A Torre do Amor
Capítulo 28
Gowan já havia experimentado emoções como aquela. Eram tão profundas quanto um efeito atmosférico, como se a pressão barométrica estivesse subindo por suas pernas. Tinha se sentido assim quando era um menino, quando o pai estava bêbado… mas raramente depois adulto.
No entanto, sentia-se assim naquele momento.
No momento em que Susannah saiu saltitando do quarto com o biscoito de gengibre, segurando a mão de Layla, Edie lançou-lhe um olhar nervoso, balbuciou algo sobre a governanta e escapuliu. Com certeza, não queria ficar sozinha com ele dentro de um quarto.
Essa sensação era uma coisa inarticulada, que o cegava, e que o lembrava dos dias em que o pai caía do banco perto do fogo e acabava no chão, tão cheio de uísque que chegava a babar enquanto rolava.
Todas as vezes em que Gowan olhava para Edie, ele sentia uma onda de possessividade que parecia tão inerente à sua natureza quanto o fato de ser escocês. Mas aquela emoção não pertencia ao mundo civilizado.
Casara-se com Edie. Colocara uma aliança em seu dedo. Tinha dormido com ela. E, mesmo assim, parecia haver uma parte dela que lhe escapava. Gowan sentia, cada vez com mais clareza, que aquilo o deixava maluco. Desejara-a no momento em que a vira, por isso arranjara o casamento. No entanto, ele não a possuía. Essa verdade fazia com que um uivo animal ameaçasse sair de seu peito.
Talvez fosse a música. Ele amava o fato de que o corpo de sua esposa tinha a forma de um violoncelo. Mas ela tocava o instrumento, não o seu corpo. Ela mal o tocava na cama. Claro… o que ele esperava? Sabia que as mulheres aristocráticas não eram tão fogosas quanto garçonetes.
Gowan tinha 8 anos quando o pai lhe contara o que acontecia entre homens e mulheres, agarrando-o pelo pulso e trazendo-o para perto de si. O fedor de seu hálito atingiu o nariz do menino como se fosse um soco.
– As damas não valem a palha onde deitam – dissera, os olhos iluminados com uma estranha alegria. – Ficam deitadas, paradas como uma panqueca. Arranje uma garçonete fogosa, meu garoto. Vá ao Horse and Poplar. Annie é a pessoa certa para lhe ensinar tudo o que precisa saber. Ela me ensinou. E vai cuidar de você também.
Ele devia ter manifestado repulsa, pois o pai lhe dera um empurrão forte, fazendo-o deslizar pelo chão e bater na parede.
– Acha que é bom demais para Annie? Teria sorte de ter na cama uma moça tão animada quanto ela. Ela vai fazer de tudo. Pode se contorcer como um gato e comê-lo como…
Então era por isso que essa vil lembrança em particular havia voltado. A garçonete o comeria – ou pelo menos era o que o pai havia prometido – como se ele fosse um homem de gengibre.
A onda de náusea no estômago foi como um parente distante e desagradável. Ele odiava uísque. Odiava biscoito de gengibre.
Maldição.
Bardolph abriu a porta e entrou.
– Sua Graça, trago…
– Não entre sem bater – disse ele, ríspido. – É o quarto da duquesa.
O rosto de Bardolph era tão pálido quanto uma batata crua, mas os olhos eram de um castanho mais escuro. Como um machucado numa batata velha.
– Sua Graça está conversando com a Sra. Grisle – respondeu Bardolph, com o ar magoado de um homem acostumado a saber exatamente o que acontecia em todos os aposentos do castelo, a todo momento. – Queria consultá-lo sobre os arranjos para acomodar lady Gilchrist.
Numa casa com tantos empregados, não havia segredos. Gowan soubera quando o pai engravidara a segunda aia e também soubera quando a pobre moça sofreu um aborto, da mesma forma que havia descoberto quando a própria mãe, grávida, insistira em correr atrás dos cães, e perdera o filho.
Começara a beber demais depois disso, o que também não era nenhum segredo.
– Não a deixe no quarto amarelo – declarou Gowan.
Não permitiria que a madrasta da esposa ficasse no quarto ao lado ouvindo… ouvindo o que quer que houvesse para ouvir. Saiu pela porta rumo a seu escritório, com Bardolph em seu encalço.
– Acomode-a no quarto mais próximo à ala infantil.
– À ala infantil? Fica no terceiro andar. Sua Graça estaria insultando a dama.
– Deveria estar fazendo essas perguntas para minha esposa, não para mim – retrucou Gowan.
