A Torre do Amor
Capítulo 20
Quando Edie acordou, saltou da cama, deixando Gowan adormecido, e fugiu para o banheiro digno de um palácio. Estava se sentindo muito melhor. Tinha acabado. Sim, fora horrível, mas dali para a frente tudo seria diferente. Não que estivesse exatamente cheia de expectativas para a próxima vez, mas era óbvio que, superada a barreira da virgindade, as coisas melhorariam.
Mesmo assim, não tinha qualquer intenção de retornar ao quarto e testar a hipótese, e quando Gowan bateu à porta para perguntar se ela se importaria de permanecer algum tempo em Londres ou se preferia ir para Craigievar, escolheu o castelo.
– Afinal de contas, Susannah está esperando por nós – disse ela, enfiando a cabeça pelo vão da porta.
Pela expressão no rosto de Gowan, Edie percebeu que ele havia se esquecido da irmã, mas ele concordou de imediato.
– Vou mandar um lacaio na nossa frente, para reservar nossas acomodações ao longo da viagem. Devemos começar nossa jornada agora se quisermos alcançar Stevenage a tempo de almoçar no Swan.
Ele deu um passo adiante. Tinha mesmo os olhos mais lindos do mundo.
– Bom dia, esposa – sussurrou.
Edie permaneceu no umbral, assinalando que ela não receberia bem um retorno ao leito, caso ele estivesse contemplando alguma coisa dessa natureza. Ele pegou o rosto dela nas mãos e a beijou com tanta doçura que ela se sentiu arrebatada.
– Que pena que… – começou ela, encarando-o depois que se afastou.
Ele deslizou um dedo no rosto dela.
– Que pena o quê?
Edie não teve coragem de dizer. Que pena que não basta beijar para se ter filhos. Ficou na ponta dos pés e deu um beijinho como resposta e então recuou para o quarto de banho.
Uma hora depois, eles já estavam na estrada. Edie ficou bastante surpresa quando o administrador de Gowan, o Sr. Bardolph, juntou-se a eles na carruagem ducal magnificamente decorada e desejou-lhe um bom dia. Se dependesse do próprio, ela teria pedido ao homem que se retirasse, mas não sabia como fazer tal coisa sem parecer rude.
Certamente não era uma questão de espaço. Embora quatro carruagens de serviço já tivessem partido, o veículo que seguia o deles de perto levava um advogado, dois administradores de propriedades e a criada de Edie. Depois de algumas explicações, ela entendeu que os homens se revezariam em consultas a Gowan. Numa terceira carruagem ia seu violoncelo, sob o cuidado de Trundle, criado pessoal de Gowan.
Edie nutrira alguma expectativa de conversar com Gowan durante a viagem. Chegou a pensar em descrever como realmente tinha sido a noite anterior. Depois de um bom sono, ela se sentia menos amedrontada, mas, mesmo assim, gostaria de tocar no assunto.
Obviamente, não poderia tratar disso diante de Bardolph.
– É como um tribunal – disse ela a Gowan quando o marido entrou na carruagem, afastando ainda mais suas esperanças para aquele dia. – Como se você fosse o soberano de um pequeno principado.
Bardolph pigarreou e, antes que a carruagem sacolejasse até a primeira esquina, ele já estava com três ou quatro livros de contabilidade abertos discorrendo sobre um tipo especial de trigo que só brotava no inverno.
E mais: Gowan agia como se aquilo fosse completamente normal, tratar de negócios na manhã seguinte a seu casamento e permanecer no canto ouvindo Bardolph enumerar quantos acres de trigo eram cultivados e quantos eram colhidos.
– Precisam mesmo tratar dessas coisas item por item? – indagou Edie, depois de uma hora.
Londres já ficava para trás, e Gowan e Bardolph agora falavam de cestas de manteiga e de leite. Ou de banha. Alguma coisa parecida.
