Cenas Contemporâneas
Pathologia do Casamento.
ACTO I.
DECORAÇÃO.
Uma saleta contigua a um salão de baile, separada por largas portadas de vidro, através das quaes se vêem perpassar, em passeio, damas e cavalheiros.
SCENA I.
J , e L , entrando, como fatigadas, sentam-se n'um sophá. J tira da cabeça uma grinalda de flôres
brancas, que arremessa com desdem sobre o sophá.
J .—Afflige-me tudo!... Tomára-me eu na minha liberdade,
Leocadia! Não goso nada... Tanta luz parece um insulto á escuridão da minha alma... Queria-me sosinha...
L .—Não tens paciencia nenhuma, Julia!... Que é o que te
afflige assim?
J .—Que é!... É aquelle homem... Sempre aquelle homem!... não ha nada que o desengane...
L .—Nem as palavras?!
J .—Eu sei!... nem as palavras, talvez...
L .—Porque não és franca?! Eu, de mim, na tua posição,
tinha-lhe dito: «não me persiga!» É o que eu já disse a Eduardo...
J .—Eu não sei dizer isso... Acho que é aviltar demasiadamente
um homem... Pois tão estupido é elle, que precisa uma franqueza tão impropria d'uma senhora? Tenho feito tudo que póde desenganar um homem... Teima, persegue-me, flagella-me... é insupportavel!... Ainda ha pouco, entre mim e Jorge...
L (sobresaltada).—E Jorge!...
J .—Que modo é esse!? Jorge interessa-te!?
L .—E a ti?
J .—A mim?... Pois não sabes...
L .—O que?... não sabia... Elle ama-te?
J .—Tem-m'o dito...
L .—Elle!... tem t'o dito... Jorge!...
J .—E tambem a ti?... Falla depressa...
L (contrafeita).—Não... a mim... não... mas a ti... sim?
J .—Penso que sim... mas esse descorar... Leocadia!...
L .—Fui eu que me enganei... Pensava...
J .—Talvez te não enganasses... Que te disse elle?
L .—Nada... Vamos nós á sala?...
J .—Já?!... Eu não vou já... Vai tu, se queres...
L .—Que é o que me querias dizer?... Disseste que entre ti e
Jorge...
J .—Estava uma cadeira de vago... Alvaro vinha occupal-a, e eu
ergui-me de repente, e occupei-a primeiro...
L .—E Alvaro... nem assim...
J .—Me comprehendeu... Sentou-se na immediata, e disse não
sei que frioleira...
L .—Se tu és tão amavel!...
J .—Ai!... tu queres imital-o?! É o que elle me diz cem vezes em
cada baile...
L .—Uma verdade, por muito repetida, nunca perde o
merecimento...
J .—Que maneira de fallar!... Quem me dera adivinhar-te! Tu
amas Jorge!...
L .—Não, menina... Eu não amo ninguem...
J .—Ninguem?! nem a tua Julia?
L .—A minha Julia não póde repartir o seu coração... Não
quero entrar em partilha com Jorge... O peor quinhão seria para mim, porque não ha nada superior a elle... Ficas?
J .—Fico a scismar... Vem cá, Leocadia... sê franca, senão... não sou tua amiga... Jorge será um impostor?...