Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 54 de 86

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Cenas Contemporâneas

Pathologia do Casamento.

 

ACTO I.

 

DECORAÇÃO.

 

Uma saleta contigua a um salão de baile, separada por largas portadas de vidro, através das quaes se vêem perpassar, em passeio, damas e cavalheiros.

 

SCENA I.

 

J , e L , entrando, como fatigadas, sentam-se n'um sophá. J tira da cabeça uma grinalda de flôres

brancas, que arremessa com desdem sobre o sophá.

 

J .—Afflige-me tudo!... Tomára-me eu na minha liberdade,

Leocadia! Não goso nada... Tanta luz parece um insulto á escuridão da minha alma... Queria-me sosinha...

L .—Não tens paciencia nenhuma, Julia!... Que é o que te

afflige assim?

J .—Que é!... É aquelle homem... Sempre aquelle homem!... não ha nada que o desengane...

L .—Nem as palavras?!

J .—Eu sei!... nem as palavras, talvez...

L .—Porque não és franca?! Eu, de mim, na tua posição,

tinha-lhe dito: «não me persiga!» É o que eu já disse a Eduardo...

J .—Eu não sei dizer isso... Acho que é aviltar demasiadamente

um homem... Pois tão estupido é elle, que precisa uma franqueza tão impropria d'uma senhora? Tenho feito tudo que póde desenganar um homem... Teima, persegue-me, flagella-me... é insupportavel!... Ainda ha pouco, entre mim e Jorge...

L (sobresaltada).—E Jorge!...

J .—Que modo é esse!? Jorge interessa-te!?

L .—E a ti?

J .—A mim?... Pois não sabes...

L .—O que?... não sabia... Elle ama-te?

J .—Tem-m'o dito...

L .—Elle!... tem t'o dito... Jorge!...

J .—E tambem a ti?... Falla depressa...

L (contrafeita).—Não... a mim... não... mas a ti... sim?

J .—Penso que sim... mas esse descorar... Leocadia!...

L .—Fui eu que me enganei... Pensava...

J .—Talvez te não enganasses... Que te disse elle?

L .—Nada... Vamos nós á sala?...

J .—Já?!... Eu não vou já... Vai tu, se queres...

L .—Que é o que me querias dizer?... Disseste que entre ti e

Jorge...

J .—Estava uma cadeira de vago... Alvaro vinha occupal-a, e eu

ergui-me de repente, e occupei-a primeiro...

L .—E Alvaro... nem assim...

J .—Me comprehendeu... Sentou-se na immediata, e disse não

sei que frioleira...

L .—Se tu és tão amavel!...

J .—Ai!... tu queres imital-o?! É o que elle me diz cem vezes em

cada baile...

L .—Uma verdade, por muito repetida, nunca perde o

merecimento...

J .—Que maneira de fallar!... Quem me dera adivinhar-te! Tu

amas Jorge!...

L .—Não, menina... Eu não amo ninguem...

J .—Ninguem?! nem a tua Julia?

L .—A minha Julia não póde repartir o seu coração... Não

quero entrar em partilha com Jorge... O peor quinhão seria para mim, porque não ha nada superior a elle... Ficas?

J .—Fico a scismar... Vem cá, Leocadia... sê franca, senão... não sou tua amiga... Jorge será um impostor?...