A Torre do Amor

Eloisa James · Capítulo 12 de 47

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A Torre do Amor

Capítulo 10

 

Edie sentia-se como se estivesse encenando uma peça… algo maior do que ela mesma. Nada de dramático já acontecera com ela, com lady Edith Gilchrist. Até então, o momento mais empolgante de sua vida fora quando seu pai convidara um violoncelista para visitá-los, para que ele pudesse ouvi-la tocar.

Ao entrar no salão, tinha ficado feliz por encontrar Iris Smythe-Smith, que tocava violoncelo com maestria, tendo de alguma forma escapado da influência do quarteto familiar. Depois, sentira um estranho formigamento nas costas e por isso tinha virado a cabeça. E lá estava ele, caminhando em sua direção, seu futuro marido.

Foi como se os olhos de Edie tivessem grudado na figura dele e quisessem engoli-lo. As pernas de Kinross eram musculosas, bonitas, mais longas do que as dos ingleses presentes. O tórax dele era largo e os ombros pareciam ainda mais largos por causa do tecido xadrez jogado sobre eles.

E o rosto…

Era o rosto de um guerreiro, com um queixo marcante, de traços rudes, nada delicado. Por outro lado, os olhos eram impressionantes. Não havia emoção educada neles: apenas uma possessividade ardente.

Edie sentiu, de repente, como se ele estivesse olhando diretamente para ela, como se fosse o primeiro a fazer isso em toda sua vida. Era como se ele lhe contemplasse a alma e visse a verdadeira mulher que havia dentro dela. O coração de Edie parecia querer sair pela boca.

O duque se pôs sobre um joelho à sua frente. Tomou-lhe a mão, tirou-lhe a luva, beijou seus dedos.

Por um momento, Edie ficou tonta. O simples toque daqueles lábios era uma promessa de volúpia. Era o beijo que um cavalheiro errante daria numa dama antes de sair a galope para defendê-la. O beijo de um cortesão para a rainha de seu coração. Kinross havia se abaixado diante dela. Porém, ao ajoelhar-se, tinha afirmado ser um homem nascido para o comando.

Então ele se levantou, demonstrando ser muito mais alto do que ela. Como não lembrava que o noivo tinha o tamanho de um pinheiro escocês? Talvez tivesse percebido, mas não dera atenção. Não notara que ele era tão grande sob todos os aspectos. Nem que era implacável.

Parecia o tipo de homem que via uma mulher e decidia se casar com ela na mesma hora. Não por questões práticas.

A ideia era absolutamente chocante – e encantadora.

– Lady Edith – disse ele, e ela se lembrou daquele sotaque das Terras Altas que parecia acariciar sua pele como uma canção de amor.

– Prefiro que me chamem de Edie – falou ela, esquecendo-se de recolher a mão desenluvada. E então: – Seu cabelo é ruivo!

Ele ergueu a sobrancelha direita.

– Sempre foi assim. Embora não seja tão vermelho se comparado com o da maior parte dos escoceses, senhorita.

– Nunca gostei de cabelo ruivo – afirmou ela, atordoada, porque daquele cabelo… daquele cabelo ela gostava.

Era da cor do aço fundido que contém fogo nas entranhas. Era o vermelho de uma fornalha à noite, da cor de carvão em brasa.

A gargalhada dele ressoou no salão e, como se fosse um sinal, as pessoas próximas se afastaram, julgando que o drama chegara ao fim.

– A senhorita não sabia que eu era ruivo e eu não sabia que era uma instrumentista.

– Toco violoncelo – contou ela, um pouco sem graça.

– Que instrumento é esse? – indagou ele, franzindo a testa.

– O quê? Que instrumento? Não conhece?

Os olhos dele voltaram a procurar os dela e então o riso dele a envolveu.

– Suspeito que tenha muito a me ensinar, lady Edie.

Ela franziu a testa.

– Está brincando ou realmente não sabe o que é um violoncelo?

– Entendo bem pouco de música em geral. Minha avó não aprovava frivolidades e temo que ela tenha classificado a música nessa categoria.

– Música não é uma frivolidade.

– Ela achava desnecessária à vida cotidiana, ao contrário de comida e de abrigo.

Edie debateu internamente se devia ou não comunicar ao futuro marido como a música era mais importante do que o pão, em seus padrões. Não parecia um ponto a ser destacado naquele momento. Tinha muita compostura, aquele duque. Viu faíscas de profunda emoção em seu olhar, embora permanecesse ao mesmo tempo bastante aristocrático.

