A Torre do Amor
Capítulo 14
Curzon Street, 20, Londres
Residência do conde de Gilchrist
– Seu noivo – começou o conde, com precisão gélida – inicialmente havia concordado com um noivado de cinco meses, mas agora deseja reduzir esse período. Acredito que mencionei o fato de ele recentemente ter se tornado o guardião da irmã órfã, uma criança pequena. Entendo que esteja preocupado que lhe falte uma figura materna, embora não tenha expressado nenhuma grande inquietação quando pediu sua mão em casamento.
Os Gilchrists haviam retornado a Londres logo depois da cerimônia, e Gowan se dirigira a Brighton, para se reunir com os tais banqueiros. Edie estava secretamente contando os dias que faltavam para o fim da conferência. No dia seguinte, pensou ela, ou talvez naquela mesma noite.
– Eu concordaria com o maior prazer – disse ela, forçando um tom de aceitação dócil.
A última coisa que queria era provocar um ataque de fúria no pai por chamar a atenção ao fato de que ele não fizera qualquer menção a Susannah.
– Não gosto disso – revelou o pai, abruptamente.
Ele fez um movimento circular com a taça e a devolveu à mesa.
– Poderia saber o motivo?
– O duque não é o homem que pensei que fosse.
– Isso não é verdade – protestou Edie. – Gowan é exatamente…
– Gowan? Dirige-se a ele pelo nome de batismo? Que ultrajante.
O pai apertou a boca até que formasse uma linha fina.
Edie queria responder, mas só pioraria a situação.
– Não foi minha intenção falar desse modo – tentou.
– Sou esperado no Parlamento – declarou o pai.
Fez uma mesura e partiu.
Não voltou para casa na hora do jantar.
– Sabe – disse Edie à mesa –, acho que trata meu pai com gentileza excessiva, Layla. Aqui está você, em casa, enquanto seu marido vaga por aí, fazendo o que quer.
– O que sugere que eu faça? Flerte com Gryphus? Eu nem gosto do sujeito. E ele é jovem demais.
– Claro que não. – Edie baixou o garfo. – Mas por que sua vida precisa ser tão infeliz? Não estou dizendo que deva flertar, Layla. Talvez devesse desenvolver uma rotina para não se sentir tão infeliz quando papai não volta para casa.
Layla pareceu em dúvida.
– Sei que servi de pretexto, pois só debutei este ano, mas não há por que permanecer em casa nesses dias. Você raramente sai.
– É o que uma esposa deve fazer.
– Sim, mas o marido também deveria estar ao lado dela, em casa. Sem mencionar o fato de que ele deveria acompanhá-la a bailes e peças de teatro. Meu pai quase nunca está aqui, e quando está é tão frio que seria capaz de produzir gelo. Onde estaríamos hoje se papai não tivesse aceitado a proposta de Kinross? Em outras palavras, se eu ainda estivesse em busca de um marido?
– No Clube Almack, acredito – respondeu Layla. – É noite de quarta-feira e você recebeu um convite depois de sua apresentação.
– Muito bem – disse Edie. – É para lá que iremos.
– Por quê? Seu pai não saberá onde estou nem se importará. E se ele passar a noite fora, como aconteceu ontem? Ele garante que dorme em seus aposentos na Câmara dos Lordes.
Layla disse a última frase com óbvia descrença.
– Nesse caso, pelo menos terá passado uma ótima noite dançando, o que também é importante. Não há razão para ficar sentada tamborilando os dedos enquanto eu a mato de tédio de tanto tocar violoncelo. – Edie levantou-se. – Vou pedir que Mary venha me vestir para a dança.
– Tudo bem.
Edie apontou para Layla.
– A senhora, estimada madrasta, ficará feliz esta noite.
– Suponho que sim.
Layla demonstrava boa vontade, mas não conseguia ser muito convincente, exibindo um sorriso vacilante.
– Diga a Willikins que beberemos champanhe antes de sair. Vamos ficar alegres e dançar com qualquer um que nos estenda a mão. Deixe que os fofoqueiros de plantão contem tudo a papai!
Edie desceu a escada pouco depois, um meio-termo entre o casto e o sedutor. Não tivera notícias indicando que Gowan voltara para a cidade, mas é claro que ninguém se vestia para agradar a apenas um homem.
Embora ela já tivesse feito exatamente isso.
