nenhuma autoridade ali. A duquesa respirou fundo. Precisava assumir a responsabilidade. Era sua casa a partir daquele momento.
– Precisa ser gentil com sua babá – falou Gowan. – E com a duquesa.
Susannah dobrou as pernas duas vezes, na sua versão de uma reverência, parecendo uma cortiça lançada na água.
– Peço desculpas, Srta. Pettigrew.
Aos 5 anos, Susannah já era capaz de usar um tom absolutamente inexpressivo.
A Srta. Pettigrew abaixou o queixo em um gesto que nem de longe lembrava um sinal positivo e voltou-se para Edie:
– Como pode ver, Sua Graça, a criança foi dolorosamente mimada. Não sabe idiomas, não conhece música e não compreende qualquer tipo de comportamento educado.
Edie não considerava Susannah mimada, e sim alguém que aprendera bem cedo que era melhor manifestar desprezo do que chorar. E, sinceramente, concordava com a menina.
– Também não falo francês – disse para a Srta. Pettigrew.
Os lábios finos da babá ficaram tensos.
– Como filha de uma duquesa, a Srta. Susannah deve ser fluente em pelo menos três idiomas. Considerando sua paternidade duvidosa, seu comportamento precisa ser exemplar. Há muito trabalho pela frente.
Depois daquele discurso, Edie não precisava de mais nenhum estímulo por parte de Layla. Olhou diretamente para os olhos da mulher e disse:
– Srta. Pettigrew, agradeço por sua dedicação à família, mas dispenso seus serviços imediatamente. Bardolph, faça os devidos arranjos. A Srta. Pettigrew terá uma indenização generosa e será transportada para onde desejar.
Com o choque, a babá abriu a boca como se fosse discutir. Então Edie a encarou.
– Como eu falei – repetiu –, uma indenização generosa. No entanto, não haverá carta de recomendação.
Bardolph parecia bastante atordoado, porém entrou em ação e conduziu a Srta. Pettigrew para um canto.
Os olhos de Susannah se arregalaram, embora ela não tenha se mexido nem dito uma palavra.
– E agora, vamos procurar aquele biscoito de gengibre?
Layla deixou a bolsinha cair no chão, abaixou-se e ergueu a menininha.
Junto às curvas de Layla, as pernas de Susannah pareciam finas como as de uma garça.
Houve um momento demorado em que Layla e Susannah se entreolharam e a garota sorriu. Pareciam lhe faltar alguns dentes, o que era estranhamente encantador. Layla voltou-se para Edie e disse:
– Susannah e eu vamos encontrar o biscoito de gengibre na carruagem e voltamos logo.
Ela se afastou, segurando Susannah no colo como se ela fosse muito preciosa.
Edie respirou fundo e pegou a bolsinha da madrasta.
– Entendo por que estava preocupada – comentou Gowan, sem demonstrar julgamento na voz. – Com certeza não está acostumada com crianças, mas lady Gilchrist, sim. Talvez ela possa oferecer uma solução para o problema de Susannah.
Edie o fitou. Ele tinha mesmo acabado de sugerir entregar a irmã?
– Lorde e lady Gilchrist estão afastados em definitivo? – perguntou ele.
– Espero que não, com toda a sinceridade.
– Talvez possamos persuadir lady Gilchrist a morar aqui nesse meio-tempo.
Aquele era Gowan. Quando pensava na solução para um problema, agia com rapidez para resolvê-lo.
Edie voltou-se para as criadas de Susannah.
– Há necessidade de três criadas para cuidar de uma criança?
– As melhores casas costumam ter pelo menos três aias e uma babá, além de uma preceptora – interveio Bardolph.
Edie olhou para ele, que recuou um passo.
– Qual de vocês é a favorita de Susannah? – perguntou às criadas.
Depois de alguma hesitação, uma garota bochechuda com uma boca de traços suaves deu um passo à frente e disse, com ansiedade:
– Meu nome é Alice. Mas não falo uma palavra de francês, Sua Graça. Nem qualquer outro idioma além do inglês do rei.
– Por enquanto, será a chefe da ala infantil – ordenou Edie. – Susannah ainda está de luto, então o ensino de idiomas pode esperar. O mais importante é encontrar um instrutor de música. Quanto mais cedo começar, mais habilidosa ela será.
