A Torre do Amor

Eloisa James · Capítulo 32 de 47

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A Torre do Amor

Capítulo 30

 

O jantar foi um inferno.

Edie e o francês não paravam de rir dos mexericos de Layla – que Gowan considerava um tanto grosseiros, embora suas histórias nunca descambassem para a pura vulgaridade.

– Pelo que ouvi – contava Layla –, estar casada com lorde Sidyham era como ser cristão no Coliseu e estar a bigodes de distância de um grande tigre. O que estou querendo dizer é que ele era absurdamente primitivo. Raivoso. Fui a um jantar certa vez em que ele acusou a esposa, diante de todos nós, de se apaixonar por qualquer um que usasse o colarinho de religioso. Ela desfrutava de uma conversa com o arcebispo de Canterbury e qualquer um que o conhece sabe que alguém precisaria ser de fato devota para achá-lo atraente.

– Ele a atacou de um modo um tanto perverso – comentou Edie, acrescentando –, embora tenha sido estranhamente específico.

– É o que penso. Como se soube, lady Sidyham, na verdade, permitira que seu respeito pelo sacerdócio prevalecesse sobre os princípios. Alguns meses depois, ela e o vigário local desapareceram. A última notícia que se tem deles é que teriam ido para a América, onde acredito que estejam bem felizes.

Gowan não conseguia sequer parecer levemente interessado, não com aqueles carvões aquecendo a base de seu estômago e o ácido amargo no fundo de sua garganta. Olhara para Edie enquanto ela entrava no salão usando um vestido desenhado para enfatizar o contorno de suas pernas e celebrar seus seios com uma explosão de fitas e rendas.

E ela se voltara para ele com um sorriso no olhar. Ser casado com Edie era como ser lançado no mar revolto. Em um momento, encontrava-se a uma distância incalculável dela e, no instante seguinte, estava a seu alcance. Em um momento, ele obtinha a completa atenção de seus olhos escuros, de esmeralda; no outro, ela se virava para cumprimentar Layla e tudo que Gowan conseguia ver do rosto da esposa era a delicada curva da face.

Pela primeira vez na vida, ele considerou que talvez a loucura tivesse um caráter hereditário. Talvez seu pai tivesse sentido o mesmo por sua mãe e, quando ela o traiu, não lhe restaram outros recursos senão beber até o estupor e dormir com garçonetes.

Claro, Edie nunca o trairia. Mesmo assim, ele tinha a terrível sensação de que não conseguia segurá-la, de que não conseguia mantê-la a seu lado. Ela se trancaria num aposento com o violoncelo e desapareceria.

Não que ele pensasse em – ou desejasse – afastá-la da música.

Só não conseguia deixar de alimentar um torturante ciúme. Desejava que ela não fosse instrumentista. Se ao menos fosse uma mulher comum como lady Edith, a jovem que ele pensou ter conhecido no baile dos Gilchrists: uma garota casta, melancólica, que mal pronunciava uma palavra…

Mas então não seria Edie, percebeu ele, num suspiro.

Estava sentado à cabeceira da mesa, o lugar ocupado por seu pai milhões de vezes, observando em silêncio Edie e Layla brincarem com Védrines, o violinista que Bardolph arranjara como um coelho da cartola de um mágico.

Esse sujeito em particular era, supostamente, parente de conde de Genlis, que teria encontrado seu destino na guilhotina, embora ninguém se sentisse à vontade de perguntar sobre. Presumia-se que Genlis era seu avô e, como Védrines usara trajes em veludo preto para a refeição noturna, a família deve ter conseguido contrabandear uma ou duas joias da França.

Layla chamou a atenção de Gowan com um aceno enfático.

– Aquele sujeito azedo com o bigode, Bardolph, não me aprova.

– Impossível acreditar nisso – disse Védrines, galante.

O francês era um homem bem-apessoado, esguio e alto.

– Toca violoncelo? – perguntou para Edie.

Ele se aproximou dela e Gowan teve que reprimir um desejo instintivo de obrigá-lo a se recostar no assento.

– Toco.

Edie sorriu para ele, os lábios tão carnudos e convidativos que fizeram a cabeça de Gowan girar por um momento. Por que diabo ele não tinha dormido com uma centena de mulheres antes de se casar? Pelo menos teria algum controle.