Bardolph fez uma pausa. Edie não tinha como não reparar que o nariz do homem lembrava o contraforte de uma catedral.
– Precisamos, sim – respondeu Gowan. – Havia muito desperdício em várias propriedades antes que estabelecêssemos um sistema para verificar o que é aplicado na terra e o que é produzido.
– Está tentando controlar roubos?
– É um dos objetivos. O mais importante é que, ao asseverar o sucesso de uma técnica em determinado campo, podemos tomar uma decisão bem fundamentada sobre transferir a experiência para outros lugares.
Edie assentiu e voltou a ficar em silêncio. Ouviu uma série de números e Bardolph virando páginas após páginas, com dedos sussurrantes. Começou a ficar com raiva da voz do administrador. Era seca e ríspida, saía da boca de forma que ela jamais conseguisse ver seus dentes.
Quando começou a enumerar as armadilhas para enguias em uma das propriedades e comparar com as de outra, ela voltou a interferir:
– Gowan, vamos fazer uma parada para o almoço?
Ele estava escutando o que Bardolph dizia, ocasionalmente introduzindo uma diretriz ou uma ordem, apesar de folhear outro livro ao mesmo tempo.
– Claro. Devemos chegar a Stenevage, primeira parada, em uma hora e meia. Vamos reservar três quartos de hora para a refeição.
– Sua Graça faz a viagem para Londres com tanta frequência – explicou Bardolph – que desenvolvemos um itinerário cronometrado para a jornada inteira.
– Um itinerário cronometrado? – repetiu Edie.
Bardolph assentiu com movimentos rápidos da cabeça.
– Tomamos a Grande Estrada do Norte, em vez da Velha Estrada do Norte, pois está em melhores condições, e menos acidentes acontecem por lá. Sua Graça não aprecia ser detido por nenhum motivo. As estalagens que frequentamos com regularidade costumam cuidar de nossos cavalos, portanto poderemos fazer a troca de animais.
– Lamento a falta de emoção – falou Gowan, com uma solicitude paternal na voz que mexeu com os nervos de Edie. – Está terrivelmente entediada?
– Entediada com a enumeração das armadilhas para enguias? Claro que não – ironizou ela. – Continuem. Então uma das propriedades coloca as armadilhas à noite. O horário interfere na colheita de enguias, é essa a palavra adequada?
Bardolph retomou do ponto onde havia parado, sem demonstrar que percebia o sarcasmo na voz dela. Edie ficou atenta aos campos que passavam pela janela, pois, se fitasse seus companheiros de viagem, não conseguiria tirar os olhos dos lábios de Bardolph, que mesmo sem se abrir formavam palavras.
Quando chegaram ao Swan, em Stevenage, foram acompanhados até uma sala privativa onde uma refeição quente os esperava. Cerca de quarenta minutos depois, enquanto Edie avaliava se dispensar os lacaios que os serviam chocaria Gowan, Bardolph voltou ao aposento. No momento seguinte, os pratos desapareceram da mesa.
– Eu ainda não tinha acabado aquela truta – avisou Edie, mas já era tarde demais.
Os pratos foram erguidos em um movimento lindamente sincronizado e sumiram. O chá chegou.
Gowan exibiu um ar preocupado.
– Bardolph, parece-me que sua ordem foi precipitada.
– Não tem problema – disse Edie, escolhendo um pedaço de fruta.
– No futuro, Sua Graça deve ser consultada antes que qualquer coisa seja retirada da mesa – ordenou o duque.
Edie imaginava que aquela já deveria ser uma regra implícita, mas parecia que ela estava sendo introduzida à vida em uma monarquia onde havia apenas um rei, sem consorte. A reverência de Bardolph deixou aquilo claro, assim como seu comentário, três minutos depois, de que, para manterem a programação, seria necessário pegar a estrada novamente.
Ela pensou em se oferecer para viajar com o advogado de Gowan, Jelves, que parecia ser simpático, mas descobriu que Jelves se juntaria a eles.
