A Torre do Amor
Capítulo 32
– O que foi? – sussurrou ela, percebendo que seus dedos estremeciam como se tivessem sido atingidos por um raio.
Ela tirou a mão.
– Fiz alguma coisa errada?
O rosto dele estava sombrio. Aquela sensação boa deixara seu corpo tão depressa quanto chegara.
– Você gozou – disse ele, a voz entrecortada.
Edie jogou as pernas para o lado e conseguiu se sentar.
– Ah… é?
Parecia uma reação muito pobre para o que acabara de acontecer.
Sentia pulsações em partes do corpo que nunca notara antes.
O queixo dele ficou mais tenso.
– Foi a primeira vez?
Edie ficou paralisada, percebendo sua falha. O champanhe… o prazer… tudo tinha conduzido a um abandono imprudente. Assentiu.
O rosto dele foi tomado primeiro pela descrença, depois pela fúria. As palavras saíram com a dureza de marteladas.
– Então o que aconteceu quando você supostamente gozou nas outras… – ele fez uma pausa – … três vezes?
A mente de Edie rodava por causa do álcool e a única solução que ela podia imaginar era cobrir a cabeça com o lençol.
– Eu só pensei… Posso explicar.
– Então faça isso. – Ele cruzou os braços. – Explique por que andou fingindo que eu lhe agradava.
O problema era que ela não conseguia se lembrar muito bem do raciocínio que a levara àquilo, só que não o conhecia direito antes. Não tão bem quanto naquele momento, depois de passarem horas e dias confinados em uma carruagem apertada, ouvindo-o lidar pacientemente com problemas e mais problemas.
– Não tive essa intenção – falou ela, finalmente.
– Não teve essa intenção? Como poderia explicar o que fez de outra forma além de dizer que mentiu para mim no momento em que achei que estávamos mais próximos? Quando achei que…
Ele se calou.
– Machucava – confessou ela, tentando desajeitadamente encontrar uma explicação.
Não conseguia juntar as palavras.
Cobriu os seios com o lençol, sentindo as lágrimas se formarem no fundo da garganta.
– Dessa vez foi diferente.
– Dessa vez você estava bêbada. – A voz dele estava completamente sem emoção. – Meu Deus, Edie, de todas as coisas, jamais teria pensado que fosse uma mentirosa.
– Não sou!
– Sabia que algo estava errado. Não era para menos que eu sentisse que não a possuía, que não era seu dono.
Ela prendeu a respiração por um momento.
– Você não é meu dono – retrucou ela, sentindo o próprio temperamento soltar fagulhas. – O que fazemos na cama não tem relação com o fato de eu ser uma pessoa independente.
– Então tenho pela frente uma vida inteira em que devo perguntar à minha esposa se ela realmente gostou ou se estava apenas representando… sendo uma pessoa independente.
– Isso é cruel.
Discutir era contra a natureza de Edie.
Não era boa em rebater a agressão. Em vez disso, recorreu ao método que aprendera quando tentava resolver os problemas da união turbulenta entre o pai e Layla.
– Se pudesse ser razoável.
Gowan chegou a grunhir, saltando da cama e dirigindo-se para o canto mais escuro do aposento, onde ficou de costas para ela, claramente lutando para controlar sua ira.
– Odeio quando usa este tom de voz comigo.
– Que tom de voz?
– Esse tom adocicado, apaziguador. Está sendo condescendente e, se existe alguém neste quarto que mereceria condescendência, deveria ser você. – Ele se virou para ela. – Mentiu para mim e odeio mentiras.
– Eu era apenas… apenas uma virgem!
– E daí?
– Eu entrei em pânico! – exclamou ela. – Doía muito, e você continuou, e eu não sabia como fazê-lo parar.
Ele virou a cabeça bruscamente e emitiu um som, como se tivesse sido atingido nas entranhas.
– Agora está me dizendo que eu a obriguei?
– Não!
Edie estava tão abalada pelo desdém dele que as palavras certas não vieram.
Os olhos dela baixaram.
– Eu apenas não conseguia… Ficava pensando no que você esperava de mim e que eu não conseguia ser o que você desejava como esposa. Estava fracassando – confidenciou ela, dizendo o que precisava ser dito. – Você estava se esforçando muito e eu também tentei, juro que tentei. Não queria que pensasse…
– Eu estava me esforçando muito, como algum animal no cio? – Os olhos dele ardiam. – Pensou que eu ia preferir ser enganado a saber da verdade, por mais difícil que ela fosse? O que está dizendo é que, quando falhei com você na cama, achou que eu não poderia suportar a verdade. – Voltou a tensionar a mandíbula. – Maldição, Edie. Como pôde pensar isso de mim?
