Cenas Contemporâneas
Capítulo XII
Paulo Botelho estremeceu na cadeira, quando viu aquelle alvejar de uma larva, ajoelhada nos degraus da tribuna.
Deu-se um profundo silencio de alguns minutos.
Eulalia já não podia coordenar as idêas que poucos dias antes clamára no côro. O sorriso da loucura, o gemido suffocante, uma lagrima embebida logo no ardor das faces, e algumas palavras entaladas, e apenas intelligiveis, eram alternativas que a tornaram mais lastimavel durante alguns minutos.
A mulher e tres filhas de Paulo Botelho, que a viram entrar, correram ao tribunal, e quizeram arrastal-a d'alli. Era impossivel. A estatua parecia chumbada sobre o seu tumulo.
A familia do juiz julgou conveniente empregar o insulto como solução. Fallavam do justiçado com certa nauzea, que ellas suppozeram ser o balsamo para a ferida mortal de Eulalia. Paulo Botelho, coadjuvando as razões da sua familia, cobria de improperios affrontosos o homem que, pouco depois, havia de perdoar as injurias com a cabeça no laço da forca.
A exaltação afflictiva de Eulalia tinha tocado o ponto culminante da morte, ou da alienação irremediavel.
—Innocente! Innocente!—eram os gritos unicos, as derradeiras palavras que os labios d'aquella mulher tinham de proferir.
XII.
N'este momento entrou um homem que redobrou o espanto. Era Pedro Leite, pai de João Leite.
Este homem fez signal de querer fallar. Attenderam-no todos com religioso respeito.
As suas palavras foram estas:
—Perdôo ao assassino de meu filho! O sangue d'esse homem cahirá sobre a minha face! Matou defendendo-se d'um aggressor infame! Senhor juiz de fóra, requeiro a suspensão da execução da sentença. Eu sou parte, e declaro innocente o réo!
Seguiram-se minutos d'uma estupefacção natural. Eulalia voltou os olhos para o homem que fallára, quiz arrastar-se de joelhos aos pés d'elle; não pôde; a impressão devia matal-a, ou resuscital-a... desmaiou a meio caminho.
O juiz era o algoz moral creado pelo ouro, assim como o carrasco physico fôra creado pela lei. Não podia eximir-se a pegar do cutello, e seguir seu caminho.
—É tarde!—respondeu elle.
—Não é tarde!—replicou Pedro Leite, e continuou com solemne exaltação:—Tarde, senhor juiz, é depois que o tribunal do mundo se fecha atraz d'aquelle que vai entrar no tribunal de Deus! Tarde, é quando um juiz de entranhas ferozes se apresenta no banco dos réos condemnados com a face borrifada de sangue innocente!
—Basta!—exclamou Paulo Botelho com authoridade!
—Pois sim... basta! mas, abaixo de Deus, invoco o testemunho das pessoas que me escutam. Declaro que lavo as mãos d'este sangue innocente que vai ser derramado!
O povo murmurou com acanhamento, com a consciencia cobarde da sua nullidade, mas balbuciou não sei que palavras que irritaram o juiz.
—Não se trata só de punir o assassino de João Leite!—exclamou o juiz—trata-se de castigar a affronta que recebeu um nobre, feita por um lacaio que ousou levantar olhos de amante para sua filha!