A Torre do Amor
Capítulo 35
No terceiro dia de ausência de Gowan, ficou claro para Edie que ele não ia voltar. Na primeira e na segunda noite, ela acordou com todos os sons do castelo, certa de que o marido entraria em casa a qualquer momento. Na manhã do terceiro dia, deu uma caminhada fora da propriedade pela primeira vez desde que Gowan partira. Entre as flores silvestres que ela considerava suas, fitando a torre, teve uma ideia.
A torre se encontrava abandonada. No entanto, tinha tudo de que ela precisava desesperadamente: tempo e espaço, silêncio, um lugar para estudar.
Caso se mudasse para lá, Gowan não poderia surpreendê-la entrando em seu quarto e massacrando seu coração. Voltou para o castelo e encontrou a criada.
– Mary, pode pedir que Bardolph atenda a meus desejos? Decidi me mudar para a torre e preciso que ele faça os arranjos necessários.
– A torre! – Mary arregalou os olhos. – Pensei que era perigosa ou coisa parecida. As criadas da cozinha dizem que é mal-assombrada. Um cavaleiro negro caminha no alto com o elmo debaixo do braço e a cabeça está no tal elmo, se é que me entende.
– Vou me arriscar – declarou Edie.
– Sua Graça proibiu o acesso à torre – avisou Mary, veemente. – É provável que o lugar seja amaldiçoado, minha senhora. Todo tipo de gente morreu ao tentar escalá-la. Por favor, não faça algo tão perigoso.
– Não se importaria em ir até lá algumas vezes por dia, não é?
– Como se eu fosse deixá-la sozinha! – exclamou Mary, cheia de indignação. – Também vou me mudar para a torre.
O rosto dela assumiu a expressão sofrida mas corajosa de um mártir que enfrenta uma multidão raivosa.
– Não há espaço para você – observou Edie.
Mary abriu a boca e deixou cair o travesseiro que segurava.
– Vai deixar o duque, não é, minha senhora? Vai se mudar para a torre por causa dele?
– Já mandei uma carta para meu pai. Planejo voltar a Londres assim que ele vier nos buscar – disse Edie. – Imagino que será uma grande surpresa para a criadagem.
– Surpresa? Ninguém vai acreditar. Agem como se o sujeito fosse Deus encarnado, vindo para andar entre os mortais.
Edie conseguiu rir, como se aquilo não fosse algo que ela própria já havia pensado.
Surpreso ou não (Edie não saberia dizer), Bardolph colocou em ação um grande número de homens que passaram a carregar móveis e objetos de um lado para outro, enquanto um exército de criadas com esfregões e baldes enfrentava a poeira e as teias de aranha.
Naquela tarde, depois de ter sido desfeita a mesa do almoço, Layla anunciou que precisava deitar um pouco. Fora acordada por Susannah no momento em que o sol despontara no horizonte e precisava demais de uma soneca. Quando lhe perguntaram se preferia voltar para a ala das crianças ou ficar com Edie, Susannah apontou para Edie.
Assim, Edie levou Susannah para cima, até seu quarto. Sentou-se e pegou o violoncelo. Depois de um tempo, a menina veio para o seu lado.
– O que está fazendo?
– Estou limpando as cordas do meu violoncelo.
– Por quê?
– Preciso remover a resina que se juntou nelas.
Susannah fungou.
– Cheira muito mal.
– Estou usando um destilado.
Edie não entrou em detalhes.
Estava determinada a não fazer constrangedoras tentativas de aproximação com a garota. A boneca não funcionara. Tentara sorrir para ela e elogiar seu cabelo. Tinha se ajoelhado e tentado brincar. Nada havia funcionado. Desistira.
Susannah observou-a por um tempo, enquanto Edie passava um pano macio nas cordas. Então a menina começou a perguntar outras coisas e, antes que se desse conta, Edie estava tocando uma corda, explicando para Susannah qual era o tom e deixando-a tocar. Ainda se lembrava de quando seu pai havia feito o mesmo com ela, com toda a paciência.