Assim, Edie recolheu-se a seu canto enquanto os três homens conversaram durante o resto da tarde. Quando alcançaram a parada programada em Eaton Socon, onde passariam a noite, ela sentia como se tivesse levado um soco. Suas partes íntimas estavam ao mesmo tempo doloridas e dormentes, o que devia ser algo nunca antes visto.
Gowan tomou seu braço e a levou até a estalagem George and Dragon, mas ela o interrompeu:
– Olhe só aquilo – sussurrou, apontando o telhado.
O sol se punha e seus raios de espalhavam como fios de cobre no horizonte, emprestando às telhas um tom púrpura.
– Não há sinal de chuva – comentou Gowan.
Ela voltou a tentar.
– Veja como o sol está se pondo atrás do telhado com uma linda cor, e as andorinhas voam em meio à luz como se…
– Como o quê? – perguntou ele.
– Bem, como se estivessem ouvindo Mozart. E como se os raios fossem a partitura da música. Teria que ser Mozart pelo jeito como elas voam para cima e para baixo… – Ela apertou o braço dele com mais força. – Ali! Viu aquela ali? Está dançando.
Ela ergueu os olhos. Gowan sorria para ela, em vez de observar as andorinhas. Os olhos dele estavam apenas escuros e famintos.
– Está certa – disse ele, com ar cético. – As andorinhas estão dançando.
Pousou o dedo no lábio inferior dela e Edie sentiu aquele estranho tremor percorrer-lhe as entranhas, que acontecia quando ele a olhava daquele jeito, como se ela fosse deliciosa. Como se ele quisesse lambê-la da cabeça aos pés, da maneira que havia prometido fazer na noite de núpcias.
Sob a luz acobreada do sol que se punha, Edie pensou que seria bom ser lambida por um homem com a aparência de seu marido.
Estava prestes a dizer isso em voz alta quando Bardolph deu um passo à frente e começou a pigarrear. Em casa, era Layla quem lidava com a criadagem, e Edie tinha pouco a fazer além de ouvir as reclamações da madrasta. Mesmo depois de anos de ladainhas, ela não tinha ideia do que Layla faria naquelas circunstâncias.
Se criasse objeções à presença de Bardolph na carruagem – e na vida deles –, era bem provável que Gowan simplesmente a ignorasse. Ela não sentia que os criados também eram dela, mas como se, de certa forma, ela que tivesse se juntado às fileiras de agregados de Gowan. Na verdade, parecia-lhe desagradável o fato de que Bardolph ocupava um posto mais importante do que o dela.
Assim, permaneceu no pátio do George and Dragon fitando o crepúsculo, enquanto Gowan ouvia Bardolph falar que os melhores quartos já estavam arrumados com a roupa de cama ducal (o duque viajava com a própria roupa de cama, bem como com seu serviço de jantar).
Quando Gowan virou-se e ofereceu o braço para acompanhá-la até a estalagem, as andorinhas tinham mergulhado sob o telhado e voado como flechas em direção aos campos, em direção ao sol poente.
Ao contrário do que acontecera na suíte real do Nerot’s, dessa vez eles tinham quartos separados, possivelmente porque não havia suíte suficientemente grandiosa para os dois. Sentindo-se humana novamente, depois de um banho quente, Edie desceu até a sala de jantar privativa. Não conseguia deixar de sentir uma ansiedade crescente. E se doesse de novo naquela noite? Ela talvez devesse falar sobre seus medos com Gowan antes que ele a procurasse no leito.
Assim que ela se sentou à mesa, o mordomo de Gowan deslanchou um discurso interminável sobre algo que Edie achou parecido com uma torta de presunto, embora o Sr. Bindle usasse um termo mais rebuscado. Quando Bindle acabou, Rillings entrou em cena, descrevendo o primeiro vinho a ser servido na refeição.