Então ele percebeu que Védrines sorria de forma condescendente para Edie e dizia que tinha certeza de que poderia ajudá-la a se desenvolver musicalmente, embora ele mesmo não tocasse violoncelo.

– A viola de gamba tem um tom melhor.

Edie rapidamente criticou o homem por seus preconceitos, o que foi divertido. Então os dois começaram a falar sobre coisas que Gowan não compreendia.

– Isso sempre acontecerá com você a partir do momento que permitir que musicistas venham jantar aqui – disse Layla, à sua esquerda.

Gowan se virou e descobriu que ela sorria para ele, com um brilho nos olhos que ele achou bem mais atraente do que seus modos sedutores.

– Edie e o pai dela são capazes de conversar sobre o assunto por horas seguidas – continuou a madrasta.

– Já tentou aprender?

– Tarde demais. Os dois estudam há muitos anos. – Ela fez uma pausa, o suficiente para que Gowan ouvisse Védrines dizer “monsieur de Sainte-Colombe” e Edie responder, assentindo, “acrescentou a sétima corda ao baixo”. – Está vendo? Em algum momento, eles voltarão ao reino dos reles mortais. É como uma sociedade secreta.

Gowan não gostava daquilo. Não queria que Edie fizesse parte de uma sociedade secreta, ainda mais junto com um belo francês que tinha um atraente ar de tragédia pairando em torno dele, como uma capa em frangalhos.

– Prefiro tocar ao ar livre – falou Védrines. – Meu maior prazer é levar o violino para o jardim.

– Nunca tinha pensado nisso. – Edie virou-se para Gowan e tocou na mão do marido. – Nós dois podemos fazer um recital para você, Layla e Susannah amanhã? Podíamos tocar no pomar na base da torre à tarde.

– Vou estar ocupado – respondeu Gowan, as palavras saindo automaticamente de seus lábios.

Por que Edie pensaria que ele estaria livre para um recital vespertino? Todas as horas de seu dia estavam ocupadas.

– Talvez depois do jantar?

– Duvido que consigamos enxergar o bastante para tocar ao ar livre depois do jantar – opinou Védrines –, talvez se tivéssemos tempo para ensaiar, aprendendo as partes de cada um a ponto de tocar sem a partitura ou sem boa visibilidade.

Ele não tinha a menor intenção de permitir que Edie aprendesse a parte da música que caberia a um homem interpretar. E nenhum outro ia vê-la com aquele instrumento entre as pernas. Era inaceitável. Ele poderia conversar com ela mais tarde, quando estivessem sós.

– Layla, você pode ser nossa plateia – prosseguiu Edie, dando um sorriso para a madrasta. – Prometo que tocaremos Dona Nobis Pacem.

Aquilo fez a raiva subir até a garganta de Gowan. O que Edie dissera naquela carta que teria conseguido fazer com que sua madrasta os visitasse em outro país?

O cabelo de Edie ganhava o tom do mel escuro sob a luz das velas, dourados com reflexos solares. As pérolas em seu penteado reluziam como prata clara entre o ouro, transformando Edie em uma joia.

A joia dele.

Ele estava tomado de volúpia, do desejo de levá-la para a cama, de passar seus dedos por suas mechas extraordinárias. No entanto, uma parte dele se conteve. Não parecia certo que seus orgasmos fossem tão avassaladores, despencando sobre ele como um maremoto, e que abrisse os olhos apenas para perceber que a esposa o observava com uma leve névoa de alívio no olhar.

Tinham que conversar primeiro, em particular. No dia seguinte.

Ele se sentia solitário.

Sentir-se solitário era um inferno.

 

Depois do jantar, Edie tocou por umas duas horas e permaneceu acordada, esperando que Gowan fosse a seu quarto, mas ele não apareceu. Ela ouviu, muito distante, a agitação de seu criado… e depois o silêncio. Ficou acordada por muito tempo.

Na manhã seguinte, ela se vestiu e foi até a ala infantil verificar se Layla tinha realmente dormido na cama estreita da preceptora. Encontrou-a sentada no chão, o cabelo bagunçado solto por cima dos ombros, aparentemente comandando um batalhão de soldados.

– Olá – cumprimentou Susannah, levantando-se e se aproximando do ombro de Layla, como se Edie fosse roubá-la.

