A Torre do Amor
Capítulo 37
Edie começou a aceitar gradualmente a ideia de que Gowan poderia demorar semanas para voltar para casa. Não queria vê-la. Ela representava um fracasso tão absoluto que ele não conseguia suportar a ideia de retornar. Compreendia que ela nunca seria o que ele queria na cama. Ou decidira que nunca mais confiaria nela.
As lágrimas irritaram sua garganta, ela descobriu. Acabaram com seu apetite. Era mais fácil apenas tirar aquilo da cabeça e tocar o violoncelo durante horas a fio. Continuava a praticar mesmo quando o braço que segurava o arco ficava cansado, para evitar o silêncio, pois seus pensamentos eram ruidosos o suficiente.
O pai chegaria dentro de uma semana, mais ou menos. Nesse meio-tempo, os criados iam do castelo para a torre e vice-versa, como formiguinhas ocupadas. Edie passou a sentir um carinho inesperado por Bardolph. O administrador nunca demonstrara o menor sinal de desaprovação por sua mudança, embora – como disse Layla – talvez fosse porque ele desaprovava tudo.
Bardolph colocou um lacaio na base da torre durante o dia para que ela pudesse enviar mensagens para Layla ou convocar Mary. E ele a visitava duas vezes por dia. Pela manhã, contou que tinha acontecido uma briga entre os lacaios pelos turnos de duas horas aos pés da torre.
– Por que isso? – perguntou ela.
Bardolph franziu os lábios.
– Os escoceses não são filisteus, Vossa Graça. Desejam ouvi-la tocar.
Mais tarde, Layla contou que costumava haver um grupo sob a janela da torre, um grupo que aumentava a cada dia.
Assim Edie teve sua primeira plateia. Nunca fizeram barulho, por isso não sabia que havia gente ali, trabalhando repetidas vezes em determinados compassos até se satisfazer com o resultado e se permitir tocar a peça inteira.
Um dia, ouviu Layla chamá-la, ofegante, e escancarou a janela. A madrasta descia a colina correndo, acenando com uma carta na mão.
– O que é? – perguntou Edie.
– Seu pai – arfou Layla. – Ele está vindo!
– Sim, eu pedi que ele viesse.
Ao dizer aquelas palavras, Edie sentiu o coração afundar até a ponta dos pés.
Ele a levaria para Londres, claro. Era o que ela queria.
– Não… não, parece que ele não recebeu sua carta! – exclamou Layla, abanando o papel. – Já devia ter saído quando sua carta chegou. Falou que está vindo porque ele quer… porque ele sente minha falta! – O rosto dela estava iluminado. – Está a três ou quatro dias de distância.
– Que maravilha! Ele vai ficar muito feliz em conhecer Susannah.
– Vai – ofegou Layla.
Então olhou para si mesma com horror.
– Engordei ainda mais!
Edie riu.
– Está maravilhosa.
Layla parecia uma jovem matrona curvilínea e rosada que amava a filha e o marido e não tinha nenhuma preocupação com amantes chamadas Winifred.
Layla voltou a ler a carta.
– Ele vem para me levar para casa – disse ela, secando uma lágrima. – Contou que só percebeu quanto me amava depois que parti.
Edie recolheu a cabeça, saiu da janela e desceu a escada correndo.
– Ai, meu Deus! – exclamou a madrasta quando Edie abriu a porta da torre. – E se ele mudar de ideia?
– Não vai mudar – disse Edie. – Papai adora você, Layla. Pode ter levado um tempo para perceber, mas agora ele sabe.
– Podemos voltar todos para casa – sugeriu Layla. – É como um sonho. – Ela apertou a carta contra o peito. – Li umas dez vezes antes de vir para cá porque não conseguia acreditar. Mas conheço a letra dele. Está falando sério.
– Está, sim – afirmou Edie, assentindo.
– Ele diz que não existe nenhuma Winifred e que nunca houve. Era tão terrível ser a única pessoa a se importar com o outro… – comentou Layla, fungando. – Não há nada pior num casamento do que o desprezo e a falta de amor da outra parte.
O coração de Edie deu um salto – e então voltou a bater.
– Ah, querida. Não estava falando de você! – exclamou Layla. – É tão corajosa!