Minutos depois, Edie olhou para baixo e descobriu que Susannah estava apoiada em seu joelho.
– Pode tocar algo? – perguntou a menininha.
– O que gostaria de ouvir?
– Três ratinhos cegos.
As duas descobriram como tocar as cordas certas para a canção infantil.
– É a minha favorita – anunciou Susannah.
– Por quê?
– Porque o fazendeiro corta as cabeças dos animais – disse ela. – E então eles morrem, sabe? Todos mortos.
Edie se perguntou por um momento se deveria expressar preocupação para Layla, mas decidiu que, provavelmente, as coisas eram assim mesmo. A mãe morre, pensa-se sobre morte. O casamento acaba, pensa-se sobre… Ela logo decidiu pensar em outra coisa.
Depois de cear cedo, Bardolph a acompanhou colina abaixo. Layla e Susannah os seguiram.
– Que trabalho maravilhoso, Bardolph! – exclamou Edie ao emergir da escadaria no primeiro cômodo habitável.
O aposento antes vazio tinha sido transformado em uma aconchegante sala de jantar, com um pequeno anteparo com louça ducal. No andar acima, havia uma sala de estar com um belo tapete Aubusson no chão e cadeiras estofadas com brocados de seda.
– Ficou mais agradável do que meu quarto no castelo!
– São pertences da falecida duquesa – explicou Bardolph, derretendo-se um pouco diante de elogios com os quais não estava acostumado. – Ficaram no porão desde sua morte inesperada.
Edie lançou-lhe um olhar de soslaio. Será que Bardolph não aprovava a decoração no quarto do castelo?
O novo quarto, no andar acima, era tão encantador quanto a sala de estar. Uma cama grande ocupava a maior parte do aposento, mas havia espaço suficiente para uma confortável cadeira de balanço ao lado e para seu violoncelo – que estava ali, no seu suporte, esperando por ela.
– Ah, Bardolph – disse ela, com sincera gratidão. – Muito obrigada.
– Não vou nem perguntar se gostaria de companhia para o almoço amanhã – falou Layla. – Vossa Graça sem dúvida vai estudar o dia inteiro. Bardolph, pode mandar um lacaio trazer um almoço leve? Vou acompanhá-la na ceia, depois que Susannah estiver na cama.
Uma pequena pontada machucou o coração de Edie, mas era melhor que ela não passasse muito tempo com Susannah. Para quê?
– Embora nós duas venhamos visitá-la todas as manhãs – prosseguiu Layla. – E acho bom largar esse violoncelo para nos receber.
O coração de Edie ficou mais leve. Ela se acostumaria a viver sozinha, mas naquele momento era reconfortante pensar que Layla a visitaria.
– Não vai sentir medo, aqui sozinha, de noite?
Layla estava diante da porta, segurando a mão de Susannah, prestes a descer a escada.
– Não vou. Ficarei perfeitamente feliz aqui.
Era mentira, mas o que significava mais uma diante de todas que ela já dissera?
– Talvez haja desocupados perambulando – disse Bardolph. – Eu me sentiria melhor se me permitisse deixar um lacaio próximo à entrada, Vossa Graça.
– De maneira nenhuma – recusou Edie com firmeza. – Agora podem ir, todos vocês. Bardolph, peça que Mary venha me ajudar, estou com vontade de ir para minha cama.
– Podíamos ficar com você – veio uma vozinha.
Era Susannah.
– Caberíamos todas naquela cama grande.
Ela fez um gesto com a cabeça na direção da cama.
Edie sentiu que abria o primeiro sorriso genuíno daquele dia. Foi até a porta, ajoelhou-se diante de Susannah, num gesto completamente natural.
– Apreciei muito sua proposta.
Susannah deu um passo para trás, apenas um. Com certeza, ainda tinha medo de que Edie tentasse afastá-la de Layla. Então, Edie se levantou e apontou para o nariz da menina.
– Se me visitar amanhã, vamos trabalhar em outra cantiga de ninar. – Ela sorriu para Layla. – Detesto dizer isso, sabendo da sua péssima opinião sobre músicos, mas a pequena tem uma linda voz de soprano.
