A Torre do Amor

Eloisa James · Capítulo 36 de 47

Páginas do PDF

A Torre do Amor

Capítulo 34

 

Gowan seguiu a caminho das Terras Altas montando seu cavalo, acompanhando a carruagem onde viajavam o meirinho e o advogado com quem deveria estar trocando ideias. A raiva o conduziu durante horas, acompanhada pela pulsante e latejante sensação de ter sido traído.

Em algum momento entre uma légua e a seguinte, a raiva escapuliu e deu lugar a uma verdade bem mais cruel: ele falhara. Era um fiasco na cama, como teria dito seu pai.

Na verdade, nunca falhara em nada até então. Ah, houve alguns problemas, como o da ferrugem na folha do trigo ou das ovelhas infectadas com alguma praga. Sim, cometera alguns erros. Mas fracasso era diferente. O fracasso…

Levou dois dias para chegar até a propriedade nas Terras Altas e compreender algo importante. Edie também nunca havia fracassado em nada até então. Por isso não suportara a ideia de lhe contar a verdade: acreditava que o fracasso era dela.

No entanto, era assumidamente dele. Mas que diabo. Todas aquelas alegações sobre honra, quando na verdade deveria ter se enroscado com uma garçonete, como o pai lhe aconselhara. Se antes tivesse rolado na cama de alguma mulher, saberia o que vinha fazendo de errado.

Atravessou as portas da antiga morada e foi direto para o quarto, ignorando o mordomo, a criadagem reunida e os homens de Craigievar que o acompanharam. Seu criado pessoal seguiu-o pelas escadas e deu com a cara na porta.

Duas horas depois, ainda estava sentado, com a cabeça entre as mãos. Algo parecido com sanidade começava a penetrar em sua mente. Ele podia resolver aquilo. Tinha que resolver. Que diabo andara pensando durante todos aqueles anos? Deveria – e poderia! – ter passado todos os minutos depois de completar 16 anos conhecendo mulheres, como os outros rapazes costumam fazer. Em vez disso, agira como um idiota metido a besta, julgando que todos os homens agiam com fria condescendência. Nunca sentira tanto desprezo e amargura por alguém no mundo – com uma única exceção.

Seu pai.

Certo.

Algum tempo depois, ele se endireitou dolorosamente e voltou para o térreo, onde pegou a vara de pescar e o anzol, recusou a oferta de um dos cavalariços e entrou no lago que ficava a uma curta distância da casa.

Existe algo em estar num lago escocês, lançando a linha, que não permite que um homem viva com ódio de si mesmo. A paz esgueirou-se dentro de seu coração com o respingar provocado por um peixe que saltou da superfície da água.

Quando voltou ao castelo, estava com frio, molhado, e com as vestes cobertas de escamas de peixe. Precisou de mais um dia de pescaria para pensar no resto da história.

No fim, ele concluiu que era o resultado da criação de um pai depravado. Evitar o uísque, evitar as mulheres, evitar banquetas baixas… Todos aqueles discursos infantis eram ele pregando ao mundo que nunca seria igual ao único exemplar de homem que conhecera. Em outras palavras, nunca se tratou da busca pela virtude – tudo tinha relação com um morto.

No terceiro dia, Gowan se pegou reparando que a água tinha um brilho verde-escuro, mas era prateada nas margens. As trutas fugiam sob a superfície, evitando seu anzol, com a mesma facilidade dos homens sábios. Aves de patas rosadas o saudavam nas campinas próximas.

Naquela tarde, ele percebeu que nunca mais ia querer ouvir outro discurso sobre uma garrafa de vinho. E também estava farto de falar sobre enguias. E sobre trigo.

Uma águia marinha mergulhou não muito longe dele e saiu com uma truta presa às suas garras. Gowan xingou em gaélico, porque a ave lhe furtara o peixe. Uma onda de felicidade começou a tomar conta dele. No entanto, ele não estava completamente feliz, de forma alguma. Pensar em Edie o deixava com a sensação de ter um buraco no coração.

A cada dia, seu desejo por ela aumentava. Gowan ansiava por ela como se fosse uma droga, como ópio, e nem era algo apenas carnal. Queria que ela ouvisse os assombrosos chamados dos gansos durante as infindáveis conversas por ocasião do acasalamento. Queria trazer para ela um buquê de nenúfares encharcados e colocar as pétalas sedosas perto da sua pele.

Uma manhã, ele não se dirigiu ao lago até estabelecer uma cadeia de comando que permitiria que só ouvisse os relatórios mais importantes. No dia seguinte, tinha ficado claro que um secretário e dois meirinhos não seriam capazes de se virar sozinhos, sem sua constante orientação. Ele os dispensou.

