A Torre do Amor
Capítulo 25
Cerca de uma semana depois, Gowan tinha certeza de que estava a ponto de perder a cabeça.
Edie passava os dias enfiada num canto da carruagem com uma partitura nas mãos. Em determinado momento, ela chegou a declarar num tom surpreso que tinha começado a compreender o método de viagem do marido.
– Normalmente, eu apenas me sentaria aqui e ficaria rindo o tempo todo com Layla, enquanto meu pai viajava do lado de fora. Mas, mesmo sem o instrumento, consegui avanços surpreendentes nesta partitura.
Então voltou a se debruçar na leitura e ele precisou se conter para não jogar as páginas pela janela.
Ela podia estar concentrada, ele não. Não conseguia parar de olhar para ela. Durante horas, dias e quilômetros, Gowan estudara tudo, do narizinho delicado até uma minúscula marca bem no meio de seu lábio inferior. Quando chegava a uma parte difícil da partitura, ela mordia o lábio com os dentes brancos e alinhados.
Ele queria morder aquele lábio. Queria jogar-se de joelhos diante dela e erguer suas saias. Deitá-la no assento e…
Se as coisas fossem diferentes, Gowan deitaria Edie no banco da carruagem e beijaria cada centímetro do corpo dela.
Ele se deitaria e a colocaria em cima de si. Ele… Não era agradável passar o dia consumido pelo desejo, sabendo muito bem que a esposa não compartilhava o mesmo sentimento.
A pobre Edie vinha tendo muita dificuldade para se ajustar a ele. Gowan sabia e, mesmo assim, isso não o impedia de sucumbir à luxúria. Todas as vezes que fechava os olhos, ele via as pernas longas e claras da esposa e a fartura exuberante de seus seios. Edie ficava ali no canto da carruagem, mastigando a ponta de um lápis, de repente anotando coisas no papel, sem perceber sua presença, enquanto ele mal conseguia respirar por causa da intensidade de sua fome.
Saber que ela sentia dor ao fazer amor com ele o levava a se ver como um bruto. Na segunda, na terceira, na quarta vez, as partes dela tinham enrijecido no momento da penetração e ela soltara um gemido que fizera o sangue dele gelar.
De qualquer forma, ele desejava penetrar em seu calor. Bastava olhar para a cabeça baixa da esposa e o desejo queimava seu corpo. Porém, os orgasmos dela eram fracos, incomparáveis a quanto seu corpo se inflamava, estremecendo, quando ele lhe dava tudo o que tinha.
Ela…
Edie era um mistério para ele e não ajudava o fato de que a maioria dos homens julgava as mulheres um mistério. Mesmo antes da chegada de suas regras, ele já vinha adiando as fantasias que nutria de que algum dia ela ergueria as saias e o seduziria, montando-o enquanto as rodas da carruagem sacolejavam.
Edie não ligaria para aquela ideia. Permanecia contida, tranquila, na mesma posição, embaixo dele, quando faziam amor. Congelava quando ouvia o som de passos no corredor. Ele imaginava que ela não aceitasse de bom grado carícias à luz do dia, dentro da carruagem.
A não ser pelo fato de que fora dentro de uma carruagem que ela havia estremecido ao ser tocada depois do baile Chuttle. Edie parecia pensar que ele perdera o senso de humor, mas Gowan argumentaria que ela também havia perdido algo.
Talvez fosse essa a natureza do casamento. Começava pelo encantamento e pela receptividade do outro… E então a realidade interferia. Tudo nele se revoltava contra essas noções. A Edie sensual que ele conhecera não podia ter desaparecido, deixando em seu lugar uma mulher desinteressada em fazer amor.
Gowan não se incomodaria nem um pouco em fazer amor com ela durante as regras, mas Edie era meticulosa. Ele odiava o jeito dela de secá-lo com um lençol, como se estivesse esfregando um cavalo.
Aquilo enfatizava como a intimidade deles era um fracasso.
Fracasso.
Era melhor reconhecer o fato, pelo menos para si mesmo. Alguma coisa não ia bem. Não era tudo o que ele esperava… não era aquilo o que os poetas descreviam. Mesmo nas profundezas do prazer, Gowan sentia que era como se ela estivesse lhe fazendo um favor. Chegava a suspeitar que Edie pensava em música enquanto ele estremecia de desejo.
O pior de tudo é que ele sentia como se Edie não fosse realmente dele. Ela ria e conversava, e usava aliança, mas ele não havia conseguido deixar sua marca nela. Quando suas regras terminassem, as coisas precisariam mudar.
No entanto, a situação não iria melhorar se ele tentasse persuadi-la a intimidades antes de estar realmente pronta. Não tinha ideia de quanto tempo duravam essas questões femininas. Uma semana? Alguns dias?