E másculo.

Naquele momento, Edie percebeu que não se importava com a opinião dele sobre música. Estava mais interessada em saber o que ele achava do vestido cor de vinho. Seu lado feminino ronronava de satisfação com o jeito como ele segurava sua mão.

Gowan voltou a sorrir e seu olhar se mostrava tão potente que Edie sentiu o coração disparar mais uma vez.

– Acredito que esteja na hora de seguirmos para a sala de jantar.

Pegou a mão dela e deixou-a na curva do próprio braço.

Edie nem ouvira a chegada do mordomo anunciando a refeição, mas outros convidados já se preparavam para o jantar.

Kinross a olhou com o interesse genuíno de um músico que acaba de receber uma partitura nova, algo que ele nunca havia tocado antes. E Edie se sentia do mesmo jeito.

Era muito estranho.

O sorriso no rosto de Edie vinha do coração. O duque era o autocontrole em pessoa, porém, por um momento, ela flagrou um brilho fugidio de vulnerabilidade em seu olhar.

Não estava sozinha naquele redemoinho febril de desejo e curiosidade.

Seguiram para perto dos outros convidados, que formavam uma espécie de procissão, de acordo com as regras habituais de posição social. Seu pai e Layla tinham assumido lugares na frente. Kinross, sendo duque, ia diante deles. Terminaram logo atrás dos noivos, lady Honoria Smythe-Smith e o conde de Chatteris.

Gowan inclinou-se para ela. Edie sentiu seu hálito morno ao pé do ouvido.

– É tão musical quanto a noiva e sua família?

Edie não conteve o riso.

– Não!

Senti-lo tão próximo provocou ondas de choque que percorreram todo o seu corpo.

– Melhor ou pior?

Ela riu mais ainda.

– E se eu for pior?

Observou-o com os olhos entreabertos, apreciando o flerte.

Um sorriso foi surgindo lentamente no rosto do duque.

– Poderia suborná-la para não tocar?

– Nunca. Tocar violoncelo é o que eu mais amo no mundo – disse ela. E acrescentou: – E o senhor deve ficar sabendo que é a única coisa que sei fazer verdadeiramente bem.

– Também dança muito bem.

– Justamente porque sou uma musicista. Eu estava terrivelmente doente quando nos conhecemos. Percebeu?

Ele fez que não com a cabeça.

– Não fazia a mínima ideia até ler sua carta.

– Tive uma febre alta. Parecia que eu flutuava de um lugar para outro.

– Há quem diga que bailarinos levitam. – O riso provocava rugas nos olhos dele. – Achei-a maravilhosamente graciosa.

– Estava com medo de desabar – confessou ela. E em seguida: – Acho que a única parte da noite que eu realmente apreciei foi nossa valsa. O senhor dança muito bem.

– Como a senhorita.

Era assumidamente um duque. Parecia um nobre em cada traço de seu semblante, na graça inconsciente dos movimentos, no ar de autoridade. Ao mesmo tempo… havia algo mais em Kinross. Edie inclinou a cabeça, tentando entender o que seria, mas as portas da sala de jantar se abriram e a fila começou a avançar aos poucos.

Conversou bastante durante a refeição: com um cavalheiro mais velho à sua esquerda, com Kinross à direita, e de novo com o cavalheiro.

Quando não se falavam, Edie lançava olhares furtivos na direção do noivo. Ele parecia impassível, como se ninguém pudesse desvendar o que estava sentindo naquele instante. No entanto, ela vislumbrara um traço de vulnerabilidade. Aquilo a deixara com um desejo imperioso de conversar com ele mais profundamente, para ver se conseguia vislumbrá-la outra vez.

O rosto de Kinross parecia ríspido quando não a estava fitando. Mas, a partir do momento em que os olhos dele encontravam os dela, a ferocidade desaparecia. Ela não sabia explicar o que havia nos olhos de Kinross, talvez algo de selvagem e de novo. Ninguém jamais a olhara daquele jeito.

Obviamente, não era a Edie sem graça que tocava violoncelo que ele enxergava ali. Via uma Edie vestida como Layla.

O duque moveu a perna, que esbarrou na dela e ali permaneceu. Ele lançou-lhe um olhar, com uma expressão perversamente sugestiva, e voltou para sua conversa. Não tinha sido sem querer.