Como herdara o título aos 14 anos, nunca se permitira mais do que uma hora de pescaria. Havia coisas demais a fazer, mais importantes. Naquele momento, ele compreendia que quase nada era mais importante, talvez apenas recobrar o controle de suas emoções. A cada dia parecia um pouco mais possível que o controle não fosse uma opção, pelo menos no que tangia a Edie.

Talvez o amor, sim.

Precisava voltar e fazer com que funcionasse – não apenas na cama, embora isso também fosse importante. O resto. Precisavam conversar. Conversar de verdade. Não era algo fácil para ele. Até então, ele nunca tivera alguém com quem conversar.

Em pé sobre o promontório, observando a linha flutuar sobre a superfície do lago, um raio de sol atingiu algo dourado, o dourado do cabelo de Edie. Seu corpo ficou tenso, a mente turva com o desejo. Momentos depois, um pássaro cantou, com nem metade da beleza da música que Edie tirava de seu violoncelo enquanto a mão esquerda balançava as cordas, fazendo as notas flutuarem de seu instrumento.

Seu coração ficou apertado, o nome de Edie estava atravessado na sua garganta. Ela era a única coisa que importava no mundo. Não o lago, não Craigievar, não a criadagem.

Eles nada significavam.

Edie significava…

Tinha que voltar. Deixou o lago a passos largos e entrou na casa, gritando por um banho. Antes de retornar ao castelo, precisava lidar com uma série de queixas relacionadas à sua posição como juiz de paz. Naquela tarde, entrou no Grande Salão, amaldiçoando o fato de ter passado tanto tempo pescando, enquanto aqueles casos aguardavam e impediam que ele voltasse para a esposa.

Ele ministrou justiça – mais ou menos – em quatro de cinco casos. Então um cervejeiro e sua esposa, que tinham concluído ser impossível viverem em harmonia e se mudado para casas separadas, surgiram diante dele. Ela levara para o casamento, como dote, dez porcos, que agora queria de volta.

A mulher do cervejeiro não tinha queixo. O queixo do marido era pontudo como uma quina. Os dois se entreolharam com raiva, como se os porcos estivessem no aposento, fuçando diante de todos.

Que direito tinha ele de presidir o julgamento daqueles dois? Gowan não queria nada além de partir, mas não podia deixar os porcos – que eram inocentes – num limbo metafórico.

– Metade para cada parte – rosnou Gowan. – Cinco porcos para você e os outros para você.

O cervejeiro ficou vermelho como um tomate.

– Ela é minha maldita esposa e o que pertence a ela é meu! – gritou o homem. – Os porcos são meus e eu acabo com eles antes de permitir que ela leve um leitão sequer.

Gowan aproximou-se dele, sabendo que parecia um homem emergindo dos portões do inferno. Não conseguia dormir, não conseguia comer, não conseguia nem fazer suas necessidades sem pensar em Edie.

– Você não é o dono da sua esposa.

Sua voz fervia com uma ira mal contida.

O cervejeiro deu um passo para trás.

– Nenhum homem é proprietário de uma mulher. Tem sorte por ela o ter tolerado por cinco minutos, seu rufião idiota.

– Alto lá – ouviu uma voz indignada vinda de trás dele. – Você não tem o direito de dizer isso!

Gowan virou a cabeça.

A mulher do cervejeiro estava de pé, as mãos nos quadris, olhando-o com cara feia.

– Ele não é rufião. Pode ser um tapado… e ele é mesmo tapado… mas não tem o direito de chamá-lo assim só porque é um duque.

Gowan lançou-lhe um olhar de fúria que a fez empalidecer, mas a mulher não recuou. A boca do cervejeiro tinha aberto um meio sorriso. Gowan segurou-o pela gola e o sacudiu.

– Há uma chance de ela aceitá-lo de volta, seu tapado inútil.

O homem engoliu em seco.

Gowan o afastou.

– Os porcos estão confiscados até que esses dois idiotas resolvam seus problemas conjugais.

Uma balbúrdia de protestos começou no mesmo instante. Gowan olhou para o cervejeiro.

– Você a ama?

O homem voltou a engolir em seco e então assentiu.

Gowan devolveu-o para a esposa.

– Ele não age como se me amasse – disse a mulher, com a voz esganiçada. – Fica no pub até altas horas.

– Sem porcos – disse Gowan ao homem. – Nenhum porco até que aprenda a manter seu traseiro dentro da própria cozinha.

E então partiu.