A Torre do Amor
Capítulo 22
Outra manhã interminável se passou na carruagem, mais ou menos idêntica à da véspera. Edie manteve-se em seu canto o tempo todo, ignorando a conversa entediante que Gowan mantinha com um meirinho. Com toda a certeza, não tinha nada a acrescentar. Em vez disso, perdeu-se em pensamentos sobre o que havia acontecido na noite anterior. Ou melhor, sobre o que não havia acontecido na noite anterior.
Não era tanto por ter fracassado em chegar à petite mort de novo. Começava a crer que aquilo não aconteceria com ela. Sentia-se péssima pela forma como havia lidado com a situação. Mentir para o marido. Dissimular…
Ela mudou o curso dos pensamentos. Aquilo era errado e ela sabia. E – Edie deu uma olhada em Gowan – estava começando a gostar dele. Era um bom sentimento para nutrir em relação ao marido. A aversão que ela sentia em relação ao leito matrimonial? Aquilo não era nada bom.
Edie precisava lhe contar a verdade.
Depois que a carruagem parou para o almoço (servido e consumido em ritmo de galope), ela pousou a mão no braço de Gowan.
– Gostaria de conversar com você – disse, na presença de Bardolph e de um lacaio, porque, se não falasse diante dos criados, nunca teria oportunidade.
– Com certeza.
Gowan já ia conduzi-la para fora do salão de refeições, mas fez uma pausa, esperando suas palavras.
– Na carruagem – esclareceu ela.
– Sim, seria mais conveniente.
Gowan se virou para sair, acenando para que a comitiva o seguisse e demonstrando com isso uma falta de tato que era, na mente de Edie, uma das características próprias do sexo masculino. Ela não se moveu.
– A sós, Gowan.
Se o marido consultasse Bardolph antes de concordar, ela…
Não estava certa do que faria, mas seria algo violento.
O duque olhou para ela, a sobrancelha ligeiramente erguida, primeiro para ela, depois para Bardolph, que fez uma breve reverência e se afastou. Só então Edie percebeu que havia vencido uma batalha na guerra que se formava entre ela e Bardolph.
Mas o homem era bastante tenaz. Ela esperou enquanto Gowan instruía os criados sobre o trabalho da tarde e dirigiu-se à carruagem. No entanto, quando entrou no veículo, descobriu três livros contábeis no assento, para que fossem revisados pelo marido. Edie colocou a cabeça no vão da porta e um lacaio atento veio assisti-la.
– Esses volumes vão viajar em outra carruagem – ordenou ela, largando-os nas mãos dele.
– Mas o duque disse… – balbuciou o rapaz.
Então a guerra não era apenas entre ela e Bardolph; tinha um escopo mais amplo.
– A duquesa acaba de informar que esta é sua vontade – retrucou ela.
Então acomodou-se no interior da carruagem para esperar.
Momentos depois, Gowan passou pelo lacaio que marchava com os livros contábeis que ele planejara examinar durante a tarde. Tinha direito de ficar irritado. Achava deplorável perder tempo sentado numa carruagem.
Porém, na verdade, não ficou surpreso.
Sabia, desde o primeiro momento, que Edie significava uma ameaça à sua vida tão organizada. Não se pode sucumbir a um desejo tão primal por uma mulher a ponto de se casar com ela em menos de um mês e não compreender que as rotinas seriam abaladas, pelo menos a princípio. O tempo com Edie não poderia ser contabilizado como o tempo dedicado às obrigações com a propriedade. Por outro lado, se ele se permitisse naquele momento, talvez parasse de desejá-la a cada minuto do dia. Com o tempo, pensava ele, poderia relegar sua necessidade às noites. Ou pelo menos uma vez ao dia.
Gowan não acreditava que conseguiria nada daquilo nem por um minuto.
Maldição.
Tinha responsabilidades. Pessoas dependiam dele. Propriedades inteiras. O sistema bancário.
Ele se lembrava vagamente de ter dado importância a tudo isso. Naquele momento, entretanto, bastava pensar em Edie para sentir uma onda de desejo inflamar seu corpo com ferocidade insana. Bastava um olhar para ele querer dispensar Bardolph e jogar os livros de contabilidade no fogo.
