Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 85 de 86

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Cenas Contemporâneas

Scena X.

E .—Silencio!

J a .—A snr. D. Julia não tem defeza nenhuma, porque...

E .—Esperem!...

V .—Concordo que nenhuma d'essas tem defeza!... mas é

preciso que me provem que...

E .—Alto lá... Queiram retirar-se, minhas senhoras... É

defeza a presença das rés no tribunal que vai installar-se... Queiram retirar-se... (Ellas sahem).

 

SCENA X.

 

E , J , A , e o .

 

E .—Venham cá... Os senhores não tem ouvido dizer que eu

me regenerei? Respondam, sim ou não?

A .—Qual regenerou-se! É um impostor!...

E .—Concordemos em que sou um impostor. Mas digam-me:

a opinião publica a meu respeito é essa?

V .—Não é... porque o senhor enganou-nos.

E .—Pois, se não é, porque não respeitam os senhores a

opinião publica á qual me mandaram obedecer?

V .—Já lhe disse que a opinião publica está illudida com o

senhor!

E .—E d'antes? ha quatro mezes era mais verdadeira que

hoje?

J .—Não quero disputas... Não respondo ao seu interrogatorio... Quero uma satisfação immediata.

A .—E eu tambem.

E .—E o snr. visconde?

V .—Veremos, depois...

E (sorrindo).—Acha que não vale a pena decidir já... Pois lá hiremos... Mas, antes d'isso, queiram attender-me: os senhores, com uma bala, em duello, podem matar-me, primeira loucura; e, se me não matam, arruinam a minha boa reputação, que eu aprecio mais que a vida; segunda asneira... Que lucram os senhores com isto?

A .—Nada de philosophias!... É indispensavel para a minha

honra um duello...

J .—Não prescindo.

E .—Pois se não prescindem, lá vamos... Mas os primeiros

que hão-de bater-se um com o outro, são os senhores! (Indicando Alvaro e Jorge).

A e J .—Nós?!...

E .—Os senhores...

A .—Porque?!

E .—Porque teem trabalhado reciprocamente na sua

deshonra.

J .—Isso é uma nova infamia!

E .—Mãos na consciencia, meus amigos! O contracto feito

ha quatro mezes na praia dos Inglezes não os exime de serem honrados!

A e J .—Na praia dos Inglezes!...

E .—Querem explicações?... Vejam lá o que resolvem...

Querem explicações?... Que dizem?!... Esse silencio annuncia bonança... Aproveitemos o vento que é favoravel... Concordam em que occultemos mutuamente as nossas miserias? Eu de mim... (Comprime os labios com os dedos...) Os senhores, se são honrados como a opinião publica os apregôa, calem-se tambem...

V .—Mas eu é que não entro n'esse contracto...

E a .—Nem lh'o propuz... mas, v. exc. contando com o silencio d'estes cavalheiros, de certo não quererá uma ignobil publicidade a respeito de... Veja lá o que resolve...

V a .—Mas v. s. não ha-de entrar mais em minha casa...

E .—D'accordo. Amanhã embarco para a exposição de

Pariz, e tenciono viajar tres annos... Serve-lhe a condição?... O silencio approva... Muito bem... (Ao fundo). Minhas senhoras! queiram entrar!... ( as As damas entram ). Vv. exc. foram julgadas innocentissimas e absolvidas... Continuamos todos a ser excellentes pessoas a todos os respeitos. Estes senhores, de parte a parte, pedem perdão das calumnias sordidas com que quizeram reciprocamente manchar os seus nomes...

V .—Assim o suppuz!

J .—Assim devia acontecer!