Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 7 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo VII

—Ora ahi tem uma resposta d'um moço, que seria pena comerem-no os lobos!...—disse o padre, desafiando um gracioso sorriso de Amelia.

—Ha-de dizer ao seu parente medico que me salve da sepultura assim como nós esta noite o salvaremos de ser victima dos lobos— disse-me ella, apertando affectuosamente a mão de Valladares, em despedida, porque a tosse exasperava-se cada vez mais.

Esta rapida apparição impressionou-me muito. Queria fazer mil perguntas; mas eu não tinha a quem. O padre e o estudante fallaram em assumptos, que me não interessavam nada. O que eu queria era a vida, a historia, os soffrimentos, a poesia d'aquella mulher. Eu tinha lido, dias antes, não sei que romance, onde vira uma mulher assim...

Appareceu um taboleiro com a cêa. O abbade fez o prato de D. Amelia. Era uma aza de gallinha, que elle mesmo lhe serviu.

Valladares tambem comeu do pucaro da doente. Eu, com o abbade, entramos corajosamente n'um coelho guisado, cuja retaguarda cortamos com um excellente caldo verde, e lourejantes castanhas assadas com manteiga.

No fim, demos graças a Deus.

O padre, segundo o seu costume, foi sentar-se á cabeceira de sua cunhada. Eu e Valladares entramos n'um quarto commum.

 

VII.

 

O academico tinha uma physionomia franca e insinuante. Conversava comigo sem desdenhosa superioridade. Familiarisamo-nos depressa, como dous futuros companheiros de casa em Coimbra.

Eu fui um grande fallador, n'aquella idade, em que pensava menos. O meu recente amigo sympathisou com a minha garrula eloquencia, e dava signaes de desenfado, quando naturalmente devêra querer dormir, depois de uma fatigante jornada, em dia de neve.

Eu não era rapaz que, por delicadeza, calasse a minha curiosidade a respeito de D. Amelia.

—O senhor faz-me o favor de me dizer uma cousa?—disse eu.

—Que é? quantas horas são?... são 10... quer dormir?

—Não, senhor: queria saber quem é esta snr. a D. Amelia?

—É cunhada do padre, e casada com um sujeito, delegado em * * *.

—Isso já eu sabia... pouco mais ou menos.

—Então sabe tanto como eu...

—Mas é d'aqui d'esta aldêa esta senhora? Creio que ouvi dizer que era de Lisboa.

—É verdade... nasceu em Lisboa...

—E como veio parar aqui n'este matagal? Naturalmente perdeu-se, como eu, na serra, por causa da neve, e veio cá bater, e cá ficou! Pois eu dou-lhe a minha palavra de honra, que apenas vir luzir o buraco, retiro-me sem mais ceremonias d'este delicioso covil de cabras.

O meu amigo ria-se. Estava disposto a achar-me graça, e o leitor póde tambem rir-se, se lhe aprouver.

E acrescentou ao sorriso:

—Parece-lhe impossivel que a tal senhora viesse de Lisboa para aqui sem ser impellida por um acaso?

—De certo... Já não admira que ella tenha tosse de tisica... O que me espanta é ella viver, se cá está desde hontem!... Quando veio ella?

—Ha dous annos.

—Então é eterna... ou santa. Hei-de dizer que encontrei esta martyr a uma minha tia, que é capaz de jurar que a viu fazer milagres...

—O menino é sarcastico! Se o não visse tão inclinado a rir-se de cousas serias, contava-lhe uma historia triste...

—E eu gosto muito de historias tristes... Verá que me não rio, quando me dizem alguma cousa que me toque o sentimento. A minha familia chama-me poeta; os visinhos chamam-me tolo; não sei bem o que sou; mas o que não sou é insensivel... Vê... já não tenho vontade de gracejar... Conte-me agora a historia, que eu prometto contar-lhe outra que me fez chorar, porque é uma passagem tão infeliz, que, se eu fizesse novellas, escrevia uma.

—Talvez as escreva no futuro...

—Eu?... Deixe-se d'isso... O meu mestre de logica diz que eu sou um alarve, e o de rhetoria já me mandou ser aprendiz de alfaiate... Não tenho habilidade nenhuma. O meu gosto é lêr os sonetos do abbade de Jazente, e as quintilhas do Nicolau Tolentino. Não sei mais nada, nem quero saber... Vamos á historia, sim?

—Então aproxime-se de mim, que eu quero fallar baixo. Mas, antes de mais nada, promette não contar a ninguem o que vou dizer-lhe? —Pois é segredo!