Era óbvio que Layla e Susannah estavam apaixonadas uma pela outra. Não tinha nada a ver com o fato de a madrasta tratá-la ou não como filha.

– Olá para você – disse Edie para a menina. – Pode me chamar de Edie se quiser.

Uma vez que mamãe não era uma opção.

Ela se abaixou e examinou a forma como os soldados estavam organizados. Havia muitos deles. Layla parecia cuidar dos vermelhos e Susannah dos azuis.

– Quem está ganhando? – perguntou.

– É a terceira batalha dos ingleses contra os escoceses – explicou Layla, abafando um bocejo. – Por algum milagre, os escoceses sempre ganham.

Passara o braço em volta da cintura de Susannah com a naturalidade de quem a conhecesse desde o nascimento.

– Três batalhas! – exclamou Edie. – E perderam todas. Minha nossa, Layla. Nós, as inglesas, precisamos fazer melhor do que isso.

– Esta inglesa está acordada desde o amanhecer – disse Layla com alguma dignidade. – Naturalmente, as forças de Sua Majestade ganhariam qualquer batalha conduzida durante a noite.

Layla nunca acordava cedo.

– Como está indo sem as cigarrilhas?

– Parece que estou com fome o tempo inteiro – respondeu ela, franzindo a testa. – Desse jeito, vou acabar ficado redonda como uma melancia.

Susannah riu ruidosamente.

– Uma melancia, uma melancia! – exclamou Susannah aos gritinhos.

A menina pareceu concluir que Edie não representava um perigo iminente, pois rodopiou pelo aposento até chegar ao lugar onde Alice costurava, perto da lareira.

– Acordou mesmo ao amanhecer? – perguntou Edie.

Nunca tinha visto Layla assim. Cansada, mas com um brilho de profundo contentamento.

– Pelo que entendo, as crianças acordam cedo. Pelo menos, Susannah acorda. Despertou-me subindo na minha barriga. Na minha barriga de melancia.

Susannah voltou correndo e jogou os braços em volta do pescoço de Layla, por trás.

– Susannah não liga para o tamanho da sua barriga – destacou Edie.

– Quem é essa? – indagou Layla, capturando um corpinho que se contorcia e em que ela logo começou a fazer cócegas. – Não é a criatura sem noção que me acordou antes do dia clarear lá fora?

Edie teria concluído que os gritinhos de Susannah indicavam dor, mas Layla, obviamente, sabia a diferença.

– Pensei em pedir um jantar particular com Gowan hoje à noite – disse ela.

Os dedos de Layla paralisaram.

– Brilhante ideia! – Ela libertou Susannah e a menininha sentou-se junto aos soldados. – Sugiro champanhe. Verdade, Edie, você deve ficar adequadamente tonta.

– O que é “tonta”? – perguntou Susannah, erguendo a cabeça.

– É como você fica quando roda muito – disse Layla, colocando-a no colo, como se não pudesse desencostar da menina. – Venha cá, criança terrível, você me deixou exausta. Eu me recuso a enfrentar outra batalha com esses soldados.

– Acha isso? – indagou Edie, com alguma dúvida.

– Lembra a noite em que fomos ao baile de lady Chuttle?

– Claro.

– Eu tinha bebido mais champanhe do que seria recomendável para mim.

– Você ficou bêbada! – exclamou Edie, rindo.

– Naquela noite, esqueci tudo sobre bebês e apenas me diverti. Se parar de se preocupar, tudo vai ficar bem.

– Espero que sim – concordou Edie. – De qualquer modo, preciso ir. Tenho trabalho a fazer.

– Toque para ele – sussurrou Layla. – Não há nada mais erótico. Quando seu pai toca algo só para mim, eu me derreto toda.

Edie voltou para a pequena sala de estar pensando no que tocaria para Gowan, mas encontrou Bardolph, que lhe informou que Sua Graça pedira para vê-la. Ela desceu até o escritório do marido, onde um lacaio com cara de pudim disse que precisaria verificar se Sua Graça estava livre, pois o duque dera ordens estritas para não ser interrompido.

Um momento depois, parecia que Gowan poderia recebê-la. Então, seguida por Bardolph, ela acompanhou o lacaio até o aposento. Havia mais um meirinho e os prefeitos de dois vilarejos vizinhos que precisavam ser apresentados a ela.

