Cenas Contemporâneas
Capítulo II
Fui convidado por alguns amigos a acompanhal-os á serra, porque o sol refrangia-se em scintillas na neve, que parecia desfazer-se em laminas de prata.
Fui muito contente da consideração que se me dava, como caçador, porque, em verdade vos digo, atirei com certeiro olho a perdizes e galinholas. Se nunca matei nenhuma, o que tambem é verdade, deve-se á pessima polvora das nossas fabricas. Em compensação, matei muito melro e tordo nas serdeiras, e consegui matar de noite uma coruja, africa que muitos caçadores famosos de certo não fizeram. Eu fui um grande homem antes de escrever folhetins! Deus perdôe a quem me torceu a vocação! Eu podia, a estas horas, ser um habil corredor de lebres, e assim tornei-me a lebre dos galgos sociaes.
Estes galgos sociaes, meu leitor, se tu és um d'elles, permitte-me dizer-te que tens o faro muito descaçado, e que eu hei-de saltar por cima de ti, quando cuidares que me abocas. Se não és galgo, sensato amigo, aqui rasgo o diploma de tolo, que te concedi, sem te levar direitos de mercê.
Agora, vai entrar a historia direitinha até ao fim.
III.
Subimos á esplanada da serra. Eramos seis. Dividimo-nos em tres grupos, e combinamos em nos darmos signaes com tiros no caso de nos perdermos encobertos pelo nevoeiro, que poderia de improviso esconder-nosos cabeços das serras, unicas balizas que nos serviam de guia.
Assim combinados, cada grupo, com dous cães, seguiu as pégadas dos coelhos impressas de fresco na neve. Eram muitos, e morriam á pancada, porque os pobresinhos alapados debaixo das urzes, se fugiam, eram logo mordidos pelos cães; se esperavam eram apanhados á mão. Alguns, mais previdentes, tinham emigrado para as fundas colheitas, formadas pelas sinuosidades interiores dos penedos agglomerados. A estes perseguia-os o furão, que eu levava no meu cacifo, desalapava-os, e os cães, farejando as avenidas da colheita, recebiam-os nos dentes, sacudiam-nos com o rancor do instincto, e atiravam-nos mortos aos nossos pés.
Andamos assim uma hora, tão entretidos, tão esquecidos do mundo, que nunca tão distrahida hora eu tive na minha vida, a não ser aquellas em que durmo, e sonho que hei-de tornar áquelles meus dias de candura, depois de lidar muito com a innocencia d'estas angelicas creaturas, que vestiriam, por innocentes, como Adão e Eva, se a serpente lhes não dissesse que andavam indecentes.
Ao cabo d'essa hora, toldou-se o ar, e cahiu uma segunda camada de neve.
O meu companheiro quiz logo voltar sobre os seus vestigios, porque (dizia elle) d'aqui a minutos as nossas pégadas estarão cobertas, e não saberemos caminhar para o nascente nem para o poente.
—Eu, por ora, não vou—lhe disse eu.
—Porque?
—Estou bem aqui. Acho muita poesia n'este quadro. Imagino que esta chuva de neve se transforma em chuva de fogo... Este nevoeiro, que rola em ondas aos nossos pés, e sobre a nossa cabeça, afigura-se-me o fumo do grande incendio no juizo final! Olha... não te parece que o vento espalha já as cinzas d'uma grande cidade! Não vês Sodoma lá em baixo vomitando columnas de fumo?...