Cenas Contemporâneas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 28 de 86

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Cenas Contemporâneas

Capítulo II

 

O meu amigo continuou:

—Alvaro reconcentrou-se em uma tal misanthropia, que nem ao menos os intimos amigos recebia em casa. Dir-se-hia que aquella vida estava a levedar-se do amargo fermento de rancor que as mulheres lhe levaram á alma. Eu vi-o uma vez. Parecia um Smarra, um magico, uma cousa d'um outro mundo, onde os homens conversam com as larvas. Morava no quarto o terror. A sombra da aza da morte empanava aquelle rosto, d'onde a vivesa e o lume fugira, deixando como vestigios, as rugas cadavericas d'uma lenta agonia.

—Devia ser um demonio! Cuidei que uns figurões assim eram privilegio dos romances!... E os cabellos? naturalmente arripiados como os do Asaverus, de Orestes, ou de qualquer outro estafermo, não é verdade?

—O que tu quizeres... O caso é que eu julguei-o demente, ou, pelo menos, desgraçado, que não sei se é menos, por toda a vida.

Agora, levanta-se o pano do segundo acto.

Uma bella manhã, sahe um homem d'um navio com quatro bahús atraz de si. Este homem procurou a morada de um seu irmão; este irmão, que tinha morrido, era o pai de Alvaro. O tio de Alvaro, por consequencia, era um rico brasileiro, que acabava de manifestar seiscentos contos.

Alvaro recebeu-o com sinistra rudeza. O snr. Manoel da Silva abraçou seu sobrinho, chorando a morte de seu irmão, que era muito semelhante com seu sobrinho. Deu graças á Providencia por encontrar um herdeiro do seu ouro e do seu sangue; e, deixa-me assim dizer sem offensa da metaphysica, insufflou uma alma nova n'aquella casa, uma alma muito grande, maior que a alma universal de Platão! só comparavel á alma que faz girar um sangue azul nas veias d'um merceeiro.

Alvaro, quando de improviso se viu rico, partiu a pedra do seu tumulo, e respirou o ar dos vivos. Os olhos faiscaram-lhe um novo lume. Os labios vibraram-lhe uma eloquencia nova. O coração bateu-lhe pulsações d'um orgulho expansivo. O corpo endireitou-se na linha vertical que a Providencia geometrica marcou a todos os que podem parodiar Luiz XIV, e dizer: o dinheiro sou eu!

O brasileiro não era abdominoso nem vermelho das bochechas. Era um homem regular, com sentimentos de homem não bestealisado pelo ouro.

Achando uma casa pobre, enriqueceu-a, ampliou-a, abriu-lhe os flancos, e deu-lhe as fórmas arrogantes d'um palacete. Um tylburi, uma carruagem, e duas parelhas de eguas hanoverianas harmonisaram o fausto d'aquella magica metamorphose.

E tudo era feito a bel-prazer de Alvaro. O tio authorisara-o para tudo, menos para casar-se, porque detestava as mulheres.

Elle lá sabia o porque, e, se eu o souber um dia, conta com um folhetim.

—Muito obrigado; não me despeço do favor.

—Agora vaes tu conhecer a astucia da intelligencia, que não prescinde, na riqueza, da vingança premeditada no infortunio.

Alvaro de Sousa não ostentou, como era de esperar, as suas eguas, a sua carruagem, e os seus lacaios de verde e prata. Viveu, dous mezes, ao fogão, conversando com o tio, e conquistou-lhe assim um conceito de grave sisudez, e uma plena confiança.

Na primavera, Alvaro appareceu com as flôres, e, agradavel como ellas, grangeou amisades, que não tinha...

—Necessariamente... Olha que novidade me dás!... É melhor dizer... comprou amisades, que não tinha...

—Não posso assim dizer absolutamente. Alvaro, em quanto pobre, era desabridamente orgulhoso, e desconfiado... Um olhar de través irritava-o, e uma palavra equivoca enfurecia-o. Era como os que soffrem rheumatismo agudo, que não consentem uma mosca no travesseiro. E a pobresa, seja dito em proveito da pathologia, é o rheumatismo agudissimo da humanidade...

Depois de rico, parece que a sua grandeza estava na consciencia d'ella. O dinheiro tornou-o affavel, carinhoso, sollicito em procurar as relações dos que lhe eram muito inferiores, e até d'aquelles que repellira na infelicidade. É realmente um phenomeno, mas tu sabes que eu não te minto.

—E as mulheres que faziam?

—As mulheres? Agora vamos nós lá... Isso é uma historia muito complicada...

—Quaes são as que figuram?

—Vamos por partes. A mulher, que, primeiro, o repelliu foi a Maria da Luz. Esta mulher é casada, e era solteira, mas solteira de trinta e tantos annos, quando Alvaro a requestou. Não sei porque, Maria da Luz, era a preferida no odio, talvez porque sendo a primeira a repellil-o, desairou-o, para todas as outras... Não sei.

Alvaro foi com seu tio pagar uma visita ao marido d'esta mulher, porque a influencia do brasileiro em certos homens do poder obrigara aquelle a captar-lhe a benevolencia para conservar certos proventos, que estavam muito em perigo.