Em seguida, o marido pediu desculpas e levou-a para um canto. Os três visitantes tiveram a delicadeza de se retirar para o lado oposto, mas Bardolph se dirigiu à escrivaninha próxima à de Gowan e se sentou. De onde estava, podia ouvir muito bem a conversa dos dois.

Edie respirou fundo. Bardolph não era um problema que ela podia tratar naquele momento.

– Eu a convoquei… – Gowan interrompeu a frase e abriu um sorriso encantador. – Perdoe-me. Eu a convoquei porque devemos tratar do recital desta tarde.

Edie piscou, surpresa.

– Poderá assistir, afinal de contas? É um número maravilhoso.

– Lamento. O volume de trabalho é tanto que não posso perder uma tarde. Para ser mais exato, Edie, não posso permitir que toque o violoncelo diante de uma plateia, especialmente quando há um homem nela.

Edie ficou arrasada, mas não se surpreendeu.

– Tenho uma cortina especial feita a pedido de meu pai para circunstâncias como essa. É feita de seda pregueada que fica esvoaçando sobre o violoncelo. O fato é que um músico de verdade só está interessado na forma como eu toco e não em como pareço quando toco. Espero que Védrines seja um profissional deste calibre, mas é claro que não posso ter certeza antes de ouvi-lo tocar.

– Lamento decepcioná-la, Edie.

– Não me decepciona – garantiu ela.

– Fico feliz em ouvir isso de você.

Dirigiu a ela um daqueles sorrisos carinhosos que aparentemente indicavam que ele lembrava como era divertida a atividade na cama. Para ele.

– Não me decepciona – seguiu Edie – porque eu toco quando e onde tiver vontade.

O corpo inteiro se iluminara com uma ira tão incandescente que ela achou que tinha pegado fogo.

Gowan estreitou os olhos. Ela ergueu a mão antes que ele pudesse se manifestar.

– Talvez tenha compreendido mal e julgado que meu pai ditava as circunstâncias em que eu tocava. Ele não ditava. Fiz-lhe a honra de concordar com seus desejos de não me apresentar em público. Fui convidada para estudar com as garotas Smythe-Smith e recusei. – Então, acrescentou, escrupulosa: – Embora essa não tenha sido a única razão para minha recusa.

– Se desejar chegar a tal acordo comigo, será mais do que satisfatório.

– Um acordo envolve concordância, Gowan. Não concordo com sua diretiva. De fato, considerando sua presunção, não deverei concordar com nenhuma regra. Deve ser guiado pelo meu senso de prioridade, e se eu escolher convidar todo o clã Smythe-Smith aqui e desejar realizar um recital público no salão da vila mais próxima, eu o farei!

Gowan ficou paralisado, o que Edie interpretou como um mau sinal. Ela odiava conflitos. De fato, nunca discutia – mas aquilo era diferente. Precisava se impor. Ele tentava interferir na sua música. Era a coisa mais importante para ela. Era sua alma.

– E se eu comparecesse ao recital esta tarde? – disse ele.

Os lábios dele quase não se mexeram.

Edie quase sentia o olhar interessado de Bardolph perfurando suas omoplatas.

– Ficaria feliz em vê-lo.

– Mas não concordará com meu pedido para não tocar diante de homens.

– Não ouvi um pedido, e sim uma ordem – observou ela.

– Por favor, deixará de tocar na presença de homens?

– Não farei recitais públicos, se quiser.

– Obrigado – disse Gowan.

O rosto dele aparentava indiferença, mas a imagem de um lago gelado veio à mente de Edie, quando olhou nos olhos do marido.

– Você é bem-vindo para me acompanhar durante o recital, pois percebo que está preocupado que…

O quê? Ele imaginava que ela começaria a flertar com o jovem francês? Largar o violoncelo para partir para um ato que ela achava não apenas doloroso, mas desagradável?

Os olhos dele endureceram.

– Eu confio em você. Só não gosto é que seu parceiro tenha a oportunidade de saborear seu desejo durante cada momento em que tocarem juntos.

Ela balançou a cabeça e, apesar de tudo, sentiu uma ponta de simpatia por ele.

– Não compreende como funcionam os duetos. Eu somente tocaria com um músico de verdade. Se não tivesse conversado com Védrines durante duas horas na noite passada, nunca consideraria essa possibilidade. Posso lhe assegurar que ele pensará apenas na música, e não na minha postura. Devemos praticar no pomar hoje à tarde, se quiser se juntar a nós.