Susannah, que não tinha a mínima ideia do que aquilo significava, abriu um sorriso para Layla.
– Eu tenho – confirmou ela.
Layla pegou-a no colo e acomodou-a na altura do quadril.
– Precisa dormir. – Jogou um beijo para Edie. – Boa noite, querida. Ah, escute só! Voltou a chover.
– Os lacaios estão esperando lá embaixo com guarda-chuvas – avisou Bardolph. – O chão do andar térreo pode ficar encharcado – afirmou ele para Edie –, mas não há razão para se preocupar. A torre está de pé desde 1248, e, embora haja enchentes, nunca sofreu ameaças em sua longa história. Não importa o que acontecer, a torre resistirá. Sua Graça reforçou as fundações e restaurou a cantaria.
Gowan era, no mínimo, um sujeito meticuloso. Edie insistiu em acompanhá-los até o térreo, onde deu abraços rápidos em Layla e Susannah antes de voltar para seu novo quarto. Havia lamparinas por toda a parte e fogo na lareira. Exceto pelo ocasional crepitar da madeira, a torre estava no mais completo silêncio.
– É exatamente isso – disse Edie em voz alta, reconfortando-se.
A partir do dia seguinte, ela voltaria a tocar violoncelo e retomaria o regime de estudos que a deixava tão feliz no passado, em tempos menos complicados.
Naquele momento, porém, ela abriu a janela que dava para o castelo. Lá estava ele, no alto da colina, parecendo ainda mais saído de um conto de fadas, enquanto a noite caía como um cobertor suave. As luzes brilhavam em muitas janelas, indícios das centenas de almas no seu interior. Ela viu Mary caminhando rapidamente pela trilha, indo prepará-la para dormir.
Não era que Edie não gostasse dos criados ou não apreciasse o que faziam por ela. Mas aquele minúsculo aposento era pacífico, tão tranquilo que ela podia ouvir todas as notas dos cantos dos pássaros no pomar lá embaixo.
No entanto, só conseguia pensar em Gowan. Não tinha dúvidas de que ele ficaria lívido ao descobrir que ela havia contrariado suas ordens em relação à torre.
Edie seria clara, direta, madura.
Seria tranquila, simpática, porém resoluta.
Horas mais tarde, na cama, ela ainda pensava no assunto. Àquela altura, Gowan já devia ter aplicado seu talento para solucionar problemas. A esposa era o problema. Aquele problema era exacerbado por seu fracasso na cama – não que ela assim o considerasse, mas ele considerava, e ela tinha bastante noção de que o fracasso não era aceitável para Gowan. Ele a amarraria à cama se fosse preciso. Ele resolveria o problema.
O resultado não seria difícil de imaginar. Ela ficaria ali, tensa, e ele seguiria em frente, sem parar. Não teria como detê-lo, a não ser que se embebedasse, e aí só criaria mais constrangimentos para si mesma ao fazer… exatamente aquilo que o deixou com repulsa no olhar. Depois de beijá-la, a primeira coisa que ela viu ao abrir os olhos foi o rosto dele completamente transtornado pelo asco.
Nunca. Ela estremeceu ao pensar. Na verdade, havia muitas coisas na cama que a faziam estremecer. Todo aquele suor para começar. A forma como os fluidos vazavam dela durante horas. O evento completo.
Precisaria deixar claro que ele não tinha o direito de tentar consertar seus defeitos. Seus problemas eram só dela. Não era suficientemente ingênua para acreditar que poderiam ser resolvidos: havia certas coisas que não tinham solução. O casamento deles era um exemplo.
Depois que contasse que ia partir, Gowan, sem dúvida, gritaria por algum tempo, mas os meirinhos, os advogados e todos os criados estariam à sua espera. No fim das contas, ele voltaria ao castelo e um dia se casaria com uma escocesa robusta que lhe daria dez filhos ruivos.
