A Torre do Amor

Eloisa James · Capítulo 35 de 47

Páginas do PDF

A Torre do Amor

Capítulo 33

 

Edie demorou muito tempo até que parasse de chorar. Chorava por seu casamento e chorava por ter magoado alguém que a amava. Ele a amara, Gowan havia se apaixonado e ela nunca soubera disso.

Quando as lágrimas cessaram, ela se sentiu tão mal que se levantou e cambaleou até a privada, onde regurgitou todo o champanhe que ela consumira.

Retornou ao quarto ainda trêmula, mas com a mente mais clara, e sentou-se na cama para pensar. Não chorava apenas por ter ferido Gowan. Chorava porque estava apaixonada por ele. Tinha se apaixonado por ele – provavelmente entre uma parada e outra, enquanto o observava resolvendo problemas, enquanto o observava aturar uma descrição infindável de frango assado porque deixava Bindle feliz, enquanto o observava ouvir música, a música que lhe ensinaram ser um desperdício de tempo. Mesmo assim, ele respeitara seu amor pelo violoncelo e alterara o itinerário da viagem, e…

E ele a amava.

Na manhã seguinte, acordou se sentindo vazia, como uma concha cujo habitante morrera havia muito. Gowan tinha razão: ela era inútil como mulher e como esposa. Precisava beber para ter um orgasmo. O acontecimento podia conduzi-la a uma vida de embriaguez. Era como tomar láudano para sentir a deliciosa sensação de flutuar que Layla descrevera.

Edie se recusava a ser aquela mulher.

E ele também tinha razão quanto a Susannah. A criança se afastara dela após um rápido olhar. Estupidamente, foi apenas quando Layla entrou em cena que Edie soube que queria ser mãe de Susannah. Mas, claro, a menina ficaria mais feliz com Layla. A madrasta soubera exatamente o que fazer. Susannah não a empurrara. Em vez disso, Layla a pegara no colo. Era mesquinho derramar lágrimas porque as duas se amavam.

A verdade era que ela não era boa em nenhuma das coisas que fazia uma mulher ser uma mulher. Não apenas lhe faltava o instinto maternal, como também não parecia ser dotada dos instintos certos quando se tratava de intimidade. Não sabia ao certo o que tinha feito de errado na cama. Gowan estava com um olhar de desagrado no rosto quando ela abriu os olhos. Edie sentia vontade de lamentar só de pensar naquilo.

E precisara de meia garrafa de champanhe para relaxar o suficiente e apreciar o toque dele. Além disso, preferia se matar a passar horas organizando a administração doméstica de Gowan, da forma como todos esperavam.

Edie se levantou devagar. Os músculos da barriga doíam de tanto soluçar. Lá no fundo, ela sempre soubera a verdade. A música era tudo para ela. Só não tinha imaginado quanto a magoaria perceber isso.

O pai obteria a anulação do casamento. Era rico e poderoso. Conseguiria dar um jeito. Edie apenas teria que comunicá-lo e ele viria buscá-la. Lutava contra as lágrimas quando ouviu passos no corredor. Respirou fundo, esperando que fosse Mary… mas quem apareceu foi Layla.

– Que diabo está acontecendo? – perguntou Layla, entrando rapidamente e fechando a porta. – Seu marido viajou, aparentemente furioso, para as Terras Altas. A casa inteira não para de cochichar porque o sujeito nunca faz nada sem Bardolph e desta vez o deixou para trás. Levou dois lacaios, seis cavalariços, um advogado e um valete, mas todos parecem pensar que ele está viajando sem nenhum aparato.

Edie engoliu em seco.

– Vou partir, Layla. Vou voltar para a Inglaterra.

– Partir? Não pode partir. Está casada, Edie. Não pode abandonar seu marido. A menos que… – A madrasta franziu a testa. – A menos que ele tenha algum tipo de perversão nojenta. É isso?

– Não! Sou eu! – gritou Edie. – Sou eu, não entende?

– Você tem uma perversão? – indagou Layla, parecendo confusa. – Pois bem, será que não poderia… nós…

– Não – disse Edie, com a voz vacilante.

Ela se afastou, apoiando-se na beirada de uma mesinha até recuperar o controle. E continuou:

– Não sou boa nessa história de casamento, Layla. Será que podemos deixar assim? Gowan merece coisa melhor. Alguém que seja boa de cama, que não minta para ele e que queira ter filhos.

– Do que está falando? Mentiu para ele? Sobre o quê? E onde é que entram os filhos?

– Eu não teria condições de educá-los bem, como ele salientou – explicou Edie, com a voz firme. – E também não quero cuidar de um castelo, Layla. Nunca deveria ter me casado. Sou boa em apenas uma coisa e nós sabemos o que é.

– Está equivocada – comentou Layla, sentando-se no sofá. – Venha, sente-se do meu lado, querida. Sempre achei que seu pai enfatizasse demais seu lado musical. Você é muito mais do que uma instrumentista.

– Gowan não concordaria com você. – Edie lutava contra sentimentos de autopiedade, mas mordeu o lábio com força e recusou-se a sucumbir. – Vou para a Itália. Papai pode me sustentar, sei que o fará. Posso usar outro nome e começar a tocar a sério, para o público.

– Mas Edie…

– Eu decidi – disse ela, com a respiração mais calma, depois de ter se obrigado a conter as lágrimas mais uma vez. – Meu casamento acabou, Layla. Gowan ficou furioso desse jeito porque descobriu que eu tinha fingido naquelas vezes. Sabe como eu odeio quando as pessoas ficam furiosas. Apesar de merecer.

