A Torre do Amor

Eloisa James · Capítulo 28 de 47

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A Torre do Amor

Capítulo 26

 

No minuto em que o lacaio fechou a porta da carruagem, Layla atacou.

– Que diabo está acontecendo com esse seu marido gostoso? Aqui estou eu, partindo para o resgate como se fosse o próprio sir Galahad. Conte-me tudo.

Edie começou a chorar.

Layla a abraçou, mas Edie vinha contendo as lágrimas por tempo demais. Depois de alguns minutos, Layla falou:

– Querida, este é meu último lenço, então, a menos que queira que eu rasgue um pedaço da minha anágua, deve parar de se desfazer em lágrimas. Serei de uma honestidade brutal e admitirei que minha anágua tem rendas de Aleçon no acabamento, de forma que preferiria não transformá-la em lencinhos.

– Vou parar – disse Edie ofegante, lutando para respirar fundo.

– Conte-me o pior – pediu Layla, voltando a apertá-la. Ela baixou a voz: – No fim das contas, ele tem algum tipo de perversão? Quer amarrá-la na cama ou algo dessa natureza… até mais grave? Eu a levarei daqui na mesma hora e você nunca mais o verá. Seu pai anulará o casamento antes que o duque perceba que você saiu pela porta.

– Está consu-consumado – revelou Edie, recuperando o controle. – E não quero anular meu casamento.

– Claro, há algumas perversões com as quais não devemos ser tão rigorosas, afinal de contas. Se duas pessoas desejam se divertir e concordam, por que não? Nunca tentei conversar com seu pai…

– Gowan não é pervertido.

– Ah, então temos um problema mais corriqueiro. – Layla pareceu bastante aliviada. – Deixe-me adivinhar. Ele faz milagres em cinco segundos. Eu devia ter trazido uma ou duas poções comigo. Esses homens grandes, robustos, eles são…

– É o contrário – interrompeu Edie, soluçando.

– O contrário? – Layla franziu a testa. – Por favor, não me diga que está reclamando de uma situação com a qual a maioria das mulheres só poderia sonhar.

– Há algo de errado comigo! – exclamou Edie, soltando seus piores medos. – Dói muito.

– Provavelmente isso significa que seu marido é bem-dotado. Vejamos… Você poderia compará-lo a uma cenoura, a uma berinjela ou a uma abobrinha? Espero que não seja uma vagem.

– Você… tinha dito que essa coisa de sentir dor era um conto da carochinha. – Um último soluço escapuliu. – Odeio deitar-me com ele. Apenas odeio. Sinto-me tão estúpida e… e sou um fracasso nesse negócio todo.

Layla deu uma batidinha no joelho dela.

– Querida, eu nunca adivinharia que você correria o risco de sentir como se estivesse sendo empalada como um toureiro desafortunado.

– Teria ajudado! – exclamou Edie. – Durante todo esse tempo pensei que havia algo de errado comigo.

– Mas há algo de errado. Você não tem nada na cabeça. Que história é essa de fracasso? Não existe fracasso nesse caso. Depois da noite de núpcias, minha prima Marge trancou a porta do quarto e proibiu que o marido a procurasse por um mês inteiro. E, mesmo quando o prazo acabou, ela não gostou.

– Conheço sua prima e o marido dela – observou Edie. – Talvez haja mais de uma razão para que ela não sinta prazer.

– Verdade. O homem tem lábios de esturjão. É repulsivo. Será que eu poderia abrir as janelas da carruagem?

– Não, e você não pode fumar aqui dentro. O cheiro nunca sairia do veludo.

– Um pouco exagerado, não acha? – disse Layla, cutucando o assento. – Não que eu tenha algo contra veludo cor de cobre. Acho que daria uma peliça maravilhosa. Mas imagine se alguém derramasse vinho.

– Gowan não bebe vinho na carruagem – explicou Edie, sentindo-se mais desanimada – Ele trabalha o tempo todo.

– Trabalha? Trabalha em quê?

Layla retirara um pequeno objeto da bolsa de mão e tentava abrir a janela.

– O que está fazendo?

– Ar puro é bom para sua pele – disse Layla, atrás dela. – O perfume das flores silvestres escocesas e da floresta profunda. Não quer ter manchas na pele, quer? Já está toda inchada por conta desse chororô virginal.

– Não sou mais virgem – protestou Edie, sentindo-se melhor pelo simples fato de ter contado para alguém. – Acha que a dor vai passar?

