Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 11 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo XII

—E Côrte-Real que fez?

—Curou as feridas da cabeça, e indagou o destino de Amelia. Como o não soube, cahiu n'uma melancolia profunda, teve accessos de loucura, e, pelo que o senhor me disse, está hoje no hospital de Rilhafolles.

—E Amelia casou-se?

—Pois no casamento é que está o interessante da historia.

Quinze dias depois da sua vinda para aqui, chegou de Coimbra o irmão do padre. Parece que sentiu por Amelia o que era muito natural que sentisse. Amou-a, mas não ousou declarar-se, porque sabia os precedentes, que a trouxeram a esta casa. Ella, por si, tractava-o com a fria delicadeza da indifferença, até ao momento, em que recebeu de uma sua tia a noticia de que viera ordem do conselho de familia para ser conduzida a Lisboa, e lá recolhida em um convento.

Lida a carta, Amelia offereceu-se como esposa do bacharel. O imprudente sem mais nem menos, aceitou a offerta. Alcançou do arcebispo dispensa de banhos e consentimento do tutor: o irmão, sem consultar a philosophia, a religião, e a consciencia, casou-os. Na tarde do dia das bodas, chegou a liteira que devia levar a orphã a Lisboa. Amelia apresentou-se a seu tio com um desdenhoso sorriso, e disse: «Não tenho duvida nenhuma em hir para Lisboa, e para um convento, mas é necessario que meu marido vá comigo.»

—Seu marido!—exclamou o tio estupefacto.

 

XII.

 

—Dias depois, esta victima dos seus caprichos, cahiu doente. O medico capitulou-lhe a enfermidade de tisica no primeiro grau. O marido arrependeu-se muito cedo. Ella não se arrependeu, porque sabia que dava um passo que devia matal-a. E, com effeito, está alli... está morta...