A Torre do Amor

Eloisa James · Capítulo 15 de 47

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A Torre do Amor

Capítulo 13

 

O riso disputava com uma dor, uma necessidade premente no coração de Edie. Não conseguia mais encarar Gowan sem se inclinar para beijá-lo. Fechou os olhos e descansou o rosto em seu ombro.

– É ótimo ter princípios – concordou ela, as palavras saindo em um tom baixo e suave. – O senhor deve ter rido quando falei sobre amantes na carta, e ainda por cima doenças.

– Não ri. Foi um pedido justo. Muitos homens casados mantêm amantes, mas eu sempre esperei encontrar uma mulher com quem gostaria de ter meus filhos. Como eu poderia desonrá-la despejando ouro no colo de alguém com quem não teria intenções de casamento?

Edie virou-se e beijou o pescoço de Gowan. Era uma coluna robusta, aquele pescoço.

– Você é um homem complicado.

– Não há nada de complicado nisso. Existe um ditado escocês que diz: “Seu presente é seu futuro.” Escolhi não macular o que há por vir. Além do mais, meu pai… – ele interrompeu a frase.

– Tinha amantes? – perguntou Edie.

– Muitas.

Edie deu outro beijo sob o queixo dele, onde sentia o sangue pulsando.

– Eu pensava que meu pai tinha uma amante, mas agora não tenho certeza. Layla teme que seja por isso que ele não volta para casa à noite.

– Duvido – opinou Gowan. – Seria vergonhoso, e seu pai não é o tipo de homem que cometeria tal atitude.

Edie sorriu, sabendo que ele não poderia ver seu rosto. Seu pai era um pouco severo, mas, no fundo, uma mulher teria sorte se tivesse a seu lado alguém como ele ou Gowan.

– Sua mãe sabia dos casos de seu pai?

– Sim, ela sabia. – O sotaque escocês ficou ainda mais perceptível. – Mas seu comportamento estava à altura do dele. Não tinha o direito de reclamar.

– Sinto muito – murmurou Edie, apoiando-se no braço de Gowan para encará-lo. – Deve ter sido difícil descobrir essas coisas sobre seus pais.

– Minha mãe era famosa por seu comportamento frívolo, como descobri quando ainda era um menino. – Havia um tom sombrio de aceitação em sua voz. – Seu pai por acaso mencionou que tenho uma meia-irmã chamada Susannah?

– Verdade? Não, não mencionou. Ela mora na Escócia?

– Mora comigo e tem 5 anos. Pelo menos em tese.

– O quê? – Edie endireitou-se. – Tem uma meia-irmã que mora com o senhor e acha que ela tem 5 anos?

– Minha mãe nos abandonou quando eu tinha 8 anos e morreu há alguns meses, deixando uma filha. Supostamente, ela se casou outra vez depois da morte de meu pai. Ainda não encontramos registro de batismo da minha irmã.

– Meu Deus. – Edie saltou do colo dele e começou a andar pelo quarto antes de se virar para encará-lo. – Posso concluir que está se casando em parte para providenciar uma mãe para sua irmã? Devo lhe dizer que não tenho nenhuma experiência com crianças.

Ele também havia se levantado, naturalmente.

– Nem eu. Contratei três criadas e uma babá.

– Sinto muito. Não tive a intenção de obrigá-lo a se levantar. – Ela tornou a se sentar, desta vez diante dele. – Não sei sequer o tamanho de uma criança de 5 anos. Ela já tem a dentição permanente? Sabe falar? O que estou dizendo? É claro que ela fala!

– Ah, Susannah fala – confirmou Gowan, com sentimento. – O tempo inteiro. E também tem dentes. Mordeu-me no primeiro dia, assim que chegou a Craigievar. Portanto, sugiro que seja cuidadosa ao abordá-la.

Ele voltou a se sentar e tomou-lhe a mão.

– Minha nossa – sussurrou Edie.

Sem se dar conta, ficou olhando enquanto ele passeava um dedo pela palma da mão dela. Mil pensamentos tomaram sua cabeça. Não estava apenas prestes a se casar e a se mudar para a Escócia. Evidentemente, passaria a cuidar de uma criança órfã. Com toda a certeza, o pai poderia ter mencionado esse detalhe.

– Lembro que expressou o desejo de ter filhos apenas alguns anos depois do casamento. Não tive a intenção de omitir a existência de Susannah em minha carta. Devo confessar que, por não estar na Escócia, cheguei a me esquecer dela.

Ele não parecia se sentir culpado por isso.