A ideia a deixou doente, mas era o esperado. Não era possível superar um casamento em questão de dias, muito menos um casamento tão breve quanto o deles. Gowan era tão… pleno. Tão intenso, tão inteligente, tão determinado.
Havia um magnetismo em seu marido que provinha da forma como encarava tudo de frente, examinando um problema durante um minuto, procurando a resposta, resolvendo. Gowan aplicaria nela toda aquela energia ao voltar. De fato, não deveria permitir seu acesso à torre ou ele colocaria em ação um plano para garantir a felicidade da mulher no leito conjugal. O pensamento lhe deu calafrios.
Podiam conversar o que ele quisesse pela janela.
Era o homem mais masculino que ela conhecera e ela tinha inadvertidamente ferido sua masculinidade. Nada o deteria até que ele obtivesse sucesso, para garantir que sua posse permanecesse onde devia, demonstrando assim seu sucesso sob os lençóis.
Ele podia provar seus méritos com outra mulher. Ela desceu, pegou a chave que Bardolph havia deixado e colocou-a na fechadura, do lado de dentro. Precisou usar a força das duas mãos para dar a volta, mas conseguiu.
Então voltou para cima, orgulhosa de sua resolução. Só não sentia orgulho por se desfazer em lágrimas… mas não tinha como evitar uma vez que havia um coração partido na história. Por fim, ela dormiu até de manhã, exaurida de tanto chorar. Despertou bem cedo, com o canto dos pássaros nas árvores, saltou da cama e foi até a janela. Escancarou-a para saudar o dia.
Layla e Susannah vinham do castelo, de mãos dadas. A madrasta já estava arrumada, embora não pudesse ser muito mais do que seis horas da manhã. Usava um vestido que Edie já vira antes: algodão estampado, um corpete decotado, sedutor. Desta vez, havia um xale preso, ocultando os consideráveis dotes de Layla.
Edie apoiou o queixo na mão e esperou por elas.
– Está com uma aparência melhor! – exclamou Layla, dirigindo-se a ela.
A voz atravessou o ar da manhã com facilidade.
– Estou ótima.
Não era verdade.
Uma parte dela ainda estava tão ferida, tão dolorida, que ela mal conseguia suportar. Estava aprendendo a trancar aquela voz numa caixa escura e mantê-la presa.
Susannah pulava de um pé para o outro.
– O que está fazendo?
– Nada de mais.
– Parece a princesa do conto de fadas – disse Layla.
Edie não conseguiu dar um sorriso.
– Como Punzel – interveio Susannah.
– Quem?
– Punzel!
– Ah, ela quer dizer Rapunzel! – exclamou Layla. – É o seu cabelo.
Mary havia trançado seu cabelo antes de ela ir para a cama, como sempre fizera antes de Edie se casar e descobrir que ter um marido implicava ter o cabelo todo embaraçado durante a noite. Outro ponto positivo em relação ao final de seu casamento, pensou ela, acrescentando o item a uma lista bem curta.
Edie pegou a trança e deixou-a cair sobre o parapeito. Só alcançava um pouco abaixo da janela.
– Um príncipe não consegue escalar assim – disse Susannah, com desdém. – A dama no meu livro tinha o cabelo tão comprido que se arrastava no chão.
– Gostaria de entrar pela porta em vez de escalar minha trança inadequada?
– Mary virá acompanhada por um ou dois lacaios para nos servir o desjejum – avisou Layla.
Edie desceu a escada, virou a chave e abriu a porta.
Gowan não apareceu naquele dia, o que foi um alívio, claro. Nem no dia seguinte, nem depois.
Se Edie não tivesse aprendido a trancar sua dor durante o dia, não teria tanto sucesso de noite. O abismo em seu coração parecia se abrir no momento em que ela largava o violoncelo. No entanto, a disciplina ferrenha da infância a pusera nos eixos. Se o pai largasse tudo para buscá-la na Escócia – como ela tinha certeza de que aconteceria quando recebesse sua carta –, deveria estar com eles em mais uma semana ou dez dias.
Edie precisava apenas sobreviver até lá.