A Torre do Amor
Capítulo 39
Gowan chegou ao estábulo por volta das nove da noite e desmontou, jogando as rédeas para um garoto sonolento. Entrou no castelo pela cozinha, para não ser visto pelos lacaios que, com certeza, contariam para Bardolph.
O fogo do forno estava reduzido para a noite e ninguém se mexia além do gato, cujos olhos oblíquos reluziam amarelados, perto do braseiro. Gowan agarrou uma lamparina e a acendeu, depois subiu a escada dos criados e atravessou o corredor. Não foi para seu quarto. Foi para o dela.
Empurrou a porta e encontrou o aposento em plena escuridão. As cortinas estavam fechadas e a lareira não tinha vestígios de calor. Todo o quarto estava frio, frio demais. E vazio. Até o cheiro indicava que ninguém o ocupava havia muito tempo. Pousou a lamparina sobre a lareira, notando com indiferença que sua mão tremia. Um medo nauseante tomou conta de suas entranhas. Um momento terrível se passou enquanto ele percebia o que estava vendo.
Ela tinha partido. A cama estava desfeita e o quarto vazio.
Havia um único objeto esquecido no aposento: o livro de poesia. Sua alma rugia de dor e seu estômago dava um nó como se ele fosse vomitar. Pegou o maldito volume e guardou-o no bolso.
Gowan havia calculado quantos dias se passaram desde a chegada da mensagem de Bardolph nas Terras Altas. Deveria ter sido capaz de alcançá-la antes que partisse para a Inglaterra. No entanto, ela não havia deixado aquele quarto horas antes. Havia poeira na lareira. Ela partira dias antes.
Saiu do quarto com o rosto rígido. Quando chegou ao térreo, dois lacaios saltaram das cadeiras com os rostos alarmados.
– Quando foi que a duquesa partiu? – quis saber, soltando a voz num rosnado com uma cadência nova e irritada.
Um dos homens abriu a boca de surpresa. O outro falou:
– Partiu? Sua Graça partiu?
Dois idiotas.
– Quando foi que ela partiu para a Inglaterra? – O tom de voz alcançou o nível de um urro. – Quando minha esposa me deixou?
Edie sonhou que o ronco do rio Glaschorrie era uma convocação para ela. A impossibilidade a despertou: o rio não poderia estar chamando seu nome. Mesmo desperta, ela voltou a ouvir seu nome. Foi para a janela e se debruçou. A noite havia caído, e, embora ainda não tivesse parado de fato, a chuva diminuira bastante. Gowan estava lá embaixo, no escuro.
Ela abriu a boca, mas nada saiu.
– A porta está trancada! – gritou ele. – Pode descer e me deixar entrar?
Edie se recompôs. Havia se preparado para aquele momento. Sabia o que dizer.
– Não vou conversar com você no meio da noite, Gowan! – berrou ela. – Vá para a cama e podemos nos falar pela manhã, antes da minha partida.
– Edie. Não pode… Não pode estar pensando em me deixar.
Ele não gritou, mas ela ouviu cada palavra com clareza. Então seria daquele jeito. Gowan não se importara de falar com ela até perceber que um de seus bens estava escapando por entre os dedos. A mensagem de Bardolph devia tê-lo convencido a vir.
– Boa noite, Gowan.
– Estava planejando voltar para a Inglaterra sem sequer me comunicar? – A descrença na voz dele a teria feito rir, se não estivesse sentindo tanta vontade de chorar.
– Poderíamos ter conversado a qualquer momento nas últimas duas semanas se você tivesse voltado.
– Eu ia voltar. Você sabia disso. Pensei… Pensei que podíamos conversar, Edie. Conversar de verdade.
– Muito bem – disse Edie, sentindo a decepção prendê-la ao chão como sapatos de chumbo. – Na próxima vez em que quiser conversar com sua esposa, Gowan, terá que lhe dedicar mais de uma hora no jantar e uma visita quando tiver tempo livre dos seus compromissos na administração de propriedades. Estou me referindo à sua próxima esposa.
– Não quero outra esposa!
Claro que ela não poderia fugir pela manhã sem falar com ele. Um casamento, mesmo uma união breve e turbulenta como a deles, precisa ser respeitado.