Era uma das coisas de que tinha certeza.
Ela mesma havia começado a estudar violoncelo quando tinha mais ou menos a idade de Susannah.
Gowan pareceu se divertir.
– Encontre um instrumentista que possa ensinar à criança – pediu ele a Bardolph.
As criadas fizeram reverências e partiram. Bardolph acompanhou um grupo de mulheres com vestidos vermelho-escuros e aventais brancos como neve.
– As criadas do andar de baixo.
– Bom dia – disse Edie.
Bardolph fez um sinal para outro grupo.
– As leiteiras.
– Bom dia.
As criadas do segundo andar foram seguidas pelas copeiras e mais outros tantos grupos, e então os engraxates. O último era de cuidadores de porcos, que eram surpreendentemente numerosos.
– Estou muito feliz por conhecê-los – revelou Edie, quando o último grupo foi apresentado. – Espero que eu consiga aprender depressa o nome de todos.
Os criados sorriram ao ouvi-la.
– Bom dia! – exclamou Gowan, seguido por um maremoto de reverências, então tudo acabou. – Há outros – atestou ele. – Os meirinhos, os comissários, o guardião da torre, e assim por diante. Mas podem esperar.
Os dois atravessaram o pátio em direção a uma porta de madeira esculpida com esmero, que estava aberta. Edie absorvia a ideia de que ainda havia mais gente para conhecer.
– O “guardião da torre”? De que torre? Vi várias da carruagem, quando estávamos nos aproximando.
– Vou levá-la para conhecer a propriedade inteira quando tiver tempo. As torres do castelo são responsabilidade do guardião do terreno, que é subordinado de Bardolph, é claro. A torre a que me refiro é uma estrutura do século XIII, sem ligação com o resto da casa, na campina perto do rio Glaschorrie.
– Parece muito romântico.
– Não – disse ele, assertivo –, não é. Ela cria um problema constante, pois os tolos não conseguem resistir à tentação de escalá-la. Um garoto despencou há dois anos e bateu com a cabeça de um jeito tão sério que quase morreu. Depois disso, designei o guardião para ter certeza de que ninguém vai se aproximar.
O hall de entrada do castelo era grande o suficiente para assar quatro ou cinco leitões e ainda sobrar espaço para danças. A acústica devia ser terrível, Edie reparou, pois o teto desaparecia na escuridão, muito distante de suas cabeças.
Bardolph chamou a atenção de Gowan imediatamente e o chamou de canto. Layla emergira da carruagem e os seguira, com Susannah correndo a seu lado, e por isso Edie aproveitou a chance para perguntar para a menina:
– Sabe onde fica o quarto do seu irmão?
– Não – respondeu Susannah, como esperado. – Tem que perguntar a ela.
Fez um sinal com a cabeça na direção da governanta, a Sra. Grisle, que tinha sido chamada a participar da conversa com Bardolph e Gowan.
– Vamos descobrir sozinhas. – Edie subiu a grande escadaria de pedra, seguida por Susannah e Layla. No alto, ela começou a abrir as portas. – Gosta de morar aqui? – perguntou para Susannah.
– É solitário. Minha mãe está morta.
A voz de Susannah saiu em vibrato.
– A minha também – contou Edie.
– Mas você é velha.
– Minha mãe morreu quando eu tinha apenas 2 anos. Mais nova do que você.
– Ah – Susannah digeriu a informação por algum tempo. – Sua mãe também caiu no lago e se afogou?
– Não. Ela pegou friagem e teve pneumonia.
– Você ficou triste?
– Eu me sinto triste por causa disso desde então. Gostaria de ter tido uma mãe.
– Mães não são tão importantes assim – disse Susannah.
Edie tentou não levar para o lado pessoal.
– Acho que as mães são importantes – anunciou Layla, se metendo.
A porta seguinte levou a um quarto grande, sem ligação com um banheiro ou com uma sala de vestir.
– Parece ser um quarto de hóspedes – comentou Layla. – Vou ficar aqui, Edie?
Era um cômodo cor de bile, inteiramente decorado em amarelo mostarda, das cortinas aos tapetes e ao dossel.
Antes que Edie pudesse responder, Susannah falou:
– Pode dormir na ala infantil, se quiser. A Srta. Pettigrew tinha uma cama por lá, mas agora ela se foi. Só que o quarto é pequeno.
