A Torre do Amor
Capítulo 38
Estava na hora de ir para casa. O lago estava sendo açoitado pela chuva, as margens tomadas pela espuma criada por um vento brutal. Toda aquela água desceria para as Terras Baixas, Gowan pensou distraído. Não importava. Seus planos de evacuação para os vilarejos à beira do Glaschorrie estavam em ordem e Bardolph cuidaria para que fossem executados em caso de necessidade. Partiria na manhã seguinte.
A porta se abriu e Gowan ergueu a cabeça. O relatório diário havia chegado. Naquela semana, Bardolph não escrevera nenhuma palavra sobre Edie ou Susannah, nem mesmo sobre lady Gilchrist, embora, com relutância, ele se pegasse de novo pensando nela como Layla. Era difícil odiar Layla, mesmo sabendo que ela o julgava um homem inferior. Ele ouvia o soluçar de Edie ao dizer: “Ela é como se fosse minha mãe.” Ele a condenaria tanto se tivesse contado para a mãe?
Na ocasião, aquela palavra apenas intensificara sua fúria. Não era razoável odiar mães, ele sabia disso. Era estúpido, na verdade.
Depois de ler o relatório de Bardolph, Gowan convocou o lacaio que viera de Craigievar. O homem relatou que o único assunto no castelo era a música da duquesa.
Gowan franziu a testa, confuso.
– Ouvem a música dos corredores?
O lacaio passara apenas uma hora no castelo antes de voltar. Pelo que havia entendido, Sua Graça dava um recital todas as tardes, em algum lugar que não era o castelo. Perto do rio, achava. Quem estava ao ar livre ia ouvir.
Edie estava fazendo recitais para os criados. A ideia de que seus lacaios a viam com o violoncelo entre as pernas, devoravam-na enquanto ela fechava os olhos e balançava ao ritmo da música… aquilo abriu uma dolorosa ferida em seu peito.
Não era uma sensação nova. Certa noite, quando tinha 6 ou 7 anos, o pai o pegara pelo braço, segurando com tanta força que Gowan começou a chorar, embora soubesse que era melhor não demonstrar fraqueza diante do pai. Dito e feito, aquilo enfurecera o duque. Ele passou a usar mais força ainda, torcendo a pele do filho, e Gowan não conseguiu conter um grito… Aí sua cadela, a brava e leal Molly, latira, dera um salto no ar e mordera o rosto do duque. Foi apenas um arranhão, mas não sarou direito e Sua Graça carregou a cicatriz até o dia de sua morte.
Gowan nunca se esqueceu do momento em que o pai pegou Molly pelas patas traseiras e a jogou longe nas águas turbulentas do rio. Chegou a ver a cabeça do animal por um momento, e então ela desapareceu.
No dia seguinte, ele passou horas caminhando na beira do rio. Bardolph era um jovem lacaio naquela época, designado a vigiar o herdeiro. Os dois caminharam e caminharam. Bardolph nunca sugeriu que voltassem nem disse uma palavra por Gowan cambalear aos prantos.
Nunca a encontraram. Molly pode ter sido levada até o mar, até o fim. Pode ter sido lançada na margem…
Mas não acreditava naquilo. Não acreditava em contos de fada nem naquela idade. Vira quando ela afundara e não a tinha visto voltar à tona.
A lembrança trouxe a dor de volta como se tudo tivesse acontecido na véspera, embora com certeza fosse um sacrilégio comparar a esposa a uma cadela. Molly tinha sido uma criatura tola e valente. Ela o amara e havia sido leal. Não tinha qualquer semelhança com sua esquiva esposa, que não era nem nunca seria dele.
Porém, ele parecia um possuído. Não importava o que Edie fizera ou deixara de fazer. Ele a amava. Era como se uma parte dele, uma parte vital, tivesse sido arrancada apenas porque ele não estava podendo entrar num aposento e vê-la.
O mordomo voltou a abrir a porta assim que Gowan se afastou da janela salpicada pela chuva.
– Vossa Graça, há uma missiva urgente da parte do Sr. Bardolph.
Um choque elétrico atravessou Gowan da raiz do cabelo até os tornozelos. Nada era tão urgente, a não ser a morte.
A morte era sempre urgente.
Ele abriu a carta tão rápido que chegou a rasgar um canto do papel, que caiu no chão. Leu a carta. Leu de novo. Leu pela terceira vez. Bardolph devia estar equivocado. Edie não podia deixá-lo. Eram casados.
Com certeza, ele havia pensado em deixá-la. A ideia, no entanto, evaporara vinte minutos depois de sair do castelo. Mesmo na primeira noite, deitado na estalagem a caminho das Terras Altas, ele precisara de considerável força de vontade para não voltar ao castelo e implorar para que ela o recebesse de volta em sua cama.