– Vamos conversar pela manhã. Tenho certeza de que meu pai vai concordar em adiar nossa viagem para Londres por mais um dia.
– Não pode me deixar!
A voz dele atravessou o som do rio, cortante como uma faca.
Edie obrigou seus dedos úmidos e gelados a se afastarem do parapeito.
– Acabou, Gowan. Vou embora.
Ela fechou a janela.
E trancou-a por dentro.
Gowan fitou a torre. Ela o recusara. Seu corpo inteiro doía por conta das agruras que enfrentara. Havia montado por horas, tinha sido derrubado do cavalo, caído numa vala. O animal fugira e ele precisou caminhar por uma hora até alcançar um vilarejo onde fizeram um curativo em suas costelas e ele pôde comprar outra montaria – por aproximadamente o triplo do valor do animal. Depois, tinha cavalgado por mais cinco horas. As costelas que se danassem.
Mesmo assim, Edie trancara a porta e depois a janela. Um minuto depois ele voltou para o castelo, sacudindo a água da capa como se fosse um cão. Estava subindo a escada quando encontrou Layla, que descia. Ela ficou paralisada, boquiaberta.
– Boa noite – disse ele, sentindo uma onda de humilhação lhe descer pela espinha.
Aquela mulher sabia.
O pensamento foi interrompido pelo olhar dela.
– Você! – disse ela, cutucando o tórax dele com o dedo. – Quero falar com você.
Layla ardia como uma tocha, enquanto andava na direção dele, rumo ao escritório.
– Meu marido com certeza tem algumas coisas a lhe dizer – anunciou ela, girando para encará-lo, assim que ele fechou a porta.
Ao que parecia, suas inadequações como marido eram de conhecimento geral.
– Como ousa! – exclamou Layla. – Como ousa agir de forma tão desprezível com sua esposa! – Ela avançou na direção dele como se fosse um anjo vingador. – Como pôde dizer coisas tão indecorosas para alguém tão doce e amável? É um homem desprezível, Kinross. Desprezível.
Era como se uma das Fúrias gregas tivesse sido solta em seu escritório. Ele a examinou com a mesma perplexidade que dedicaria a uma deusa antiga.
– Edie e eu temos muito que conversar.
– Isso é o mínimo.
– Quero que saiba que não aprecio o papel que desempenhou no meu casamento – declarou ele.
Um brilho de culpa cintilou no olhar de Layla.
– Eu nunca deveria ter ensinado a Edie o que ensinei. Peço desculpas.
– Realmente não foi de grande ajuda – rebateu ele, escolhendo as palavras com cuidado. – Depois que tirei algum tempo para pensar, percebi que Edie a considera uma mãe. Tenho certeza de que ela e eu seremos capazes de forjar um novo…
– Seu idiota!
A voz de Layla, cheia de desdém, o interrompeu.
Qualquer remorso que ela pudesse ter sentido havia obviamente sumido.
– Não tem ideia do que fez com ela, não é?
– Discutimos – respondeu Gowan, a raiva voltando a crescer em suas entranhas. – Isso não é inédito nos matrimônios, lady Gilchrist. A senhora mesma já experimentou algumas dificuldades.
– Meu marido e eu nunca dissemos um para o outro as coisas que você falou para Edie. Acredite em mim, Jonas, se quisesse, tinha todas as condições de me despir de todo o vestígio de respeito próprio. Mas ele nunca faria tal coisa, não apenas por me amar, mas também porque é um homem decente.
Um momento de silêncio passou antes que Gowan conseguisse falar.
– Como ousa dizer tal coisa para mim! – berrou, abandonando todos os traços do comportamento civilizado.
Ela nem vacilou, apenas cruzou os braços diante do peito e o analisou com seu olhar de desprezo.
– Vejo agora o homem que Edie descreveu. Não vai me assustar com seu temperamento. Tenho meus defeitos. Apesar disso, nunca, nem em um milhão de anos, faria com qualquer ser humano o que você fez com Edie. Nunca.
O que ela dizia finalmente foi penetrando na mente de Gowan, ultrapassando o atordoamento da pura raiva.
– Que diabo você está falando? Parece que eu bati nela. Não fiz nada com Edie!
Os olhos dela grudaram nos dele.
