Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 77 de 86

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Cenas Contemporâneas

Acto III.

CORRE O PANO.

 

ACTO III.

 

Passa-se em casa do visconde de Valbom. Sala faustuosa:

luxo sem gosto: muita cadeira de estôfos amarellos: muito

relogio: muita bugiaria de vidro, de mistura com porcellanas

de Sevres, e adornos d'ouro, sem significação nem serventia.

É noite.

 

SCENA I.

 

V V , D. J , J , V .

 

Um creado com uma bandeja, recebe as chavenas do chá; e

retira-se.

V a ( a Jorge ).—A snr. D. Leocadia não virá?

J .—É natural que venha.

V .—Com o capellão?

J .—Sim... com o capellão...

V (a Julia).—O snr. Alvaro que andará a fazer?

J .—Naturalmente... das suas...

V .—Das suas... isso que quer dizer?! Alvaro é o exemplo

da honradez personalisada...

J a .—Agradecida a v. exc., snr. visconde.

V .—Não tem de que, menina. Seu marido é um anjo, e

a sociedade faz-lhe justiça. A reputação que elle tem grangeado é a prova infallivel das suas virtudes. Elle, e aqui o snr. Jorge são os dous cavalheiros mais queridos da nossa roda. Foram rapazes, sem rapaziadas. São maridos, sem mancha, e hão-de ser sempre modêlos de probidade a todos os respeitos.

J .—Muito grato, minha senhora. Tenho empregado todos os

esforços por merecer á sociedade um bom conceito, e creio que o tenho conseguido...

V .—Porque o merece. Se o não merecesse, creia que o

não teria, porque a opinião publica é justiceira, e nunca se engana com os bons, ou com os maus... Não se lembra da opinião que teve Eduardo?

J .—Uma pessima opinião.

V .—Oh! de certo, aquillo era um homem com uma lingua

depravada, e costumes horriveis...

V .—Mas vejam que lhe chegou a sua hora de reflexão.

Retirou-se completamente da sociedade; viveu tres mezes encerrado comsigo mesmo na solidão, e voltou para o mundo completamente desfigurado. É outro homem...

J .—Totalmente outro.

V .—Faz mesmo espantar a differença que o homem fez!...

J .—É pasmosa!

V .—As suas palavras são todas serias, medidas, e

reflectidas. Os seus modos são circumspectos, civis, e insinuantes. O seu vestir é muito grave, muito decente, e muito sisudo... Dizem-me que dá esmolas... tenho lido nos jornaes alguns actos de philantropia que o honram muito... em fim, está um cavalheiro, que não deixa nada a desejar! Vejam o que são as cousas!... Aqui ha quatro mezes, se elle me olhasse para uma das minhas creadas, despedil-a-hia immediatamente; e hoje, se eu tivesse uma filha, dava-lh'a com immensa satisfação...

J .—Muito se lucra, quando se é honrado!...

V .—Pois não! Não ha nada como a honra!

J .—Oh! a honra é a salvaguarda de todas as inquietações!

V .—Que precipicios não encontrou Eduardo em quanto

se deixou hir á mercê dos seus extravagantes desejos!...

V .—Oh!... era insoffrivel!... Nunca se viu assim uma

libertinagem!...

J .—Ouvi fallar tão mal d'esse homem, e nunca me disseram

distinctamente os seus crimes.

V .—Immensos, immensos...

V .—Immensissimos, immensissimos...

J .—Mas posso eu saber algum d'elles?