Naquele exato momento, percebeu que seria loucura ir para a cama de Edie depois do jantar. Se grunhisse assim, ela se recolheria ainda mais.
– Como preferir, Sua Graça. Localizei um instrumentista.
– O quê?
– Sua Graça pediu que eu localizasse alguém que pudesse ensinar música para a criança. O professor de francês da Srta. Susannah, François Védrines, parente do falecido conde de Genlis, afirma ser violinista. Quando o contratamos, estava viajando pela Escócia, pesquisando baladas de itinerantes.
– Por que está me contando isso? – perguntou Gowan, entrando no escritório e se virando.
– Vossa Graça deseja ouvir os detalhes de todas as contratações significativas na casa – disse Bardolph, a boca tensa formando um bico que lembrava o olho de uma batata.
– Informe as credenciais do homem à duquesa – ordenou Gowan.
Então ele se lembrou de que Edie preferiria estudar a ouvir Bardolph.
– Não importa, traga o homem para cá o mais rápido possível.
– Ele já está aqui – informou Bardolph. – Na condição de tutor da Srta. Susannah.
Depois do almoço, Gowan recolheu-se de novo ao escritório e estava rendendo bem no trabalho, depois de tirar Edie da mente, quando a cabeça dela apareceu na fresta da porta. O cabelo fazia cachos em volta do rosto e o sol que entrava pelas janelas iluminou uma mecha como se fosse ouro cintilante.
– Aí está você! – exclamou ela. – Andei passeando pelo castelo com a Sra. Grisle. Layla, Susannah e eu vamos agora dar uma caminhada para ver o rio. Deseja se juntar a nós?
No momento em que a viu, o corpo ficou alerta.
– Claro – disse ele, levantando-se e arrumando a frente da jaqueta.
– Você se importaria se Susannah deixasse o luto depois do dia de hoje? – perguntou Edie, enquanto atravessavam o labirinto de aposentos do castelo, todos ligados entre si, sem que houvesse um corredor.
– De modo algum.
– Vejo que você não está seguindo o costume.
Gowan lançou um olhar para Edie e então olhou em outra direção, chocado com sua reação apenas ao vislumbrar seus lábios rosados.
– Tomei a decisão de não vestir luto por minha mãe – respondeu ele, recompondo-se.
– Sugiro que consideremos suficientes os três meses que Susannah passou usando roupas pretas.
Ele assentiu, sem confiar nas próprias palavras. Pensar em sua mãe também fazia os sentimentos desarticulados de raiva e possessividade ganharem força dentro de si. A última coisa de que precisava era perder as estribeiras. De alguma forma, Edie precisava compreender que qualquer menção à falecida duquesa era como jogar uma tocha acesa em madeira seca.
Seguiram até o hall, onde encontraram Layla parada no meio do espaço cavernoso, segurando os punhos de Susannah com força e rodando, girando a menininha no ar sem parar. As pernas de Susannah estavam paralelas ao chão, as saias esvoaçavam. E o cabelo ruivo pairava sobre os ombros, formando uma nuvem embaraçada.
Desnecessário dizer que a menina gritava de pura alegria. Layla ria também, assim como os seis lacaios em seus postos perto da parede, embora tivessem fechado a boca no momento em que avistaram Gowan.
Parecia que Layla conseguira um milagre, e de imediato: tinha conquistado a meia-irmã de Gowan. Enquanto Layla colocava delicadamente a menina no chão, ele viu que o rostinho de Susannah, normalmente pálido, estava corado, e seus olhos, radiantes. Aquilo o fez se sentir culpado.
Susannah não havia percebido sua chegada. Estava pendurada na mão de Layla, pedindo que a rodasse no ar outra vez. Gowan seguiu caminhando.
– Devo voltar ao trabalho em breve. Não podemos nos demorar.
Dois lacaios entraram em ação, abrindo as grandes portas.
– O que você sabe sobre a torre? – perguntou Edie enquanto caminhavam pelo pátio em direção à ponte levadiça, que fora baixada.
A voz dela estava completamente calma. Edie não reagira à irritabilidade dele. Gowan não sabia como interpretar aquilo.
– É uma torre independente, muito mais antiga do que o restante do castelo onde habitamos – explicou ele.
Susannah correu na frente com suas perninhas finas se movimentando depressa, lembrando uma garça de pernas pretas, se tal criatura existisse. Eu deveria ter visitado a ala infantil com mais frequência, disse Gowan a si mesmo. Eu deveria ter posto isso na lista, transformado em prioridade.