– O quê? Não fez nada? Encontrei a mulher que você deixou para trás sem qualquer amor-próprio, convencida de que era um fracasso como mãe e como amante. Não foi você? Pois me pareceu!
Gowan a encarou. Layla prosseguiu:
– Ela pode ter fingido um orgasmo. E daí? Você estava tão alheio que não percebeu. Qual é o grande crime aqui?
Ela não reclamava de nada que Gowan já não tivesse dito a si mesmo.
– Seu idiota – xingou Layla. – Seu desprezível, nojento…
– Está começando a se repetir.
– Você a fez pensar que havia feito algo terrível logo depois de ela ter tido o primeiro orgasmo da vida. Falou que ela parecia uma panqueca quando não tinha a mínima ideia do que deveria fazer na cama. Agora ela acha que nunca vai conhecer o prazer sem estar bêbada… porque você jogou isso na cara dela! Pior, você a convenceu de que ela não tem capacidade de ser mãe. Edie! Você falou isso para Edie, que é uma das pessoas mais amorosas e generosas que conheço!
– Edie tinha me escrito uma carta em que dizia que não queria filhos. – Assim que pronunciou essas palavras, ele sabia que não fora bem isso: ela escrevera que não queria filhos imediatamente. – E então, quando conheceu Susannah, ficou claro…
– Seu idiota! – exclamou Layla. – Susannah é minha. Edie nem teve chance. Nunca segurou um bebê, sabia disso? O pai não deixava que ela brincasse com outras crianças. Era importante demais preservar aquele talento dela. Teria conquistado Susannah com o tempo, mas não, você entregou a criança sem nem discutir o assunto! E partiu daqui deixando sua esposa chorando no chão, despida de todos os atributos que a tornam uma mulher.
Os lábios de Gowan tinha ficado dormentes. Ele apenas a encarava em silêncio.
Layla se aproximou e voltou a cutucá-lo.
– E em seguida saiu do quarto fazendo estardalhaço porque havia adquirido uma mercadoria estragada. Como se você, um burocrata tedioso, estúpido e desprezível, fosse digno de tocar a bainha da saia de Edie. Você, que ignorava o que era um violoncelo.
Gowan não conseguia falar.
– É um filisteu – disse Layla, baixando o tom quando ele não respondeu. – Casou-se com a mulher mais bonita e carinhosa de toda a Inglaterra… e da Escócia também… e quando descobriu como era inadequado na cama, pôs a culpa nela. Deixe-me lhe dizer uma coisa, duque.
E deu mais um cutucão.
Gowan tinha a sensação de que mal respirava, pois apenas um ar abrasador penetrava em seu pulmão.
– A única razão para não ter ouvido a palavra inadequado da boca das mulheres que precederam Edie em sua cama foi seu título. É isso. Não se engane pensando que Edie é incapaz de sentir prazer. Você é o problema. E aquelas mulheres satisfeitas que estão servindo de comparação? – Ela chegou a bater na mesa, furiosa. – Cada uma delas mentiu para você.
Gowan percebeu vagamente que Edie, ao que parecia, nunca contara para a madrasta sobre sua falta de experiência. Não que isso importasse.
O lábio inferior de Layla estremeceu.
– Destroçou-a como se ela fosse uma louça barata comprada na feira. E foi embora depois de destruir seu coração. Tudo o que ela faz desde então é tocar violoncelo… porque acredita que é seu único talento. Perdeu tanto peso que parece tuberculosa. Está convencida de que será uma mãe terrível e de que nenhum homem a amará. Provavelmente, nunca será capaz de ter prazer na cama, porque você demonstrou asco por ela. Seu desprezível…
Então Layla começou a soluçar e o resto de suas palavras ficaram incompreensíveis.
Gowan não se mexeu. O retrato que ela havia pintado dele era tão terrível que o deixou paralisado, mal percebendo a própria palidez.
Layla tinha apoiado uma das mãos sobre a mesa. A cabeça pendia, aos prantos. A porta se abriu. Houve uma segunda pausa e lorde Gilchrist passou correndo por Gowan, tomou a esposa nos braços, e Gowan o ouviu murmurar algo quando ele encostou o rosto dela em seu ombro. Parecia que os Gilchrists estavam juntos de novo. Não que ele se importasse com isso.