Mary usara o ferro para alisar o cabelo dela e depois conseguira fazer com que a maior parte dele se mantivesse acima dos ombros.
Layla ficou impressionada.
– Edie, querida, está absolutamente linda! – Edie examinou a si mesma. – Está tão esbelta enquanto eu ando engordando tanto…
– Você não está gorda. É deliciosamente curvilínea, Layla. Há uma diferença. E eu também não sou esbelta.
– É esbelta se comparada a mim, provavelmente porque não toma o chá da tarde. Cada uma dessas curvas foi construída à base de bolinhos. O champanhe a espera. – Layla balançou uma taça na direção da enteada. – Talvez eu tenha curvas demais para o gosto de seu pai.
– Layla, minha querida, já está falando bobagens?
Edie aceitou a taça que Willikins lhe oferecia; o mordomo se curvou e partiu.
– Acredito que já estou um pouquinho bêbada. É meu novo regime. Decidi comer apenas uvas depois das três da tarde. Chega de chá. É minha desgraça.
– Que absurdo!
– Se eu emagrecer, talvez consiga afastar seu pai de Winifred.
– Winifred? Quem é ela?
Edie sentou-se diante da madrasta e bebericou o champanhe.
Então, depois de lançar outro olhar para Layla, ela deu um gole de verdade. Era melhor que ela já entrasse no espírito do momento.
– Está dizendo que descobriu o nome da amante de papai?
– Não, mas chamei-a de Winifred. É um nome que sempre odiei, então facilita as coisas.
– Facilita o quê?
– Odiá-la, é claro – completou Layla. – Por destruir meu lar infeliz. Também a considero responsável pelo meu consumo excessivo de bolinhos. E pelo fato de que meu marido se levanta no meio da noite com a única intenção de usar o penico.
– Rá – soltou Edie, rindo apenas o suficiente da piada, nada mais.
– O que preciso é de inspiração. Vou usar Winifred como um incentivo para perder peso. Tenho certeza de que é magra, uma sílfide e absolutamente deslumbrante.
– Você é absolutamente deslumbrante – retrucou Edie, observando Layla sorver metade de uma taça de champanhe.
– O mais importante é que chegou a hora – disse Layla fazendo uma pausa dramática – de lhe contar os segredos do leito matrimonial.
– Eu os conheço – Edie apressou-se em dizer.
– Não, não, não estou falando do básico. O que estou prestes a lhe revelar são os segredos repassados de mãe para filha. – Layla hesitou e franziu a testa. – Já ouviu falar de petite mort?
Edie tinha certeza de que sim, por isso assentiu.
– Não existe uma expressão para isso na nossa língua – comentou Layla, um pouco aborrecida. – Precisamos recorrer ao francês, como se os franceses fossem os únicos capazes de dar prazer a uma mulher. Eu poderia lhe contar… – Ela interrompeu o discurso. – Mas acho que você não iria gostar, uma vez que eu estaria falando de seu pai.
– É verdade – concordou Edie. – Eu não iria gostar nada.
– Bem, o mais importante é que, se um homem pedir que você faça coisas com ele, você pode e deve ser retribuída na mesma moeda.
Edie franziu a testa. Certo, seu conhecimento a respeito das relações sexuais era rudimentar, mas não conseguia imaginar qualquer reciprocidade.
– Não, não é isso – falou Layla, abanando as mãos. – Vai entender quando vir. Quer dizer, quando lhe pedirem. Acredite em mim.
– Tudo bem.
– Devo dizer que considero extremamente improvável, mas posso ajudar, caso Kinross seja capaz de manter sua ferramenta por apenas alguns minutos ou se não conseguir levantá-la de forma alguma. Existem poções! Basta me dizer, querida, e lhe providencio o remédio correto. Posso até mandar pelo correio.
– Obrigada – disse Edie, tentando imaginar se as mulheres informavam aos maridos sobre os efeitos das poções ou se as ministravam secretamente.
– E aqui está o grande segredo. Nunca pensei que precisaria de tal coisa. – Os olhos de Layla se encheram de lágrimas. – Mas precisei.
Edie começava a se sentir confusa.
– Tem a ver com a virgindade?
– Isso? Ah, não. Não doeu tanto assim. Não se assuste com as histórias. Talvez haja algumas gotas de sangue, o que deixará seu escocês feliz. Os homens ficam absurdamente orgulhosos diante da ideia de estarem arando solo virgem.
– Solo?
