A Torre do Amor
Capítulo 24
Na manhã seguinte havia sangue na sua camisola e Edie entrou em pânico. Pensou por um momento que alguma coisa dentro dela poderia ter se rompido.
– Suas regras começaram – disse Mary, vindo por trás. – O duque vai ficar dolorosamente desapontado – acrescentou a aia com uma gargalhada.
Edie também riu um pouco.
De leve, mas com alívio.
No desjejum, ela informou a Gowan que problemas femininos eliminavam a possibilidade de visitas à sua alcova por algum tempo. Teve uma sensação boa ao dizer aquilo. Animada pela lembrança de suas inúteis sessões de estudo, ela aproveitou para emendar outro pronunciamento:
– Gostaria que fizéssemos uma parada de duas horas, esta tarde, para que eu possa praticar.
Gowan olhou para a esposa como se ela tivesse acabado de anunciar sua intenção de imigrar para a Filadélfia.
– Nosso trajeto está planejado seguindo uma programação rígida, Edie, como bem sabe.
– Preciso estudar e fico cansada demais para tocar depois do jantar. Poderíamos ficar aqui por mais um dia – sugeriu.
– Reservamos todos os quartos na Partridge Inn para esta noite. E as primeiras carruagens já partiram há uma hora.
– Eu me atrasei com o violoncelo, Gowan. Preciso estudar. Posso praticar aqui ou podemos fazer uma pausa na hora do almoço.
Gowan pressionou os lábios, mas, para surpresa dela, não discutiu. Em vez disso, decidiu que seria melhor perder um dia na viagem. Assim, ela tocou até a hora do almoço e depois até o jantar. Durante todo o tempo, os criados entravam e saíam da sala, cumprindo sabe-se lá quais tarefas, até que ela reuniu todos – os dezoito criados – e anunciou que qualquer um que voltasse a interrompê-la enquanto estivesse tocando seria sumariamente dispensado de seu emprego. Pousou seu olhar sobre Bardolph por puro prazer.
Já testemunhara o bastante para saber que Bardolph era um membro fundamental da comitiva de Gowan, mas ameaçá-lo, por mais impotente que ela fosse, a fazia sentir como se estivesse desenvolvendo a estrutura que Layla dissera que era necessário ter.
– O que faremos com relação a seus estudos amanhã? – perguntou Gowan, na hora do jantar.
– Ficaria grata se pudesse me reservar duas horas com luz do dia… – anunciou ela. – O violoncelo soaria muito alto na carruagem e dificultaria para você ouvir os relatórios.
Era uma ameaça despropositada, pois, naturalmente, ela nunca obteria o equilíbrio necessário num veículo em movimento. No entanto, confiava no fato de que ele não sabia nada sobre instrumentos de corda.
– Sairemos uma hora mais cedo e chegaremos uma hora mais tarde – argumentou Gowan.
Era assim que ele enfrentava os obstáculos, Edie começava a perceber. Fazia uma avaliação, lidava com eles e seguia em frente. Os relatórios diários das propriedades representavam um problema e Gowan construiria uma estrada em torno do obstáculo sem se irritar.
Bardolph não compartilhava do desprendimento do duque. Estava obviamente trincando os dentes, e por isso ela lhe lançou um enorme sorriso, para provocá-lo mais.
– Estamos quase no verão. Não me importaria de praticar no campo – disse a ele.
– Podemos fazer melhor do que isso – sugeriu Gowan. – Vamos parar em Pickleberry – dirigiu-se a Bardolph. – Acredito que Sua Graça gostaria de tocar no Merchant Tailors’ Hall. Mande alguém para garantir que esteja disponível e faça a doação da quantia apropriada para suas iniciativas beneficentes.
Naquela tarde, a carruagem parou na minúscula praça de um vilarejo. Gowan acompanhou Edie até um salão de bom tamanho e deixou um lacaio na entrada, para garantir que ninguém a interromperia.
Edie curvou-se sobre as cordas com um sólido sentimento de propósito. Se pudesse dedicar duas horas intensas ao estudo de Boccherini, ela não se sentiria tão impaciente na carruagem. E decidira levar a partitura com ela para examiná-la algumas vezes, como se fosse um livro contábil.
Pouco mais de uma hora depois, Gowan entrou no salão silenciosamente. Edie ergueu a cabeça e o viu, mas seus dedos continuaram a seguir, com habilidade, uma trovejante cascata de notas, e ela voltou a olhar para a partitura.
Ele ainda estava lá meia hora mais tarde, com os braços no encosto do banco, fitando o teto. Ela fez soar uma última nota e parou. Gowan baixou o queixo lentamente.
– Acabou?
Era imaginação dela ou ele parecia frustrado?
– Não – respondeu ela com firmeza. – Vou aproveitar cada segundo das duas horas que me foram designadas.
Mas estava cansada de Boccherini. Em vez disso, ergueu o arco e tocou as primeiras notas de Dona Nobis Pacem.
Quando a última nota foi silenciada, ela recomeçou. Atropelara o terceiro e o quarto compassos. Precisava de paz no coração. Seu arco sabia da verdade, e ela começou a acelerar de novo. Não havia paz dentro dela com Gowan ali, observando as vigas da construção. Tudo o que ela conseguia ver eram os traços fortes de sua mandíbula.
Normalmente, ela mergulhava na música, mas dessa vez ela permitiu que a música fosse um acompanhamento, como se ela se nutrisse dele. O pescoço robusto, os ombros largos, o fulgor ruivo no cabelo. Seu extraordinário brilho. Seu jeito de ser tão incisivo, uma parte integral de sua personalidade. A forma como governava um império sem erguer a voz. A forma como procurou conformar sua vida à paixão que ela mantinha pela música.
Tinha sorte. Muita sorte, a não ser por aquela coisa.
Os olhos vagaram para as pernas abertas dele, enquanto Gowan se acomodava no banco. Parecia perverso devorá-lo com os olhos enquanto ele estava tão arrebatado pela música. Quando a peça acabou, ela emendou com uma sonata de Telemann, esperando não agitá-lo. Gowan tinha fechado os olhos, talvez cochilasse.
Pela primeira vez, ela se pegou pensando em como seria lambê-lo. Imaginou sua língua traçando caminhos por seu abdômen chato, e até mais embaixo, talvez.
Nos últimos compassos, ele abriu os olhos e então se levantou, espreguiçando-se. Edie sentiu como se faíscas percorressem seu corpo no ritmo da música. Se pudesse ser assim o tempo todo: a sós, sem Bardolph, sem relatórios.
Lentamente, ela afastou o arco das cordas.