Ele tinha mesmo feito tudo aquilo com Edie? O que acontecera? Começou a filtrar suas lembranças. De repente, lembrou-se da expressão de horror nos olhos da esposa quando ele falou que ela não tinha aptidão para cuidar de crianças, lembrou-se da forma como Edie havia chorado ao insistir que havia tentado se aproximar de Susannah, aquela dor silenciosa em seus olhos.
Lembrou-se de ter repetido aos berros o odioso comentário do pai sobre panquecas, mas não teve a intenção de se referir a ela.
Gowan a levara a pensar que havia ficado enojado?
Lorde Gilchrist depositou a esposa delicadamente numa poltrona, deu meia-volta e atingiu Gowan no queixo com um soco tão forte que o rapaz tombou no chão como uma árvore abatida, sem tempo para se desviar e proteger o braço esquerdo.
– Isso é pela minha filha – rosnou o conde, olhando para baixo. – Não pense que não posso obter a anulação do casamento, porque eu posso. Direi ao rei que um maldito escocês reduziu minha filha a uma sombra em questão de semanas. Não pense que ficará com o dote dela. E também nem pense em frequentar um salão de baile na Inglaterra quando estiver à procura da próxima esposa. Vou garantir que cada homem no país prefira mandar a filha para a América a casá-la com você.
O corpo de Gowan doía tanto por desabar outra vez em uma superfície rígida – embora o chão do escritório fosse ligeiramente melhor do que a vala – que ele mal registrou a saída de Gilchrist, acompanhado da esposa.
Não era apenas a dor. Era o conhecimento de que havia tirado de Edie toda a sua dignidade, seu respeito próprio. Ferira a única pessoa a quem amava em todo o mundo. Ele a arruinara. Ele tomara…
A verdade sinistra pulsava junto com a dor física queimando seu braço esquerdo como se um espeto em brasa tivesse atravessado a ponta dos dedos até o cotovelo. O curativo em volta das costelas não impedia que se deslocassem, de tal forma que ele mal conseguia respirar.
Tinha acabado de conseguir se sentar quando Bardolph entrou no aposento. Gowan respirou fundo e as costelas rachadas arderam, consumidas por um súbito calor.
– Ajude-me a levantar – pediu ele.
Passos se aproximaram dele. Gowan ergueu os olhos. Não costumava pensar em Bardolph como um homem apenas dez anos mais velho do que ele. A forma como franzia a testa constantemente o deixava com trinta anos a mais.
Naquele momento, ele percebeu que nunca tinha visto Bardolph manifestar qualquer sincera desaprovação.
– Vou partir – declarou o administrador, fitando Gowan no chão sem erguer um dedo para ajudá-lo a se levantar. – Pode considerar esta comunicação meu aviso.
Gowan tinha se apoiado na mão direita para conseguir se levantar sem usar a esquerda. Bardolph deu um passo à frente e chutou a mão sob seu corpo. Gowan voltou a desabar, deixando escapar um gemido abafado.
Bardolph não poderia odiá-lo com mais intensidade do que ele mesmo se odiava.
– Não tive intenção – argumentou Gowan, olhando fixamente as pernas da cadeira diante dele. – Eu a amo.
Silêncio.
Nem tinha certeza se Bardolph continuava ali. Talvez estivesse esperando o momento certo para chutá-lo nos rins.
– Eu a amo muito.
A voz de Gowan vacilou e, pela primeira vez desde o dia seguinte ao desaparecimento de Molly nas águas do rio, ele perdeu o controle. Com todo o sofrimento de uma alma ferida, ele declarou:
– Eu a amo mais do que…
Uma mão áspera agarrou seu braço esquerdo e o fez se levantar. A dor era tanta que ele gritou involuntariamente.
– Jesus, Maria, José, seu ombro está deslocado! – exclamou Bardolph.
– As costelas. Caí do cavalo.
– Não é uma boa desculpa para se manter afastado por duas semanas – repreendeu o administrador, dando um passo para trás e cruzando os braços diante do peito.
Gowan olhou para o outro lado.
– A verdade é que ela vai ficar melhor sem mim. Estou me transformando em meu pai.