– Ah, minha querida. – Layla foi para o lado dela, abraçando-a, protetora. – Ele não devia. Ele é um animal. Deve se desculpar.

– Para quê? O sujeito que urra vai continuar a fazê-lo. Ele presumiu que eu contei tudo a você, aliás.

– Ai, meu Deus. É por isso que está tão furioso.

– Eu o traí com pessoas com quem ele não poderá evitar encontrar, pois você vai cuidar de Susannah. Não posso viver assim, Layla. Eu… eu não suporto ser tratada aos gritos, daquele jeito.

Layla apertou-a tanto que quase chegou a machucá-la.

– Não consigo compreender. O sujeito a ama.

– Segundo ele, amava a mulher que imaginou que eu era. – Edie se soltou e fungou de uma forma pouco graciosa. – Tem um lenço? Usei todos os meus e quase rasguei os lençóis durante a noite.

– Está na hora da minha anágua francesa – disse Layla, mas a gracinha não gerou a menor simpatia. – Não acho que Gowan vá permitir que você parta – argumentou ela um segundo mais tarde, depois de entregar o lenço para Edie e empurrá-la até o sofá, para junto dela.

– Ele não me quer mais. Falou que cometeu um erro ao me adquirir, pois eu não estou pronta para ser mãe. – A dor parecia uma coisa escura pulsando dentro dela. – Falou que eu fico parada na cama como uma panqueca.

– Ele falou isso? – Layla voltou a se levantar, com os punhos cerrados, a imagem de uma vingativa deusa grega. – Como ousa dizer uma coisa tão horrível, tão condescendente? Ele nem é inglês! Devia estar agradecendo aos céus por ter alguém tão bonita e talentosa como você aceitando se casar com ele! Isso sem falar no seu dote ou seu título. Seu pai vai matá-lo.

– Não é necessário. Eu… eu não posso passar minha vida me sentindo como uma xícara rachada, comprada por um vintém. Muito menos uma panqueca. Não posso.

– Seu pai cuidará de tudo. Bardolph pode ser um chato, mas é um mestre da organização. Ele providenciará carruagens imediatamente.

– O que está dizendo? Não precisa vir comigo! Precisa cuidar de Susannah.

– Íamos partir para a Inglaterra dentro de algumas semanas. Vamos apenas antecipar.

– E se Gowan for nos procurar?

– Considerando que ele partiu para as Terras Altas, não deve retornar em menos de uma semana. Suponho que haja uma leve chance de que volte a si a 35 quilômetros daqui e perceba que é um maldito de um porco.

– Está sendo dura demais.

– Não. É uma descrição acurada. Seu pai perdeu a cabeça comigo diversas vezes, mas nunca tentou me despir de minha autoestima. – Layla tocou a sineta. – Vamos sair desse país maldito o mais depressa possível.

Edie olhou para suas flores silvestres, ainda vivas, com seu jeito emaranhado de mato.

– Gosto da Escócia.

– Espere até ver o sul da França. Minha mãe me levou para lá quando eu era uma menina e nunca esqueci. Mal posso esperar para voltar.

Edie balançou a cabeça.

– Não, eu me recuso a sair furtivamente, pelas costas de meu marido, como uma criada que rouba a prata da casa. Preciso conversar com Gowan, cara a cara. Vou escrever para papai e esperar até que ele venha me buscar. Estou certa de que Gowan terá retornado até lá.

– Seu pai talvez a ignore, pois eu já lhe escrevi contando que estava aqui – informou Layla, com culpa.

– Minha querida – disse Edie, usando sua recém-descoberta determinação de falar exatamente o que pensava. – Você precisa parar de flertar com outros homens, pois está partindo o coração de seu marido.

– Mas eu nunca…

– Não é a forma correta de se comportar, embora nós duas saibamos muito bem que você jamais trairia meu pai.

Houve um momento de silêncio.

– Não tenho certeza se gosto desta nova Edie – observou Layla. – Primeiro me manda jogar minhas cigarrilhas pela janela e agora distribui conselhos matrimoniais.

– Irônico, não é? – falou Edie num tom seco. – Um cego conduzindo outro cego.

– Um dia desses – começou Layla, musical em sua sinceridade – você vai conhecer um homem que a amará de forma tão profunda que a perdoará por qualquer tolice. Esse homem mudará sua forma de pensar sobre o leito conjugal. Quando é bom… é como se duas pessoas se tornassem uma. Não há por que chamar alguém de panqueca, pois não há necessidade nem de palavras.

Edie mordeu o lábio.

– Se é assim com você e papai…

– Nós esquecemos como é – contou Layla. – E tenho a intenção de fazer tudo o que puder para que voltemos a ficar juntos. Tem razão, Edie. Eu estraguei o que havia entre nós.

– Também é culpa dele. Precisa aprender a julgar menos as pessoas.

– Mas conversaremos, conversaremos de verdade, eu prometo. Temos Susannah agora. Somos pais.

De repente, Edie não se importava mais que Susannah não tivesse gostado dela.

– Ela tem tanta sorte por ter você como mãe… – elogiou ela, sorrindo.

– E de ter você como tia – completou Layla. – Uma tia famosa e exótica que se casará com um italiano deslumbrante e delicado. Um príncipe. E residirá numa torre na colina.