Ela se voltou, fez uma reverência geral para todo o aposento e saiu.

Não foi muito longe. A Sra. Grisle a pegou, arrastou-a até a sala da governanta e a cobriu de perguntas. Duas horas se passaram. Bardolph se juntou às duas e falou durante quinze minutos sobre o armário de roupa de cama da propriedade nas Terras Altas, perto de Comrie. Havia camundongos.

Camundongos?

Sim, em toda parte. Ela conseguiu fazer Bardolph entender que os camundongos em questão – aliás, todos os camundongos – eram problema dele.

Mais uma hora se passou antes que Edie percebesse que, se não organizasse melhor a administração doméstica, nunca teria tempo de passar o arco nas cordas.

Previra que encontraria alguns problemas nos cuidados de uma residência de tal porte. Volta e meia, pensava em Gowan declarando que ela não devia tocar diante de homens. Aquilo a fazia sentir uma fagulha de fúria jamais experimentada antes.

Quando Bardolph a convocou para o almoço, Edie estava razoavelmente convencida de que todos compreendiam como as coisas correriam dali por diante.

Nesse meio-tempo, Gowan abandonou todos os homens em seu escritório e envolveu-se em uma breve conversa com Védrines. Foi preciso apenas alguns minutos para deixar claro que Gowan o mataria caso os olhos do instrumentista pousassem abaixo do pescoço da duquesa.

– Isso não aconteceria – declarou o francês, acrescentando, um tanto na defensiva: – Quando se toca um instrumento, a única preocupação é a música, Vossa Graça. Embora, é claro, a concentração dependa das habilidades musicais do parceiro.

Algo em seu tom de voz insinuava que ele não tinha tanta certeza do talento musical de Edie, da mesma maneira que ela não confiava nele. Os dois tinham grande consideração pelas próprias habilidades. Gowan deu uma boa olhada no francês e percebeu que Védrines não seria uma ameaça a seu casamento. Ele não pensava em Edie como mulher, de forma alguma. Havia alguma outra moeda em jogo na situação.

– Certo – disse Gowan, estendendo a mão. – Ofereço-lhe minhas mais sinceras desculpas pelo insulto.

O homem olhou para a mão dele por um momento, mas a pegou. Por alguma razão, Gowan gostou daquilo. Védrines estava a ponto de deixar o castelo embora precisasse desesperadamente do dinheiro.

– Quanto estou lhe pagando? – perguntou.

Védrines corou e disse a quantia. Devia ser humilhante para um homem necessitar de um emprego.

Gowan assentiu.

– A partir de agora, pagaremos o dobro.

Védrines franziu as sobrancelhas.

– Por que, Vossa Graça?

– Todo castelo deve ter um músico – explicou ele.

O jovem francês endireitou sua postura, embora seus olhos ainda estivessem na altura dos ombros de Gowan.

– Estaria falhando em meu dever como cavalheiro se não mencionasse que o senhor está desonrando a duquesa.

– Como?

– O senhor a subestima. Sua esposa é uma virtuose.

Gowan sentiu-se ainda mais animado. Contratara um empregado que tinha o tipo correto de reverência à sua esposa.

– Espere até se casar.

– Deverei manter e demonstrar minha confiança em minha noiva – retrucou o francês com frieza.

– É o que faço – garantiu Gowan.

Não tinha certeza do que esperar quando deixou o escritório para o almoço tempos depois. Aparentemente, havia alguma balbúrdia. Bardolph chegou a interrompê-lo para fazer uma queixa, mas Gowan não o atendeu. A administração da casa tinha passado a ficar sob a responsabilidade da duquesa.

Layla foi a primeira pessoa que ele encontrou.

– Dormiu mesmo na ala infantil? – perguntou ele.

– Dormi, e seus criados dormem em colchões terrivelmente duros, Gowan. Pedi que Barlomps me instalasse um novo colchão ou não serei capaz de andar ereta amanhã.

– Bardolph – corrigiu Gowan.

Edie entrou na sala matinal, cumprimentando-o com um semblante que não transparecia qualquer irritação decorrente da conversa anterior. De fato, não demonstrava nada, o que ele achou irritante. Sabia usar o truque de esconder os sentimentos, mas não o apreciava em sua esposa.