– Claro que sim. Se não passasse a raça humana teria sido extinta muito tempo atrás. Nunca ouvi falar de alguém que tivesse esse tipo de problema por mais do que algumas semanas. E, acredite, as mulheres casadas discorrem sobre isso por horas seguidas.

A janela se abriu sozinha, correndo para a parte de trás da carruagem.

– Não ouvi nada se quebrando, você ouviu? – perguntou Layla.

Um cheiro pungente de estrume entrou pela janela.

– O aroma dessas flores silvestres escocesas é surpreendente – comentou Edie, enrolando-se na peliça e observando Layla abrir uma caixa de fósforos para acender a cigarrilha.

– Ah, assim é melhor – disse Layla, um segundo depois. – Seria maravilhoso ter uma boa taça de champanhe agora, mas ainda nem é meio-dia. É preciso manter os padrões. Então, querida, quão terrível está sua situação?

Edie estremeceu.

– Minha nossa, isso é ruim – continuou Layla. – Dê-me uma dessas almofadas extras. Podemos pelo menos ficar confortáveis.

Os assentos da carruagem eram tão macios que pareciam um colchão. Edie se acomodou num canto, esticou as pernas e cruzou-as. Parecia transgressor colocar os sapatos em cima daquele veludo luxuoso.

A madrasta fez a mesma coisa no assento oposto.

– Então você está em absoluta agonia, mas está melhorando. Aqui vai a pergunta mais importante: você tem criticado Gowan todas as noites, fazendo com que ele compreenda como tem sorte por você permitir que ele se aproxime de suas delicadas partes femininas?

– Não.

Edie despejou a palavra na carruagem com toda a sua desolação.

– Querida, você precisa dar a volta por cima. Não é o fim do mundo. Vocês não são o primeiro casal a ser incompatível no começo. – Layla ergueu-se um pouco e soprou a fumaça na direção da janela quebrada. – Por que diabo não está ralhando com seu marido por causa das… ahm… proporções magníficas dele? Poderia ganhar até um ou dois diamantes no meio de toda essa infelicidade.

– Foi tudo tão terrivelmente constrangedor… Achei que ia passar.

– Não me diga que ele não sabe de nada disso? – Layla endireitou a postura. – Era isso que você queria dizer na sua mensagem em relação ao meu “segredo”? O segredo não é para isso!

Edie suspirou. Não tinha sequer usado o segredo corretamente.

– A ideia é dar algum alívio para você, não para ele. Se Gowan está martelando sem parar e dói, você deve urrar feito um gato em noite de Halloween, e não confundi-lo, fazendo-o pensar que está gostando. Está fazendo tudo errado, Edie.

– Ele deve ter percebido, mas é educado demais para perguntar.

– Os homens nunca são educados na alcova. – Layla fez um gesto expansivo que salpicou cinzas pelos estofados. – É você que está sendo educada demais. Então sejamos claras: só dói tanto assim no início. Estão praticando regularmente?

Edie fez que não com a cabeça.

– Paramos desde as minhas regras, há dez dias.

– E daí? Ah, não responda. Você parece horrorizada como quando era jovem e eu lhe contei como se faziam os bebês.

– Você me contou que era preciso comer torta de carne com melaço!

– Bem, eu não podia lhe contar a verdade, podia? Mesmo no início do casamento, já tinha percebido que seu pai era um tanto sério. Você queria saber e eu precisava dizer algo que não o aborrecesse. Torta de carne engorda muito. Tentei lhe dar um conselho importante para a vida adulta.

– Não importa – disse Edie, fitando a ponta dos sapatos. – Fiz uma bagunça com meu casamento. Não quero passar o resto da vida ofegando e soltando gemidos falsos. Simplesmente não consigo. Nem sou boa nisso. Eu não acreditaria em mim mesma.

– Vamos voltar ao que você me falou no início.

Layla atirou a cigarrilha pela janela.

– Layla! E se você começar um incêndio?

– Estava apagada. – Layla apontou para uma marca escura no chão e depois tentou olhar mais de perto. – Não diga que Sua Graça toda-poderosa pôs tapetes aqui.

– Ele pôs.

Layla caiu para trás em seu canto.

– Então o duque demora tanto que você fica sofrendo.

– Ele é grande demais.

Um silêncio curto se seguiu.

– Eu poderia dizer algo, mas não vou – comentou Layla com um suspiro. – Seria indelicado.

– E o que a impediu?

– Estou ficando velha. Escute, querida, o importante é que está machucando menos do que no início.