Os lacaios que estavam de pé junto à parede atrás dela pareciam ter pouco a fazer além de manter seu copo sempre cheio. Assim, um dos dois dava um salto para a frente sempre que ela sorvia dois goles. Era tão desconcertante que, quando o segundo prato foi servido e Rillings abriu uma garrafa de vinho com toda a solenidade, Edie recusou.
– Prefiro água – disse ela.
Rillings franziu a testa.
– A água, num estabelecimento como este, não deve ser saudável, Vossa Graça.
Edie suspirou e aceitou uma taça de vinho. Era mais doce do que ela gostaria.
– O vinho Tokay teve origem na Hungria – ia dizendo Rillings –, sua cor profunda vem das uvas Tokaji que…
Quando terminou de explicar toda a história da produção vinícola da Hungria e saiu da sala, Edie afastou a taça.
– Gowan, por que precisamos saber a origem de cada vinho que tomamos? Preferia não saber que essas uvas estavam infestadas de mofo.
– Não acho que infestada seja a palavra correta – falou Gowan. – O mofo que se forma na parte externa das uvas é conhecido como podridão nobre.
– Não me importo se é nobre ou ignóbil. Preferia apenas beber o vinho, em vez de ouvir uma palestra sobre o assunto.
– Eu compreendo – disse Gowan. – Pedirei a Rillings que me transmita seu relatório em outra hora.
– Outro relatório. Quantos relatórios você ouve por dia? Por que mais esse?
– Pagamos 30 libras por uma dúzia de garrafas deste vinho. Se faço uma despesa desse tipo, gosto de saber exatamente o que estou obtendo em troca.
Aquele negócio de casamento era desconcertante. Edie simplesmente não conseguia parar de fazer observações sobre a própria vida. Por um lado, estava sentada à mesa com seu marido. Por outro, era lady Edith Gilchrist – ou melhor, a duquesa de Kinross – jantando com o duque de Kinross, enquanto quatro lacaios corriam pelo aposento para atender desejos não manifestados. Bindle entrava e saía, trazendo novos pratos. A duquesa aceitou uma fatia de bolo de amêndoas e uma ou duas colheradas de syllabub. Seguiu-se mais uma taça de vinho e uma delicada mousse de flor de salgueiro.
– Por favor, envie meus cumprimentos ao estalajadeiro – pediu ela a Bindle. – A mousse está deliciosa.
– Informarei o chef de Vossa Graça sobre sua satisfação – comentou Bindle, fazendo uma reverência ao sair do aposento mais uma vez.
Edie ergueu uma sobrancelha.
– Meu chef me acompanha nas viagens – explicou Gowan.
– Isso não é um tanto… digamos… exagerado?
– Instituí a prática há três anos, depois que todos adoecemos por cinco dias… um lacaio esteve à beira da morte… por causa de uma refeição indevidamente preparada. Naquele momento, determinei que valeria a pena acrescentar mais uma pessoa à comitiva.
Edie assentiu, olhando para o prato, que exibia o brasão ducal.
– É por isso que viaja com os próprios pratos?
– Exato. Há uma lamentável falta de conhecimento em relação ao que transmite doenças desse tipo, mas a condição da cozinha e dos pratos com toda a certeza figura entre os possíveis focos de infecção.
Havia uma razão lógica e indiscutível, ao que parecia, para a presença de cada pessoa da comitiva, para cada prática e costume. O duque precisava de tantos lacaios que havia sempre um homem viajando em direção à Escócia e outro vindo na direção contrária, para substituí-lo. Os administradores das propriedades iam e vinham, o advogado poderia ser necessário a qualquer momento; Bardolph pelo visto era necessário a qualquer momento…
– Não estou acostumada a estar cercada por tanta gente – observou ela.
Queria muito desabafar sobre o que sentia – dizer que não gostava daquilo – mas não conseguiu.