– Você é o solo, minha querida, e ele tem o arado, se é que consegue acompanhar meu raciocínio. Na verdade, talvez fosse mais apropriado comparar com uma enxada. Não, o verdadeiro segredo tem a ver com levar seu marido a acreditar que você está sentindo prazer quando isso não acontece.
– Minha nossa! – exclamou Edie.
Quanto mais Edie ouvia falar sobre o casamento do pai, mais lhe parecia destroçado.
Uma lágrima deslizou pela face de Layla.
– Nunca tivemos problemas antes que tudo começasse a girar em torno de ter um bebê. É tão perturbador… – Ela fungou. – Mas não vai acontecer com você. Já lhe falei como a invejo por ter uma criança pronta que a está esperando na Escócia?
Edie ficou em silêncio. Não poderia contar a Layla como perdera o sono na noite anterior, preocupada pensando em como seria se a pequena Susannah não gostasse dela.
– Algumas mulheres nunca precisam se preocupar com esses assuntos, porque seus maridos não se importam com o fato de estarem ou não sentindo prazer. No entanto, bons maridos se importam. E há vezes em que você não consegue chegar ao fim, então ele vai continuar tentando até que você fique com vontade de gritar. O que os homens não compreendem é que uma mulher pode ficar tão fatigada ou infeliz que simplesmente não consegue sentir tudo o que ele desejaria que ela sentisse. Está me entendendo, Edie?
– Mais ou menos.
– Então, nesse caso, ela conta com apenas um recurso: a interpretação.
– Como assim?
– Ela interpreta – repetiu Layla. – Atua. Finge.
– Atua como?
– La petite mort.
– Ah.
– Você não está entendendo nada, não é?
– Não exatamente.
– Fazer amor é meio barulhento – disse Layla.
– É mesmo?
Edie estava ficando cada vez mais fascinada, embora ainda confusa. Não tinha imaginado as coisas assim.
Layla baixou a taça vazia e jogou a cabeça para trás. Um gemido rouco e sensual saiu de seus lábios. Passou a mão pelos cabelos e lançou a cabeça para a frente e para trás.
– Sim, sim, assim, mais, mais!
A porta se abriu e Willikins apareceu por trás de Layla.
– Aaahhh, assim, mon cher, com mais força! Você… você é tão… tão… – Ela voltou a jogar a cabeça para trás e aumentou o tom de voz. – Você me deixa louca. Você me deixa doida. Estou fora de mim. Estou… Estou gozando!
Willikins ficou parado no mesmo lugar onde se encontrava.
Layla endireitou a postura, arrumou o cabelo e disse:
– Willikins, precisamos encher nossas taças.
– Posso imaginar que esteja com sede – provocou Edie, rindo loucamente.
– Este é o segredo de um casamento feliz.
Edie reservou sua opinião para si. Não parecia estar funcionando para Layla. Willikins, nesse meio-tempo, serviu o champanhe sem sinais visíveis de choque. Valia cada centavo que recebia de seu pai.
Layla engoliu meia taça de um gole só.
Eram taças magras, mas mesmo assim… já era sua terceira?
– Está na hora – falou Edie, pousando a taça. – O Almack’s nos espera.
– Almack’s – grunhiu Layla, arrastando as palavras de forma quase imperceptível. – Não é um lugar onde uma adúltera pode espionar a amante de seu marido. Por acaso eu lhe contei que decidi me reinventar? Cansei de ser Layla. É um nome muito cansativo. Impossível de soletrar.
– Fique grata por não se chamar Edith. E você não é uma adúltera.
– Estou envelhecendo, o que é pior.
– Acredito que o arcebispo não concordaria com sua avaliação.
– Estou envelhecendo prematuramente – continuou Layla, com um suspiro. – É o que acontece com mulheres como eu. Ficamos por aí envelhecendo, enquanto as Winifreds do mundo roubam nossos maridos. Se eu me chamasse Joséphine, tudo seria diferente. Nenhum homem trairia uma esposa chamada Joséphine.
– Precisamos entrar na carruagem.
– Vou começar a falar francês – informou Layla, ignorando a ida ao Almack’s, pegando a taça de Edith e terminando seu conteúdo. – Será uma boa tática. Eu poderia me mudar para a França. Seria melhor do que ir para o interior.
– C’est la vie – comentou Edie. – É tudo o que sei, então nossas conversas serão breves.
