Cenas Contemporâneas
Scena V.
J .—Sim?... porque m'o não disse?... Já agora, perdeu-se a sua
discrição... Eu disse tudo...
J .—A quem?
J .—A Leocadia...
J (á parte).—Está explicado o enigma!...
J .—Nada de monologos... falle comigo... Ora, snr. Jorge... que
necessidade tinhamos nós de corarmos um na presença do outro!?
J .—Eu não córo... A côr d'este rosto só póde alteral-a uma
infamia.
J .—Dê o nome que lhe aprouver ao seu acto, que eu não lhe
conheço outro... V. s.a feriu-me, e cicatrizou-me a ferida... São boas todas as affrontas que nos despertam a sensibilidade da honra... A lembrança do ultraje ha-de fazer que eu esqueça a causa depressa... Fez bem... Deixou cahir a mascara muito a tempo... (Retira-se).
J .—Escute-me, Julia... (Vai sentar-se no sophá).
SCENA V.
J , e E , dando o braço a L .
E .—Será isto um sonho?... Se o é, deixe-me sonhar uma
hora, sim?
L (sorrindo).—Tambem ha sonhos de que se acorda com a face cheia de lagrimas...
E (para Jorge).—Ainda aqui!... (Leocadia estremece).
J .—Ainda aqui... não estou mal... Tem dançado muito, minha
senhora?
L .—Principiei agora...
J .—Pois ainda tem muito tempo de gosar... São tres horas...
Nunca lhe esqueça que foi ás tres horas...
L .—Não o comprehendo, snr. Jorge... Que tenho eu com as
tres horas do seu relogio?
J .—Não se finja simples como donzellinha que sahiu hontem
do collegio...
L .—Antes uma fingida innocencia que uma descarada
impostura.
J .—Não entendo.
E .—Os senhores dizem que não se entendem, e eu de
certo não os entendo melhor. Não façam ceremonia de mim. Queiram explicar-se de modo que eu possa reconcilial-os.
J .—Reconciliar-nos!... Não estamos divorciados... O que me
prende a esta senhora são os respeitos e considerações que se lhe devem. Em quanto ella se não desviar da carreira d'um nobre procedimento, as nossas relações não soffrem quebra...
E .—Pois n'esse caso, meu caro Jorge, serás sempre o
respeitador d'esta senhora, porque os anjos não se precipitam desde que um, ha muitos annos, teve o mau gosto de se precipitar do céo.