Ação afirmativa: conceito, história e debates
Atores em controvérsia
Não é possível entender a disputa de sentidos em torno das ações afirmativas raciais sem considerar os atores selecionados pela imprensa para debater o tema. Noutros termos, a imprensa não apenas contribuiu para a difusão de determinados discursos mais do que outros, ela também produziu uma divisão do trabalho argumentativo (Ferree et alli, 2004) ao convocar certos atores para defender e criticar tais políticas. Vale destacar que, ao selecionar pessoas para escreverem colunas de opinião ou mesmo serem entrevistadas sobre um tema, o jornal reconhece a autoridade argumentativa dessas pessoas sobre o mesmo tema, mas isso não se dá de maneira homogênea.
Para categorizar o “papel social” daqueles e daquelas que acessaram as páginas dos jornais considerados, utilizamos dez categorias: editor (mais alto cargo na redação de um jornal); popular e leitores (pessoas comuns, convocadas a opinar nas reportagens ou que enviam cartas à redação); especialista (acadêmicos e cientistas próximos ao debate); colunista jornalista (titulares de colunas fixas nos jornais); jornalista; membros de carreiras de Estado (juízes, embaixadores, reitores etc.); políticos; representantes governamentais (ministros, secretários de Estado etc.); e membros da sociedade civil (representantes de ONGs, militantes de movimentos sociais etc.). Uma maneira de representar de forma intuitiva a relação entre os grupos argumentativos discutidos na seção anterior e o tipo de autor que assina o texto – isto é, seu papel social – é a Análise de Correspondências Simples (ACS). A ACS é um recurso para expor em um mapa bidimensional as coocorrências entre as classes de duas variáveis categóricas. O mapa de correspondências pode ser interpretado como campo magnético (Bourdieu, 1979), no qual os elementos que coocorrem mais em termos relativos se atraem, enquanto os elementos que pouco coocorrem relativamente se repelem. Logo, argumentos mais próximos no mapa indicam elementos articulados mais frequentemente nos textos do corpus. As distâncias entre tais elementos numa ACS ajudam a indicar as fronteiras de um dado
enquadramento midiático.7 O Gráfico 6 mostra a ACS entre todos os grupos argumentativos (quadrados brancos) e os papéis sociais dos autores e autoras incluídos no recorte (quadrados pretos). Foram considerados apenas os textos assinados com alguma manifestação explícita de opinião sobre as ações afirmativas raciais. O tamanho dos quadrados é proporcional à quantidade de textos do corpus.
Gráfico 6 – Análise das correspondências entre o papel social
dos autores e os grupos argumentativos mais mencionados
Fonte: banco de dados da pesquisa “Ação afirmativa na grande
mídia brasileira” (GEMAA).
De cara notamos que argumentos contrários e favoráveis se repelem mutuamente, como já devíamos esperar. Pelo tamanho dos quadrados, é possível notar forte participação de “populares e leitores” (que enviam cartas ou são convocados a opinar) seguidos de especialistas, editores e colunistas. Os demais autores, mormente articulistas externos ao jornal e membros de instâncias da sociedade civil e do Estado, participaram proporcionalmente menos da polêmica nos jornais.
Analisando as distâncias entre os quadrados pretos (papéis sociais) e brancos (argumentos), é possível inferir alguns dados relevantes. Começando pelo lado esquerdo do mapa, os editoriais dos dois jornais são, em quase sua totalidade, contrários às ações afirmativas raciais. Mais do que isso, os editores aparecem relativamente mais próximos do grupo argumentativo C2 (Estado e cidadania). Curiosamente, os populares e leitores aparecem próximo aos editores, embora tendam mais a utilizar argumentos de procedimentos e resultados (C3). O terceiro grupo mais convocado a opinar sobre o tema, os especialistas e acadêmicos, aparecem entre os quadrados referentes aos argumentos contrários e os quadrados relacionados aos argumentos favoráveis, sugerindo certa divisão opinativa.
Tudo isso faz crer que os jornais construíram uma imagem da polêmica em suas páginas que unia a opinião de editores e leitores, ambos os grupos apresentados como contrários às cotas. Tal dado não é desprezível, sobretudo tendo em vista que são os editores que selecionam, ou definem quem seleciona, as cartas a serem publicadas. Já a cisão na academia aparece mais bem representada no jornal, embora os especialistas convocados tendam levemente a argumentos contrários às ações afirmativas raciais. É preciso, aqui, considerar algumas diferenças entre O Globo e Folha de S.Paulo. Enquanto a Folha publicou exatamente o mesmo número de cartas contrárias e favoráveis, O Globo publicou cerca de três cartas contrárias para uma carta favorável. Apesar de ter se colocado contra as ações afirmativas raciais, a Folha de S.Paulo optou por manter uma certa estética da imparcialidade na seção de cartas e na de entrevistas. Já em O Globo, a crítica às ações afirmativas raciais ficou a cargo dos editores e missivistas, visto que a maioria das cartas e editoriais se colocou francamente contra as ações afirmativas raciais. Dessa maneira, a Folha de S.Paulo se apresenta de forma consistente como um periódico contrário às ações afirmativas raciais, mas que “reconheceria” a divisão existente entre os especialistas que assinam artigos em suas páginas, na sociedade civil e na opinião pública como um todo. Embora também reconheça o conflito opinativo, O Globo parece querer não somente se colocar como um jornal contrário às ações afirmativas raciais, mas também representar um público de leitores-cidadãos também fortemente contrários às ações afirmativas raciais.
Do lado direito do mapa estão os argumentos e atores mais favoráveis às ações afirmativas raciais. Aqui, as relações são mais difusas, com diferentes grupos se aproximando de três dos quatro grupos argumentativos: justiça social (F1), reparação (F2), procedimentos e resultados (F4). Novamente, aparece representada graficamente a marginalidade do argumento da diversidade (F3). Há uma leve preferência de articulistas da sociedade civil e políticos pelo argumento da reparação (F2), enquanto membros de carreiras de Estado e jornalistas convidados tenderiam mais para argumentos de justiça social (F1). De todo modo, é sintomática a existência de certo alinhamento argumentativo entre defensores das ações afirmativas. Isso quer dizer que, para além das ênfases e saliências que caracterizam uma dada forma de enquadrar a temática, os discursos buscaram se valer de um rol de argumentos comuns. Na condição de uma política polivalente, isto é, que pode servir a fins diversos, a ação afirmativa racial foi justificada a partir de valores como igualdade, diversidade e reparação, como se tais termos apontassem para um mesmo ideal. Isso reflete, em grande medida, o fato de que a maior parte dos convocados para defender as ações afirmativas nos dois jornais pertencem a setores da sociedade próximos à política e aos movimentos sociais, espaços caracterizados por maior fluidez e abundância discursiva.