Edie inconscientemente se horrorizou com a ideia, mas conseguiu se controlar. Layla não resistia a acariciar qualquer bebê que encontrava na rua. Fazia visitas só para olhar de relance as crianças que talvez aparecessem na sala de refeições. Claro que já adorava Susannah, e, aparentemente, Susannah também a adorava.
– Gosto de quartos pequenos – disse Layla. – Acho que são aconchegantes, não é?
Layla não era do tipo que viajava com pouca bagagem; levara três baús cheios de roupas. “Aconchegante” não seria bem a palavra que Edie usaria para descrever as preferências da madrasta.
O quarto do duque ficava logo adiante no corredor. Nele, os tapetes, as cortinas e o dossel eram marrons.
– Prefiro a ala das crianças. – A irmãzinha de Gowan se colocou no meio do aposento com os braços cruzados diante do peito estreito. – Não é um bom quarto – declarou ela. – É um quarto ruim e talvez alguém tenha morrido aqui.
– Não há fantasmas no meu castelo – falou Edie, caminhando para uma porta interna que levava a uma grande câmara onde havia uma banheira embutida e um vaso sanitário ao lado.
– Há três fantasmas na torre – avisou Susannah. – Dá para nadar nessa banheira.
A menina parecia impressionada pela primeira vez.
– Como é a banheira na ala das crianças? – perguntou Layla.
– Não tem banheira. Uso uma bacia.
– Então vai tomar banho aqui esta noite – prometeu Layla.
A outra porta, do outro lado da sala de banho, conduzia aos aposentos da duquesa. Era azul. Tudo azul: tapetes, decorações, cortinas. Assim que ela percebeu que o teto também era azul, Gowan entrou, vindo do corredor.
– Parece que alguém vomitou o céu – comentou Layla.
Susannah caiu na gargalhada até que Gowan lançou-lhe um olhar.
– É mais eficiente para a criadagem realizar suas tarefas se cada aposento é conhecido por uma determinada cor.
Edie estava fascinada pela uniformidade da decoração. Até a tela da lareira era azul.
– Imagino que azul devia ser a cor preferida da sua mãe.
– Não tenho a mínima ideia sobre as cores que minha mãe preferia – disse Gowan, com uma expressão indecifrável. – O aposento foi redecorado há um ano.
– E você comandou o trabalho? Até que enfim encontrei algo que você não faz bem! – exclamou Edie, sentindo-se bastante aliviada.
Ele dirigiu-se a ela com a careta característica da família.
– Posso ver agora a princesa de gengibre? – perguntou Susannah.
Ela pulava de um pé para o outro.
Layla retirou um biscoito maior do que sua mão de um saco de cambraia em cores vivas.
– Vamos poupar a princesa para depois do jantar. Este é o homem de gengibre, embora eu ache que seria mais preciso chamá-lo de cavalheiro de gengibre, pois tem botões dourados e um chapéu particularmente elegante.
Susannah segurou a iguaria com cuidado.
– O cheiro é bom. O que eu faço com ele?
– É seu primeiro biscoito de homem de gengibre?
Ela assentiu.
– Você o come.
– Como a cabeça?
– Eu sempre começo pelos pés – sugeriu Edie.
Susannah manteve os olhos fixos em Layla.
– Mas se eu comer, ele vai morrer.
– Não. Ele vai ficar na sua barriga – disse Layla. – Tem uma diferença.
– Acho melhor comer a cabeça primeiro – anunciou Susannah, assim que o silêncio pareceu longo demais. – Assim ele não vai saber o que está acontecendo.
– É um pensamento muito gentil – aprovou Layla.
Susannah virou-se e subiu na cama.
– Esse quarto não é bonito – opinou ela, mordiscando o biscoito de gengibre. – Mas a cama é boa. A minha cheira a palha, mas a sua é macia.
– Provavelmente é um colchão de plumas – disse Edie.
Gowan pigarreou e Edie de repente ficou vividamente consciente da presença dele – sem falar da proximidade com a cama com colchão de plumas.
Layla olhou para os dois, foi para o outro lado e falou:
– Você prometeu me mostrar a ala infantil, Susannah, meu amor. – E deu a mão para a criança.
Susannah desceu da cama e as duas saíram sem olhar para trás.