Gowan era como uma força da natureza. Seu corpo parecia ser formado de energia acumulada. Não era de espantar que mantivesse seis homens em constante movimento para trabalhar com ele. Sua mente explodia em muitas direções ao mesmo tempo. Tudo aquilo fazia sentido para ele. Fazia sentido viajar com um cozinheiro para evitar o risco de perder cinco dias, ou mesmo um dia, por doença.
O problema é que tudo seguia uma programação, inclusive a parte íntima. Ela sabia perfeitamente que o imenso corpo de Gowan estava tenso como um arco, desejando-a. Ficara assim o dia inteiro, durante a conversa sobre alqueires, trigo e armadilhas para enguias. Cada vez que seus olhares se encontravam, ela via desejo, loucura nos olhos dele. No entanto, a privacidade, como começava a perceber, era limitada ao quarto, depois da refeição noturna.
– Temo dizer que raramente fico sozinho – disse ele, naquele momento, adivinhando os pensamentos dela. – Você pode organizar sua própria programação, claro, embora comandar uma grande residência talvez a obrigue a dedicar menos tempo ao violoncelo.
Edie olhou para o marido com muita atenção, para ver se não estava de brincadeira. Não estava. Havia a sombra de um pedido de desculpas no rosto dele, como se começasse a compreender a importância da música na sua vida… mas, com toda a certeza, ele ainda não compreendia.
Ela nunca se dera ao trabalho de lidar com criados e comida. Antes de Mary, tinha uma aia que vivia se apaixonando pelos lacaios e caía em prantos quando eles a decepcionavam. Como daria trabalho substituí-la, Edie acostumou-se a lhe emprestar lencinhos e a escovar o cabelo sozinha enquanto ouvia os mais recentes desdobramentos românticos. Gowan contabilizava cada momento. Ela contabilizava apenas aqueles em que estudava música.
– Toco o violoncelo todas as manhãs durante três horas – contou ela. – Estou acostumada a praticar até o meio-dia. Às vezes, também estudo à tarde, mas o braço que maneja o arco se cansa e precisa de repouso. Como já viu, também costumo tocar antes de me recolher.
Ele baixou o garfo.
– Nesse caso, vai precisar de ajuda para administrar a casa.
– Quem cuida disso, no momento?
– Minha governanta, a Sra. Grisle.
– Tenho certeza de que faz um excelente trabalho.
Em geral, Edie tinha por prática deixar que as pessoas fizessem o que sabiam fazer de melhor e depois elogiá-las. Já havia notado que Gowan e ela tinham maneiras de pensar completamente diferentes. Ele regia – a palavra parecia ser adequada – uma enorme propriedade, procurando, aparentemente, manter o controle sobre os mínimos detalhes.
– Nunca se esquece de nada, Gowan?
– Outro dia ocorreu-me que esqueci o rosto de minha mãe.
Ele não parecia lamentar.
– Estou me referindo a dados e números.
– Tenho sorte de ter um cérebro que cataloga detalhes, então sofro de pouquíssimos deslizes.
Não era de surpreender que as pessoas ficassem orbitando à sua volta como um bando de pardais pousados numa cerca.
– Por que não foi para a universidade?
– Não pude. Meu pai morreu quando eu tinha 14 anos. – Ele deu de ombros. – Parecia que a única coisa que fazia era divertir-se com as criadas e beber todo o uísque da casa, e os negócios tinham sido deixados totalmente de lado. Precisamos de quatro anos para recuperar a nossa fazenda, e alguma das outras só começaram a dar lucro nos últimos dois.
O rosto de Gowan estava tão impassível que Edie sentiu um calafrio.
Ele usava uma casaca cinza-escura, a cor da névoa no início da noite, enfeitada com fios de prata. Os botões eram ornamentados por paetês de prata. A luz das velas dava brilho a seu cabelo e refletia na prataria ducal enquanto Gowan cortava a carne com sua habitual graça contida.
Era a personificação da civilização, da cultura mais requintada.
Ao mesmo tempo, era absolutamente não civilizado de uma forma fundamental e profunda.