Tinham passado muitas horas dos últimos dias dissecando Gowan.
Layla o odiava. Edie se sentia mais apaixonada por ele do que imaginava ser possível. Passava as noites dividindo-se entre chorar e acordar num atordoamento sensual, relembrando a noite em que ela havia tocado o violoncelo para o marido e ele…
Ele a beijara daquela forma tão íntima. Edie poderia ter feito o mesmo nele. Nos devaneios, seus dedos exploravam todos os centímetros do corpo de Gowan.
Edie mantivera os olhos fechados durante uma boa parte do tempo que haviam passado juntos na cama, mas ela vira o bastante. A lembrança dele no Nerot’s Hotel, ao descer da cama e se afastar dela, voltava-lhe à cabeça. A maneira de torcer o corpo, com pura força e beleza…
Inevitavelmente, lembrava-se do jeito como seus olhos escuros a observavam, como se ela fosse tudo o que ele queria no mundo. E aí Edie caía no choro.
Bem naquele momento, Bardolph veio se reunir às duas.
– Estou certa de que lady Gilchrist já lhe contou – informou Edie – que meu pai estará aqui dentro de alguns dias. Imagino que esteja viajando com seu criado pessoal.
Bardolph se curvou.
– Vou preparar um quarto para lorde Gilchrist.
– Ficaremos apenas alguns dias. Quando estiver descansado, partiremos. Vamos precisar de mais duas carruagens: uma para meu violoncelo e outra para nossas criadas e para a criada de Susannah.
Foi a primeira vez que ela viu alguma reação no rosto do administrador. Seu olhar ficou vazio. O rosto inteiro congelou.
– O quê?
Edie ergueu uma sobrancelha.
– Está tudo bem, Bardolph?
Ele se curvou, recobrando-se.
– Acho que precisaremos de mais três carruagens, e não de mais duas – ponderou Layla. – Trouxe um bocado de bagagem e Susannah tem muitos brinquedos que não quer deixar para trás.
Edie sorriu ao ouvir aquilo.
– O vilarejo – continuou a madrasta, culpada – é um lugar muito agradável para uma visita vespertina. E, assim que decidi que Susannah precisava de novos vestidos, ir até a aldeia ficou tão fácil quanto convocar uma costureira para nos atender no castelo.
– Três carruagens se puder dispor delas – ordenou Edie, voltando-se para Bardolph. – Os veículos voltarão imediatamente, assim que chegarmos a Londres.
Bardolph assumira uma cor estranha, como um pergaminho envelhecido.
– Tem certeza de que está bem? – tentou novamente Edie.
– Sim, Vossa Graça – respondeu ele, com um tom murcho que ela não ouvia fazia algum tempo.
Ela fez um sinal com a cabeça e ele partiu, caminhando rapidamente pela trilha na direção do castelo.
– Assim que a gente pensa que o homem está se tornando humano, ele mostra seu lado réptil – comentou Layla. – Devo dizer, porém, que nunca vi ninguém trabalhar tanto. Ele acorda ao amanhecer e nunca dorme.
Havia voltado a chover, apenas uma garoa. Edie puxou Layla para o interior da torre e as duas começaram a subir a escada.
– Quem diria que a Escócia era tão úmida? Pela fama que conheço, eu achava que só na Inglaterra chovia bastante, mas nunca vi tanta água na minha vida como aqui.
– É bem aconchegante na sua torre – disse Layla. – Devia ver como a ala infantil pode ficar gelada de vez em quando. Mudei a maior parte dos brinquedos de Susannah para outro cômodo enquanto…
E continuou a falar enquanto Edie tentava imaginar-se subindo numa carruagem.
Deixando para trás a torre, Bardolph, os criados que habitavam o castelo. E Gowan.
O fato de ele não ter se dado ao trabalho de voltar, nem mesmo de mandar uma mensagem, tornou tudo mais fácil. Se seu marido solucionador de problemas quisesse resolver o casamento…
Teria voltado. Layla estava contra Gowan. Não parava de dizer que Edie encontraria um homem diferente. Mas cada vez que Edie tentava imaginar tal coisa, lembrava-se do olhar de Gowan e de como ele costumava olhá-la.
A verdade pesava na sua alma. Não amaria outro homem. Para ela, a música deveria bastar.