Quando chegaram a Berwick-upon-Tweed, três dias depois, lady Gilchrist juntou-se a eles na carruagem e Gowan chegou a sentir ciúme dela, da própria sogra, pois Edie ficara intensamente feliz em vê-la. Ela e a madrasta sentaram-se juntas, de mãos dadas, durante a tarde inteira, até pararem para passar a noite no Rumble and Berry, a apenas duas horas de distância de Craigievar. Não queria apresentar Edie ao castelo e a seus residentes no meio da escuridão. Por isso, ordenou que Bardolph e boa parte da comitiva seguissem adiante, mas os três e os criados particulares se instalaram na hospedaria.
Depois do jantar, desejaram-se boa-noite no corredor e retiraram-se para seus devidos quartos. Gowan permaneceu desperto, pensando em seu casamento.
Na manhã seguinte, entrou no quarto da esposa e sentou-se na cama. Edie ainda estava despertando, o cabelo desalinhado, os olhos pesados, lânguida. Ele suprimiu o desejo que invadia seu corpo, deixando-o com uma ereção permanente, e perguntou:
– Suas regras já acabaram, Edie?
Ela espreguiçou-se de um jeito que delineava seus seios magníficos e assentiu. As palavras explodiram dentro dele.
– Quando acabaram?
Edie não mentiu. Olhou direto nos olhos dele e relatou que tinham acabado quatro dias antes. Porém não havia mencionado para ele. Não o tocara sequer uma vez nem dera a entender.
Gowan sentiu uma onda de náusea invadi-lo, e o desgosto deve ter ficado estampado em seu rosto, pois Edie falou:
– Devo informá-lo, Gowan? Pensei que, se quisesse vir para minha cama, teria pedido. Ou apenas vindo.
Ela parecia confusa.
Gowan conseguiu abrir um sorriso e saiu para tomar o desjejum.
Algum tempo depois, lady Gilchrist surgiu no térreo, parecendo uma francesa atraente, abandonada por acidente nas Terras Baixas escocesas. O chapéu encantador cobria uma das orelhas, com a dose certa de elegância, as saias um tanto curtas, expondo sapatos com fitas que se trançavam nos tornozelos.
Quando todos se encontraram no pátio interno da estalagem, prontos para partir, Gowan anunciou que seguiria a cavalo, acompanhando a carruagem. Os olhos de Edie refletiram alívio, o que o fez sentir mais uma onda de náusea. Ajudou a esposa e a madrasta a subirem na carruagem e saltou sobre o cavalo como se estivesse sendo perseguido pelas Fúrias. Precisava do rugido do vento nos ouvidos para não escutar aquela voz interior cínica e amarga.
Sempre condenara os pais por seus padrões morais desprezíveis, mas agora acreditava que os entendia melhor. Provavelmente os dois se descobriram sozinhos no meio de um casamento.
Não existia lugar mais frio nem mais solitário.
Apesar da raiva, ele ainda ardia de desejo, querendo tocar Edie, beijá-la, fazer amor com ela. Se tivesse oportunidade, ele faria o mesmo que o falcão com o falcoeiro, como se houvesse uma cordinha prendendo sua perna. No entanto, ela não o desejava. Era nítido.
Se ela fosse um falcoeiro, o lançaria ao céu e pediria que nunca mais voltasse. O pensamento fez o coração de Gowan bater pesado dentro do peito. Ele nem mesmo notou que os flancos de seu cavalo estavam brancos com espuma. Por fim, diminuiu a velocidade até uma marcha tranquila, mas não conseguiu fazer sua mente parar de rodar.
Edie queria bem a ele. Durante aqueles dez dias, haviam conversado sobre todos os assuntos, desde o sistema de esgotos do castelo até as leitoas das tias, a situação do Império e o futuro da nota de 1 libra. Mesmo quando estudava as partituras, ele se pegava interrompendo-a para pedir sua opinião, introduzindo-a na conversa, fazendo Bardolph esperar para ver se Edie tinha alguma ideia sobre o mercado do carvão ou as implicações econômicas das novas fornalhas.
Durante as refeições, o tempo voava, mesmo quando ela falava de música, um assunto que ele praticamente não entendia. Por outro lado, Gowan adorava ver sua empolgação e o jeito como suas mãos delicadas se movimentavam no ar enquanto desabafava sobre a “maldita” partitura de Boccherini, então se sentindo tão culpada por ter praguejado que ele não conseguia parar de rir.
Porém, querer bem e querer fazer amor pareciam duas coisas distintas. Depois que o cavalo se recuperou, Gowan voltou a fustigá-lo, ampliando o espaço entre a carruagem e ele, distanciando-se de sua necessidade insensata, sexual, pela esposa. Sentia-se como um animal selvagem, uivando no meio de uma noite escura.