– Há algum parente ajudando a educá-la? – perguntou Edie, com esperanças. – Uma tia, talvez?

Ela não conseguiria se transformar na mãe de uma criança de 5 anos da noite para o dia. Não sabia nem se já havia visto uma criança de 5 anos.

– Infelizmente ninguém. Tenho algumas tias, mas ainda não conheceram Susannah. São irmãs de meu pai – explicou ele. – Vivem nas Ilhas Orkney.

– Ela está sozinha no castelo?

– Há 130 criados na residência, incluindo quatro que se dedicam exclusivamente aos cuidados dela.

A mãe de Edie morrera quando ela ainda era pequena, mas ela sabia muito bem que uma centena de criados não compensaria a ausência materna.

– Talvez existam livros sobre o assunto – balbuciou. – A pobre criança está terrivelmente abatida? Como morreu a mãe dela, se me permite a pergunta?

– Afogada num lago depois de ingerir mais uísque do que seria aconselhável. – Gowan fez uma pausa e então prosseguiu: – Meu pai falecera anos antes, depois de beber duas garrafas de uísque. Numa aposta, sabe?

Edie começou a pensar nas tradicionais expressões de condolências que havia aprendido, mas nenhuma delas parecia adequada.

– No entanto, meu pai morreu triunfante em sua malfadada aposta, o que sem dúvida lhe serviria de consolo. Não bebo álcool, caso esteja preocupada com a possibilidade de eu ter herdado essa suscetibilidade familiar.

Gowan pronunciou isso com um tom absolutamente indiferente, como se falasse sobre a mudança no clima.

– E o pai de Susannah… seu padrasto?

– Minha mãe se dizia viúva, embora ninguém de sua criadagem soubesse muito sobre sua vida antes da mudança para Edimburgo, no ano passado. Talvez tivesse ocultado de mim o casamento para proteger a quantia mensal que recebia. Ou talvez porque Susannah seja ilegítima. Contratei detetives para descobrir. – Ele cruzou os braços. – Algumas pessoas poderiam dizer que lhe ofereço um nome maculado.

– Não seja ridículo. – Edie franziu a testa. – As tolices de seus pais não têm nada a ver com o senhor.

– É muita generosidade de sua parte. – Gowan hesitou e então prosseguiu: – Preciso lhe informar que Susannah parece ser um tanto incontrolável. Não fui o único a ser mordido. Percebo que as criadas se sentem em perigo.

Maravilhoso. Edie já estava assustada com a ideia de ter que cuidar de uma criança, ainda mais de uma criança difícil.

– Susannah tinha conhecimento da sua existência antes de aparecer na porta da sua casa? Como ela é?

– Pequena. Franzina, na verdade. Acho-a extremamente articulada para alguém tão jovem, embora sua preceptora afirme que muitas meninas costumam ser assim. E não, aparentemente ela não fazia ideia de que tinha uma família.

– Ela se parece com você?

– O cabelo tem um tom ruivo mais vibrante. Mais que isso eu não saberia dizer. Ainda não passei muito tempo na companhia dela.

– Ela deve se sentir infeliz, primeiro perdendo a mãe e então encontrando um irmão que não sabia que existia.

– Não há motivos para isso. Tenho a impressão de que ela sabia pouco sobre nossa mãe.

Edie teve a nítida sensação de que o duque de Kinross pensava que apenas um conjunto muito limitado de circunstâncias permitiria que alguém pudesse sentir uma emoção tão forte quanto a infelicidade.

– Mesmo que não fosse próxima da mãe, Susannah perdeu tudo que lhe era familiar – destacou ela.

– Recebo relatórios completos todos os dias sobre todos os eventos de importância, e a criadagem não mencionou nenhum episódio de mordidas na última semana. Portanto, estou confiante de que ela esteja se adaptando muito bem.

Edie levantou-se da cadeira mais uma vez. Toda a excitação ao redor da presença de Gowan fora engolida por uma crise de nervos. Caminhou até a prateleira sobre a lareira e pegou uma pequena madona de porcelana segurando um Menino Jesus, brincou com ela por alguns segundos e devolveu-a ao lugar. Era provável que Maria soubesse perfeitamente como criar um filho. Edie, de sua parte, sentia um terror crescente diante da ideia. Por que seu pai não mencionara a criança ao anunciar seu casamento com Gowan? Ela poderia ter protestado.

O que não faria a mínima diferença, porque o pai não daria ouvidos a suas hesitações já que a aliança faria dela uma duquesa.