– Sua mãe já era alcoólatra muito antes de se casar com seu pai. Levou uma semana para que toda a criadagem soubesse disso. É um milagre que você não tenha nascido com a cabeça oca.
Gowan absorveu aquela informação.
– Ainda tem chance. – A voz de Bardolph se transformou em um grunhido. – Ela não se foi. Fiz o melhor que pude por você, seu ignorante, seu ingrato. Arrumei aquela torre para ganhar tempo até que você pudesse voltar para casa. Todos os homens deste maldito castelo teriam caminhado de joelhos até a Palestina para tocar naqueles lábios, e você a deixou sozinha, chorando por você.
Por que ele não deu meia-volta depois de caminhar dez passos após passar a porta da frente? Por que ele deixara a pessoa a quem mais amava no mundo soluçando ao lhe dar as costas? O arrependimento perfurava seu coração, de forma mais intensa e aguda do que a dor em seu braço.
Gowan voltou para a porta da frente sem sequer notar o lacaio que a abrira.
Ao chegar à torre, ele se encostou na parede para se abrigar da chuva e para tentar raciocinar. Tinha ferido Edie de tal forma que ela perdera a confiança na própria capacidade de amar uma criança – um xingamento veio de dentro de seu coração – e, de algum modo, ele a convencera de que havia agido de forma inapropriada ao ser tomada pelo prazer.
Edie ia deixá-lo. É claro que ia. Ele se endireitou, mas cambaleou por causa da dor da costela rachada.
Edie era a única pessoa no mundo que importava para ele. Seus pais estavam mortos. Tinham sido problemáticos demais para amá-lo e o amor que ele sentira por eles havia se esvaído. Molly desaparecera. As tias eram, no máximo, cordiais, e Layla tinha adotado Susannah.
Mas Edie o amava. Afirmara isso, e ele precisava acreditar: foram as palavras que ela disse logo antes de sua partida. Se ela o amava, talvez fosse capaz de perdoá-lo. Trevas estavam à espreita em sua vida tão organizada, mas ele queria banir a escuridão.
Tinha que confessar a ela. Tinha que abrir seu coração.
Ambos deveriam ter explorado a intimidade juntos, mas sua determinação em seguir um plano com falhas destruíra essa possibilidade. Ele estava tão desesperado em agradar a ela que arruinara tudo o que existia entre os dois.
Se ele apenas tivesse admitido a própria ignorância, ela confiaria nele. Poderiam ter encontrado um caminho juntos. No entanto, ele sentira medo: de fracassar, de que ela o desprezasse como o pai o desprezara. Essa era a verdade.
Deu um passo para trás e olhou para a torre, alta e cinzenta na escuridão. Aquela construção silenciosa testemunhara a morte de homens que tentaram escalá-la numa tentativa fútil de impressionar suas amadas – isso se as histórias fossem verdadeiras. O único que passara do segundo nível fora o cavaleiro negro que, de acordo com a lenda, ainda caminhava pelo lugar.
Edie não tinha voltado a dormir. Uma luz suave vinha da janela. Ela a destrancara depois que Gowan partira e estava aberta.
Se chamasse seu nome, ela fecharia a janela e o manteria afastado.
Voltou a erguer a cabeça de modo que a chuva bateu em seu rosto. Romeu subiu até a janela de Julieta, não foi? Provavelmente ele usou as duas mãos e suas costelas estavam intactas. Gowan conseguiu fechar a mão esquerda com apenas um grunhido de dor. O pulso doía, mas ainda respondia a seus comandos.
Começou a subir depressa, mas diminuiu o ritmo quase imediatamente. As pedras estavam escorregadias com a chuva e a escalada era consideravelmente mais difícil do que ele previra. Na metade do caminho, ocorreu-lhe que talvez não conseguisse chegar até a janela de Edie. Mas não havia como descer, a não ser caindo. Se sobreviveria a uma nova queda, era uma pergunta em aberto.
No momento em que pensava nisso, a mão direita escorregou e todo o seu peso ficou apoiado na esquerda por um instante, antes que ele conseguisse retomar a posição. Um gemido profundo saiu de seus lábios. Nunca havia sentido uma dor como aquela. Um segundo depois, Edie olhou pela janela.