E ainda era jovem. Se era daquele jeito aos 22 anos, quando chegasse aos 40 estaria governando a Escócia. Ou todas as Ilhas Britânicas, se a monarquia hereditária não criasse entraves em seu caminho. Tinha aquele tipo de poder discreto mas arrebatador. Os homens seriam capazes de segui-lo a qualquer parte. As mulheres também, claro.
Edie bebericou o vinho, pensando no assunto. Era como se estivesse casada com um tigre. Mesmo que um tigre esconda suas garras, isso não quer dizer que não possam ser usadas a qualquer momento. Era de certa forma vergonhoso perceber que ela – uma jovem perfeitamente lógica, educada para encarar a música como o máximo da civilização – se deixava empolgar pelo toque de selvageria que pairava sobre seu marido.
Mesmo depois da desgraça da noite anterior, era só Edie olhar para ele que aquele calor recomeçava, como se estivesse derretendo entre as pernas. De qualquer modo, ela pensou que era muito estranho que duas pessoas que mal tinham se visto devessem dormir na mesma cama, ainda mais praticar todas aquelas coisas que provavelmente voltariam a fazer.
– Não acha estranho casar com uma quase desconhecida e se pegar compartilhando as refeições com ela? – perguntou.
Fora um dia cansativo, assim ela pousou um cotovelo na mesa – a etiqueta que fosse para o inferno! – e apoiou a cabeça de forma a fitar Gowan, sem ser óbvia demais. Ele era um homem deslumbrante, aquele marido dela.
– Não vejo nada de estranho – disse ele. – Sinto que sei tudo de importante sobre você.
Ela não gostou de pensar que ele fizera um resumo sobre ela em questão de minutos, mas para ser justa…
– Contou-me sobre seus pais – falou ela, lentamente. – E já me viu tocar violoncelo. Talvez já saibamos o que há de mais importante sobre o outro.
Gowan franziu a testa intrigado. Na verdade, com uma ferocidade próxima à de seu pai.
– Meus pais não me definem – declarou.
Talvez ele pensasse que ela se sentiria repreendida pela frieza em sua voz, mas Edie havia sido criada dentro de um ringue de boxe. Podia não lutar como Layla, mas isso não queria dizer que se sentisse intimidada.
– Então o que o define? Seu título?
– Não.
– Pois bem, o que o define, então?
– Ninguém se define por uma única qualidade. – Para ser justa, ele controlava seu temperamento bem melhor que o pai. – Você pode ser uma instrumentista, mas isso não resume quem você é.
Edie pensava dessa forma, mas ele poderia descobrir quanto ela era rasa em outra ocasião.
– Então quais são as qualidades que o definem, além de seus pais e de seu título? – perguntou ela, endireitando a postura.
– Esta não é uma conversa adequada para ser travada diante dos criados – comentou ele, num momento de afetação.
Edie ergueu uma sobrancelha.
– Gowan, você faz todas as refeições cercado de criados. Nunca poderemos ter uma conversa interessante à mesa?
Naquele momento, ele pareceu ter se zangado de verdade, o que foi interessante. Edie abriu-lhe um sorriso, pois era bastante divertido provocar o tigre. Realmente gostava do marido. De fato, reconhecia, não sem algum constrangimento, que se não fosse cuidadosa poderia acabar tomada por tantas emoções que a vida conjugal de Layla pareceria estar em harmonia.
Ele não respondera às suas perguntas. Talvez achasse que ela aceitaria a reprimenda. Não seria assim.
– Quando podemos conversar? – repetiu ela. – Quando não está trabalhando, estamos à mesa. Ou na cama.
Ele pressionou os lábios com força. Depois de viver anos com o pai irascível, ela havia reparado que ele costumava precisar de um ou dois dias para aceitar um argumento que ela levantara. Era provável que Gowan funcionasse do mesmo modo. Abriu um grande sorriso.