Eles começaram a seguir pela trilha que fazia uma longa e suave descida, contornando a colina onde o castelo se encontrava.
– É provável que a torre seja tudo o que resta de um castelo que existiu ali no século XIII. Nesse caso, seria o forte. – Eles contornaram a colina. – Com o passar dos anos, a torre ganhou entre os tolos da região a reputação de ser impossível de escalar.
– E Susannah diz que existem fantasmas lá… – interrompeu Layla.
Gowan bufou.
– Bobagens. Três tolos subiram a torre para impressionar suas damas e despencaram para a morte. Não consigo compreender como seus fracassos poderiam fazê-los voltar como aparições. Não preciso dizer que nunca vi nenhum fantasma.
Abaixo, à distância, corria o rio Glaschorrie, avançando plácido pelas terras férteis da propriedade Kinross rumo ao Atlântico.
– É raro encontrar uma planície como esta na Escócia, não é? – perguntou Edie, olhando para os campos de trigo.
– É verdade. Foi provavelmente por esse motivo que meu ancestral construiu um castelo, ou pelo menos uma torre, aqui no rio. Queria proteger o que era seu.
– Deve ter uma vista linda.
– Era um tolo – disse Gowan, dando de ombros –, porque a planície enche a cada primavera e, com frequência, em outras épocas também. O Glaschorrie se torna uma torrente furiosa descendo daqui até o mar.
– No entanto, a torre sobreviveu.
Ele assentiu.
– Sobreviveu às enchentes e ao fogo.
Tinham caminhado o bastante para chegar ao pomar que ficava na base da torre. Layla e Susannah estavam atrás deles, de mãos dadas, parando de vez em quando para olhar uma borboleta ou uma pedra interessante do caminho.
– Essas árvores não sofrem quando o rio sobe?
Gowan esticou o braço e puxou a folha de uma macieira.
– Parecem lidar bem com isso. Uma vez, quando eu era jovem, me lembro de olhar do castelo e ver que apenas os galhos mais altos não estavam submersos. Um dia depois, toda a água havia desaparecido, levada para o oceano.
– Parece perigoso.
– Perdemos homens neste rio, embora eu tenha dado ordens de evacuação. No ano passado, apenas três cabras morreram, e isso porque o tolo do arrendatário acreditou que bastaria deixar os animais no segundo andar de sua casa.
– E não bastou?
Gowan balançou a cabeça.
– A enchente levou a casa e, com ela, as cabras. A terra aqui é tão plana que, quando o Glaschorrie se enfurece, costuma abrir novas rotas para seguir. Um local seguro em um ano pode não ser mais no ano seguinte.
Edie caminhava ao lado dele em silêncio. Gowan não tinha certeza sobre o que ela pensava. Alcançaram a base larga da torre, onde havia uma pequena porta de carvalho, de aparência bem robusta. Gowan tirou a grande chave de ferro do bolso da casaca. Depois de ter enviado para lá, durante meses, um bando de trabalhadores, a estrutura do edifício parecia quase nova.
Quando abriu a porta, foram recebidos pelo doce perfume sedutor de maçãs maduras. Pouco acima, ficava um armazém onde as frutas colhidas no outono eram guardadas, abastecendo o castelo de maçãs o ano inteiro.
Gowan empurrou a porta até escancará-la, abaixou-se um pouco para passar sob o arco e entrou no pequeno cômodo escuro na base da torre. Com uma olhada rápida, assegurou-se de que tudo estava no devido lugar antes de dar um passo para trás e permitir a entrada de Edie. Susannah passou por eles e começou a subir num pinote as escadas estreitas de degraus irregulares, suas saias negras desaparecendo a cada volta.
– Não gosto muito de espaços pequenos – revelou Layla, parando no umbral.
– Os andares superiores são bem mais amplos – disse ele.
Layla começou a subir os degraus de pedra, e Gowan pegou o braço de Edie, segurando-a até que a madrasta desaparecesse da vista.
Olhou para o rosto dela e o abismo gritando em seu peito abriu-se um pouco mais. Edie era linda. Era tudo que ele havia imaginado na noite em que se conheceram – uma criatura etérea, iluminada, que dançava ao som de uma música que apenas ela conseguia ouvir –, mas era também uma musicista, um prodígio, uma mulher cujo talento teria posto o mundo a seus pés se tivesse nascido homem.
Sendo Edie, ela não parecia se importar. Vivia para a música… e Gowan queria que ela vivesse para ele.