Não que Edie tivesse alguma vez recusado seu corpo. Não tinha. Parecia até mesmo apreciá-lo…, pensou ele. Não, ele sabia: ela o apreciava. Pelo menos algumas partes. No entanto, ele acabava se sentindo um desgraçado sem coração. Por mais que ele tentasse se convencer de que ela encontrava prazer com ele na cama, não acreditava. Uma parte dele se sentia como um estuprador que atacava a própria mulher. Era a verdade nua e crua.
Gowan estava forçando o cavalo muito mais do que deveria, mas não conseguia fugir da verdade. Cada vez que fazia amor com Edie, sentia uma espécie de exposição, como se estivesse em carne viva, como se o menor toque o tornasse vulnerável. Havia algo de mágico naquilo.
Porém, achava que ela não sentia o mesmo.
Na verdade, ele tinha a impressão de que Edie sentia uma alegria assim apenas quando tocava o violoncelo. Sempre que podia, Gowan inventava uma desculpa para livrar-se de Bardolph apenas a fim de ouvi-la. Chegara a reconhecer algumas das músicas que ela vinha estudando, embora Edie certamente não aprovasse a palavra “música”. Não eram apenas “música” para ela: eram arpejos, barcarolas e coisas desse tipo. As palavras pareciam fórmulas arcaicas que apenas ela conhecia.
Era nesses momentos que ele via a mulher apaixonada, radiante, que ele queria ter na cama e nos braços. Quando Edie tocava, seus olhos se tornavam suaves, perdiam o foco, seus lábios se abriam e seu corpo balançava. Aquela visão o rasgava de desejo por dentro. Vê-la entrar naquele transe despertava um monstro sinistro que o levava e se esforçar mais e mais na cama.
Gowan já a beijara nas regiões mais íntimas até que ela se contorcesse em seus braços. Havia acariciado todas as curvas e sussurrado palavras gentis em seus ouvidos. Ele a beijara como um possuído, como ele realmente era. Nada disso parecia importar.
Um muro se erguera entre eles, uma separação. Bastava que ele olhasse em seus olhos para saber que qualquer excitação erótica da parte de Edie não se comparava com o que ela sentia com aquele maldito arco nas mãos.
A música era seu verdadeiro amor.
Gowan fez o cavalo diminuir o ritmo outra vez quando se aproximou da propriedade. Ouviu um assovio no bosque e retribuiu. Fora visto por um de seus sentinelas.
Um momento depois, o homem saiu trotando da sombra de um carvalho, tirando o chapéu.
– Maclellan – cumprimentou Gowan.
Ele queria sorrir, mas não conseguiu.
O homem veio para o seu lado, relatando sucintamente os acontecimentos durante a ausência do duque. Um javali selvagem havia aparecido perto do celeiro. Um grupo de caçadores o abatera no dia seguinte. A carcaça fora cortada e a carne estava secando, pronta para virar ensopado no inverno seguinte. Um sentinela tinha despencado das ameias e quebrado o ombro, mas passava bem.
Não era nada de que Gowan já não tivesse sido informado por meio dos relatórios diários, mas ele descobrira que, em geral, conseguia mais informações pessoalmente. Perguntou pelo sentinela acidentado.
– O garoto não sabe usar a arma muito bem – respondeu Maclellan. – Tenho minhas preocupações. O pai dele tinha uma mira perfeita, mas o garoto não. Acho que ele é sentinela para agradar ao pai, mas não é isso que seu coração deseja. Estou preocupado que ele aponte aquela arma na direção errada, um dia desses, e atire no próprio pé, ou pior. Eu estava decidido a dispensá-lo, mas o pai vai ficar muito triste se ele partir.
– Vamos tentar colocá-lo no estábulo – sugeriu Gowan. – Talvez ele leve jeito com os animais. Podemos realocá-lo em outro lugar.
Fizeram uma curva e diante deles assomava o castelo de Craigievar, fortaleza centenária do clã MacAulay. O sol do meio-dia derramava raios de ouro sobre as paredes antigas, as ameias, as torres. Os sentinelas foram ao encontro deles. Gowan ouviu o toque de uma trombeta. Enquanto desciam a estrada, o pavilhão MacAulay – em prata, um dragão escarlate agarrando uma espada – foi lentamente hasteado no forte.
O duque de Kinross tinha voltado para casa.
Gowan saltou do cavalo. O coração se alegrou ao ver a bandeira, o dragão fazendo uma careta furiosa. Era seu lugar, onde ele era o senhor. Tudo ficaria bem.
Ele poderia seduzir a esposa e fazê-la estar na cama com ele.
Claro que poderia.
Precisava apenas se esforçar um pouco mais.