A Torre do Amor
Capítulo 29
Edie subiu os degraus da torre. Estar com Gowan – ser casada com ele – era como se descobrir cônjuge de um tornado. Uma força a fazia girar até perder a razão, até desejar ficar agarrada a ele, contemplando aqueles olhos de meia-noite.
E aí acordava e percebia que ela era apenas mais um compromisso na vida do marido. Ao que parecia, não era importante o suficiente para justificar que ele perdesse seu tempo em outras ocasiões que não fossem o jantar. Sentiu uma onda de raiva, seguida por um momento de clareza. Nenhum dos dois estava disposto a abrir mão do próprio tempo. Ela fazia questão de suas horas de estudo da mesma forma que o marido em relação ao trabalho.
Continuou a subir, pensativa. O primeiro nível estava completamente vazio, mas, como Gowan avisara, era bem menos sombrio. A torre tinha encantadoras janelas em arco com vidros em formato de diamante. Parou por um momento para olhar o rio lá embaixo.
Era difícil imaginar o Glaschorrie numa enchente. Naquele momento, sua corrente preguiçosa era quase imperceptível. Pequenas bolhas subiam até a superfície. Fora isso, era plano como o fundo de um prato.
Ouviu outra explosão de gargalhada, então voltou-se para os degraus estreitos, irregulares, e continuou a subir. Chegou a outro cômodo, onde caberiam no máximo quatro pessoas e que, no passado, poderia ter sido usado como sala de jantar. A mesa era de carvalho enegrecido, mas não havia cadeiras ao redor. Olhou para a superfície desgastada do móvel por um momento, depois verificou as pernas: havia marcas que com certeza tinham sido deixadas pela água.
Subiu um pouco mais e emergiu em um quarto, identificável pela estrutura de madeira de uma cama, em um lado. Layla estava sentada em uma cadeira de balanço junto à lareira apagada, impulsionando-a com o pé para que permanecesse em constante movimento.
Susannah estava aconchegada em seu colo, olhando para o outro lado, de modo que não dava para ver Edie. Layla pousou o indicador de sua mão livre nos lábios e Edie deixou-se cair num banco num canto do quarto. Suas pernas estavam cansadas da subida.
– Muita gente deve ter morrido no castelo – disse Susannah, sonolenta. – Gatos também. Muitos gatos. O pátio inteiro deve estar cheio de túmulos e passamos por cima deles o tempo todo.
– Eu acho – interveio Layla, com seriedade – que as pessoas e os gatos voltam a fazer parte da terra depois de um tempo. Assim, você anda apenas sobre terra, Susannah.
Susannah estava com o polegar na boca, por isso Edie não conseguiu entender o que ela respondeu.
Layla falou:
– Não acho. Suas almas foram para o céu.
Depois houve silêncio, a não ser pelo rangido da velha cadeira no chão de pedra.
Layla ergueu a cabeça após um momento e anunciou com calma:
– Ela é minha, Edie.
– Estou vendo – falou Edie, sentindo um pequeno aperto no coração. – Ela passou por muitas dificuldades, não é?
– Nem tantas. Foi abrigada, alimentada, e acho que as criadas foram bastante gentis com ela. Faz drama porque é parte de sua personalidade. – Layla deu um leve sorriso. – Sei tudo sobre isso.
Com sua aptidão para a dramaticidade, Layla era a pessoa certa para educar Susannah. Claro que era.
– Queria que seu pai estivesse aqui – acrescentou Layla. – Ele iria amar Susannah.
Edie não tinha tanta certeza. O pai era completamente rígido quanto ao que era imprório. Como se sentiria em relação a uma criança que poderia ou não ser ilegítima, que nem parecia ter sido batizada?
Layla adivinhou seu pensamento.
– Está errada, Edie. Ele a amaria… vai amá-la… porque ela é audaciosa e corajosa, bem parecida com você.
– Não sou corajosa.
– A maioria das damas inglesas ficaria aterrorizada pela perspectiva de se casar com um desconhecido e partir para a Escócia. Seu duque não é um fracote. E você não tem o menor medo de casamento nem de Gowan, não é?
– Mas acho que deveria ter tido. Estava pensando há pouco que sinto que me casei com um tornado.
– Mas não tem medo dele, tem?
Layla olhou para ela, incisiva.
– Como poderia ter depois de ser criada por papai? Papai finge que tudo que vê é lógico, mas por dentro é todo emoção.
Layla ficou sentada com os braços em torno do corpinho de Susannah, ainda balançando a cadeira com o pé, para a frente e para trás. Então disse:
– Ele é mesmo, não é?
E mergulhou o rosto no emaranhado do cabelo da menina.
