Cenas Contemporâneas
Scena II.
V .—Eu não sei de nenhum; mas dizem por ahi que são
muitos... muitos...
J a .—E a snr. viscondessa sabe quaes são?
V .—Tambem não sei; mas, na boa roda, diziam que elle
era um prodigio de immoralidade...
J .—E o snr. Jorge? Esse ha-de saber muitas cousas...
J .—Creio que ha muitas scenas horriveis na vida d'esse
homem, todavia, eu não sei nenhuma...
J .—Mas vive com elle ha mais de sete annos...
J .—É verdade... mas, como elle me não chamava a
testemunhar os seus desvarios, nada sei...
J .—O que se segue é que nenhum de nós sabe dizer em que
consistiu a depravação de Eduardo!...
V .—A sociedade não se engana, menina. Ella que o
condemnou lá sabe os motivos porque o fez. A virtude não é nunca infamada. Veja lá se seu marido, e aqui o snr. Jorge foram victimas da calumnia!...
J .—Mas eu queria que me citassem um crime de Eduardo...
U —O snr. Eduardo...
SCENA II.
Os mesmos e E .
(Eduardo veste todo de preto. Maneiras muito acanhadas,
dando-se uns ares de virtude idiota. Uma cortezia a cada
palavra. Recolhido sempre em si, affectando uma
imbecilidade moral, de fazer piedade).
V e .—Muito bem vindo.
E as .—Como passaram vv. exc.?
V .—Maravilhosamente... queira sentar-se.
E a .—E a snr. D. Julia?
J .—Um pouco affectada dos nervos.
E .—Muito sinto, minha senhora, Deus a poupe a
soffrimentos de todo o genero... E o meu amigo Jorge... como passa?
J .—Assim, assim...
V .—Então! senta-se? (Eduardo senta-se).
E .—Como está tua senhora, Jorge?
V .—Estamos á espera d'ella.
E a .—E seu marido, snr. D. Julia?
V .—Não deve tardar... (Eduardo em ar de pensativo, esfregando as costas das mãos).
V .—Elle ahi vai recahir nas suas melancolias! Não o
queremos assim! Que tem?
E .—Pesares... que vem de longe, minha senhora...
V a .—O passado já lá vai... Agora v. s. é outro homem... Toda a gente diz que quem o viu e quem o vê...
V .—Nada de tristezas. A virtude é sempre alegre... Ó
menina, vá tocar um bocadinho... Tenho notado que o snr. Eduardo está melhor quando ouve tocar... Que quer que ella toque?
E a .—O que s. exc. quizer...
J .—Cousas tristes?
V .—Não, menina! Bem triste está elle!... Toque alguma
cousa do Barbeiro de Sevilha...
J .—Pois, sim... (Vai tocar na sala immediata).
V (a Eduardo).—Quer que vamos á sala do piano, ou quer gosar de longe?
E a .—De longe, se v. exc. não manda o contrario. (Jorge, logo depois, segue Julia).
V .—Muito folgamos de o vêr rehabilitado na opinião publica.
E .—E estarei-o eu por ventura?
V .—Está... Veja... n'um só mez recuperou os creditos
perdidos em tantos annos...
E .—Muito devo a Deus, porque é o contrario que costuma
acontecer... Então a snr. a D. Julia não nós dá o prazer de a ouvirmos? Vai-nos demorando o goso...
V .—Eu vou lá... (Sahe).