– Querida, com algum esforço qualquer um pode falar francês. Uma boa frase: Évacuez les lieux!
– O que quer dizer?
– “Evacuem a área!” – exclamou Layla, sacudindo o braço. – Nunca se sabe quando será preciso gritar num lugar apinhado. Minha preceptora me ensinou todo tipo de expressão útil. Êtes-vous enceinte? Essa não foi muito útil. Não, não estou grávida. – Ela estendeu o braço e tocou a sineta. – Preciso de mais champanhe antes de sair.
– Devemos ir agora para o Almack’s – reforçou Edie. – Não costumam trancar as portas e proibir a entrada caso a pessoa se atrase?
– Sabia que eu poderia estar grávida a essa altura se seu pai não fosse tão teimoso? – indagou Layla, continuando a ignorar a enteada. – Sabe por que os coelhos têm tantos coelhinhos?
Edie obrigou a madrasta a se levantar. Alcoolizada ou não, Layla era linda, como se fosse o mais bonito doce cremoso que um homem pudesse consumir. O corpete de seu vestido azul-celeste indicava uma severa carência de bichos-da-seda pelo mundo, mas Layla definitivamente tinha o estofo necessário para o uso tão frugal de tecido.
– Você está linda nesse vestido.
– Preciso me lembrar de encolher a barriga – explicou Layla, dirigindo-se para a porta, ainda segurando a taça vazia de Edie. – Aí está você, Willikins. Por que não me serve mais uma taça e eu beberei enquanto penso numa capa?
Edie tomou a taça e entregou-a a um lacaio.
– Nossa carruagem, por favor, Wilikins. O Almack’s nos espera.
– A carruagem já está lá fora, lady Edith – respondeu o mordomo, curvando-se. Virou-se para o lacaio e tomou a capa de Layla. – Se me permite, minha senhora.
– Aqueles coelhos com coelhinhos, eles sabem o que estão fazendo – balbuciou Layla enquanto Willikins envolvia seus ombros na capa. – Além do mais, Edie, mudei de ideia. Não vamos ao Almack’s. Não servem champanhe por lá. Em vez disso, vamos à casa de lady Chuttle.
– Quem é lady Chuttle?
– Uma conhecida. Em condições normais, eu descartaria um baile oferecido por ela, por ser um tanto vulgar, mas eu pensava assim antes de receber isso. – Ela tirou da bolsa um papel amassado. – Mandei um bilhete para seu pai, pedindo que nos acompanhasse ao Almack’s. Esta é a resposta.
Edie alisou o papel. Eram apenas duas frases que lamentavam não poder acompanhá-las ao clube por já ter aceitado um convite anterior.
– Como sabe que ele planeja comparecer ao baile de lady Chuttle?
– Ninguém precisaria me dizer. Eu sabia que um homem em sua situação visitaria este evento em particular. Por isso, mandei uma resposta informando-o que o encontraríamos lá.
– E se ele tiver um compromisso inteiramente diferente?
– Para onde mais ele poderia ir? – indagou Layla, belicosa, sem levar em conta a presença do mordomo e de dois lacaios. – Ele estará acompanhado de Winifred, sem dúvida. Eu poderia apenas mencionar coelhos para seu pai, se o visse. Apenas mencionar a palavra durante uma conversa e ver se lhe traz alguma ideia.
Edie lançou um olhar para o rosto impassível do mordomo.
– Muito bem. Informe ao cocheiro que vamos ao baile de lady Chuttle, por favor, Willikins.
E foi o que ele fez. Um minuto depois, já estavam a caminho. Por infelicidade, a residência da dama ficava a apenas quinze minutos de distância, o que tornou Layla apenas um pouquinho menos bêbada ao chegarem.
– Saberei no mesmo instante quem é ela – avisou a madrasta, tagarela, enquanto desciam da carruagem diante de uma mansão.
– Está sugerindo que haverá cortesãs entre os convidados? – perguntou Edie, sentindo um crescente interesse pelo baile Chuttle no lugar da visita ao Clube Almack’s.
– Sem dúvida – respondeu Layla. – É por isso que seu pai estará aqui. Como dizia, vou reconhecer Winifred. Sei o tipo que Jonas prefere. Tenho certeza de que é uma daquelas mulheres que se apressam em dizer que, por mais que comam, não conseguem engordar. Uma vez ele me disse que eu tinha a barriga chata, sabe. Foi na época em que eu tinha a barriga chata.
