Cenas Contemporâneas
Scena X.
E .—Silencio!
J a .—A snr. D. Julia não tem defeza nenhuma, porque...
E .—Esperem!...
V .—Concordo que nenhuma d'essas tem defeza!... mas é
preciso que me provem que...
E .—Alto lá... Queiram retirar-se, minhas senhoras... É
defeza a presença das rés no tribunal que vai installar-se... Queiram retirar-se... (Ellas sahem).
SCENA X.
E , J , A , e o .
E .—Venham cá... Os senhores não tem ouvido dizer que eu
me regenerei? Respondam, sim ou não?
A .—Qual regenerou-se! É um impostor!...
E .—Concordemos em que sou um impostor. Mas digam-me:
a opinião publica a meu respeito é essa?
V .—Não é... porque o senhor enganou-nos.
E .—Pois, se não é, porque não respeitam os senhores a
opinião publica á qual me mandaram obedecer?
V .—Já lhe disse que a opinião publica está illudida com o
senhor!
E .—E d'antes? ha quatro mezes era mais verdadeira que
hoje?
J .—Não quero disputas... Não respondo ao seu interrogatorio... Quero uma satisfação immediata.
A .—E eu tambem.
E .—E o snr. visconde?
V .—Veremos, depois...
E (sorrindo).—Acha que não vale a pena decidir já... Pois lá hiremos... Mas, antes d'isso, queiram attender-me: os senhores, com uma bala, em duello, podem matar-me, primeira loucura; e, se me não matam, arruinam a minha boa reputação, que eu aprecio mais que a vida; segunda asneira... Que lucram os senhores com isto?
A .—Nada de philosophias!... É indispensavel para a minha
honra um duello...
J .—Não prescindo.
E .—Pois se não prescindem, lá vamos... Mas os primeiros
que hão-de bater-se um com o outro, são os senhores! (Indicando Alvaro e Jorge).
A e J .—Nós?!...
E .—Os senhores...
A .—Porque?!
E .—Porque teem trabalhado reciprocamente na sua
deshonra.
J .—Isso é uma nova infamia!
E .—Mãos na consciencia, meus amigos! O contracto feito
ha quatro mezes na praia dos Inglezes não os exime de serem honrados!
A e J .—Na praia dos Inglezes!...
E .—Querem explicações?... Vejam lá o que resolvem...
Querem explicações?... Que dizem?!... Esse silencio annuncia bonança... Aproveitemos o vento que é favoravel... Concordam em que occultemos mutuamente as nossas miserias? Eu de mim... (Comprime os labios com os dedos...) Os senhores, se são honrados como a opinião publica os apregôa, calem-se tambem...
V .—Mas eu é que não entro n'esse contracto...
E a .—Nem lh'o propuz... mas, v. exc. contando com o silencio d'estes cavalheiros, de certo não quererá uma ignobil publicidade a respeito de... Veja lá o que resolve...
V a .—Mas v. s. não ha-de entrar mais em minha casa...
E .—D'accordo. Amanhã embarco para a exposição de
Pariz, e tenciono viajar tres annos... Serve-lhe a condição?... O silencio approva... Muito bem... (Ao fundo). Minhas senhoras! queiram entrar!... ( as As damas entram ). Vv. exc. foram julgadas innocentissimas e absolvidas... Continuamos todos a ser excellentes pessoas a todos os respeitos. Estes senhores, de parte a parte, pedem perdão das calumnias sordidas com que quizeram reciprocamente manchar os seus nomes...
V .—Assim o suppuz!
J .—Assim devia acontecer!