– Não foi assim! – exclamou ela.
Ele abaixou-se e vestiu as calças, sem se preocupar com as roupas de baixo.
– Aonde vai? – perguntou ela, odiando como sua voz soava tão trêmula.
Ela não podia deixá-lo partir daquele jeito. Deslizou da cama.
– Vou dar uma volta.
Edie deu um passo à frente, mas tropeçou no lençol, cambaleou e quase caiu.
– Cuidado – disse Gowan, agressivo. – Meu pai passou a ficar em banquetas baixas sempre que o uísque lhe subia à cabeça porque a distância do chão era menor.
Edie respirou fundo e prendeu o lençol em volta dos seios. Qualquer efeito agradável do champanhe já evaporara.
– Poderíamos conversar direito? Sinto muitíssimo.
– Sobre o que poderíamos conversar? – Gowan abotoava o colete sem olhar nos olhos dela. – Tinha a impressão de que fazia amor com você, que você estava comigo naqueles momentos… Mas obviamente eu não sabia onde estava com a cabeça. Você estava me enganando e fui tolo o bastante para acreditar. Tolo o bastante para pensar que algo de especial estava acontecendo naqueles momentos. – Ele soltou uma risada. – Essa é a verdadeira farsa. Cada vez que você gemia durante seu suposto prazer, eu me orgulhava de como éramos perfeitos juntos. Embora tivesse me escrito na carta sobre seu pouco interesse nos “prazeres da carne”, eu imaginava que a estava convencendo a mudar de ideia.
– Eu não deveria ter fingido – disse Edie, torcendo as mãos.
Temia o olhar sinistro de Gowan mais do que sua raiva.
– A questão é que não o conhecia tão bem ainda e achava tudo aquilo constrangedor – continuou ela.
– Pois bem, agora nos conhecemos. E como raios serei capaz de voltar a confiar em você daqui para a frente? – Agarrou uma das botas. – Seu momento mais honesto é quando está bêbada!
As palavras saíram com raiva, explosivas.
Edie tentou formular uma resposta, mas nada surgiu. Seu estômago dava um nó, e ela entrou em pânico imaginando que poderia vomitar ali mesmo.
– Eu esperava me casar com uma mulher que amasse e cuidasse de Susannah – prosseguiu ele. – Não questionei minha decisão mesmo depois de me avisar, na mesma carta, que não estava pronta para ser mãe. – Ele enfiou o pé na bota com uma batida que ecoou no quarto como se fosse um tiro. – Você me avisou e eu ignorei. Não posso culpar ninguém além de mim mesmo por minha irmã vir a ser criada na maldita Inglaterra.
Aquilo magoou tanto Edie que ela nem conseguiu falar. Um som rouco saiu de seu peito.
– Eu queria ser a mãe dela, eu queria.
O ceticismo brilhava nos olhos dele e foi quase mais doloroso do que sua raiva. Ele então se virou, procurando a outra bota.
– Eu a teria amado – confessou Edie, com a voz vacilante. – Mas Layla estava aqui e… – As lágrimas correram por seu rosto.
Gowan deu de ombros.
– Mal dei uma olhada em você e perdi toda a capacidade de ser racional. Corri até seu pai e a comprei sem raciocinar. Pensaria mais se estivesse comprando um cavalo.
Gowan bateu com a outra bota.
– Então fracassei na cama… Sem mencionar que fui tão idiota que não percebi que todos aqueles gemidos eram apenas uma atuação da minha esposa, a atriz. – Ela notou que ele estremeceu. – Eu lhe contei por que não dormi com ninguém até o casamento?
A pergunta foi feita com tanta agressividade que mais lágrimas rolaram pelo rosto de Edie.
– Eu tinha essa noção quixotesca de que a honra exigia honestidade entre mim e minha mulher. Honestidade. E no momento em que a conheci, apenas decidi que você era a pessoa certa. Diabos, até me apaixonei por você…
Ela soltou um gemido e ele ergueu os olhos.
– Vá em frente e me chame de tolo, porque é o que eu sou. Eu me apaixonei por você e enfiei na cabeça que era uma mulher perfeita.
– E agora não acha mais?
– Você é perfeita tocando violoncelo. Na verdade, o instrumento é a única coisa com que você realmente se importa. Seu pai tentou me revelar isso, mas eu também o ignorei. Você está casada com o violoncelo, não comigo. E eu me casei com uma mulher que precisou ficar bêbada para desfrutar de alguma intimidade.
