A Torre do Amor
Capítulo 9
Gowan entrou cedo no salão e ficou por ali conversando com os parentes da família Smythe-Smith, tentando disfarçar que estava prestes a morrer de tédio.
No baile de Gilchrist, e durante a maior parte do tempo, ele vestira trajes ingleses: casaco bordado, gola engomada, calças de seda. Depois das correspondências reveladoras com Edie, ele queria mostrar-se como era, e não se passar por um inglês.
Vestia o kilt Kinross, com o xadrez do chefe do clã MacAulay. Tivera a impressão de que era a coisa certa a fazer. Cercado por aqueles ingleses esguios e tolos, com joelhos cobertos, suas pernas desnudas pareciam duas vezes mais robustas pelo simples fato de terem sido libertadas do incômodo das calças.
Marcus Holroyd, o conde de Chatteris, parou a seu lado.
– Kinross, é um prazer vê-lo aqui. Minha noiva acabou de me informar de seu recente noivado.
Gowan inclinou a cabeça.
– Sim, estou noivo de lady Edith Gilchrist.
– Meus melhores votos. Pelo que sei, ela é uma instrumentista talentosa. Também toca algum instrumento?
Gowan ficou mais do que um pouco constrangido por não ter ideia dos interesses de lady Edith, muito menos dos dons dela.
– Ela é uma instrumentista tão talentosa quanto sua inestimável noiva?
Gowan tinha suportado um recital das Smythe-Smiths certa vez e esperava nunca mais presenciar tal cacofonia dissonante. Se sua esposa era uma instrumentista daquele calibre, ele imploraria que ela não tocasse.
– Nunca tive o prazer de ouvir lady Edith tocar – respondeu Chatteris, sem revelar nada além de completo apoio aos talentos musicais de sua noiva.
Não estremeceu sequer uma sobrancelha.
Houve uma agitação na entrada e os dois se viraram.
– Aí está Honoria – informou Chatteris.
Gowan contemplou-o. Tinha um olhar de tranquilo desejo.
Esquisito. Os casamentos da aristocracia não costumavam ser arranjados por interesses românticos. Sob o olhar de Gowan, Chatteris foi direto para o lado de Honoria.
Maldição! Por onde andava lady Edith? Estava ficando doente de tanto evitar os olhares lascivos de mulheres que apreciavam o kilt pelos motivos errados – davam a impressão de querer saber o que havia por baixo.
O conde de Gilchrist entrou no salão e se aproximou de Gowan com seu passo firme e ligeiramente constrangido. Meneou a cabeça em saudação.
– Vossa Graça.
– Seremos da mesma família – respondeu Gowan com cordialidade, estendendo a mão. – É bom revê-lo, Gilchrist.
O conde apertou sua mão brevemente.
– Espero que fique satisfeito em ver minha filha depois desse tempo separados. É muito bom que possam se conhecer melhor antes do casamento.
– Na verdade, devemos discutir a data. Gostaria de reconsiderar a duração de meu noivado.
– Não aprovo casamentos apressados – declarou Gilchrist. – A meu ver, um ano de noivado não seria inadequado.
Se ele e Edie não tivessem trocado aquelas cartas, Gowan não teria se importado de esperar um pouco mais. Mas sob aquelas circunstâncias…
– Penso que mencionei minha meia-irmã, órfã – lembrou ao conde. – Eu ficaria relutante em deixá-la sozinha por um ano inteiro.
Lady Gilchrist se uniu a eles. Gowan voltou-se e fez uma reverência, levantando-se a tempo de captar um olhar indiscreto do conde para a mulher. Era constrangedor. O sujeito estava aos pés da esposa, por assim dizer.
– Lady Gilchrist – cumprimentou Gowan. – É um prazer vê-la novamente.
– Deve estar ansioso para ver nossa filha – disse ela, deixando aparecer uma covinha inesperada em uma das faces.
A aparência um pouco travessa de lady Gilchrist – sua combinação de beleza, sensualidade e perspicácia – era atordoante.
Gowan beijou-lhe a mão, retribuindo o sorriso.
Então reparou que o olhar de Gilchrist se transformara em trevas. Ficou estarrecido até perceber que aquela fúria surda só poderia significar uma coisa: o conde acreditava que a esposa era capaz de traí-lo, até mesmo com seu futuro genro. Gowan teve pena dele.
Deve ter deixado transparecer um vestígio desse sentimento, pois Gilchrist estreitou os olhos e ergueu o queixo.
– Lady Gilchrist – interveio ele, com uma voz dura como granito –, onde está minha filha?
Lady Gilchrist não demonstrou a menor reação àquele tom de voz, embora Gowan o tenha considerado extremamente ríspido, para não falar naquela mudança de tratamento. Ele transformara “nossa filha” em “minha filha”, de forma decididamente possessiva.
– Edie entrou no salão em minha companhia – disse ela –, mas encontrou a bela e jovem lady Iris, uma das meninas Smythe-Smith. Aquela que também toca violoncelo.
