A Torre do Amor
Capítulo 7
Gowan não ficou esperando que o correio chegasse. Seria mesquinho, não estaria à sua altura. Além do mais, entregara a carta a um de seus lacaios de confiança e o instruíra a aguardar pela resposta. Como sabia a duração precisa da viagem entre Londres e Brighton, não havia por que se preocupar.
No entanto…
Conseguira manter sob controle aquela emoção deselegante, a luxúria, durante seus primeiros 22 anos de vida. Desdenhara da ideia de trocar intimidade por moedas, e uma mistura de fastio e honra o impedira de aceitar animados convites de mulheres casadas. Além disso, ele estava comprometido na época, embora ainda aguardasse que Rosaline atingisse a maioridade. É claro que sentia desejo, mas sempre o mantivera sob controle.
Até encontrar lady Edith.
Agora havia soltado as rédeas e seu apetite sexual demonstrava-se feroz. Mal conseguia dormir ao sonhar com aqueles membros arredondados enroscados nele. Sua mente divagava constantemente, nutrindo imagens que fariam um sacerdote perder a cor.
Não conseguia resistir, mesmo em momentos que exigiam um pensamento mais racional, como aquele. Ele e Bardolph trabalhavam num salão privativo do hotel New Steine, aguardando a retomada da reunião com os banqueiros do Banco de Pomfrey. Lia cartas e assinava documentos enquanto Bardolph discorria sobre o relatório de um dos meirinhos.
Assinava qualquer coisa que Bardolph punha diante dele enquanto imaginava que tinha levado a esposa para o castelo em Craigievar, onde os chefes do clã dormiram geração após geração. Na cama em que seus antepassados consumaram seus casamentos.
Edith estava deitada sob ele, o cabelo espalhado na cama como seda chinesa amassada. Ele se inclinava na direção dela para acariciá-la, deslizando a mão por seus ombros desnudos, pela pele leitosa, para em seguida beijá-la como se estivesse possuído. E os olhos dela se abriam, lânguidos de desejo. Tudo nele rugia: Você é minha. E ela…
A tosse de Bardolph o trouxe de volta a um estado próximo da sanidade.
Gowan ficou paralisado, constrangedoramente consciente de que suas calças estavam apertadas por conta de uma das ereções mais rígidas de sua vida. Ficou grato por haver uma escrivaninha entre os dois.
Estendeu o braço devagar e pegou a carta que aguardava sua assinatura.
– As núpcias de Chatteris – disse ele, contemplando a página, aliviado ao perceber que sua voz estava firme, talvez até gutural.
Bardolph assentiu.
– Seu presente já foi enviado para a propriedade: uma peça de cervo e doze gansos. Esta mensagem é para aceitar o convite da família para que Vossa Graça se hospede em Fensmore. Pelo que entendi, a lista de convidados é tão longa que muitos ficarão nas hospedarias da região.
Gowan mergulhou a pena no tinteiro. Segurou-a por mais tempo do que deveria e uma gota gorda de tinta pingou no papel. O secretário emitiu um som parecido com o de um galho seco ao ser pisado.
– Viajarei com uma pequena comitiva: o senhor, Sandleford e Hendrich – afirmou Gowan, devolvendo a carta para que fosse reescrita. – Terminei a leitura da pesquisa de Hendrich sobre a indústria têxtil de West Riding ontem à noite, assim poderemos conversar. Quando chegarmos a Cambridge, os três podem voltar para Londres. Sandleford pode retornar para a Royal Exchange, mas primeiro gostaria de ouvir a opinião dele sobre a aquisição de cotas daquele artefato de vidro para iluminação, de Birmingham.
– Um contingente completo de lacaios – informou Bardolph mais para si mesmo, fazendo anotações. – Três carruagens serão suficientes, em vez de quatro, acredito. Lençóis e porcelanas devem acompanhá-lo na viagem, embora obviamente não sejam usados em Fensmore.
Gowan levantou-se.
– Vou dar uma volta.
Bardolph fez uma de suas caretas de praxe.
– Ainda temos que examinar catorze cartas, Vossa Graça.