– Não é verdade – sussurrou ela. – Eu… eu gostei no início. Sabe que gostei. E me casei com você.
Ela examinou o rosto dele, em busca de uma centelha de calor que costumava estar presente quando ele a olhava.
Na forma como ele a olhava, na forma como procurava tocá-la. Edie sempre sentira que ele a queria… sim, que ele a amava.
E tudo aquilo tinha desaparecido.
– Você disse que me ama! – exclamou ela, odiando o som da própria voz, o modo como implorava. – Isso não desaparece assim.
– Amo a mulher que eu criei na minha cabeça – retrucou. – A mulher que tinha febre, que não conseguia me ouvir, mas que eu achava ótima. A mulher que me relatou que não estava pronta para ser mãe, mas que eu achava que mudaria sua natureza por mim. Fiquei tão bêbado quanto meu pai costumava ficar com a garrafa de uísque, mas me inebriei com um produto da minha imaginação.
– Não! – exclamou Eddie, entre soluços. – Por favor, não diga essas coisas.
– Estou apenas admitindo a verdade. – Ele parecia subitamente exausto, a pele esticada sobre as maçãs do rosto. – A culpa é tanto sua quanto minha. Insisti para que nosso casamento acontecesse antes de termos tempo de nos conhecer de verdade e agora teremos que viver para sempre com as consequências dessa escolha. E o que é mais importante: falhei da forma mais profunda que um homem pode falhar.
Ele vestiu a camisa.
– Preciso reorganizar minha visão de mundo. Uma questão de prioridades. Eu consigo… Tudo ficará bem.
Ele pronunciou aquelas palavras com precisão selvagem.
– Gowan!
Edie deixou que a emoção pura se soltasse naquele grito.
Ele caminhou para a porta, deixando-a de pé no meio do aposento.
– O drama não lhe cai bem. – A voz dele endureceu. – Meu pai me avisou, sabe. Falou que existem dois tipos de mulher: aquelas que dão e sentem prazer e as esposas, que ficam deitadas na cama como panquecas.
As lágrimas rolavam pelo rosto de Edie, turvando sua visão.
Gowan abrira a porta do quarto, mas, no último momento, deu meia-volta. Ela saltou para a lateral da cama para pegar um livro da mesa de cabeceira. A raiva anterior reapareceu no rosto dele… e não era apenas fúria. Parecia um rei guerreiro traído pelos próprios homens. Como César, quando o amigo Brutus fincou a adaga em seu peito.
– Qual é o problema? – perguntou ela, o medo inundando seu corpo.
Ele se voltou para ela lentamente.
– Não sou o único a saber que fracassei na cama, sou?
Edie sentiu o sangue fugir de seu rosto, uma onda de culpa a invadindo.
– Contou para lady Gilchrist. Na verdade, escreveu para ela uma carta falando sobre minhas dificuldades, não foi?
– Não revelei detalhes – comentou Edie num suspiro engasgado.
A palavra que saiu da boca de Gowan foi uma total blasfêmia. E então:
– Como pôde fazer isso? Contou para alguém o que estava acontecendo em nossa cama?
Ele nem estava berrando, o que era ainda pior.
Foi a desoladora aceitação da traição em sua voz que partiu seu coração.
Um soluço saiu de dentro dela.
– Eu não tive a intenção. – Ela correu e jogou seus braços em volta do pescoço dele. – Layla é como minha mãe. Por favor…
Gowan retirou as mãos dela e deu um passo para trás.
– Contou à mulher que vai criar minha irmã que eu a machuquei na cama. Contou para a esposa de um dos administradores do Banco da Inglaterra que você precisou fingir prazer… pois eu não poderia ouvir a verdade. – Ele arreganhou os dentes e a última frase saiu como um rosnado. – Maldita… Pegou minha masculinidade e a transformou em motivo de piada!
Edie tremia com soluços violentos, incontroláveis.
– Não, Gowan – implorou ela. – Layla nunca vai mencionar nada a ninguém.
– Já mencionou. – O rosto dele estava vermelho, mas a voz tinha uma calma gélida. – Sua madrasta fez a gentileza de me emprestar um livro de poesia sobre cópulas. Achei estranho. Agora percebo que estava me entregando a aulas de como tratar minha mulher na cama.
As pernas de Edie cederam e ela caiu de joelhos diante dele, os ombros trêmulos, o cabelo lhe tampando o rosto.
– Por favor, não faça isso conosco – disse ela, quase engasgando. – Eu amo você. E sinto muito.
– Eu também sinto – declarou Gowan.
Em seguida, ele saiu pela porta.