A atenção voltou para o papel em suas mãos. Layla, Susannah e Edie estavam de partida. Sua família. Não. Ele jogou a carta no chão e deixou o aposento.
– Naturalmente, Vossa Graça – disse o mordomo momentos depois, se curvando. – As carruagens estarão prontas no início da manhã.
Gowan olhou pela janela. Ainda era o início da tarde, mas o céu estava com um feio tom cinzento.
– Vou partir agora.
O mordomo piscou.
– A carruagem estará pronta em duas horas… uma hora… sem seu criado?
A última parte da frase soou esganiçada, mas Gowan já estava no corredor.
Tinha cavalos em estábulos por toda a estrada. Se montasse sem parar, trocando de animal, poderia chegar a Craigievar em trinta horas, mais ou menos.
Quinze minutos depois, vestido com roupas para o frio, observava com irritação o supervisor do estábulo verificar sua sela.
– Ele não gosta de chuva – alertou o homem. – Pode se assustar, por isso tome cuidado, se me permite aconselhá-lo, Vossa Graça.
Ele não permitia. Nunca tinha caído de um cavalo. Nunca.
Há sempre uma primeira vez para tudo na vida.
Depois de três dias, Edie finalmente cedeu e perguntou a Bardolph se ele havia informado ao duque sobre sua partida. Ao se curvar, Bardolph transmitiu como desaprovava a ausência prolongada de Gowan, o que estranhamente era confortante.
Na manhã seguinte, o chão estava úmido da colina até a torre e o rio alargara e acelerara seu ritmo. Não era mais uma cobra gorda e preguiçosa. Corria com um propósito. O murmúrio anterior se tornara uma conversa barulhenta e seu violoncelo se insinuava por aquela melodia como se o rio fizesse um contraponto.
A carruagem de lorde Gilchrist aproximou-se do castelo perto do meio-dia. Edie a viu da torre, mas decidiu que Layla e o pai precisavam de privacidade. Eles a procurariam quando estivessem prontos. Ela rezou para que o pai amasse Susannah tanto quanto Layla e ela a amavam.
Algumas horas depois, Edie ouviu risos e olhou pela janela. Os três desciam pela trilha. E Susannah segurava a mão do conde, saltitando diante dele.
No final das contas, ela não precisaria fazer perguntas sobre a felicidade de ninguém. O rosto de Layla estava luminoso – assim como o de lorde Gilchrist.
– Ele sente muito – sussurrou Layla, enquanto o conde mostrava a Susannah como tocar e cantar Frère Jacques no violoncelo. – Eu falei que lamentava por tudo, que nunca tivera a intenção de flertar com outros homens. E que ele era o único que eu amei ou amarei. E ele…
Edie interrompeu-a dando-lhe um beijo.
– Isso fica entre vocês dois, querida.
Layla abraçou-a.
– Você é minha melhor amiga, e a mais sábia também.
Depois de um tempo, voltaram ao castelo, todos os quatro. No caminho, Layla foi na frente com Susannah e o pai de Edie falou em voz bem baixa:
– Sinto muito, minha querida. Fiz uma escolha terrível ao aceitar a proposta de Kinross.
Os olhos de Edie se encheram de lágrimas.
– Não, não fez. Eu amo Gowan.
Gilchrist balançou a cabeça.
– Vai voltar para casa e vou anular esse casamento nem que eu precise falar com o próprio rei. Falarei com o rei. E acredito que ele vai respeitar minha vontade.
– Deve descansar da viagem – aconselhou Edie, sem conseguir se desfazer da esperança teimosa de que Gowan ainda apareceria, de que ainda o veria mais uma vez.
– Posso descansar na carruagem – respondeu o pai. – Está na hora de ir para casa, Edie.
E, embora sentisse tristeza, ela concordou. Era tolo permanecer trancada na torre, numa barricada contra um marido que nem se dava ao trabalho de bater à porta.
Cearam cedo e ela voltou para seus atuais aposentos. Trancou a porta para evitar o homem que nunca aparecia, esforçando-se para subir a escada com uma sensação de peso e exaustão. Layla e o pai estavam absolutamente felizes. Era evidente que haviam conversado – e direito. E mais: Edie estava com a distinta sensação de que Susannah os uniria como se fosse cola. A agitação de Layla passara e seus olhos brilhavam de felicidade.
A chuva batia nas janelas como uma voz sem resposta. Por fim, ela as abriu para refrescar o quarto e foi para a cama. Não passava de oito horas da noite, mas Edie adormeceu ouvindo o chamado do rio que corria para o mar.