– Layla – começou Edie. – Winifred já me deixou entediada e eu nem a conheci. Siga o lacaio simpático e vamos sair desse frio.
– Eu sou filha de um marquês! – anunciou Layla.
– Certo – disse Edie, encorajadora. – Winifred provavelmente nasceu numa plantação de repolhos. Aposto que ela deve colocar enchimento no espartilho para ter alguma curva no corpo.
– Não preciso recorrer a táticas tão lamentáveis – retrucou Layla, jogando a capa para trás e deixando à mostra seu busto magnífico.
– Winifred teria que colocar um repolho no espartilho para ter a sua beleza – falou Edie. – Dois. Um de cada lado.
Layla assentiu com firmeza e entrou na casa.
Até onde Edie podia ver, não havia nada na entrada que assinalasse a possível presença de cortesãs. O mordomo fez uma reverência, exatamente como fazem os mordomos, entregou suas capas para lacaios perto da parede e então as conduziu por um corredor até o salão de baile, onde fez o anúncio.
– Ah, veja só! – exclamou Layla com alegria, descendo a escada rapidamente e esbarrando no mordomo no caminho. – Lá está Betsy!
– Quem é Betsy? – perguntou Edie, descendo os degraus depressa, preparada para segurar Layla, caso ela tropeçasse.
– Uma querida amiga de minha mãe. Lady Runcible, acho que é esse o nome dela agora. Acredito que tenha ficado viúva no último verão, a pobre mulher. Terá sido seu terceiro… não… seu quarto marido.
– Que tragédia! Ou talvez triunfo seja uma palavra melhor.
Layla embrenhou-se na multidão, rebocando Edie junto com ela.
– Não é culpa dela. Eles simplesmente expiram depois de um ou dois anos. Só que ela consegue passar por tudo sem um fio de cabelo branco. Admita… isso sim é um verdadeiro triunfo.
Alguns segundos depois, ela mergulhou numa conversa com uma dama cujo cabelo tinha, de fato, um toque vitorioso: o tempo parecia ter parado para lady Runcible. Edie sorriu educadamente e procurou pelo pai. Tinha certeza de que ele não resistiria à ideia de acompanhar Layla a um baile.
Ouviu uma voz grave e alguém tocou em seu cotovelo. Virou-se e encontrou lorde Beckwith a seu lado.
– Lady Edith.
Ele olhou para o vestido que ela usava – rosa pálido, mas sem enfeites que pudessem disfarçar o busto – e seu rosto se iluminou de admiração.
– Que prazer encontrá-la por aqui.
Edie fez uma reverência.
– Lorde Beckwith, estou muito feliz por vê-lo.
– Au contraire – dizia Layla, em algum lugar próximo. – Passei tempo demais longe da vida social. Decidi virar a página. J’arrive, ma chère, j’arrive!
Lorde Beckwith curvou-se, tomou a mão de Edie e a beijou, e não a soltou quando deveria.
– Espero que não seja inapropriado, mas expresso os sentimentos de muitos cavalheiros quando digo quanto lamento por seu noivado tão súbito.
– Lady Edith permanecerá solteira por meses – informou Layla, entrando de súbito na conversa.
Beckwith curvou-se de novo.
– Lady Gilchrist. É um verdadeiro prazer vê-la.
– Queridos, onde estão as bebidas? – perguntou Layla. – Preciso admitir que, depois de uma exaustiva viagem de carruagem, eu apreciaria beber algo para restaurar minhas forças.
Momentos depois, estavam todos sentados a uma mesinha, com champanhe e pratinhos de bonnes bouches diante deles.
– Coma – pediu Edie para Layla, empurrando-lhe um prato com bolinhos. – Senão, vai ficar com uma terrível dor de cabeça amanhã de manhã.
– Au contraire – refutou Layla, com uma voz animada. – Sempre fui capaz de lidar com champanhe. Acho que nasci com borbulhas no sangue.
A viúva Runcible rebocara dois homens com ela. Candidatos, presumia Edie, para o arriscado papel de quinto marido. Layla começou a flertar loucamente com um deles, lorde Grell. Edie suspirou e virou-se para Beckwith.
– Acredito que não tenha visto meu pai esta noite?
– Ele está aqui, lady Edith. Pelo que entendi, chegaram separados?
Layla devia ter ouvido. Sua postura ficou ereta de repente e ela se inclinou ainda mais para sua presa.