– Parece que não machuca tanto quando ele continua se movimentando. Só que esse não é o único problema, Layla. – Edie se obrigou a confessar. – Aquela petite mort? Não está acontecendo comigo, obviamente. Acho que nunca acontecerá.

– Você não sente uma coisa boa lá embaixo?

– Às vezes, mas paro de sentir quando fico pensando nisso.

– Acredite, sei do que está falando – disse Layla, suspirando. – Lembro-me de dias insensatos, ou melhor dizendo, de noites insensatas, antes de pensar demais em bebês. O cérebro é o principal inimigo de uma alcova feliz.

– O que vou fazer? Não posso contar para Gowan. Não consigo.

– Por que não?

– Ele nunca falha. Eu preciso resolver esse problema porque o fracasso é meu.

– Não há nenhum fracasso aqui – afirmou Layla, determinada. – Não ouse se culpar. É um precedente ruim num matrimônio. O que falta é romance. O clima de uma alcova. Uma garrafa de champanhe.

– Ele tentou – argumentou Edie, os olhos voltando a se encher de lágrimas. – Pediu o jantar no quarto dele e serviu champanhe. Um lacaio serviu a comida. E justamente quando eu começava a relaxar, ele chamou o lacaio de volta, além de outro sujeito para recolher os pratos. Sinto como se Bardolph estivesse pairando pelo corredor o tempo todo. E, quando Gowan passou a noite no meu quarto, o criado dele entrou pela manhã. Odeio isso!

– Pelo que parece, você está tentando ter intimidade no meio do Hyde Park – sugeriu Layla. – Sabe, querida, nunca ouvi você falar com tanta paixão sobre nada além de música, em todos esses anos que a conheço.

– Gowan nunca está sozinho – prosseguiu Edie. – E eu também nunca mais fiquei sozinha. Precisei ameaçar demitir os criados para que eles parassem de me interromper enquanto eu praticava. Enquanto eu praticava, Layla!

– Você definitivamente precisa ficar a sós com seu marido.

– É impossível. A vida dele parece como quando jogamos um pedaço de pão no meio do rio e um bando de salmões chega e começa a mordiscá-lo. As pessoas chegam e partem de perto dele, a todo momento.

– Não acho que salmões andem em bando – refletiu Layla.

– Quem se importa com isso? – indagou Edie. – Você entende o que quero dizer, não entende?

– Então precisa fazer mudanças na casa dele. Não é fácil manter lacaios fora do quarto, mas com certeza é possível. Apenas terá que interferir.

– Ele resolve todos os problemas assim que surgem, no momento em que chegam até seus ouvidos – relatou Edie, desconsolada. – Não precisa de ninguém. É perfeito em tudo, Layla. Eu poderia odiá-lo.

– O problema é que você o ama – concluiu Layla com calma. – Você se importa se eu fumar outra cigarrilha?

– Sim, eu me importo! – respondeu Edie.

Layla começou a procurar as cigarrilhas.

Edie endireitou a postura.

– Estou falando sério! Odeio isso. Odeio o cheiro que gruda na minha roupa depois que passo algum tempo perto de você. Odeio como você cheira. Odeio o cheiro do seu hálito.

Layla ficou boquiaberta.

Edie teve o impulso de dizer algo para suavizar, mas não cedeu.

– Não vou pedir desculpas.

– Tudo bem – disse a madrasta, cautelosa. – Há mais alguma coisa que gostaria de me falar?

– Não. – E então acrescentou: – Não que eu me lembre agora.

– Meu hálito? – Layla franziu a testa olhando para a caixa de cigarrilhas que segurava. – Não gosto disso.

– Nem deveria – retrucou Edie.

– Certo.

A caixa voou pela janela. Ouviram uma pancadinha distante, no momento em que caiu na estrada.

– Ainda bem que a segunda carruagem está a alguma distância de nós – comentou Edie. – Poderia ter atingido a cabeça de um dos cavalos.

– Se fosse para acertar a cabeça de alguém, seria a do tal de Bardolph – disse Layla, voltando a recostar-se. – Não gostei do jeito como ele me olhou, como se eu fosse uma espécie de bruxa velha que veio roubar a virtude do jovem príncipe.

– Espere até saber o que ele acha de mim. Vai mesmo parar de fumar, Layla? Simples assim?

– Comecei a fumar para irritar seu pai. Por que deveria continuar a fazê-lo agora que não moramos mais sob o mesmo teto? Mas não quero falar sobre meu casamento infeliz. Você precisa ensinar seu marido a ser romântico.

– Suponho que eu poderia lhe pedir que me desse flores – sugeriu Edie, vacilante. – É isso que quer dizer?