– Como foi seu encontro com a Sra. Grisle? – perguntou, quando se sentaram.

Edie sorriu para o lacaio que se ofereceu para servir-lhe pudim.

– Eu a demiti.

– O quê?

Ele não esperava que a esposa mandasse para a rua a governanta que cuidava da casa havia uma década. Não que a Sra. Grisle fosse particularmente agradável ou eficiente, mas pelo menos não roubava a prataria.

À sua esquerda, Layla puxava uma conversa com Védrines.

– Por que você a dispensou? – perguntou Gowan, lembrando-se de que o casamento implicava dividir o poder, ao menos em casa.

– Ela era incapaz de confiar no próprio julgamento para tomar decisões – respondeu Edie, parecendo inalterada. – Sentia necessidade de confirmar suas ações comigo e chegou a requisitar duas horas de reunião comigo todas as manhãs. Avisei que ficaria feliz em conceder alguns minutos ao anoitecer, mas que não queria ser interrompida durante o dia. Ela ficou bastante desconcertada. Todo dia você ficava uma hora ou mais com ela?

Gowan assentiu.

– A governanta deve se reportar ao administrador geral se tiver necessidade de recapitular suas realizações diárias – disse Edie, cortando o rosbife. – Seu tempo é precioso demais para ser desperdiçado com informações sobre a secagem das roupas. E, francamente, o meu também é.

Algo parecido com um sorriso começou a se abrir nos cantos da boca de Gowan. Ele adoraria ter testemunhado aquela conversa.

– No fim, concordamos que seria mais confortável se eu encontrasse alguém capaz de trabalhar da forma como estou acostumada. A Sra. Grisle ficou animada com nossa conversa, o que apenas confirmou minha decisão. Não posso tolerar pessoas que levantam a voz quando ficam zangadas.

Era razoável.

– Dispensou mais alguém?

– Duas criadas do andar de cima, uma ajudante de cozinha e um lacaio.

– Encarregou Bardolph de encontrar substitutos?

– Não – respondeu Edie. – Estou bem certa de que ele pode tomar essa iniciativa sem que eu precise pedir. Eu o instruí a pagar uma indenização substancial para cada um. A manhã foi turbulenta, mas a partir de agora espero que os criados tenham mais iniciativa.

Gowan ficou se perguntando qual seria o motivo para o lacaio ter sido dispensado, mas decidiu que não ganharia nada em buscar saber.

– Se tudo correr bem, não haverá mais necessidade de encorajamento, de minha parte.

Ela sorriu para ele sem qualquer irritação no olhar.

Era como se a batalha da manhã jamais tivesse acontecido.

– É provável que pense que sou teimosa, mas posso usar como pretexto o fato de que tomei lições de administração doméstica sentada no joelho de Layla.

Ela tocou as costas da mão de Gowan, e uma constrangedora onda de calor teve origem com aquele toque.

– A criadagem se acomodará assim que entender o meu jeito.

Gowan pensou que, à essa altura, já poderiam estar lidando com um grupo inteiramente novo de criados, mas, como afirmara Edie, aquele era um problema de Bardolph.

Depois da refeição, Edie subiu para estudar e Gowan convidou Layla para ir até seu escritório. Ela ficou vagando, olhando com um ar um tanto crítico as imensas pilhas de livros de contabilidade na escrivaninha de Bardolph, quando ele lhe contou o que vinha pensando.

– Ao que parece, a senhora e Susannah estão se divertindo juntas.

Layla virou-se bruscamente, o rosto sério como ele nunca tinha visto nela.

– Amo Susannah. – Ela se aproximou dele, o rosto iluminado pela determinação. – Eu…

Gowan ergueu a mão.

– Concordo que a senhora seria inteiramente apropriada para cuidar de Susannah.

– Não quero ser apenas a babá – disse Layla com firmeza. – Sou a mãe dela.

– Quer dizer que gostaria de adotá-la?

– Claro.

Ele pensou por um momento. Sua mãe nunca se dera ao trabalho de informar sobre as origens da irmã, e mesmo assim…

– Eu ficaria muito desconfortável se não fosse o responsável por educação, vestimenta e outras despesas de Susannah. – Ele hesitou. – E não quero perdê-la completamente.