Cada centímetro da pele de Edie despertou no mesmo instante. Embora aquele comportamento fosse completamente inapropriado, ela adorou. Nunca tinha sentido aquele tipo de desejo fulminante – aliás, para ser sincera, nunca sentira desejo algum a não ser por um violoncelo feito por Stradivarius. Segurou a taça de vinho e descobriu que seus dedos estavam trêmulos. Sentiu o calor subir à face.

Ele finalmente afastou a perna, voltou-se para ela e perguntou:

– Já leu Romeu e Julieta?

Edie fez que não com a cabeça. Havia tentado, depois de receber a carta dele, mas fora incapaz de entender qualquer coisa da peça. Era culpa dela, pois sempre desobedecera à preceptora e evitara as aulas de literatura. Não tinha tempo para ler. Tudo o que sempre quis foi tocar violoncelo. Acabara ficando um tanto ignorante.

Algo faminto no olhar dele fez com que ela mudasse de posição na cadeira.

– Não costumo ler muito – confessou. – Acredito que o senhor é o oposto neste aspecto.

– Minha avó, que me criou, não aprovava a leitura por lazer, mas considerava Shakespeare uma exceção. De modo geral, meus tutores ficavam ocupados demais me ensinando assuntos como contabilidade e reprodução animal, então não pude ir para a universidade. Acredite, sou muito menos culto do que possa imaginar.

Ela riu.

– Impossível. Sei quase tudo sobre violoncelo e quase nada sobre o resto.

– Sei muito a respeito de ser um duque e um proprietário de terras, e quase nada sobre música ou literatura. Mas me lembro do seguinte: quando viu Julieta pela primeira vez, Romeu a descreveu dizendo que era tão bela que ensinava às tochas como brilhar com mais intensidade.

– Não pode ter pensado isso sobre mim. Eu estava terrivelmente doente.

– Ainda assim, parecia uma espécie de tocha. Seu toque queimava minha pele.

Edie não podia acreditar que ele tivesse tantas tiradas perspicazes no meio de tanta gente.

Começava a se sentir ligeiramente sem equilíbrio. Os cílios dele eram belíssimos: espessos e retos. E os olhos a fascinavam. Em um momento, eram só arrogância aristocrática, e, no seguinte, um canalha despudorado a devorava com tanta voracidade e desejo que mais parecia que chamas desciam por suas pernas. E havia ainda o fugidio senso de humor, uma astúcia particular que a fazia sentir vontade de rir com um prazer estarrecido.

– O que Julieta pensa de Romeu ao vê-lo pela primeira vez? – perguntou Edie, recompondo-se. – Ela também pensa nele como uma tocha ardente?

– Ah, ela gosta bastante dele – contou Kinross. – Provavelmente não considerou o momento tão impactante quanto ele.

– Por que não? – indagou ela. – O que Romeu sentiu?

– O sujeito se transforma completamente, para sempre – explicou Kinross. – Ele chega ao baile apaixonado por outra dama…

Edie franziu a testa.

– Verdade?

– Ele sim, mas eu não – respondeu o duque, com franqueza.

Edie não conseguia parar de sorrir, apesar de perceber que nunca tinha sorrido daquele jeito antes. Era um sorriso de Layla.

– Romeu acredita estar apaixonado, então ele vê Julieta.

– Ela arde com o calor de uma tocha e por isso ele esquece o amor anterior? – quis saber Edie, risonha.

– Algo assim.

A voz dele parecia conter uma risada rouca também.

Edie já tinha notado que ele não era muito de rir. A vida era uma coisa séria para o duque, ela percebeu por instinto. Ele era tão determinado quanto ela, embora Edie não estivesse tão segura sobre seu objetivo.

– Ele é vítima do desejo. Arrisca-se a beijá-la por trás de uma coluna, mesmo quando tal beijo pode significar sua morte.

– Parece radical – comentou Edie.

Não conseguia parar de olhar para ele, para seus olhos, as maçãs do rosto, o nariz, o queixo. Tinha consciência de que, se alguém fora vítima do desejo ali, havia sido ela. Porém, de algum modo, não se sentia constrangida.

– Romeu joga tudo para o alto pela chance de beijar a mão dela.

– Ele teria sido morto apenas por beijar a mão de Julieta?

– As famílias eram inimigas. Mas ele não beijou somente a mão.

Um brilho no olhar do duque acendeu uma verdadeira fogueira nas entranhas de Edie.

– Ele a leva para trás de uma coluna e lhe dá um beijo na boca.

