Cenas Contemporâneas
Acto III.
CORRE O PANO.
ACTO III.
Passa-se em casa do visconde de Valbom. Sala faustuosa:
luxo sem gosto: muita cadeira de estôfos amarellos: muito
relogio: muita bugiaria de vidro, de mistura com porcellanas
de Sevres, e adornos d'ouro, sem significação nem serventia.
É noite.
SCENA I.
V V , D. J , J , V .
Um creado com uma bandeja, recebe as chavenas do chá; e
retira-se.
V a ( a Jorge ).—A snr. D. Leocadia não virá?
J .—É natural que venha.
V .—Com o capellão?
J .—Sim... com o capellão...
V (a Julia).—O snr. Alvaro que andará a fazer?
J .—Naturalmente... das suas...
V .—Das suas... isso que quer dizer?! Alvaro é o exemplo
da honradez personalisada...
J a .—Agradecida a v. exc., snr. visconde.
V .—Não tem de que, menina. Seu marido é um anjo, e
a sociedade faz-lhe justiça. A reputação que elle tem grangeado é a prova infallivel das suas virtudes. Elle, e aqui o snr. Jorge são os dous cavalheiros mais queridos da nossa roda. Foram rapazes, sem rapaziadas. São maridos, sem mancha, e hão-de ser sempre modêlos de probidade a todos os respeitos.
J .—Muito grato, minha senhora. Tenho empregado todos os
esforços por merecer á sociedade um bom conceito, e creio que o tenho conseguido...
V .—Porque o merece. Se o não merecesse, creia que o
não teria, porque a opinião publica é justiceira, e nunca se engana com os bons, ou com os maus... Não se lembra da opinião que teve Eduardo?
J .—Uma pessima opinião.
V .—Oh! de certo, aquillo era um homem com uma lingua
depravada, e costumes horriveis...
V .—Mas vejam que lhe chegou a sua hora de reflexão.
Retirou-se completamente da sociedade; viveu tres mezes encerrado comsigo mesmo na solidão, e voltou para o mundo completamente desfigurado. É outro homem...
J .—Totalmente outro.
V .—Faz mesmo espantar a differença que o homem fez!...
J .—É pasmosa!
V .—As suas palavras são todas serias, medidas, e
reflectidas. Os seus modos são circumspectos, civis, e insinuantes. O seu vestir é muito grave, muito decente, e muito sisudo... Dizem-me que dá esmolas... tenho lido nos jornaes alguns actos de philantropia que o honram muito... em fim, está um cavalheiro, que não deixa nada a desejar! Vejam o que são as cousas!... Aqui ha quatro mezes, se elle me olhasse para uma das minhas creadas, despedil-a-hia immediatamente; e hoje, se eu tivesse uma filha, dava-lh'a com immensa satisfação...
J .—Muito se lucra, quando se é honrado!...
V .—Pois não! Não ha nada como a honra!
J .—Oh! a honra é a salvaguarda de todas as inquietações!
V .—Que precipicios não encontrou Eduardo em quanto
se deixou hir á mercê dos seus extravagantes desejos!...
V .—Oh!... era insoffrivel!... Nunca se viu assim uma
libertinagem!...
J .—Ouvi fallar tão mal d'esse homem, e nunca me disseram
distinctamente os seus crimes.
V .—Immensos, immensos...
V .—Immensissimos, immensissimos...
J .—Mas posso eu saber algum d'elles?