Gowan não lhe deu ouvidos. Deixou o aposento sem falar mais nada. Talvez o escocês que existia dentro dele houvesse enfim assumido o jogo. Sentia-se mais forte, mais vivo do que nunca. Sua mente estava em disparada com palavras carinhosas e imagens indecentes. Queria possuir a esposa no bosque, deitá-la sobre um lençol branco em um campo de violetas. Queria ouvir sua voz ao ar livre, o grito de prazer de uma mulher, como uma ave grasnando. Queria…
Não queria mais ficar sentado num aposento abafado lendo mais catorze cartas antes de encerrá-las com sua longa e tediosa assinatura.
Ele disse a si mesmo, em vão, que Edith não tinha nenhum senso de humor. Para ser franco, o senso de humor não era levado em consideração em muitos de seus planos para ela. As imagens desabrochavam como rosas, cada uma fazendo um contraponto febril para a inteligência solene da carta que ela escrevera.
Queria cobri-la de presentes, mas nada se mostrava suficientemente bom. Se pudesse obter um bordado vindo diretamente do céu, tecido com luzes douradas e prateadas, ele o jogaria aos pés dela.
Não, ele a deitaria, carinhosamente, como se ela fosse Helena de Troia, sobre o prodigioso tecido. Fariam amor lentamente.
Havia perdido a cabeça.
Sua imaginação desabrochava em metáforas que descreviam uma mulher a quem vira por pouco mais de uma hora. Mais tarde, naquela noite, ele acordou de um sonho em que Edith lhe abria os braços, o ouro líquido de seus cabelos caindo quase até a cintura.
– Ah, querida – murmurara ele. – Estou emaranhado em seus cachos.
Dissera aquilo em voz alta? Nunca havia falado nada tão imbecil.
Tinha perdido a cabeça.
Sabia o motivo também. Era óbvio que ele se abstivera do contato com as mulheres por tempo demais, e, como consequência, agora estava incontrolável. A abstinência não era recomendável para os homens. Enfraquecia o cérebro. Além disso, embora ele nunca tivesse pensado duas vezes sobre desempenho, de repente se imaginava durante o ato, desastrado, sem saber exatamente o que fazer, comportando-se de forma tola.
Maldição.
Então a carta chegou.
Vossa Graça,
Fiquei muito satisfeita ao ler vossa resposta à minha pergunta
sobre estripulias extraconjugais. É gratificante saber que, embora a Natureza vos tenha tornado alvo do ardor feminino, pretenda reservar um período de aproximadamente sessenta anos para praticar as referidas atividades comigo.
Gowan leu o parágrafo três vezes e então caiu na gargalhada. Ela havia captado a referência a Shakespeare e devolvera outra.
Escrevo com a preocupação de que o senhor tenha tido uma
falsa impressão sobre a minha pessoa. Passei a noite do meu baile de debutantes muito sorridente… pois estava tão adoentada que não conseguia falar.
Mencionei tal preocupação para minha madrasta, lady
Gilchrist, que desaconselha firmemente que um casal se familiarize com as características um do outro antes do casamento. Porém, como ela não mantém diálogo algum com meu pai, considero-a uma fonte pouco confiável para assuntos como felicidade conjugal.
Se Gilchrist não tinha sido capaz de reconhecer o temperamento da esposa à primeira vista, Gowan achava que nunca conseguiriam desenvolver uma melhor compreensão mútua. Porém, lamentava saber que Edith andara doente.
Escrevo também para assegurar que não sou louca, embora a
alegação tenha valor dúbio, pois seria provável que eu insistisse na minha sanidade, mesmo que dela fosse desprovida. Deveremos então deixar as dúvidas sobre meu juízo ou a falta dele para nosso próximo encontro, nas núpcias dos Chatteris. Poderá confirmar minha sanidade, embora eu não esteja mais tão irresistivelmente silenciosa quanto durante nossas danças.
As palavras eram tão vivazes que Gowan chegava a ouvir uma mulher pronunciando-as. O único problema era que ele não conhecia a voz de Edith. Estava mais do que ansioso para se encontrar com ela sem que estivesse doente.
Por um momento, o anjo sereno com quem havia dançado acenou em sua imaginação, mas ele o afastou. Preferia se casar com uma mulher que considerava que ele havia sido criado para seu ardor. Mil vezes melhor do que ser casado com uma mulher sem senso de humor, por mais pacífico que isso pudesse ser.
Devo também confessar que considero Edith um nome sem
graça. Prefiro Edie a Edith.
Com os melhores votos de sua futura esposa, que tem bons
motivos para rezar por sua saúde… dadas as expectativas de 65 (ou talvez setenta!) anos de felicidade conjugal.
Edie