O sobrinho começou a jogar com a influencia do tio. Quiz lêr-lhe o seu programma de vingança, mas achou que era cedo, ou immoral. Calou-se e esperou.

Na visita, que fizeram, Maria da Luz veio á sala, e quiz sustentar a dignidade matrimonial, com os artificios d'uma etiqueta safada. Alvaro ria-se por dentro, mas fingia-se parvo por fóra. Dava-se uns ares de esquecido, e apertava a mão da sua victima com a cordialidade d'um bom homem. E Maria da Luz espantou-se.

Passaram-se alguns mezes. Alvaro, que participava da influencia do tio nos destinos da patria, reconcentrou toda a sua energia em realisar desgraçadamente os terrores do marido de Maria da Luz. Quando menos se esperava, este homem é demittido, e obrigado pela fazenda a um saldo de contas que o empobrecia. O brasileiro, que n'este tempo já era visconde de Sousa, quiz salval-o, mas encontrou em seu sobrinho um violento accusador das immoralidades d'aquelle mau funccionario, cuja deshonra reflectia na face de quem o protegesse. As instancias redobradas encontraram frio o visconde, que, por fim, declarou que não intervinha em certos negocios que delegara em seu sobrinho, mais conhecedor das conveniencias do paiz, e da moralidade dos funccionarios. Com este fragmento de artigo do fundo, foi despedido o marido da Luz, cujo decahir para o abysmo de miseria era rapido como a facilidade com que subira.

Maria da Luz comprehendeu a vingança, e achou-a vil.

—Realmente era...

—Mas não ha vinganças nobres, creio eu. A mulher, que eu principio a chamar pobre, fechára os seus salões, e não esperou que os alheios se lhe fechassem. A tristeza sentára-se nos sophás d'aquellas salas desertas, onde viria brevemente sentar-se o escrivão da penhora. A desgraça, ainda assim, não lhe aniquilava a soberba. Julgava ella que, humilhando-se a Alvaro, encontraria uma protecção, mas tambem uma ignominia. O marido, que cahira primeiro na sua miseria, perdeu, primeiro, a dignidade. Excitou-a para que escrevesse a Alvaro, e encontrou-a sempre negativa.

E Alvaro respirava com sofreguidão um momento que devia chegar.

Ao mesmo tempo, desenvolvia-se o plano d'outra vingança. Thereza da Cruz era a segunda victima de Alvaro. Esta não podia ser ferida nos interesses materiaes. Era rica das suas propriedades. Era solteira, e amava profundamente um homem casado.

Este homem era delirantemente amado por sua mulher, e presava-a, senão posso dizer que a adorava. Thereza da Cruz fascinava-lhe a cabeça d'aquelle amor-appetite que Stendhal judiciosamente distingue do amor-paixão. Mas Thereza da Cruz detestava a virtuosa esposa do seu amante, com toda a raiva d'um ciume reconcentrado.

E Alvaro sabia-o.

Era-lhe necessario quebrar aquellas ligações com estrondo e deshonra para Thereza da Cruz.

O que elle fez é uma ignominia, é, porém uma vingança que medrara em fel durante tres annos de torturas suffocadas.

Alvaro obteve uma carta da mulher do amante de Thereza da Cruz, escripta a uma sua amiga.

O dinheiro proporcionou-lhe um falsificador de letra, perfeito na sua perversa habilidade.

Mandou-lhe escrever algumas cartas amorosas pelo molde d'aquella letra. E não deixou uma ligeira duvida sobre o genero de relações que a prendiam a um homem, que se não nomeava.

Estas cartas enviadas a Thereza da Cruz, foram incluidas n'uma anonyma, que dizia assim:

«Minha querida amiga.

 

«Sei que detestas Miquelina, e que procuras perdêl-a no conceito do marido, para conquistares plenamente uma alma digna de ti. Queres castigar o orgulho d'essa hypocrita que lamenta a nossa prostituição? Ahi tens essas cartas, que eu pude obter d'um amante, que a despresou por mim. Tira as têas d'aranha dos olhos d'esse piegas, e faz-lhe vêr que sua mulher não é melhor que tu: porque tu és livre, e ella é casada. Saberás o meu nome, no primeiro baile onde nos reunirmos.

Tua amiga d'alma.»

 

D. Thereza, recebendo estes cartas, sentiu uma alegria infernal. Daria por ellas a reputação de honrada, se a tivesse.

Por fatalidade, o amante, na noite d'aquelle dia tratou-a com indifferença. A orgulhosa, enraivecida d'um tedio que não podia supportar, esforçou-se por chamar a conversação a respeito de mulheres casadas, e avançou a proposição de que não havia uma na primeira roda, que não fosse adultera. O amante protestou colericamente contra o absoluto da proposição. Defendeu sua mulher com ares de Collatino, e exprobrou acremente a maledicencia da insolente.

A indignação ferveu: trocaram-se epithetos ultrajantes. D. Thereza foi uma eloquente regateira, e o seu apaixonado repetiu as phrases mais peculiares da tarimba. Por fim, D. Thereza, chegado o momento dramatico, apresentou-lhe as suppostas cartas da esposa.

O homem abriu-as com frenesi: reconheceu a letra e sahiu como um vexado pelo demonio.

D. Thereza da Cruz, sentiu, pela primeira vez, um momento de completa felicidade em sua vida!...