Voltou a praguejar. Se não se controlasse, ia acabar passando dias inteiros na cama com ela, perdendo-se no corpo dela. Apaixonando-se por ela. Adorando-a. Bebendo até a morte se ela lhe fosse infiel, assim como seu pai…
O pensamento o fortaleceu. O desejo nada mais era do que uma necessidade física. Tinha um lugar certo na vida e precisava ser mantido sob controle. Em vez de bater a porta da carruagem e jogar-se sobre ela – quem se importava com os criados? –, Gowan se obrigou a se acomodar no assento oposto e abriu um sorriso cavalheiresco, contido, esticando o braço e dando batidas no teto com alguma força, para que o cocheiro soubesse que estavam prontos.
O sorriso da esposa, sob a aba do chapéu, era modesto e completamente adorável. Bem daquele jeito, o desejo carnal cresceu como uma onda que o arrastava até que ele se afogasse. O trabalho que esperasse. Abriu a boca e a fechou com força, escandalizado por ter quase proferido: Nua, preciso de você nua.
Não era algo a se dizer a uma duquesa numa carruagem. Ele se conteve, mas a emoção o traiu.
– Algum dia, vou querer amá-la pela manhã.
Uma emoção faiscou no olhar dela, algo que ele não conseguiu interpretar. Sem responder, ela desfez o laço sob o queixo. Enquanto ele observava, Edie tirou chapéu e deixou que caísse no assento a seu lado. Será que ela lera sua mente e tinha a intenção de se despir? A carruagem já avançava pela estrada, então ninguém abriria a porta.
Uma cascata de imagens sensuais permeou o cérebro de Gowan… e evaporou quando ela se inclinou para a frente e lhe deu uma batidinha no joelho com um dedo fino e enluvado.
– Bardolph – disse ela, baixando o tom da voz para imitar um grunhido absurdamente masculino. – Pretendo copular com minha esposa amanhã de manhã, das 7h15 às 7h45. Por favor, atrase nossa partida, levando em consideração esse evento.
Ela abriu então um sorriso malicioso.
Gowan ficou tão surpreso que caiu na gargalhada.
– Bem, graças a Deus – comentou Edie, tirando as luvas e colocando-as junto ao chapéu. – Temi que eu tivesse perdido o senso de humor completamente.
Ele franziu a testa.
– Sei que tem senso de humor – continuou ela, com um sorrisinho perverso. – É tarde demais para fingir que seu cérebro é inteiramente devotado à tarefa admirável de administrar todas aquelas armadilhas de enguias.
– Nunca vai se esquecer das enguias, não é? – perguntou Gowan, esticando as pernas de forma que cada uma se acomodou ao lado dos sapatos dela.
Tomara uma decisão. Pretendia possuir sua esposa saliente em algum momento da jornada. Ela tinha arranjado a tarde de tal forma que ele não pudesse se concentrar no trabalho.
Pois bem: ele se concentraria nela.
– Você provocou – falou Edie, com uma risadinha deliciosa. – Tenho certeza de que aos 80 anos ainda lhe afastarei o relatório de pesca e o incentivarei a demonstrar senso de humor.
– Senso de humor? – repetiu ele, languidamente. – Acha mesmo que eu tenho?
– Acho. Embora sua porção ácida, engraçada, desapareça durante as conversas sobre trigo e enguias e, em vez disso, eu encontre um homem que parece ter pouco prazer na vida.
Gowan já ia discordar, mas ela não havia terminado:
– Não está certo. Você gosta mesmo de seu trabalho, não gosta?
Trabalho? Ele gostava da linha delicada de seu rosto, do tom de rosa intenso de seus lábios, da forma como seus cílios se curvavam nas pontas. Até da forma como ela o dissecava.
Edie inclinou-se para a frente e cutucou novamente o joelho do marido.
– Gowan, você está me ouvindo?
– Por que eu trabalharia se não gostasse?
– Porque tem responsabilidades – respondeu ela, de imediato. – Meu pai com toda a certeza preferiria tocar violoncelo, porém não consegue dispor de mais do que alguns minutos aqui e ali para praticar.
– Só existe uma coisa no mundo que eu preferiria fazer – disse ele, pronunciando as palavras com a urgência controlada de um homem cujo corpo estava teso e dolorido.
– Gowan! Não foi isso o que eu quis dizer.
Ele arrastou a mente de volta ao assunto.
– Quer dizer então que sou um bastardo tedioso e uma companhia imprópria para uma dama? – concluiu ele, quase pedindo desculpas. – Este pode ser o meu jeito, Edie. Posso lhe assegurar que eu e Bardolph não ficamos trocando gracinhas.