– Nesse meio-tempo, talvez pudesse me falar mais sobre enguias.
O canto da boca de Gowan estremeceu.
– Devo entender que me cabe a decisão de dispensar os lacaios ou discutir enguias?
– Eu poderia discorrer detalhadamente sobre os encantadores prelúdios de Domenico Gabrielli, compostos para acentuar as possibilidades melódicas do violoncelo.
O sorriso torto de Gowan aumentou e Edie concluiu que tinha conseguido esclarecer seu argumento.
– Podemos deixar Gabrielli para amanhã.
Ela olhou de relance para um lacaio, que deu um passo à frente, para puxar sua cadeira.
Gowan levantou-se e contornou a mesa até chegar a seu lado.
– Deve estar exausta.
Na verdade, estava mesmo exausta, mas não tinha praticado violoncelo no dia anterior nem naquele e seus dedos começavam a sentir falta do arco.
– Preciso estudar – explicou ela.
Gowan pôs a mão no cotovelo dela para conduzi-la e Edie sentiu o calor percorrer seu corpo. Chegou a ficar um pouco tonta diante de toda aquela intensidade.
– Vai praticar durante uma hora? – perguntou ele, enquanto se afastavam do aposento.
Seu rosto não refletia o calor sensual que deixava os joelhos de Edie bambos.
– Duas horas – corrigiu ela, decidindo que precisava garantir que não negligenciaria o instrumento apenas por gostar tanto dos beijos do marido.
Ele assentiu para Bardolph, que estava circulando pelo corredor.
– Parece que teremos tempo para revisar os planos de compras de participação no negócio de mineração. Eu me encontrarei com o senhor na sala de estar. Jelves também estará presente.
Enquanto subiam a escada, Edie percebeu que Bardolph desaparecera na sala de estar e que os dois teriam de fato um momento de privacidade.
– Vai me procurar no quarto esta noite? – sussurrou ela.
– Vou.
O calor agradável que subiu por suas pernas foi a resposta para a expressão dele. Podia ver o tigre por trás dos olhos escuros. Embora sentisse um pouco de medo, a esperança reapareceu.
Ele leu sua mente.
– Não é mais virgem – constatou ele, tomando suas mãos e levando-as a seus lábios. – Desta vez será diferente.
Havia uma convicção na voz dele que a deixou empolgada. Devia ter razão, claro. Cada vez que encontrava o olhar dele era tomada por aquele sentimento estranho, sem sentido, que ocupava ainda mais espaço dentro dela.
– Não olhe para mim desse jeito – rosnou ele. – Maldição. Vá tocar seu violoncelo, Edie.
Ela fez um biquinho, desfrutando de uma espécie de alegre prazer feminino quando os olhos dele se prenderam no lábio inferior dela.
– Queria praticar, mas…
Ela deu um passo à frente e ele a puxou mais para si, apertando-a contra seu corpo. Edie mergulhou o rosto na casaca dele.
– Adoro o seu cheiro.
Talvez ela pudesse acordar ao alvorecer para estudar. O violoncelo podia esperar.
No entanto, ele deu um passo para trás e ela não teve coragem suficiente para tomar sua mão e arrastá-lo para o quarto. Em vez disso, passou pela porta, pegou o violoncelo e se sentou, erguendo as saias até a altura das coxas.
Assim que começou a tocar, sua emoção se dirigiu para a música e ela compreendeu as estações de Vivaldi de uma forma diferente. Havia “Primavera”… o florescer da emoção. E o “Verão”, quando todas aquelas notas alegres se transformavam em fertilidade selvagem sob seu arco. Parou apenas quando percebeu que já haviam se passado mais de duas horas e que estava completamente exausta.
Mary veio ajudá-la com as roupas depois que ela tocou a sineta, bem-humorada, aceitando seu pedido de desculpas.
