Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 25 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo X

«Escreve-me.

«Has-de ouvir-me no proximo carnaval.

«Por ultimo, Carlos, deixa-me fazer-te uma pergunta:

«Não me achas mais defeituosa que o nariz d'aquella andaluza da historia, que te contei?

Henriqueta.»

 

X.

 

É natural a exaltação de Carlos, depois de erguido o véo, em que se escondiam os mysterios de Henriqueta. Alma apaixonada pela poesia do bello, e pela poesia da desgraça, Carlos não teve nunca impressão na vida, que mais lhe incendiasse uma paixão!

As cartas a Angela Michaela eram o desafogo do seu amor sem esperança. Os mais ferventes extasis da sua alma de poeta, imprimiu-os n'aquellas cartas escriptas, debaixo de uma impressão, que lhe roubava a tranquilidade do somno, e o refugio d'outros affectos.

Henriqueta respondera concisamente ás explosões d'um delirio, que nem sequer a fazia tremer pelo seu futuro. Henriqueta não podia amar. Arrancaram-lhe pela raiz a flôr do coração. Esterilisaram-lhe a arvore dos bellos fructos, e envenenaram-lhe de sarcasmo e ironia os instinctos do carinho brando, que acompanham a mulher até á sepultura.

Carlos não podia supportar uma repulsa nobre. Persuadira-se que havia um estalão moral para todas. Confiava no seu ascendente, em não sei que mulheres, entre as quaes lhe não fôra penoso nunca fixar o dia do seu triumpho.

Homens assim, quando encontram um estorvo, apaixonam-se seriamente. O amor-proprio, angustiado nos apertos d'uma impossibilidade invencivel, adquire uma nova feição, e converte-se em paixão, como as paixões primeiras, que nos sopram a tempestade no limpido lago da adolescencia.

Carlos, em ultimo recurso, precisava saber onde morava Henriqueta. No lance extremo d'um desafogo, hiria elle, audacioso, humilhar-se aos pés d'aquella mulher, que a não poder amal-o, choraria com elle ao menos.

Estas preciosas futilidades escaldavam-lhe a imaginação, quando lhe occorreu a astuciosa lembrança de surprehender a morada de Henriqueta surprehendendo a pessoa que no correio lhe tirava as cartas, subscriptadas a Angela Michaela.

Conseguido o compromettimento d'um empregado do correio, Carlos empregou n'esta missão um vigia insuspeito.

No dia de correio, uma velha, mal trajada, pediu a carta n.º 628. O que a entregou fez um signal a um homem, que passeava no corredor, e este homem seguiu de longe a velha até ao campo de Santo Ovidio. Feliz das vantagens, que lucrára em tal commissão, correu a encontrar-se com Carlos. É ocioso descrever a precipitação com que o enamorado mancebo, espiritualisado por algumas libras, correu á indicada casa. Em honra de Carlos, é necessario dizer que aquellas libras representavam a eloquencia com que elle tentaria mover a velha em seu favor, por isso que, á vista das informações que tivera da pobreza da casa, concluiu que não era alli a residencia de Henriqueta.

Acertou.

A confidente de Henriqueta fechava a porta da sua baiuca, quando Carlos se aproximou, e muito urbanamente lhe pediu licença para dizer-lhe duas palavras.

A velha, que não podia receiar alguma aggressão traiçoeira aos seus virtuosos oitenta annos, franqueou os umbraes da sua possilga, e prestou ao seu hospede a cadeira unica do seu camarim de tecto de vigas, e pavimento de lages.

Carlos principiou como devia o seu ataque. Lembrado da chave com que Bernardes manda fechar os sonetos, applicou-a á abertura da prosa, e conheceu de prompto as vantagens de ser classico, quando convém. A velha, quando viu cahir no regaço duas libras, sentiu o que nunca sentira a mais carinhosa das mães, com dous filhinhos no collo. Luziram-lhe os olhos, e dançaram-lhe os nervos em todas as evoluções dos seus vinte e cinco annos.

Feito isto, Carlos precisou a sua missão nos seguintes termos:

«Esse pequeno donativo, que lhe faço, ha-de ser repetido, se vm. ce me fizer um grande serviço, que póde fazer-me. vm. ce recebeu, ha pouco, uma carta, e vai entregal-a a uma pessoa, cuja felicidade está nas minhas mãos. Estou certo que vm.ce não ha-de querer occultar-me a morada d'essa senhora, e prival-a de ser feliz. O serviço que tenho a pedir-lhe, e a pagar-lhe bem, é este; póde fazer-m'o?

A fragil mulher, que não se sentia bastante heroina para hir de encontro á legenda, que D. João V. fez gravar nos cruzados, deixou-se vencer, com mais algumas reflexões e denunciou o santo asylo das lagrimas de Henriqueta, segunda vez atraiçoada por uma mulher, fragil á tentação do ouro, que lhe roubára um amante, e vem agora devassar-lhe o seu sagrado refugio.

Poucas horas depois, Carlos entrava em uma casa da rua dos Pelames, subia a um terceiro andar, e batia a uma porta, que lhe não foi aberta. Esperou. Momentos depois, subia um rapaz com uma caixa de chapéo de senhora: bateu; perguntaram de dentro quem era, o rapaz fallou, e a porta foi immediatamente aberta.

Henriqueta estava sem dominó na presença de Carlos.