Ela se virou e começou a esquadrinhar o salão.
– Lá está ela.
Havia jovens por toda parte, todas parecendo montinhos de neve em seus vestidos brancos. O olhar de Gowan viajou de uma para outra, descartando-as. Não… não… não. Franziu a testa e voltou a examinar cada vestido branco.
Tinha certeza de que seria capaz de reconhecer o semblante doce de lady Edith. Afinal, ele a observara durante duas danças seguidas. Conhecia o nariz arrebitado, os olhos verdes, o desenho de suas maçãs do rosto.
– Talvez – falou lady Gilchrist, com certa irreverência na voz – não esteja levando em conta o fato de que Edie não gosta muito de vestidos brancos, embora os use quando necessário.
– Esperava que minha filha pudesse ser reconhecida pelo futuro marido, independentemente da forma como se vista – comentou o conde, seco.
Gowan o ignorou e começou a olhar para cada mulher no salão, não apenas para aquelas que estavam de branco. A risadinha de lady Gilchrist, a seu lado, soava como o chamado sonolento de um pássaro ao anoitecer.
Então ele a viu.
Sua noiva… Sua futura esposa.
Edie.
O coração batia com a força de um trovão. Reconhecia todos os ângulos do rosto, os lábios cheios, o cabelo… quem poderia esquecer aquele cabelo? Parecia que antigas moedas romanas haviam sido derretidas em vinho, permitindo que mechas de ouro mais escuro se entremeassem com a luz do sol.
Ao mesmo tempo, ela não era exatamente a mulher que ele havia escolhido para se casar.
Essa mulher era absolutamente sensual. Seu corpo tinha sido esculpido para receber as carícias de um homem. Os seios eram suaves e cheios, a pele de alabastro emoldurada por seda cor de vinho. Estava conversando com alguém e ria… seus lábios risonhos combinavam com o vestido. O cabelo reluzia com o brilho intenso do mel de jasmim. Estava preso no alto da cabeça e cachinhos balançavam com ligeiras variações de cor.
Ouviu Gilchrist dizer algo, mas não captou as palavras. O sangue latejava nas têmporas. Quando a conhecera, os olhos de Edie pareciam lagos plácidos, repletos de água doce. Agora eram expressivos, cheios de riso e de inteligência. Nada havia de plácido neles. Nem nos lábios escarlate, nem nos seios arredondados.
– Agora entendi por que não a reconheceu de imediato – falou Gilchrist, cheio de reprovação na voz. – Aquele vestido é inadequado. Só posso pensar que tenha sido influência sua, lady Gilchrist.
– Não é apenas uma questão de influência, mas de fato o vestido é meu – respondeu a esposa. – Como já está comprometida, Edie não precisa aderir às convenções de vestimenta com a mesma rigidez que governa as mulheres solteiras.
– Peço licença – disse Gowan, fazendo uma saudação. – Vou cumprimentar lady Edith.
– Pode chamá-la de Edie – lembrou a condessa, com alegria, parecendo não ter se abalado com os comentários amargos do marido. – Ela prefere a informalidade em família.
Gowan sentiu aquela palpitação intensa e ansiosa que costumava ter no início de uma caçada. Esta era a mulher que lhe escrevera aquela carta. Era a mulher que se casaria com ele. Que havia escrito sobre dançar nos lençóis com ele.
Ao atravessar o aposento, de olhos grudados na sua prometida, o kilt roçou-lhe as pernas, lembrando a ele que outras partes do corpo enrijeciam enquanto caminhava. Era uma surpresa erótica que nunca havia experimentado até então, algo que nunca sonhara ser possível.
Como se estivesse consciente de que Gowan a observava, Edie se virou e seus olhares se cruzaram.
Como ele podia ter acreditado que ela era casta, tranquila, submissa? Os olhos dela brilhavam, a boca estremecia, exalando sensualidade. Era como se ele estivesse encontrando uma completa desconhecida.
O desejo o consumia. A boca dela se abriu ligeiramente e ele percebeu que também fora reconhecido.
Pensara nela como se fosse um gole de água pura. No entanto, naquele momento, encarando-a, ela era um rio turbulento, vívido e perigoso. Ela mudaria a vida dele. Ela o mudaria por inteiro.
Por instinto, ele reagiu como os homens das Terras Altas sempre faziam diante da mulher que honravam acima de todas as outras. Sem perceber que o salão tinha mergulhado no mais completo silêncio, parou diante da noiva e abaixou-se, apoiando-se em um joelho, para então tomar a mão que ela lhe estendia.
– Senhorita – disse ele, com uma voz profunda e segura.
Não via ninguém além dela e sabia que ela também via apenas a ele. Com um puxão rápido e preciso, Gowan retirou a luva que Edie usava. Houve um suspiro em algum lugar, mas ele não deu atenção.
Não estavam se apresentando para uma plateia. Eram apenas os dois ali.
O duque ergueu a mão da jovem e levou-a até os lábios. Era um gesto imprudente, audacioso.
Ele não se importava nem um pouco.