Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 39 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo IV

 

A familia que Bernardo servia compunha-se de pai, mãi, tres filhos, e uma filha, de todos os irmãos a mais nova. Por então contava quinze annos. Era bonita, mas pobre. Os morgados não a pediam; os filhos segundos tambem não; e a sensivel menina precisava amar, porque o seu coração era da tempera d'aquelles que não sabem conceber sómente o amor com a condicional do casamento.

Eulalia não tinha a mais superficial tintura de instrucção, e por isso não podemos, em boa fé, chamar-lhe romantica. Não era janelleira, nem rapinhava da papeleira dos irmãos o perfumado papel setim para deposito de semsaborias amorosas, e por isso não podemos chamar-lhe douda.

Era uma mulher, e n'isto está dito tudo.

Este Bernardo é que realmente se parecia muito com os nossos poetas de aspirações ferventes e meditações profundas. Mas não era impostor, nem romanticamente parvo. O rapaz tinha uma alma como poucas, e uma tristesa inconsolavel como nenhuma. «A minha organisação—dizia elle—é um aborto, uma enfermidade incuravel.»

Eulalia sympathisava com aquella tristesa, e com a figura do rapaz. Achava-lhe traços de semelhança com seus irmãos, e via n'elle o que ella chamava «cara de pessoa de bem.» E, com quanto eu deteste esta maneira de classificar as caras, porque não conheço as «caras de pessoas de mal» tenho-me visto em circumstancias forçadas de dizer o mesmo, porque ha n'este val de lagrimas umas caras que não exprimem bem nem mal, e essas são as peiores caras.

Bernardo não se lembrou nunca de fazer sentir á cozinheira da casa, e menos se lembraria de accender o fogo do amor no illustre coração d'uma Lucena, com quem em toda a sua vida fallára tres vezes.