– Há uma programação muito doida a ser cumprida aqui – contou a criada. – Completamente doida! O Sr. Bardolph, na minha opinião, é como um general do Exército. Ainda bem que sou sua aia e que devo ajudá-la a se vestir. Caso contrário, ficaria acordada até as três da manhã e precisaria estar já na carruagem às quatro.
– Isso é terrível! – exclamou Edie. – Ninguém dorme direito?
– Ah, não é bem assim. Sua Graça é um homem muito justo, pelo que ouvi por aqui. Recebe-se mais durante as viagens e a maioria das pessoas pode dormir de tarde, antes da chegada das carruagens do duque na estalagem.
– Mesmo assim eu detestaria ter que acordar tão cedo.
– Ele me faz lembrar o tempo em que eu era arrumadeira – disse Mary, passando uma camisola pela cabeça de Edie e entregando-lhe a escova de dente. – Costumávamos acordar logo antes do amanhecer para limpar as grelhas. Fiquei muito grata quando fui promovida. Não pode imaginar.
– Pois bem, lamento muito mantê-la acordada até tão tarde – comentou Edie, pulando para a cama. – Amanhã à noite vou trocar de roupa antes de começar a estudar, para que você possa se recolher em paz.
Mary virou-se, quando se aproximava da porta.
– Todos nós achamos que a senhora e o duque formam um bom par – anunciou.
– De verdade?
Edie estava estarrecida.
Não achava que ela e o marido tivessem muito em comum. De fato, estava um pouco preocupada que ele só se interessasse por enguias, e ela, por partituras, sem muitas intercessões.
– Os dois têm belos modos – continuou Mary. – Os empregados que trabalham para Sua Graça há anos nem se incomodam com os horários malucos, porque dizem que ele sempre é justo e nunca faz ninguém se sentir um idiota. Embora ele tenha um temperamento forte, pelo que dizem.
Ela arregalou os olhos.
– Uma imensa diferença entre nós – retrucou Edie. – Obrigada, Mary, de qualquer forma. Espero que esteja certa.
Era um tanto estranho ficar deitada na cama à espera de um homem. Sentia formigamentos em partes do corpo às quais não costumava prestar atenção.
Na noite anterior, Gowan tinha sussurrado ao pé de seu ouvido que adorava seu traseiro. Era bom ter alguém dizendo como era belo, levando-se em conta o fato de que ela nunca havia pensado direito sobre o assunto. Era como receber a herança de um parente desconhecido.
Ali, deitada no escuro, à espera, seu corpo inteiro começava a despertar, pois Edie não conseguia parar de pensar nas mãos grandes dele deslizando por seus quadris e na curva dos seios. Diante daquela lembrança, seus mamilos ficaram intumescidos.
Mas Gowan não chegava nunca. A imaginação de Edie não parava de lhe fornecer imagens da noite anterior. O marido a beijara com ferocidade, até que a única coisa que ela conseguia ouvir era o trovejar do coração dele, ou talvez do seu. Ela podia entender… podia realmente entender como…
Depois de alguns minutos, resolveu verificar se ainda estava dolorida.
Não estava.
Era surpreendente. Então, sem pensar muito no assunto, ela começou a se tocar como ele fizera. Suas partes íntimas pareciam macias e complicadas sob seus dedos, as carícias provocavam pequenas ondas de calor por suas coxas. A região que ela lavava rapidamente, uma vez por dia, há dezenove anos, estava parecendo… diferente.
Não era bem dela, porém era inteiramente dela.
Por trás da escuridão segura de seus olhos fechados, Edie relembrou a forma com que Gowan se despira e lentamente desenrolara o kilt. A sensação quente, borbulhante que ela saboreara quando ele se livrou da camisa e viu aqueles músculos firmes do abdômen.
E durante todo esse tempo, o toque de seu dedo fazia o calor aumentar em seus membros, até que ela estivesse praticamente latejando naquela região.
Era como se estivesse num casulo seguro, naquele quarto escuro, acomodada sob as cobertas.
Então a porta se abriu.