Layla sorriu, um sorriso amplo e generoso sem nenhum vestígio coquete.

– Como isso poderia acontecer? Edie é uma das pessoas mais queridas do mundo e aquela que meu marido mais ama. Você nos verá muito, tenho certeza.

– Muito bem. Podemos cuidar dos aspectos formais quando lorde Gilchrist chegar.

Layla ficou tensa.

– Se ele não fizer uma visita num futuro próximo, eu lhe enviarei os documentos – acrescentou Gowan.

Alguma coisa sossegou no olhar de Layla e ela o abraçou.

– Somos uma família agora. Isso nos unirá ainda mais.

– Claro – disse Gowan. – Tenho certeza de que Edie concordará.

O sorriso desapareceu do rosto de Layla.

– Conversou com ela, antes de pedir que eu cuidasse de Susannah, não foi?

Ele não gostou do tom da pergunta.

– Garanto que Edie não discordará da minha decisão em relação à guarda de Susannah. Seu afeto por minha irmã é óbvio.

– Edie deveria ter sido consultada. Ainda ontem, era ela que supostamente deveria assumir o papel de mãe de Susannah. E agora está me entregando a criança?

– É fato que Edie não demonstrou grande aptidão nos cuidados de Susannah. A própria já havia me informado por carta que não estava preparada para o papel, portanto não fiquei surpreso.

– Edie será uma mãe maravilhosa! – retrucou Layla.

– Mas eu precisaria ser cego para não reconhecer o vínculo que existe entre a senhora e Susannah – completou Gowan.

O rosto de Layla relaxou e ela abriu um sorriso.

– Ela é a filha do meu coração. Não ser capaz de conceber uma criança me deixou muito triste. Agora só posso ficar contente por nunca ter acontecido. – Uma expressão atormentada passou por seu olhar. – Se eu tivesse meus filhos, não teria vindo para a Escócia. Nunca teria conhecido Susannah.

Gowan não era dado a demonstrações de afeto, mas sabia quando a situação exigia mais do que uma simples reverência. Permitiu ser envolvido pelo abraço perfumado de Layla mais uma vez. Não era tão desagradável quanto ele teria imaginado.

Ela se afastou.

– Tenho um presente. – Pôs um livro nas mãos dele. – Poemas de amor. Essas coletâneas são a verdadeira mania do momento. Todo mundo está lendo. Pensei que, por ter citado Romeu e Julieta naquela carta ultrajante que enviou para Edie, o senhor talvez os apreciasse.

Poemas…

Gowan ergueu a cabeça bruscamente.

– Está sugerindo que eu preciso escrever poesia para minha esposa?

Layla franziu a testa.

– Por que raios eu ia sugerir que escrevesse poesia? Com o devido respeito, duque, o senhor não me parece ter uma alma poética.

– Peço desculpas – respondeu Gowan, virando o livro. – Claro que não foi isso que eu quis dizer.

– De qualquer maneira, poesia é um dos pontos fracos de Edie.

– Sério?

Layla assentiu.

– A preceptora tentou martelar alguma coisa em sua cabeça, mas ela é uma negação no que diz respeito à palavra escrita.

– Ela é?

– Acho que deve ser equivalente à sua aptidão musical. Edie não tem prazer em ler, mas adora ouvir poesia sendo declamada.

– Claro. Ela prefere o som.

O livro tinha uma encadernação de couro e gravações em ouro. Na capa estava escrito Poesia para uma noite solitária.

– Poderia ler para ela – sugeriu Layla.

– Tudo bem – concordou Gowan, pensando que mal tinha tempo de beijar a esposa, quanto mais para ler poesia para ela.

Deixou o livro de lado e voltou ao trabalho. Como o meirinho da propriedade das Terras Altas perdeu a hora da reunião, em vez de tratar das centenas de itens que aguardavam sua atenção, Gowan resolveu pegar o livro de novo.

Pulou os sonetos de Shakespeare. Memorizara todos na juventude. Havia muitos versos escritos por um homem chamado John Donne, que parecia ter senso de humor, pelo menos. Sou dois tolos, leu ele, por amar, por dizê-lo em poesia choramingas. Gowan soltou uma gargalhada e virou a página.

Leu o poema seguinte quatro vezes… cinco. Implorava ao sol que não se erguesse e que não afastasse os amantes da cama. Brilhe para nós, pois estás em toda parte. Este leito é teu centro, as paredes sua esfera.