– Como pode receber relatórios diários se você está aqui e Susannah na Escócia? – perguntou ao noivo.

– Um lacaio parte do castelo todas as manhãs com um relatório completo. – Ele também havia se levantado e encontrava-se do lado oposto da lareira. – Acredito que administrar uma grande propriedade é significativamente mais fácil com um fluxo constante de comunicação. Minhas propriedades mais remotas mandam mensagens para o castelo a cada dois ou três dias.

– Isso exige uma boa quantidade de criados – disse ela, espantada. – E carruagens, e cavalos.

Ele deu de ombros.

– Tenho muitos.

Então, em um instante, a tensão do desejo retornou ao olhar de Gowan, fazendo com que Edie voltasse a ficar incomodamente consciente de seu corpo. Ele deu um passo na direção dela.

– Não se preocupe com minha irmã – pediu Gowan. – Se não gostar dela, encontrarei alguém que cuide de Susannah.

– De forma alguma! – exclamou Edie. – Não estou acostumada com crianças, só isso. Vou aprender. – O sorriso de Gowan era pura tentação, e não tinha nada a ver com suas afirmações em relação à irmãzinha. – Isso é terrivelmente arriscado – opinou ela, lembrando-se de súbito de que os dois estavam sozinhos em seu quarto, numa casa estranha, no meio da noite. – Precisa partir. Eu não gostaria de arruinar o casamento de Honoria com um escândalo.

– Sim, devo partir.

Sua voz grave acariciava a pele dela como veludo.

Edie estremeceu e ouviu um acorde musical em sua cabeça. Ele não se mexeu.

– Se descobrirem que esteve aqui, haverá uma confusão terrível – refletiu ela. E então, mudando de assunto: – Você é muito grande. Tem ombros largos, quero dizer.

– Nado no lago todos os dias.

Aparentemente fora a natação que lhe dera aquele tórax que ela gostaria tanto de tocar outra vez. Ele fez uma reverência e foi em direção ao balcão. Edie o seguiu, como se estivesse presa a ele por uma corda.

– O que achou da minha interpretação? – perguntou ela, quando Gowan já pousava uma das mãos na balaustrada, prestes a descer por uma escada feita de corda que ele prendera num canto.

O rosto dele estava escondido pelas sombras. O pátio, lá embaixo, iluminado pelo luar.

– Acho que você é um gênio. Como seu pai falou. Poderia ensinar Susannah a tocar violoncelo?

– Sim – respondeu ela, percebendo pela primeira vez que ensinaria a uma criança, assim como seu pai fizera.

– Então devemos tornar possível para Susannah e para qualquer um de nossos filhos tocar diante de uma plateia, se assim desejarem.

Ele começou a descida.

A cabeça do duque desapareceu sob o parapeito de mármore, enquanto Edie ainda digeria a frase. Debruçou-se e observou seus movimentos, tão ágeis quanto como se ele estivesse descendo uma escada de madeira.

Assim que chegou ao chão, ele ergueu a cabeça e olhou para ela. O coração de Edie deu um salto ao vê-lo. Por outro lado, também experimentava uma terrível sensação de constrangimento. Talvez devesse ter se comportado com mais indiferença. E se, depois de tudo o que ocorrera entre eles, Gowan pensasse que ela era uma despudorada?

– Talvez esteja certo – disse ela suavemente, olhando para baixo. – Somos tudo o que brilha… intenso demais, repentino demais, desaconselhável demais.

– Posso seduzi-la amanhã, como se nunca tivéssemos nos encontrado antes, mas temo que todos que estavam no salão já saibam como me sinto. E o anúncio já foi publicado nos jornais.

– Coisas assim não acontecem a pessoas como eu – murmurou Edie.

– Sua voz é como música para meus ouvidos – declarou Gowan, fitando-a. – A que horas se levanta?

– Por que pergunta?

– Quero mais de você, e não apenas quando estiver olhando os bancos da igreja durante a cerimônia de casamento.

Ele falou aquilo com naturalidade, mas o coração dela foi às nuvens.

– Nove da manhã. Boa noite! – exclamou.

– Boa noite – repetiu ele, baixinho demais para que ela ouvisse.

Edie ouviu mesmo assim.

Ficou parada, agarrada ao mármore gelado, observando até que Gowan atravessasse o pátio e desaparecesse sob o pórtico.

E então ficou um pouco mais ali, ouvindo uma música ressoar em sua mente, ainda mais profunda e mais doce do que a que ela tocava no violoncelo.