– Imagine seu nobre duque agachado em um dos joelhos, entregando-lhe um ramalhete de violetas enfeitado por um laço. Como se sente?

– Um pouco incomodada. As violetas são tão fúnebres…

– Muito exigente – disse Layla, com desaprovação na voz. – Se seu pai me desse um buquê de margaridas que ele tivesse recolhido de um caixão, eu ficaria empolgada.

– Escreveu para ele?

– Escrevi, e contei que lhe faria uma visita. Ele não respondeu, o que não é nada surpreendente, pois também não respondeu às minhas duas cartas anteriores.

Edie suspirou.

– Então decidimos que você precisa reformar o funcionamento da casa do duque – prosseguiu Layla – e ensiná-lo a garantir sua privacidade. O que mais? Ele é atrapalhado na cama?

Edie pensou.

– Acho que não.

– Já falou para ele do que você gostou?

Edie fez que não com a cabeça.

– É preciso assumir alguma responsabilidade nesse aspecto – aconselhou Layla. – Os homens gostam de consultar mapas. Ou melhor, os homens precisam de mapas. Minha mãe me disse isso anos atrás e estava absolutamente certa.

Edie tentava se imaginar dando instruções a Gowan, quando Layla se levantou do banco de repente.

– Vamos passar o dia inteiro nesta carruagem? Já estamos aqui há pelo menos duas horas.

Ela esticou o braço e deu uma pancada no teto.

Uma fresta se abriu.

– Sim, Sua Graça?

– É lady Gilchrist! – gritou Layla. – Pare essa carruagem. Preciso esticar minhas pernas.

– Estamos muito próximos das fronteiras da propriedade de Sua Graça! – urrou o cocheiro em resposta, sem diminuir o ritmo dos cavalos.

– Fronteiras de Sua Graça? – repetiu Layla, caindo no assento de novo. – Já percebeu que agem como se seu marido fosse um monarca?

– Porque Gowan é um monarca para eles, Layla. Praticamente beijam seus pés quando ele deixa um aposento.

– Não me importaria se beijassem meus pés. Sabe, talvez eu fique irritadiça nos próximos dias – avisou Layla, tamborilando no assento. – As cigarrilhas me dão uma sensação de calma que parece ter desaparecido no momento.

– Pode urrar quanto quiser, desde que pare de fumar – disse Edie.

Layla suspirou.

– Certo. Muito bem, querida, o que vamos fazer é criar o cenário para uma noite de alegria romântica. Champanhe, flores, poesia.

– Poesia?

– Eu mesma instruirei seu marido. Sabe que assisti a todas as peças românticas encenadas em West End nos últimos três anos. Sou uma especialista.

– Não pode falar com Gowan sobre o que conversamos – disse Edie.

– Eu nunca faria isso – rebateu Layla, parecendo magoada. – Confie em mim, sou astuta como uma raposa.

Naquele momento a carruagem chacoalhou ao fazer uma curva. Edie olhou pela janela e ficou boquiaberta.

Diante delas estava um castelo de contos de fada. Era construído em pedra amarelada, cor de cerveja, e as torres erguiam-se afiadas contra um céu tão claro que parecia nata de leite.

– Meu Deus, espero que seu marido tenha instalado banheiros – disse Layla, deslizando no assento para poder olhar pela janela. – Os castelos têm orifícios, sabia? Entendo que sejam simples buracos que se esvaziam direto no fosso.

– Não estou vendo fosso nenhum. Estou olhando para a bandeira – comentou Edie.

– Meu Deus! – exclamou Layla, em tom de choque. – Olhe o tamanho daquela espada do dragão. Ou é uma bandeira muito cheia de si ou você realmente tem do que se queixar.

Edie estreitou os olhos para ver a espada que o dragão segurava.

– Está um pouco desproporcional.

– Não me espanta que o homem seja tão autocrático. Toda vez que vem para casa, ele provavelmente esquece que é um simples mortal. Será que trombetas vão soar quando você descer da carruagem?

– Espero que não.

– É o que acontece nas peças populares quando a princesa se casa com o jovem que cuida dos porcos, que, por sua vez, é o rei – contou Layla. – Trombetas, muitas trombetas. Quem imaginaria que você se casaria com alguém assim? Mal posso esperar para vê-la bebendo pérolas dissolvidas em vinho e se comportando como Cleópatra. Considerando o tamanho deste castelo, Gowan deveria lhe dar um diamante por cada gemido de dor que você soltasse.

– Layla!