Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 48 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo XIII

—Não, não!—gritou Eulalia, erguendo-se com impeto, com as mãos postas, e cahindo outra vez sobre os joelhos.

O cynico já não tinha coragem para tanto! Soára a hora do ultimo mandato ao carcereiro. Expirára o ultimo instante de oratorio.

—Cumpra-se a lei!

Disse o juiz, e fez menção de retirarem-se as ondas de povo que tinham concorrido em tropel, chamadas pelos gritos de Eulalia, e pelo perdão publico de Pedro Leite.

Eulalia foi conduzida em braços para o interior da habitação do juiz.

 

XIII.

 

A procissão onde a impudencia collocára um Christo, o Deus da caridade, nas mãos d'um padecente, que hia ser esganado!... a procissão, onde se via um homem de tunica branca, um algoz de cutello e alcofa, alguns sacerdotes d'um Deus misericordioso!... a procissão descia terrivel de repulsiva solemnidade para o açougue d'aquella rêz! A tumba da misericordia fechava aquella orgia de sangue! Era um insulto a Deus! o cadaver d'um homem atirado á face do Creador! um escarneo satanico á intelligencia, e ao coração da humanidade!

O prestito parou na praça do sacrificio.

Bernardo com os olhos fitos no céo via nascer a risonha aurora da eternidade. Sorriam-lhe os anjos, e a justiça de Deus mostrava-lhe o seu regaço. A morte do justo era um crepusculo de nova existencia a alumiar-lhe o rosto. Inspirava devoção aquelle seu santo sorrir para o seio do céo que se lhe abria! Trazia nas mãos a imagem do Redemptor; mas lá em cima via elle o Espirito Creador, a grande alma, onde se refugiam as almas dispersas na face d'este mundo, e perseguidas pelo demonio da ira, e da vingança, eternamente encarnado no homem, a quem a sociedade entregou o azorrague da flagellação do virtuoso.