Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 69 de 86

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Cenas Contemporâneas

Scena II.

 

Os mesmos, e E .

 

E .—É verdade... Como passou, minha senhora?

L (disfarçando as lagrimas).—Muito bem... agradecida... Está bom?

E .—Como sempre... Tenho uma saude insupportavel!... Não

sou capaz de arranjar uma dôr de cabeça, para me dar certos ares romanticos. Vejo por ahi muitos mancebos, alquebrados no frescor da vida, e, em quanto a mim, são infelizes creaturas que soffrem dos callos... Já tomou banho, minha senhora?

L .—Não tomo banho hoje. Constipei-me hontem.

E (para Jorge).—E tu?

J .—Vou tractar d'isso... Ficas por aqui?

E .—Vamos nós conversar, minha senhora... Eu hoje sinto-

me com disposição para dizer cousas muito philosophicas... (Jorge sahe).

 

SCENA III.

L e E .

 

L a .—V. s. tem sempre um humor tão alegre...

E .—Será isto idiotismo? Já me lembrou se eu seria tão

doudo como por ahi me julgam!

L .—Quem o julga doudo?!

E .—É toda essa sociedade...

L a .—Doudo... não!... Dizem que v. s. não tem persistencia em cousa nenhuma; e escarnece tudo...

E .—Em quanto á persistencia, é falso o que dizem, minha

senhora, e sinto que v. exc.a, tão distincta do commum, queira ser o ecco das opiniões vulgares da rançosa sociedade... Não sou inconstante...

L .—A quem diz isso? Pois não sei eu a sua vida!... Só

namoros, tenho-lhe conhecido cincoenta.

E a .—Serão mais, talvez; mas... que namoros!... V. exc. não se recorda de que foi meu namoro vinte minutos no baile do barão de Valbom? (Leocadia abaixa os olhos). Pois os taes cincoenta namoros foram todos assim... Não sou constante, porque não encontrei ainda uma mulher, que possa adorar-se seriamente. Não ha paixão que o ridiculo não mate. As minhas tem todas soffrido morte de gargalhada.

L .—Pois não amou nunca seriamente?

E .—Eu lhe digo, minha senhora... amei... Vou contar-lhe a

minha vida; mas só lhe digo os argumentos dos capitulos que são tres. Capitulo 1.º Conta-se que Eduardo Leite amou diabolicamente uma mulher, aos dezeseis annos, e fez tantas loucuras por ella, que, não tendo mais que fazer, quiz suicidar-se com pós dos ratos, e foi uma tia que lhe valeu com um copo de azeite... Pois v. exc.a ri-se das minhas desgraças!... E eu suppunha que a fazia chorar!... Estou como certo dramaturgo que endoudeceu porque a platéa se riu justamente no pedaço mais triste da tragedia!...

L a .—É que v. s. dá um colorido comico ás scenas mais tristes...

E .—Capitulo 2.º No qual se diz que o dito Eduardo Leite fez tristissima figura, vociferando injurias contra as mulheres, emmagrecendo na razão inversa da hydropesia do scepticismo, e passeando de noite nas Fontainhas, perguntando ás estrellas pela mulher dos seus sonhos, e bebendo agua no chafariz para refrigerar o vulcão, que lhe queimava as entranhas. Dizem-se outras muitas cousas tristes a este respeito, como por exemplo um duello que elle teve com o seu rival, de que lhe resultou estar quinze dias de cama, com uma bala mettida n'um hombro. Que lhe parece o segundo capitulo?

L (sorrindo).—É funebre; mas faz-lhe muita honra...

E .—Estou por isso... É uma honra muito grande...

L .—Pois não é? ser ferido em duello por causa d'uma

senhora!... Quem seria a ditosa?

E .—Era a filha do meu sapateiro, minha senhora...

L a ( com seriedade ).—Não diga tal... V. s. não se fascinava por tal mulher!...

E .—Pois fascinei-me... Era linda como a edição mais nitida,

que sahiu da typographia celeste. Nos seus olhos espelhava-se a candura, e dos labios fugiam-lhe espiritos d'azas scintillantes, como não vi em nenhuns, excepto nos de v. exc.a...