A água da chuva acumulada nos cílios tornava, para Gowan, a silhueta de Edie turva, mas ele conseguia ver sua face iluminada pelo brilho do fogo atrás dela e à sua esquerda. A esposa olhou para fora e para baixo.
Então ela berrou:
– Gowan!
Ele não podia desperdiçar fôlego nem mesmo com o nome dela.
– Não! Volte para baixo, Gowan. Exijo que recue.
O duque ficou pendurado na parede, o rosto grudado à pedra fria, e ouviu as palavras da esposa. Quando recuperou o fôlego, ergueu a cabeça e disse:
– Eu a amo.
Houve um segundo de silêncio e então ela implorou:
– Por favor, Gowan, desça. Eu permitirei que entre na torre. Farei qualquer coisa. Por favor, não continue a subir. Estou com muito medo.
– Não posso. Eu a amo, Edie. Mais do que qualquer outra pessoa no mundo. Mais do que… mais do que…
Ele estendeu a mão esquerda de novo. Uma determinação fria, feroz, tomou conta dele. Ela estava ali, acima dele. Não podia permitir que ela o deixasse.
Edie debruçou-se na janela, o rosto iluminado diante da pedra escura.
– Você é tão linda… – disse ele, tomando fôlego entre as palavras. – A mulher mais linda que conheci. Como uma fada. Uma deusa.
– Bêbada – falou ela para si mesma.
Gowan começou a escalar mais rápido. Não se importava com o chão cada vez mais distante. A esposa estava completamente debruçada na janela, o cabelo louro despencando sobre os ombros e espalhando-se sobre a pedra cinzenta da torre.
Precisava descansar por um momento, pois seu pulso ardia em chamas e as costelas doíam alucinadamente.
– Não pode me deixar! – suplicou ele, as palavras saindo com um tom que misturava ordem e pedido.
Estendeu o braço e se alçou um pouco mais alto.
– Sei que não presto na cama – disse ele, sem olhar, pois tinha medo que o peso da própria cabeça pudesse fazê-lo perder o equilíbrio. – Mas posso melhorar. Podemos ficar no quarto, nós dois, por um ano e um dia, Edie. Sem lacaios, Edie, eu prometo.
Gowan voltou a se apoiar com o pulso esquerdo – era o pior, e outro grunhido saiu de dentro dele, de forma involuntária.
Edie estava soluçando e o som fez com que ele se esforçasse mais ainda.
– Sou seu falcão.
As palavras explodiam de dentro de seu coração, da mesma forma como haviam chegado a ele quando fitava o lago e tentava em vão não pensar nela.
– Gowan, você perdeu a cabeça! – exclamou Edie, debruçando-se tanto que toda a parte superior de seu corpo estava visível.
– Não caia! – gritou ele, a voz explodindo no silêncio chuvoso em volta deles.
– Não vou cair. Por favor, Gowan, por favor, você está muito perto. Mais dois ou três movimentos.
– É o maldito pulso – revelou ele. – Acho que quebrei o desgraçado.
Gowan a ouviu soltar um soluço, mas já recomeçara a subir.
– Você não é minha – falou ele, logo abaixo dela, quase a seu alcance. – Eu é que sou seu. Você é a rede que me capturou.
– Sem poesia numa hora dessas! – exclamou Edie, estendendo o braço de novo.
Ele então sentiu o toque em seu cabelo úmido, e continuou a escalar.
Mais uma vez.
E outra.
Chegara ao parapeito.
O duque de Kinross fizera o que nenhum outro homem conseguira em seiscentos anos: conquistara a torre impossível. Na chuva. Com duas costelas e o punho quebrados. Com o coração partido e uma teimosia herdada de gerações de senhores de terra escoceses. Talvez aqueles ancestrais o tivessem acompanhado e ajudado a escalar aqueles últimos centímetros. Ou talvez tivesse sido o brilho dourado do cabelo dela, como o ouro de Dânae, invocando-o na chuva. Ou talvez o som de rouxinol de sua voz.
Ou talvez fosse apenas Edie.
O jeito de ser Edie de sua esposa. A forma como ele a amava profundamente e a cada nota musical produzida por sua maravilhosa alma teimosa, generosa e alegre.