Cenas Contemporâneas
Capítulo I
É forçoso recorrer ao inconcebivel, ao sobre-natural, ao mysticismo da providencia occulta para comprehender o que vulgarmente se diz «fatalidade.»
Na historia, que vai ser lida, é tão sensivel esta necessidade, tão aterrado se sente o espirito diante d'um facto consummado, que eu não tive escrupulo religioso ou philosophico em subordinar um encadeamento de infortunios d'uma familia á praga rogada nas escadas da forca.
I.
Bernardo da Silva era um filho bastardo de um nobre de Vizeu. Do ventre materno passou á roda dos expostos, e d'ahi aos cuidados d'uma pobre mulher d'aldêa.
Aos dez annos não conhecia pai; e sua mãi, mulher do povo, arrastada sobre a lama da plebe toda a sua vida, morrera com o segredo do nobre, que se dignára descer até ella para honral-a com deshonra.
Bernardo, aos dez annos, era aprendiz de alfaiate, e de todos os seus companheiros era elle o mais despresado, porque tambem era o mais preguiçoso.
O rapaz vivia triste como se a idade lhe permittisse comprehender a dôr immensa d'um grande desastre. Lá dentro n'aquelle coração infantil fallava uma prophecia funebre. Com os olhos sempre extaticos no horisonte negro do seu futuro, o pobre moço não tinha uma hora livre para o trabalho. Muitas vezes uma bofetada acordava-o d'aquelle lethargo; e o braço, que estava suspenso com a agulha, continuava a tarefa molhada de lagrimas.