Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 19 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo IV

 

Eram tres horas.

Henriqueta disse que se retirava, depois de victimar com seus ligeiros, mas pungentes gracejos, alguns d'aquelles muitos que provocam o sarcasmo só com a presença, só com o vulto corporal, só com a semsaboria de um remoque parvo e pretencioso. O carnaval é uma exposição annual d'estes infelizes.

Carlos, ao vêr que Henriqueta se retirava com um segredo que tanto irritára a sua curiosidade, instou com delicadeza, com meiguice, e até com resentimento, pela realidade de uma esperança, que fizera a sua felicidade de algumas horas.

—Eu não me arrependo—disse elle—de ter sido a voluntaria testemunha de teus desforços... Ainda mesmo que me tivessem conhecido, e tu fosses uma mulher licenciosa e depravada, não me arrependeria... Ouvi-te, illudi-me na esperança vaidosa de conhecer-te, tive orgulho de ser o escolhido para sentir de perto as pulsações vertiginosas do teu coração... estou recompensado de mais... Ainda assim, Henriqueta, eu não tenho pejo de abrir-te a minha alma, confessando-te um desejo de conhecer-te que não posso illudir... Este desejo vaes-m'o tu convertendo n'uma dôr; e será logo uma saudade insupportavel, que te faria compaixão se soubesses avaliar o que é na minha alma um desejo impossivel. Se tu m'o não dizes, quem me dirá o teu nome?

—Não sabes que sou Henriqueta?

—Que importa? E serás tu Henriqueta?

—Sou... juro-te que sou...

—Não basta isto... Ora diz-me... não sentes a precisão de ser-me grata?

—A que, meu cavalheiro?

—Grata ao melindre com que te tenho tractado, grata á delicadeza com que te peço uma revelação da tua vida, e grata a este impulso invencivel que me manda ajoelhar-te... Será nobre zombar d'um amor que involuntariamente fizeste nascer?

—Não te illudas, Carlos—replicou Henriqueta n'um tom de seriedade, semelhante ao de uma mãi que aconselha seu filho. O amor não é isso que pica a tua curiosidade. As mulheres são faceis de transigir de boa fé com a mentira, e, pobres mulheres!... succumbem muitas vezes á eloquencia artificiosa d'um conquistador. Os homens, fartos de estudarem as paixões na sua origem, e enfadados das rapidas illusões que elles choram todos os dias, estão promptos sempre a declararem-se affectados da cholera-paixão, e nunca apresentam carta-limpa de scepticos. De maneira que o sexo fragil das chimeras sois vós, creancinhas de toda a vida, que brincaes aos trinta annos com a mulher como aos seis brincaveis com os cavallinhos de pau, e os fradinhos de sabugo! Olha, Carlos, eu não sou ingrata... Vou-me despedir de ti, mas hei-de conversar comtigo ainda. Não instes; abandona-te á minha generosidade, e verás que alguma cousa lucraste em me encontrar e em me não conhecer. Adeus.

Carlos acompanhou-a com os olhos, e permaneceu alguns minutos n'uma especie de idiotismo, quando a viu desapparecer á sahida do theatro. O seu primeiro pensamento foi seguil-a; mas a prudencia lembrou-lhe que era uma indignidade. O segundo foi empregar a intriga astuciosa até roubar alguma revelação áquella Sophia da primeira ordem ou á Laura da segunda. Não lhe lembraram recursos, nem eu sei quaes elles poderiam ser. Laura e Sophia, para dissiparem completamente a esperança anciosa de Carlos, tinham-se retirado. Era necessario esperar, era necessario confiar n'aquella mulher extraordinaria, cujas promessas o alvoroçado poeta traduzia em mil versões.

Carlos retirou-se, e esqueceu não sei quantas mulheres, que ainda, na noite anterior, lhe povoaram os sonhos. Ao amanhecer, ergueu-se, e escreveu as reminiscencias vivas da scena, quasi fabulosa, que lhe transtornava o plano de vida.

Não houve nunca um coração tão ambicioso de futuro, tão fervente de poesia, e tão phantastico de conjecturas! Carlos adorava seriamente aquella mulher! Como estas adorações se afervoram com tão pouco, não sei eu: mas que o amor é assim, vou eu jural-o, e espero que os meus amigos me não deixem mentir.

Imaginem, por tanto, a inquietação d'aquelle grande espiritualista, quando viu passarem, vagarosos e enfadonhos, oito dias, sem que o mais ligeiro indicio lhe viesse confirmar a existencia de Henriqueta! Não direi que o desesperado amante appellou para o supremo tribunal das paixões impossiveis. O suicidio não lhe passou nunca pela imaginação; e muito sinto que esta verdade diminua as sympathias que o meu heroe poderia grangear. A verdade, porém, é que o apaixonado mancebo vivia sombrio, isolava-se contra os seus habitos socialmente galhofeiros, abominava as impertinencias de sua mãi que o consolava com anedoctas tragicas a respeito de rapazes cegos de amor, e, emfim, soffrera a ponto tal, que resolvera abandonar Portugal, se, no fim de quinze dias a fatidica mulher continuasse a ludibriar a sua esperança.

Diga-se, porém, em honra e louvor da astucia humana: Carlos, resolvido a partir, lembrou-se de pedir a um seu amigo, que, na gazetilha do Nacional, dissesse, por exemplo, o seguinte:

«O snr. Carlos d'Almeida vai, no proximo paquete, para Inglaterra. S. s.a tenciona observar de perto a civilisação das primeiras capitaes da Europa. O snr. Carlos d'Almeida é uma intelligencia, que, enriquecida pela instrucção pratica da sua visita aos focos da civilisação, ha-de voltar á sua patria com fecundo cabedal de conhecimentos em todos os ramos das sciencias humanas. Fazemos votos porque s. s.a se recolha em breve ao seio dos seus numerosos amigos.»