A Torre do Amor

Eloisa James · Capítulo 5 de 47

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A Torre do Amor

Capítulo 3

 

A caminho do Hotel New Steine

Brighton

No exato momento em que sua prometida o rotulava de impulsivo, Gowan pensava a mesma coisa de si mesmo. Nunca fizera nada tão imprudente antes. Nunca.

Na verdade, não se lembrava de ter feito nada impulsivo, muito menos mergulhar em uma das mais importantes aquisições de sua vida sem antes fazer uma pesquisa profunda.

A verdade era que ele nunca fazia nenhum tipo de aquisição. Tinha quem fizesse isso para ele. Não gostava de fazer compras. A única coisa que comprava diretamente eram os cavalos.

Um pensamento reconfortante atravessou sua mente: ele havia comprado a maior parte de seus animais e não teve problemas com nenhum deles. Viu a égua certa e reconheceu instantaneamente que ela se encaixaria em seu programa de reprodução.

Claro que aquela não era uma forma muito lisonjeira de pensar em sua futura esposa, mas era a verdade. Dera uma olhada em lady Edith e percebera no mesmo instante que a queria. E queria filhos com ela.

A ideia de levá-la para a cama era inteiramente agradável. Apesar de toda a modéstia no olhar e nos modos dela, seu corpo era deliciosamente arredondado. As outras jovens pareciam esqueletos enrolados em 1 ou 2 metros de tecido. Fileiras e mais fileiras de esqueletos com cachinhos que batiam nos seus ombros ossudos.

Não era um pensamento gentil, ponderou ele. Estava tentando controlar seus instintos descritivos: podiam ser expressados silenciosamente, mas não conseguia ignorar o fato de que eram quase sempre críticos. Sempre críticos, insistiu sua consciência.

No entanto, não encontrara um único aspecto negativo em lady Edith, além de seu nome. Quem poderia gostar dele? Ela era um anjo, não combinava com o nome Edith.

O nome de sua primeira noiva era Rosaline, que soava romântico. Os dois haviam sido prometidos um para o outro ainda crianças. De fato, não tinham sequer se conhecido até que ela completasse 16 anos e ele, 19. Então combinaram que esperariam a maioridade dela – mas Rosaline morreu dias antes de seu aniversário. Naqueles dois anos, só tinham se encontrado duas vezes. Não havia como chamar aquele relacionamento de romântico.

– Vossa Graça?

Bardolph, seu administrador, estava sentado no banco oposto da carruagem, parecendo irritado. Ele trabalhara como agente do pai de Gowan e fora herdado por ele assim como as garrafas de vinho na adega. O fato era que, ao contrário do vinho, Bardolph não melhorava com a idade. A barba pontuda terminava de uma forma que lembrava a de um bode. Digna de um bode. Com jeito de bode…

Gowan se esforçou para se concentrar no assunto em questão.

– Sim?

– O meirinho e o administrador da mina discordam sobre o lodo resultante das escavações na mina de estanho Currie, que está matando os peixes no rio Glaschorrie – informou Bardolph, da forma meticulosa que costuma ser usada por pessoas que foram ignoradas na primeira vez em que falaram algo.

– Interrompa a mineração – ordenou Gowan. – A não ser que consigam controlar o vazamento da mina, teremos que fechá-la. Seis aldeias dependem dos peixes desse rio.

Bardolph virou-se para o livro-caixa e Gowan voltou a pensar.

Gilchrist tinha sugerido um noivado de cinco meses, o que parecia ótimo. Não tinha pressa para iniciar a vida de casado. Era de esperar que a adaptação de uma esposa causasse certo nível de rebuliço, e ele não gostava de rebuliço.

Então pensou na pele cremosa de lady Edith. “Cremosa” não era a palavra certa. Nunca vira uma pele assim tão branca, como o mais alvo dos pergaminhos. Decidira que o lago Ness era mais escuro do que os olhos dela, cujo tom se aproximava mais do verde de um junípero.

O pensamento lhe causou uma onda de possessividade. Em breve, ela lhe pertenceria: os olhos sonhadores, a pele branca, a boca rosada e o resto… Fechara a negociação da noiva por uma soma que deixaria Bardolph perto de um desmaio.

Concordou com tudo que Gilchrist pedira. Quando se tratava de uma esposa, não cabia pechinchar. Seria falta de educação.

Bardolph voltou a erguer a cabeça.

– Vossa Graça, poderíamos conversar sobre as provisões do contrato com o Sr. Stickney-Ellis relativas à ponte que será construída sobre o Glaschorrie? Tenho os termos estabelecidos pelos construtores.

Gowan assentiu e se acomodou melhor no assento. Nada de pensar em lady Edith: era prejudicial à sua concentração, algo inaceitável. De fato, assim que ela estivesse no castelo, ele precisaria garantir que ela não perturbasse mais sua atenção.

Não sabia exatamente o que a avó fazia desde a manhã até a noite, mas tinha a ver com roupas de cama, doentes e arrendatários…. Gilchrist com certeza se assegurara de que a filha fosse bem treinada.

O conde era um tanto severo, mas também um sujeito decente.

A voz de Bardolph se esgueirou pela sua mente. Ele ergueu a mão.

– Preferia três arcos em vez de dois.

O administrador fez uma anotação e continuou balbuciando o que estava escrito na página.

Gowan pigarreou.

– Sim, Vossa Graça?

– Amanhã de manhã será publicado um anúncio no Morning Post relativo ao meu noivado. Jelves está concluindo o acordo.

Bardolph ficou boquiaberto.

– Vossa Graça, o senhor…

– Fiquei noivo de lady Edith Gilchrist. Lorde Gilchrist se ofereceu para enviar o anúncio aos jornais.

Bardolph abaixou a cabeça em sinal de respeito.

– Posso lhe oferecer minhas mais sinceras congratulações, Vossa Graça?

Gowan assentiu em sinal de agradecimento.

– O conde sugeriu um noivado de mais ou menos cinco meses. Espero que o senhor cuide de todos os arranjos. Poderá entrar em contato com o representante de lorde Gilchrist.

O homem assentiu novamente.

– Com certeza, Vossa Graça.

– As obras para a construção de um banheiro entre o meu quarto e o da futura duquesa precisam ser concluídas.

– Claro – concordou Bardolph.

Em seguida, o administrador apresentou um volume encadernado.

– Agora, gostaria de examinar os planos de reprodução do agente da propriedade para a fazenda Dorbie. Trouxe o livro de registro das cabeças com esse propósito.

Ele começou a ler em voz alta.

Gowan ficou um tanto surpreso com a dificuldade que estava encontrando para manter a mente alerta. Provavelmente era por causa da novidade daquela história toda. Parecia razoável crer que uma experiência nova poderia ser fonte de distrações.

O mais surpreendente era a profunda satisfação que ele sentia. A sensação atravessava todos os seus pensamentos, como a iminência de uma chuvarada: silenciosa, mas deixando uma marca. Agora, Edith lhe pertencia. Ele levaria aquela mulher linda e deliciosa para casa.

Gowan vinha sentindo falta daquele calor calmo que nunca havia sentido em sua vida. Sentia que era algo maior e mais profundo do que o desejo. Não estava bem certo do que se tratava.

Felicidade diante de uma bela aquisição, talvez. Satisfação. Não, nenhuma dessas palavras mostrava-se correta.

Bardolph pigarreou.

– Sim?

– Como eu estava dizendo…