Foi sublime esta apparição. A mulher, que Carlos viu, não saberemos nós pintal-a. Era o original d'essas esplendidas illuminuras, que o pincel do seculo XVI fazia saltar da téla, e consagrava a Deus, denominando-as Magdalena, Maria Egypsiaca, e Margarida de Corthona.

O homem é fraco, e sente-se mesquinho perante a magestade da belleza! Carlos sentiu-se dobrar nos joelhos; e a primeira palavra, que balbuciou foi «perdão!»

Henriqueta não pôde receber com a firmesa, que devia suppor-se-lhe, uma tal surpreza. Sentou-se e limpou o suor que lhe correra de improviso todo o corpo.

A coragem de Carlos desmereceu do muito em que elle a tinha. Succumbiu, e nem, ao menos lhe deixou o dom dos lugares communs. Silenciosos, olhavam-se com uma simplicidade infantil, indigna de ambos. Henriqueta revolvia no pensamento a industria com que o seu segredo fôra violado. Carlos invocava ao coração palavras que o salvassem d'aquella crise, que o materialisava por ter tocado o extremo do espiritualismo.

Não nos faremos cargo de satisfazer as despoticas exigencias do leitor, que pede contas das interjeições, e das reticencias d'um dialogo.

O que podemos garantir-lhe, debaixo da nossa palavra de folhetinista, é que a musa das lamentações desceu á invocação de Carlos, que, por fim, desenvolveu toda a eloquencia da paixão. Henriqueta ouviu-o com a seriedade com que uma rainha absoluta escuta um ministro da fazenda, que lhe conta os chatissismos e massudos negocios das finanças.

Sorria-se, ás vezes, e respondia com um resaibo de magoa e de resentimento, que matava, no nascedouro, os transportes do seu infeliz amante.

As suas ultimas palavras, essas sim, são dignas de se archivarem para escarmento d'aquelles que se julgam herdeiros dos raios de Jupiter Olympico, quando se empavonam de fulminar as mulheres, que tiveram a desventura de se queimarem, como as mariposas, no lume electrico de seus olhos. Foram estas as suas palavras:

«Snr. Carlos! Até hoje os nossos espiritos viveram ligados por umas nupcias, que eu pensei não perturbarem a nossa cara tranquillidade, nem escandalisarem a caprichosa opinião publica. D'hora em diante, um solemne divorcio entre os nossos espiritos. Estou punida de mais. Fui fraca e talvez má, em prender-lhe a sua attenção n'um baile mascarado. Perdoe-me, que sou, por isso, mais desgraçada do que pensa. Seja meu amigo. Não me envenene esta santa obscuridade, este circulo estreito da minha vida, em que a mão de Deus tem derramado algumas flôres. Se não póde avaliar o travo das minhas lagrimas, respeite cavalheiramente uma mulher, que lhe pede com as mãos erguidas o favor, a piedade de a deixar sósinha com o segredo da sua deshonra; que eu prometto nunca mais alargar a minha alma n'estas revelações, que morreriam comigo, se eu podesse suspeitar que attrahia com ellas a minha desgraça...»

Henriqueta continuava, quando Carlos, com lagrimas d'uma dôr sincera, lhe pedia ao menos a sua estima, e lhe entregava as suas cartas, debaixo do sagrado juramento de nunca mais a procurar.

Henriqueta, enthusiasmada pelo pathetico d'esta nobre rogativa, apertou anciosamente a mão de Carlos, e despediram-se....

E nunca mais se viram.

Mas o leitor tem direito a saber mais alguma cousa.

Carlos, um mez depois, partiu para Lisboa, colheu as necessarias informações, e entrou em casa da mãi de Henriqueta. Uma senhora, vestida de lucto, e encostada a duas creadas, veio encontral-o n'uma sala.

—Não tenho a honra de conhecer...—disse a mãi de Henriqueta.

—Sou um amigo...

—De meu filho?!...—interrompeu ella—Vem-me dar parte do triste acontecimento?... Eu já o sei!... Meu filho é um assassino!...

E prerompeu n'um choro, que a não deixava articular palavras.

—O filho de v. exc. a assassino!... interpellou Carlos.

—Sim... sim... pois não sabe que elle matou em Londres o seductor da minha desgraçada filha?!... da minha filha... assassinada por elle...

—Assassinada, sim, mas só na sua honra—atalhou Carlos.

—Pois minha filha vive!... Henriqueta vive!... Oh meu Deus, meu Deus, eu vos agradeço!...

A pobre senhora ajoelhou, as creadas ajoelharam com ella, e Carlos sentiu um calefrio nervoso, e uma exaltação religiosa, que quasi o fizeram ajoelhar com aquelle grupo de mulheres, cobertas de lagrimas....

 

Dias depois, Henriqueta era procurada no seu terceiro andar, por seu irmão, e choravam ambos abraçados com toda a expansão d'uma dôr represada.

Houve ahi um drama de agonias grandiosas, que a linguagem do homem não saberá descrever nunca.

Henriqueta abraçou sua mãi, e entrou n'um convento onde pede incessantemente a Deus a salvação de Vasco de Seabra.

Carlos é o intimo amigo d'esta familia, e conta este lance da sua vida como um heroismo digno d'outras épocas.

Laura, viuva de quatro mezes, contrahe segundas nupcias, e vive feliz com o seu segundo marido, digno d'ella.

Acabou o conto.