– Você é minha – rosnou, as palavras pronunciadas com toda a força dos sentimentos de ciúme e de possessividade que ele guardava.
Os olhos dela se arregalaram e então Edie fez algo inesperado: pôs os braços em volta do pescoço dele. Não o tocava por iniciativa própria desde os primeiros dias do casamento.
E naquele momento…
Ficou na ponta dos pés e roçou sua boca na dele.
– Então você também é meu – murmurou com um sorriso dançando nos lábios.
Gowan estava aos pés dela, e sempre estivera, desde o momento em que a vira. Diabos, o mundo inteiro sabia disso, principalmente as pessoas que haviam comparecido ao casamento em Chatteris. No entanto, vira vestígios de incerteza nos olhos dela. Ele, por sua vez, beijou a esposa despejando tudo o que sentia naquele beijo: seu amor, sua obsessão, seu domínio, sua incerteza, sua brutalidade, sua…
Tudo.
Edie murmurou algo ininteligível e apertou os braços em volta do pescoço do marido. Sua língua encontrou a de Gowan, o que fez seu coração bater num ritmo agitado dentro do peito. O cabelo dela escapou do coque e deslizou pelos dedos dele, como se fosse a água do rio lá fora. Por um momento, ele se sentiu feliz, como se bastasse tocar em seus fios para mantê-la próxima.
Então Edie se afastou.
– Ah, não!
As mãos dela correram tarde demais, cachos de cabelos começavam a despencar abaixo de seus ombros.
– Amo seu cabelo – disse ele, satisfeito com a vida pela primeira vez no dia. – Mesmo neste quarto escuro, ele reluz como o luar.
– Você desarrumou tudo de novo – acusou ela, torcendo o nariz. – Tive que ficar parada por quase 45 minutos hoje de manhã e não sou paciente no que diz respeito à minha toalete.
– Lamento – murmurou Gowan.
Voltou a capturar a boca de Edie… mas então percebeu vagamente que tentava imprimir seu selo ao beijá-la, como se aquilo fizesse alguma diferença.
Não faria, e ele se afastou, a alma desapontada. Ela emitiu um barulhinho de protesto. Ele a beijara até que os lábios dela ficassem inchados e vermelhos como cerejas. Apenas duas semanas antes, ele teria pegado fogo diante daquela visão, imaginando aquela boca acariciando seu corpo. Apesar disso, naquele momento, não conseguia imaginá-la de joelhos diante dele.
Não aconteceria. Edie não estava suficientemente presente para esse tipo de jogo amoroso. Não estava…
Gowan sentia falta dela, embora Edie estivesse bem ao lado dele, embora ele preferisse a morte a admitir uma ideia tão sem cabimento. Aquela dor no peito? Era uma idiotice.
– Preciso conversar com você – disse ele, abrupto.
Edie engoliu em seco e o coração dele ficou apertado. Uma pequena parte de si nutria esperanças de que todo o problema fora criado em sua cabeça e que, na realidade, ela estava perfeitamente feliz ao lado dele.
No entanto, aquele minúsculo movimento convulsivo na garganta contava outra história.
– Teremos um jantar particular no meu quarto – informou ele, examinando rapidamente as possibilidades. – Vou dispensar todos os lacaios.
Os olhos dela se turvaram.
– Não podemos, não na primeira noite de Layla. Bardolph acredita que o professor de francês de Susannah pode ensinar-lhe música, e ele também vai jantar conosco.
– Amanhã à noite, então. – Ele não podia ficar com ela naquele instante ou passaria por alguém ainda mais bobo ao se ajoelhar e implorar por seu amor. – Preciso retomar o trabalho. Estou atrasado para uma reunião.
Bem acima deles, ouviam pequenos acessos de riso enquanto Susannah e Layla exploravam a torre.
Edie assentiu. Os olhos dela eram de um verde selvagem, como uma floresta escocesa. Entregou-lhe a chave, virou-se e partiu.
Naquele momento, ele odiou o fato de ser esperado no escritório. Queria segurar a esposa nos braços e levá-la a algum lugar, onde não existisse uma irmãzinha que o fizesse se sentir culpado.
Desejou carregar a esposa nos braços, partir pelo caminho até o rio e encontrar alguma curva na margem onde não poderiam ser vistos. Estava duro como uma rocha e tão faminto que sentia o desejo emanar dele como fumaça.
Mas seus instintos nunca o desapontaram. Era melhor esperar até o dia seguinte. Se havia algo que Gowan odiava era agir precipitadamente.