O elemento que faltava em seu casamento estava ali, em preto e branco. A cama não deveria ser o centro de suas vidas. Ela é todos os estados, escreveu Donne, e todos os príncipes. Nada mais é assim.

Gowan olhou em volta com uma sensação sombria de frustração. Se era um príncipe, Edie não era seu estado nem seu domínio. Era um príncipe de terra e solo, de pequenas aldeias e campos de trigo.

Não de uma mulher tão volátil quanto o vinho. Fracassara. Fracassara na cama e sentia o coração apertado com essa dor.

Depois, naquela mesma tarde, ele olhou pela janela e viu o recital. Layla e Susannah estavam enroladas em um cobertor azul. Edie ocupava uma cadeira reta, de costas para o castelo, e Védrines se encontrava a seu lado, com o violino acomodado sobre o queixo.

Mesmo distante, Gowan percebia o movimento no corpo de Edie, quando começaram a tocar. E percebia que Védrines se sentara virado para outra direção, com os olhos supostamente fixados na partitura diante dele. Talvez tivesse concluído que seu patrão era um louco delirante, mas mantinha sua palavra.

O coração de Gowan começou a martelar dentro do peito. Um dos meirinhos falava, mas as palavras não faziam sentido. Agarrou os documentos que Jelves tinha preparado a respeito da educação de Susannah.

– Cavalheiros – disse ele, girando nos calcanhares. – Se puderem me dar licença por alguns momentos, eu mesmo me encarregarei de entregar esses papéis a lady Gilchrist.

Desceu a encosta minutos depois. Contornou as árvores e ninguém o viu. O rosto de Védrines tinha a mesma alegria transcendente de Edie enquanto tocava, sem ligar para os próprios olhos. Naquele exato momento, o francês ergueu o arco, afirmando:

– Um dó sustenido é muito diferente ao ar livre.

Seja lá o que isso quisesse dizer.

Edie com certeza sabia. Ela puxou uma corda e uma nota estremeceu até desaparecer.

– Entendo o que isso quer dizer.

Védrines virou uma página da partitura aberta no suporte diante dele – que Gowan reconheceu como o mesmo que costumava ficar na biblioteca exibindo a Bíblia Kinross – e assentiu. Então começaram. As notas lentas e doces de Edie soavam sob as do violino, parecendo uma onda do mar. O som que produzia desaparecia no momento em que violino entrava, porém nunca era dominado. Um momento depois, erguia-se de novo. Em contraste com suas linhas, o violino saltitava como uma rima infantil, pueril e rasa.

O que via no rosto dela…

Virou-se e voltou pelo caminho antes do final da peça. Pela primeira vez na vida, compreendeu que um homem podia deixar toda sua vida para trás e abandonar a esposa. Ele poderia abandonar o castelo e deixar de ser um duque. Poderia caminhar até que o ciúme em seu coração silenciasse e o rosto de uma mulher não o abalasse profundamente.

De volta ao castelo, entregou a Bardolph os documentos destinados a lady Gilchrist, pedindo-lhe que obtivesse as assinaturas. Não se sentia bem por saber que Susannah seria criada como uma inglesa. A mãe deles, por outro lado, nunca demonstrara o menor interesse em cuidar de nenhum dos dois. A nacionalidade importava menos do que o amor de Layla por Susannah.

Mais tarde, o mordomo informou que Sua Graça havia ordenado um jantar privativo em seu quarto. Pouco depois, o meirinho da propriedade das Terras Altas finalmente chegou. Demorara por causa de um eixo quebrado na carruagem. Em algum momento, Gowan pediu a Bardolph que informasse à duquesa que ele se atrasaria.

Mas até ele ficou atônito ao erguer a cabeça e descobrir que já eram dez horas da noite.

Bardolph estava com um olhar agitado quando Gowan deixou o escritório, com o livro de poesia enfiado no bolso. Seu administrador aparentemente estava esperando atrás da porta por algum tempo.

– Temo que a refeição esteja fria, mas acredito que Sua Graça não teria desejado minha intromissão para levar alimentos mais quentes, pois está tocando seu instrumento.

Bardolph estava aprendendo, percebeu Gowan. Edie tinha, de algum modo, amedrontado aquele sujeito rabugento.