Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 78 de 86

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Cenas Contemporâneas

Scena II.

V .—Eu não sei de nenhum; mas dizem por ahi que são

muitos... muitos...

J a .—E a snr. viscondessa sabe quaes são?

V .—Tambem não sei; mas, na boa roda, diziam que elle

era um prodigio de immoralidade...

J .—E o snr. Jorge? Esse ha-de saber muitas cousas...

J .—Creio que ha muitas scenas horriveis na vida d'esse

homem, todavia, eu não sei nenhuma...

J .—Mas vive com elle ha mais de sete annos...

J .—É verdade... mas, como elle me não chamava a

testemunhar os seus desvarios, nada sei...

J .—O que se segue é que nenhum de nós sabe dizer em que

consistiu a depravação de Eduardo!...

V .—A sociedade não se engana, menina. Ella que o

condemnou lá sabe os motivos porque o fez. A virtude não é nunca infamada. Veja lá se seu marido, e aqui o snr. Jorge foram victimas da calumnia!...

J .—Mas eu queria que me citassem um crime de Eduardo...

U —O snr. Eduardo...

 

SCENA II.

 

Os mesmos e E .

(Eduardo veste todo de preto. Maneiras muito acanhadas,

dando-se uns ares de virtude idiota. Uma cortezia a cada

palavra. Recolhido sempre em si, affectando uma

imbecilidade moral, de fazer piedade).

 

V e .—Muito bem vindo.

E as .—Como passaram vv. exc.?

V .—Maravilhosamente... queira sentar-se.

E a .—E a snr. D. Julia?

J .—Um pouco affectada dos nervos.

E .—Muito sinto, minha senhora, Deus a poupe a

soffrimentos de todo o genero... E o meu amigo Jorge... como passa?

J .—Assim, assim...

V .—Então! senta-se? (Eduardo senta-se).

E .—Como está tua senhora, Jorge?

V .—Estamos á espera d'ella.

E a .—E seu marido, snr. D. Julia?

V .—Não deve tardar... (Eduardo em ar de pensativo, esfregando as costas das mãos).

V .—Elle ahi vai recahir nas suas melancolias! Não o

queremos assim! Que tem?

E .—Pesares... que vem de longe, minha senhora...

V a .—O passado já lá vai... Agora v. s. é outro homem... Toda a gente diz que quem o viu e quem o vê...

V .—Nada de tristezas. A virtude é sempre alegre... Ó

menina, vá tocar um bocadinho... Tenho notado que o snr. Eduardo está melhor quando ouve tocar... Que quer que ella toque?

E a .—O que s. exc. quizer...

J .—Cousas tristes?

V .—Não, menina! Bem triste está elle!... Toque alguma

cousa do Barbeiro de Sevilha...

J .—Pois, sim... (Vai tocar na sala immediata).

V (a Eduardo).—Quer que vamos á sala do piano, ou quer gosar de longe?

E a .—De longe, se v. exc. não manda o contrario. (Jorge, logo depois, segue Julia).

V .—Muito folgamos de o vêr rehabilitado na opinião publica.

E .—E estarei-o eu por ventura?

V .—Está... Veja... n'um só mez recuperou os creditos

perdidos em tantos annos...

E .—Muito devo a Deus, porque é o contrario que costuma

acontecer... Então a snr. a D. Julia não nós dá o prazer de a ouvirmos? Vai-nos demorando o goso...

V .—Eu vou lá... (Sahe).