– Lady Edith, posso ter a honra dessa dança? – perguntou Beckwith.
Estava prestes a aceitar quando viu o pai caminhando em direção a eles.
– Papai! – exclamou ela, levantando-se e fazendo uma reverência. – Aí está o senhor!
Layla respirou fundo e ergueu a taça de uma forma tão forçada que Edie chegou a ficar surpresa pelo fato de o vidro não ter se partido. Bebeu tudo.
– Filha – disse o pai, interrompendo o passo. – Lady Gilchrist, lady Runcible, lorde Beckwith, lorde Grell.
O segundo dos seguidores de lady Runcible havia evaporado antes de ser cumprimentado. A chegada de um homem tomado por uma raiva incandescente podia provocar reações como essa. O pai parecia um bárbaro vestido para uma festa. Embora sua casaca fosse de veludo cor de ameixa e a gravata estivesse perfeitamente alinhada, havia um toque de loucura em seu olhar.
Edie seguiu o olhar do pai e viu que Layla debruçava-se muito próxima a lorde Grell, que devia ser um tolo por não ter o bom senso de parecer alarmado.
Mesmo depois de uma vida inteira de discussões com o pai, Edie ficou apreensiva ao ver o rosto dele naquele momento. Lorde Beckwith dirigiu-lhe um sorriso com um implícito pedido de desculpas e se misturou à multidão.
– Minha nossa, aí está o meu marido! – exclamou Layla, fingindo ver o conde pela primeira vez.
Ela se dobrou para o lado como se fosse cair da cadeira, mas Edie sabia que estava procurando por Winifred.
O conde estava tomado de fúria. Edie duvidava que realmente existisse uma Winifred.
Lady Runcible levantou-se e levou lorde Grell em sua companhia, provavelmente lhe salvando a vida.
Edie esperava que o pai forçasse Layla a se levantar e chamasse a carruagem, mas, em vez disso, ele deixou-se cair na cadeira que tinha sido ocupada por Beckwith até pouco tempo antes. Edie voltou a se sentar e por alguns momentos os três permaneceram em um silêncio tenso em volta da mesinha.
Por fim, Edie falou:
– Devo deixar os dois a sós? Posso circular pelo salão ou dançar com lorde Beckwith.
– Por que deveria? – indagou Layla. – Não haverá nenhuma conversa significativa na sua ausência. Meu senhor com certeza me acusará de fazer algo deselegante com o pobre sujeito que estava aqui um minuto atrás. Como se eu tivesse chance, agora que Betsy decidiu se casar com ele.
– Não tinha tal…
Layla interrompeu o marido:
– Onde está Winifred?
Ela ergueu os olhos e encontrou o olhar de um lacaio.
– Quem é Winifred? – perguntou o conde, franzindo a testa.
Layla estava ocupada explicando ao lacaio que queria quatro taças de champanhe, duas das quais seriam para ela. Assim, Edie decidiu responder:
– Sua amante, papai.
– Como ousa perguntar algo tão impertinente para mim? Quem anda contando mentiras para sua madrasta? Eu nem conheço uma Winifred.
– O quê? – retrucou Layla, de volta à conversa. – Magra, muito magra, com um espartilho estufado com verduras, leve demais para afundar. Conhece muito bem o tipo. Se a jogasse dentro do lago, no parque, ela boiaria, resmungando como morre de inveja das mulheres que conseguem engordar.
O conde não estava entendendo nada.
– Não tente – aconselhou-o Edie.
O lacaio chegou com champanhe, e ela salvou sua taça antes que Layla pudesse pegá-la.
– Winifred – balbuciou Layla, com alguma tristeza – é a mulher que o roubou de mim, Jonas. Eu costumava lhe agradar, sabe. Não éramos exatamente coelhos, mas c’est la vie.
Ela deu de ombros e, de um gole só, bebeu metade da taça.
– Há quanto tempo ela está assim?
A expressão no rosto do pai de Edie passava de meio bárbaro para três quartos de bárbaro.
– Ah, há uns dois anos – disse Edie, pensando alto. – Na escala da harmonia matrimonial, diria que vocês dois estão no estágio oito de dez, sendo o estágio dez o atoleiro da completa falta de confiança.
– Não lhe dou o direito de falar assim comigo, minha filha – retrucou.
Edie desviou o olhar da mistura de raiva e angústia no rosto do pai… E então avistou Gowan, de pé atrás do conde.