Então Edie escapuliu, descendo todos aqueles degraus de pedra, e vagou entre as árvores frutíferas antes de subir a colina, seguindo a trilha até ver os portões abertos do castelo. Parou, olhou para a torre. Vista dali, parecia atarracada.
Gowan estava certo em preservá-la. E estava certo ao afirmar que precisavam conversar.
Se os dois conversassem seriamente, ela precisaria confessar que fingira chegar ao prazer. Se colocasse em prática as ideias de Layla para uma noite romântica, talvez não tivesse que confessar. Dez dias se passaram desde que haviam tentado pela última vez, e ela esperava sinceramente que não voltasse a doer.
De um jeito ou de outro, não haveria mais fingimento.
Sob o abrigo do muro, cresciam flores silvestres. As hastes eram muito longas e as plantas pendiam para os lados, embaralhando-se, antes de explodirem em minúsculas flores brancas.
Edie se ajoelhou e começou a colhê-las até ficar com os braços cheios de flores com caules retorcidos. Não tinham a beleza das flores compradas em Covent Garden, em Londres, com suas hastes retas e pétalas regulares. Eram silvestres e rebeldes. Suas primeiras flores escocesas.
A princípio, pensou que não tinham perfume, mas de perto exalavam uma leve doçura, um aroma volátil. Depois de dar uma última olhada para a torre, ela se levantou.
Atravessou a ponte levadiça, refletindo muito. Na verdade, não era corajosa como Layla acreditava. Uma pessoa corajosa não teria deixado que Gowan pensasse que havia algo de errado com ele, quando o problema na verdade era dela.
Bardolph passava pela entrada – dirigindo-se, sem dúvida, para o escritório de Gowan. Parou e disse:
– Não são flores, são mato, Vossa Graça.
Edie permitiu que um silêncio suficientemente longo se instalasse para dar a entender que ele havia ultrapassado os limites.
– Ficarei grata se puder me mandar uma criada com diversos vasos. Estarei em meus aposentos. Ah, Bardolph, meu quarto precisa ser todo redecorado.
Ele se curvou, tão rígido que as costas pareciam um tampo de mesa.
– Convocarei o Sr. Marcy, que comanda as reformas do castelo.
– O Sr. Marcy foi o responsável pelo quarto azul, pelo quarto amarelo e assim por diante?
– Sim.
– Nesse caso, não será a pessoa certa. Confio que pode encontrar alguém diferente. Obrigada, Bardolph.
Ela começou a subir a escada consciente de que as pequenas flores brancas esbarravam em suas roupas e caíam no chão.
Assim que entrou no quarto, arrumou as flores rebeldes nos vasos. Os talos se enrolavam em diferentes direções antes de se abrirem em pequenos buquês de flores brancas. Davam um toque selvagem muito bem-vindo àquele estéril quarto azul.
Mary removera todas as suas roupas dos baús. A criada havia encontrado o professor de francês de Susannah, agora recrutado também para ensinar-lhe música.
– Ele é bonito como num retrato – opinou Mary. – Tem cabelo longo, amarrado para trás. É filho de um marquês, pelo que dizem. – Com alguns movimentos rápidos, a criada dobrou uma anágua rendada em um quadrado. – Não devia trabalhar. Não devia morar aqui sob o comando de um duque escocês para ensinar música a uma criança de 5 anos. – Mary lançou um olhar para Edie. – E ninguém está confiante de que a Srta. Susannah vai aprender a cantar, muito menos que toque um instrumento, Vossa Graça. Ela é uma coisinha mal-humorada, pelo que todos disseram. Derramou leite de propósito, mais de uma vez, segundo ouvi. O que vai vestir no jantar?
– O azul-marinho – respondeu Edie.
Tinha deixado para trás todos os vestidos brancos.
– O vestido de seda ponge, então – falou Mary, retirando respeitosamente o vestido de noite do guarda-roupa. – Seu cabelo está um desastre. Vou prendê-lo novamente, e o trançarei com pérolas.
Edie suspirou e se sentou. Havia perdido o dia inteiro.
– Amanhã vou praticar durante toda a manhã – revelou para Mary. – Nenhuma interrupção depois do desjejum.
Mary assentiu.
– O duque falou que a senhora deve manter um lacaio diante da porta, para garantir seu sossego.
– Não há necessidade do lacaio – retrucou Edie. – Vou praticar na torre.
Mary torceu o nariz.
– Bardolph disse que ninguém tem permissão de se aproximar daquela torre.
Ela começou a desabotoar a roupa de Edie, que, durante todo o tempo, ficou olhando para as flores pensando em seus talos enrolados, parecidos com uma complicada partitura musical.
Era como se a Escócia tivesse música selvagem crescendo bem rente ao muro do castelo.