Edie engoliu em seco.

– E então a beija novamente.

– Isso é muito… – Edie não conseguiu encontrar a palavra certa.

– Ele a teria beijado durante a noite toda, mas alguém a chama. Romeu nem sabe quem ela é. Mas sabe que ela é dele. – O olhar do duque era quente e possessivo. – Então, mais tarde, Romeu pula o muro que cerca a casa da jovem e volta a arriscar a vida para encontrá-la na varanda do quarto dela.

– Ah, já ouvi falar dessa cena – comentou Edie, obrigando-se a romper o encanto da voz dele.

Se continuasse daquele jeito, ela acabaria implorando para que ele a beijasse diante de todos os comensais.

– Julieta pede que ele se case com ela – concluiu Edie.

O duque balançou a cabeça. Sob a mesa, seus dedos se entrelaçaram nos dela.

Edie deu um salto e outra onda de sangue quente subiu ao seu rosto.

– Não – disse Kinross, como se não estivesse fazendo nada tão audacioso e escandaloso. – Essa interpretação está incorreta. Todos partem do princípio de que Julieta era uma mulher descarada, porque perguntou se ele planejava se casar com ela. Mas os dois sabiam da verdade.

O polegar dele acariciava a palma da mão de Edie. Ela descobriu que tremia um pouco.

– Ela sabia e ele sabia – continuou o duque com a voz baixa e segura. – Romeu pulou o muro porque queria beijar Julieta mais do que queria viver. Ele subiu até a varanda, ofereceu seus votos. Nessa situação, o casamento nada mais é do que uma formalidade.

Edie ouvia a risada de Layla e o barulho dos talheres na louça. Deveria ter lido a maldita peça. Deveria ter passado horas lendo Shakespeare. O duque fazia a literatura parecer bem mais interessante do que sua preceptora.

– Sem Julieta, a vida não valia a pena – continuou ele. – Então, quando acreditou que ela estava morta, Romeu se matou.

– Uma atitude um tanto extrema – murmurou Edie.

Em algum momento, alguém ia reparar que seu noivo estava segurando sua mão. Do outro lado da mesa, Layla flertava loucamente com um homem que não era o pai de Edie.

– Na verdade, eu também costumava pensar que Romeu devia ser louco.

Edie sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. O duque parecia… parecia ter decidido que Romeu era inteiramente são. Aliás, o duque é que não parecia inteiramente são. Parecia faminto.

– Pare com isso – sussurrou ela. – Não deve agir desse modo.

Ela puxou a mão da dele.

Gowan sorriu para ela com um olhar tão feliz quanto insano.

– Sou escocês.

– E o que isso tem a ver?

– Há quem diga que Romeu tinha sangue escocês.

– Ele não era italiano? Para mim, parece um italiano de sangue quente.

Kinross estreitou os olhos.

– O que sabe a respeito de italianos de sangue quente?

– Nada – respondeu Edie, surpresa. – Por quê?

– Os italianos são ciumentos.

Ele pegou a taça e tomou um gole de vinho tinto.

– Ouvi falar – disse Edie, bebericando da sua taça.

Os olhos deles reluziam como gelo.

– Os italianos não são nada se comparados aos escoceses.

Edie voltou a olhar à sua volta. As conversas se desenrolavam em torno da mesa e ninguém tinha percebido que ela e o duque estavam rompendo todas as regras de etiqueta ao permanecerem completamente absortos um no outro. Para não mencionar que ele voltara a capturar sua mão e a acariciava com o polegar.

Edie conseguiu arrancar os pensamentos para longe das carícias daqueles dedos.

– Podemos deixar a literatura de lado e tentar conversar racionalmente? O senhor pretende ser um daqueles maridos que gostam de acusar a esposa de traição?

– Não. – Ele deu um sorriso torto. – Estou dizendo asneiras, não é?

– Um pouco, talvez – reconheceu Edie.

– Nós, os escoceses, somos uns tolos – admitiu ele, embora, para Edie, ele tenha se mostrado esperto demais.

Ela acenou para Layla, que se inclinava na direção de seu companheiro de mesa, o busto roçando na manga dele.

– Não acho graça nesse tipo de acusação. Por motivos óbvios.

Os olhos de Kinross seguiram os dela.

– Não acho que sua madrasta seja infiel. Talvez seu comportamento extravagante seja uma tentativa pouco sábia de conquistar a atenção do marido.