– Bardolph é empolado – argumentou ela, levantando o narizinho no ar. – E o senhor, meu querido duque, deve ter cuidado no que lhe diz respeito, pois já demonstrou algumas tendências próprias a ser empolado também.
– Não sou empolado. – Ele deu uma risadinha. – Embora, que diabo, talvez estivéssemos numa situação melhor se eu fosse menos robusto e mais empolado.
O sorriso de Edie, em resposta, foi um tanto vacilante. Ela respirou fundo.
– Ainda dói um pouco, Gowan.
Toda a diversão desapareceu do rosto dele. Ele se inclinou e pegou as mãos dela.
– Eu sei. Sinto muito… mas está melhorando, não é?
Ela assentiu. Ele continuou:
– Para mim, significa muito que você esteja encontrando prazer no ato. – Ele deu um sorriso torto. – Minha falta de experiência era bem constrangedora, mas, se eu fracassasse nesse aspecto, deveria abrir mão da minha condição de homem.
Edie franziu a testa.
– Que absurdo.
Uma ridícula onda de alívio tomou conta dele.
– Nunca me senti tão feliz quanto na noite passada, quando você gozou. – Ele levou as mãos dela até os lábios e beijou as palmas, primeiro uma, depois a outra. – Queria apenas que aqueles primeiros minutos não fossem tão dolorosos. – Sua doce noiva ainda ficava tão tímida que mantinha os olhos fixos nos dedos entrelaçados. – Olhe para mim – provocou ele. – Precisamos conversar sobre essas coisas, Edie. Marido e mulher não devem ter segredos.
– Eu sei – concordou ela. – É por isso que eu… – Mas ela se calou.
Parecia tão infeliz que Gowan não conseguiu suportar. Levantou-se com cuidado para não bater com a cabeça no teto almofadado da carruagem e sentou-se a seu lado.
– Shakespeare observou muito bem que um ponteiro ereto não tem consciência.
A princípio ela não compreendeu.
– Um ponteiro o quê? – perguntou.
As palavras mal haviam saído da boca de Edie quando ele observou, fascinado, suas bochechas ganharem uma leve cor, como um pêssego rosado.
– Gowan! – Ela soltou uma risadinha explosiva. – Ereto?
– Melhor do que caído – salientou ele. – O que estou tentando dizer é que tenho consciência. Embora outras partes de mim estejam famintas por você, Edie, mo chrìdh, se fazer amor dói tanto, basta me dizer. Sabe disso, não é?
A cor nas faces de Edie se intensificou, bela como a primeira ameia da estação.
– Claro que sim – disse ela. – O que quer dizer “mo chrìdh”?
– Meu coração. – Ele ergueu-a com facilidade e a colocou no colo, empurrando-a para seu braço. – Você é deslumbrante – comentou ele. – A garota mais linda que eu já vi.
– Também acho isso de você.
Sua sinceridade sempre o estarrecia, a forma como ela soltava com tanta facilidade coisas que os outros escondiam ou dispensavam em doses exíguas.
Os braços dela subiram e envolveram seu pescoço. Gowan teve a estranha sensação de sofrer um solavanco, como se a carruagem – ou o mundo – se inclinasse. Ela lhe deu aquele sorriso secreto, aquele com o beijo escondido.
– Quando eu o vi vindo na minha direção em Fensmore, pensei que era o homem mais bonito da sala. E agora – disse ela, com um sorrisinho malicioso – até passei a gostar de cabelo ruivo. Se for o seu.
Gowan nunca dera a menor importância para a própria aparência – sabia muito bem que o título despertava o tipo de admiração que nada tinha a ver com seus atributos físicos. No entanto, o olhar de Edie o fez sentir orgulho de si mesmo.
Ela gostava da aparência dele. Não era uma mulher que se importava com títulos. Nem com dinheiro.
Edie pousou a cabeça no ombro dele.
– Ainda assim, eu me preocupo com você, Gowan. Meu pai tende a ser sério demais. Acho que a vida pode ser muito difícil quando se é desprovido de um senso de alegria.
Ele sentiu um pequeno calafrio.
– Acha que eu não tenho?
– Claro que tem! Consegue até fazer as peças de Shakespeare parecerem engraçadas para alguém como eu, que nunca conseguiu ler uma delas inteira. Estou apenas preocupada que sua vida seja sufocada por centenas de relatórios diários.
– Duvido. Para começar, perco meu autocontrole quando estou perto de você – confessou ele, passando um dedo em uma das maçãs do rosto dela. – Não consigo mais ter nenhum interesse no trabalho. Bardolph sugeriu que eu trouxesse os livros na carruagem porque sabe que eu, na verdade, não absorvi os dados.
