Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 21 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo VI

«Vasco irritado d'um nobre estimulo, escreveu-me, como quem me pedia a mim a satisfação dos despresos de minha familia. Respondi-lhe que lh'a dava plena, como elle a exigisse. Disse-me que fugisse de casa, pela porta da deshonra, e muito cedo entraria n'ella com a minha honra illibada. Que desgraça! n'aquelle tempo até as pompas do estilo me seduziam!... Respondi que sim, e cumpri.

«Meu amigo Carlos. Vai longa a carta, e a paciencia é curta. Até ao correio que vem.

Henriqueta.»

 

VI.

 

Carlos relêra com sofrega anciedade, a singela expansão d'uma alma que, talvez, nunca se abrira, se a não rasgasse o espinho d'um martyrio surdo. Henriqueta não escrevia assim uma carta a um homem, que podesse consolal-a. Afeita a gemer no silencio, e na solidão, tornava-se como egoista das suas dôres, e suppunha que divulgal-as era esfolhar a mais bella flôr da sua corôa de martyr. Escreveu, porque a sua carta era um mytho de segredo e publicidade; porque a sua afflicção não rastejava pelos queixumes lamuriantes e triviaes d'um grande numero de mulheres, que não choram nunca a viuvez do coração, e lastimam sempre a demora das segundas nupcias; escreveu em fim, porque a sua dôr, sem deshonrar-se com uma publicidade esteril, interessava um coração, esposava uma sympathia, um soffrimento simultaneo, e, quem sabe mesmo, se uma nobre admiração! Ha mulheres vaidosas—deixem-me assim dizer—da fidalguia do seu soffrer. Risonhas para o mundo, é muito sublime aquella angustia represada que só póde extravasar os sobejos do seu fel em uma carta anonyma. Lagrimosas para si, e fechadas no circulo estreito, que a sociedade lhes traça com o compasso inexoravel das conveniencias, essas sim, são duas vezes anjos despenhados!

Quem podesse receber na taça de suas lagrimas algumas, que ahi se choram, e que a opulencia material não enxuga, experimentaria consolações d'um sabor novo. O padecimento, que se esconde, impõe o respeito religioso do augusto mysterio d'esta religião universal, symbolisada pelo soffrimento commum. O homem, que podesse verter uma gota de orvalho na aridez d'algum coração, seria o sacerdote providencial no tabernaculo d'um espirito superior, que velasse a vida da terra para que tamanhas agonias não fossem estereis na vida do céo. Não ha na terra mais gloriosa missão!

Carlos por tanto, sentiu-se feliz d'este orgulho santo que ennobrece a consciencia do homem que recebe o privilegio d'uma confidencia. Esta mulher, dizia elle, é para mim um ente quasi phantastico. Allivios quaes são os que eu posso dar-lhe?... Nem ao menos escrever-lhe!... E ella... em que fará consistir o seu prazer?! Deus o sabe! Quem póde explicar, e mesmo explicar-se a singularidade d'um proceder, ás vezes, inconcebivel?

No correio proximo, recebeu Carlos a segunda carta de Henriqueta:

«Que imaginaste, Carlos, depois da leitura da minha carta? Adivinhaste o resto, com prestesa natural. Recordaste mil aventuras d'este genero, e amoldaste a minha historia ás legitimas consequencias de todas as aventuras. Julgaste-me abandonada pelo homem, com quem fugira, e chamaste a isto, talvez, uma deducção contida nos principios.

«Pensaste bem, amigo, a logica da desgraça é essa, e o contrario dos teus juizos é o que se chama sophisma, porque eu estou em pensar que a virtude é o absurdo da logica dos factos, é a heresia da religião das sociedades, é a aberração monstruosa das leis, que regem o destino do mundo. Achas-me metaphysica de mais? Não te impacientes. A dôr refugia-se nas abstracções, e encontra melhor pabulo na Loucura de Erasmo, que nas sisudas deducções de Montesquieu.

«Minha mãi estava reservada para uma grande provação! Amparou-a Deus n'aquelle golpe, e permittiu-lhe uma energia que não era de esperar. Vasco de Seabra bateu ás portas de todas as igrejas de Lisboa, para me apresentar, como sua mulher, ao cura da freguezia, e achou-as fechadas. Eramos perseguidos, e Vasco não contava com a sua superioridade sobre meu irmão, que lhe fizera certa e infallivel a morte, onde quer que a fortuna lh'o deparasse.

«Fugimos de Lisboa para Hespanha. Um dia entrou Vasco, alvoroçado, pallido, e febril d'aquella febre de medo, que, realmente, era, até então, a unica face prosaica do meu amante. Emmulamos a toda a pressa, e partimos para Londres. É que Vasco de Seabra vira meu irmão em Madrid.

«Vivemos em um bairro retirado de Londres. Vasco tranquillisou-se, porque lhe afiançaram de Lisboa a volta de meu irmão, que perdera as esperanças de encontrar-me.

«Se me perguntas como era a vida intima d'estes dous fugitivos, aos quaes não faltava condição alguma das aventuras romanticas d'um rapto, dir-t'a-hei em poucas linhas.

«O primeiro mez das nossas nupcias de emboscada foi um sonho, uma febre, uma anarchia de sensações que, levadas ao extremo do goso, pareciam tocar as raias do soffrimento. Vasco parecia-me um Deus, com as seductoras fraquezas d'um homem; queimava-me com o seu fogo, divinisava-me com o seu espirito; levava-me de mundo em mundo á região dos anjos onde a vida deve ser o extasis, o arrobamento, a alienação com que a minha alma se derramava nas sensações ardentissimas d'aquelle homem.

«No segundo mez, Vasco de Seabra disse-me pela primeira vez «que era muito meu amigo.» O coração pulsava-lhe vagaroso, os olhos não faiscavam electricidade, os sorrisos eram frios... os meus beijos já os não aqueciam n'aquelles labios! «Sinto por ti uma sincera estima.» Quando isto se diz, depois d'um amor vertiginoso, que não sabe as phrases triviaes, a paixão está morta. E estava...

«Depois, Carlos, fallavamos em litteratura, analysavamos as operas, discutiamos o merito dos romances, e viviamos em academia permanente, quando Vasco me não deixava quatro, cinco, e seis horas entregue ás minhas innocentes recreações scientificas.

«Vasco cançara-se de mim. A consciencia affirmou-me esta verdade atroz. Suffoquei a indignação, as lagrimas, e os gemidos. Soffri sem limites. Abrasou-se-me na alma um inferno que me coava fogo nas vêas. Não houve nunca mulher assim desgraçada!

«E vivemos assim dezoito mezes. A palavra «casamento» foi banida de nossas curtas conversações... Vasco desquitava-se de compromissos, que elle chamava parvos. Eu mesma, de bom grado, o remia de ser o meu escravo, como elle intitulava o nescio, que se deixava algemar ás obscuras superstições do setimo sacramento... Foi ahi que Vasco de Seabra encontrou a Sophia que te apresentei no real theatro de S. João, na primeira ordem.

«Comecei então a pensar em minha mãi, em meu irmão, na minha honra, na minha infancia, na memoria deslustrada de meu pai, na tranquillidade de minha vida até ao momento em que me atirei á lama e salpiquei com ella a face da minha familia.

«Peguei da penna para escrever a minha mãi. Escrevera a primeira palavra, quando comprehendi o vexame, a degradação, e a villania com que ousava apresentar-me áquella virtuosa senhora, com a face manchada de nodoas, contagiosas. Repelli com nobreza esta tentação, e desejei n'aquelle instante, que minha mãi me julgasse morta.