Edie sentiu uma onda do que parecia ser alegria. Gowan não era apenas racional, mas também intuitivo. Descobriu que estampava um sorriso torto no rosto.

– Exatamente.

– Não é por estar sujeito a sentir ciúme que eu estaria propenso a reagir.

– Ah.

Edie não parava de sorrir.

Mas achava que eles tinham que esclarecer esse ponto, pois se recusava a passar a vida com um marido que ficasse furioso todas as vezes que ela conversasse com outro homem. Voltou a baixar o tom de voz, embora ninguém estivesse prestando atenção.

– Nunca serei infiel a meu marido… ao senhor.

Edie nunca soubera que os olhos de um homem podiam brilhar tanto quanto brasas em chamas.

– Nem eu.

– Então se um italiano de sangue quente aparecer em seu castelo… Aliás, o senhor tem um castelo?

– Sim.

– Se o tal italiano decide piscar seus belos cílios para mim durante uma refeição…

– Talvez eu o expulse para o condado vizinho – disse o duque, inexpressivo.

Edie o examinou com atenção.

– O senhor costuma ser sempre assim? Tive a impressão de que administra uma grande propriedade. Não consigo imaginar como pode cuidar de negócios e ao mesmo tempo ser propenso à violência.

– São cinco propriedades, na verdade. Sou o juiz de paz de dois condados. Diria que costumo ser conhecido pelo pensamento racional, pela prudência e pela cuidadosa consideração de todos os lados de uma questão.

Edie ergueu uma sobrancelha.

Gowan chegou mais perto e agarrou a mão dela com mais força.

– Talvez seja porque ainda não é minha. Não pretendo voltar a falar de Shakespeare, mas Julieta diz ter adquirido a mansão de um amor sem tê-la possuído ainda.

Ele também baixou o tom de voz e Edie foi tomada novamente por aquela sensação peculiar de estar se afogando no olhar dele.

Então as palavras fizeram sentido.

– Acabou de dizer que me adquiriu? – E então soltou um “ai” ao tentar livrar a mão. – Pegou-me com muita força.

– Não quis dizer que paguei por você, muito pelo contrário. Mas Julieta diz que adquiriu Romeu.

– Então fui eu que comprei o senhor?

Edie até que gostava da ideia.

– Mas ainda não tomou posse.

A voz dele era rouca, grave, o som de um homem que sentia prazer ao inverter os papéis, um homem completamente confiante na própria masculinidade. O calor erótico de sua voz dissolveu-se no sangue de Edie, como se fosse uma bebida envenenada.

– Gosto de Julieta. Sabe, eu sempre quis ter um cachorro, mas acredito que um homem pode cumprir o mesmo papel. – Ela riu. – Meu quarto aqui em Fensmore tem até uma varanda.

O modo como ele a encarou quando ela disse aquelas palavras a fez corar outra vez.

– Não falei com essa intenção!

– A questão de ser possuído é uma via de mão dupla. Julieta também afirma que foi vendida, mas ainda não apreciada.

– Não tinha ideia de que as peças de Shakespeare fossem tão…

– Tão o quê?

O duque tomou outro gole de vinho.

De algum modo, ele conseguia parecer calmo, até sereno, apesar de acariciar o pulso dela sob a mesa.

– Sensuais – completou ela, pigarreando.

– Pois bem – disse ele, abrindo um sorriso. – Nas circunstâncias corretas, lady Edith, tudo pode ser sensual.

Edie começou a pensar na quantidade de amantes que Kinross deveria ter tido. Provavelmente sussurrara versos de amor ao pé do ouvido de escocesas desde os 16 anos. Quase abriu a boca para perguntar, mas percebeu que algumas perguntas não deveriam ser feitas.

Sentiu um aperto. Ninguém nunca se dera ao trabalho de lhe escrever versos. Ela era uma completa ignorante em relação àquelas coisas.

– A senhorita me contou que prefere ser chamada de Edie – comentou ele.

Ela assentiu.

– Ficaria honrado se me chamasse de Gowan.

Edie voltou a assentir e então vislumbrou uma jovem sentada diante dela. Fitava os dois com inveja nítida. Quando Edie a encarou, ela sussurrou:

– Você tem muita sorte.

Edie sorriu em agradecimento e olhou de esguelha para Gowan. Ele, por fim, se voltara para conversar com a dama à sua direita.

À luz das velas, a pele dele reluzia como mel. O cabelo permanecia atrás das orelhas, um toque de vermelho combinando com seus lábios cor de cereja. Parecia descender de uma longa e nobre linhagem de guerreiros.