Edie endireitou a postura, as sobrancelhas franzidas.
– O Sr. Bardolph não está cativando minha amizade.
– Não se incomode com ele. Mais especificamente, por acaso eu estou conseguindo cativá-la?
Gowan mal acreditou nas bobagens que saíram de seus lábios. Alguma coisa nela consumia sua independência… sua masculinidade.
– Acredito que sim – disse Edie.
No entanto, uma sombra de ansiedade permaneceu no olhar dela.
– Não se preocupe – garantiu ele, dando-lhe um beijo nos lábios. – Vamos fazer funcionar esse negócio de casamento. É uma infelicidade que nenhum de nós dois tenha tido um bom exemplo na vida. Meus pais teriam sido muito mais felizes se nunca tivessem se conhecido.
– Não posso dizer o mesmo de meu pai e Layla. Eles se amam genuinamente. É que meu pai esqueceu como… – Ela se calou e voltou a falar: – Ele parou de apreciar em Layla tudo o que o fez se apaixonar por ela. É como se ele quisesse que Layla se transformasse nele. E papai é bastante rígido por natureza, temo dizer.
Gowan assentiu.
– Isso o faz se comportar de um jeito mal-humorado quando na verdade ele não é assim.
– Já o vi manter a cabeça fria em circunstâncias extremamente delicadas, como quando lidamos com os idiotas do Banco da Inglaterra.
– Só que ele não ri das piadas dela.
– Prometo sempre rir das suas – sussurrou Gowan.
– Se eu soubesse contar alguma… – disse Edie, com um suspiro. – Tenho apenas um conhecimento distante e casual de alguns trocadilhos de que você gosta, como aqueles que falam sobre ponteiros eretos e relógios indecentes.
Ela acomodou a cabeça no ombro dele.
– Fico feliz em poder demonstrá-los para você – retrucou ele, a voz rouca e grave.
Mas ela não estava ouvindo.
– Não estou acostumada a dormir tarde e depois beber vinho na hora do almoço – falou Edie, bocejando com classe. – Será que não podemos encontrar água potável, Gowan? Vinho no meio do dia sempre me deixa tão sonolenta…
– Com certeza – respondeu ele.
Fez uma pausa, pensando em como adotara o hábito de consumir vinho em todas as refeições, exceto no desjejum. Estava sempre se testando, a fim de se assegurar de que não se transformaria num ébrio, seguindo os passos dos pais.
Gowan nunca dividira aquele medo com outra pessoa, mas, seguindo o espírito de não manter segredos um do outro, decidiu contar para Edie… e então percebeu que ela havia adormecido.
Ele a fitou, todos os planos para seduzi-la desfeitos. Encolhida junto dele, Edie parecia absolutamente serena. A primeira reação de Gowan foi ficar irritado. Mas não era justo, era egoísta. Ele próprio era o responsável por sua privação de sono, afinal de contas.
Se ele estivesse com os livros de contabilidade…
Mas não estavam ali. Ele não tinha nada para fazer.
Não era inteiramente verdade. Havia alguns papéis e uma pena. Podia apoiar Edie no canto da carruagem e trabalhar.
Mas não faria aquilo. Ela acordaria. Gowan sentiu um surpreendente instinto protetor. Edie estava exausta e com sombras azuladas sob os olhos, pelo menos em parte por eles terem feito amor no meio da noite.
Envolvendo-a cuidadosamente como se fosse um jarro de vidro, ele deslocou-se para o canto da carruagem e se recostou, segurando aquele embrulho doce e perfumado em seus braços, examinando seus cílios e seus lábios outra vez, assim como havia feito no baile, quando se conheceram.
Tudo era diferente agora, pois ela era sua esposa. Ele fora o primeiro a fazer amor com ela. E seria o último a fazer amor com ela. Acordaria todos os dias de sua vida para encontrar aquele par de olhos apaixonados, inteligentes e de tanta honestidade que lhe permitiu avisá-lo que estava correndo o risco de se tornar rígido demais.
O sorriso que lhe surgiu no canto dos lábios não era irônico nem amargo. Sabia que Edie diria que era um sorriso alegre. Apertou-a em seus braços como forma de gratidão.
Pensou sobre o casamento enquanto a carruagem sacolejava pela estrada.
Ele nunca tirava sonecas.
Sonecas eram perda de tempo.