Edie começava a se sentir estranha. Esse tipo de coisa não costumava acontecer com ela. Passava os dias tocando um instrumento musical indecoroso e discutindo com o pai. Sim, era bonita, mas não particularmente sensual. Nunca havia pensado que chamaria a atenção de um homem como aquele, eroticamente autoconfiante, porque não era uma mulher que sabia flertar ou lançar olhares sedutores. Não tinha a menor ideia de como fazer isso.

Será que o duque tinha o hábito de cumprimentar todas as mulheres – ou pelo menos aquelas que estivesse determinado a seduzir – com essa poesia intensamente sedutora? Quantas outras já teriam sido comparadas a Julieta?

Ela aguardou até que ele concluísse a conversa. De sua parte, negligenciava de forma constrangedora o cavalheiro à sua esquerda.

– Não sou assim na maior parte do tempo – revelou ao duque.

Gowan caiu na gargalhada.

– Tenho a sensação de que o senhor tem me visto sob uma série de disfarces. Primeiro, eu era calma e serena, toda de branco…

– Como um anjo – disse ele, e sua voz apresentou aquela vibração que fez Edie voltar a sentir calor.

– Mas não sou um anjo – obrigou-se a dizer Edie. – Não sou exatamente tranquila, embora tenha profunda aversão a conflitos. E esta noite… – Apontou para o vestido. – Também não sou eu.

– Sedutora? – perguntou ele. – Estou seduzido.

Edie agora compreendia como Casanova conquistara sua reputação: devia ter aquela capacidade incrível de flertar com uma mulher com tanto desejo no olhar que a fazia desabar em sua cama.

Ela voltou a se recompor.

– Um pouco como a rainha da Babilônia. Na verdade, sou bem mais comum do que isso.

– Eu também não costumo vestir kilt. Gosto de usar as cores de meu clã, mas o vento pode me fazer sentir um frio dos diabos nas pernas.

Edie sorriu.

– O kilt lhe cai bem.

Nenhuma mulher em seu juízo perfeito seria capaz de desdenhar do traje quando usado por aquele homem.

– E esse vestido também lhe cai bem.

Houve um momento de silêncio carregado de desejo.

Ele baixou a voz.

– Eu gostaria de baixar as mangas do seu vestido.

Edie mordeu o lábio, respirando com dificuldade.

– Gostaria de lambê-la, da boca até…

– Pare de falar assim! – sussurrou Edie. – E se alguém escutar?

– Haverá um escândalo. Talvez sejamos obrigados a nos casar imediatamente. Devo provocar um escândalo, minha dama?

Os olhos dele estavam iluminados por uma emoção mais intensa, mais quente do que simples bom humor. Edie ficou paralisada, atordoada com a ferocidade que via naqueles olhos. Como aquilo havia acontecido… entre os dois? O que era aquilo?

As pessoas realmente se apaixonavam assim, depois de pouco mais de alguns minutos de conversa? Poderia ela se apaixonar por um homem apenas porque ele era belo e ficava bem de kilt? Claro, ele também era inteligente, tinha aquela voz, aquela risada secreta, e era divertido… Além disso, ele a queria. Gowan a queria mais do que ela poderia ter imaginado.

Sim.

Sim, ela poderia se apaixonar.

A anfitriã levantou-se. O jantar estava encerrado. Os cavalheiros se reuniriam para tomar vinho do Porto na biblioteca, enquanto as damas se recolheriam à sala de música para o chá.

Edie não respondera à pergunta dele. O duque estendeu-lhe a mão para ajudá-la a se levantar.

– Não quero esperar mais quatro meses para me casar – confessou ele, tomando as mãos dela nas suas.

Parecia prestes a abandonar toda a etiqueta e beijá-la ali mesmo. Aquilo, sim, seria um escândalo.

– Meu pai parece não aprovar noivados curtos.

Edie ficou chocada ao perceber que estava sem fôlego como uma garota boba de 16 anos.

Absorveu a expressão do rosto de Gowan, como se houvesse música correndo por suas veias.

– Talvez eu consiga convencê-lo a mudar de ideia.

Um grande crescendo de notas musicais fluiu sobre ela e pairou entre os dois.

– Tudo bem – sussurrou ele. – Tudo bem.

Não estava certa do que tinha acabado de fazer, mas havia um brilho de alegria nos olhos dele. E isso bastava.