Cenas Contemporâneas
Capítulo VIII
O amor fez heroes, mas tambem faz patetas. Eulalia desceu da sua altiva energia ao raso da toleima. Declarou o nome... o nome de quem? o nome, sem nome, do engeitado, do aprendiz de alfaiate, do lacaio, do escudeiro!...
Que horror!
Nunca se viu um solavanco mais desamparado que o salto de tigre que Francisco de Lucena deu contra a grade que o separava da filha! Por Deus! que a esgana se lhe chega! A pobre menina, arripiada como quem vê um lobo com as fauces vermelhas, e as unhas recurvas, foge pelo dormitorio, e fecha-se no quarto.
VIII.
Lucena correu a casa com os olhos injectados de fogo. Precisava d'uma victima! Encontrou no caminho João Leite, mas este não podia justificadamente ser sua victima. João Leite mostra-lhe a carta que recebêra de Eulalia. Isto foi exacerbal-o. «Não se lhe dê de ser repellido por essa infame,—lhe disse elle—Eu vou provar-lhe que sou pai!... Essa mulher amava um escudeiro... um lacaio... um engeitado...»
Entrando em casa, procurou o «engeitado.» Encontrou-o ainda estupidamente absorvido na meditação d'aquella carta. A entrada rapida que fez no quarto não deu tempo a que Bernardo escondesse a carta que tinha aberta nas mãos tremulas. Lucena arrancou-lh'a com uma convulsão de raiva superior á furia d'um demente. Passou-a pelos olhos, e, sem articular um som, lançou mão d'uma cadeira, e, á segunda pancada, Bernardo tinha a face coberta de sangue. Era um sangue innocente que reclamava justiça. Era um sangue innocente que pedia a intervenção de Deus. A justiça, filha legitima do céo, virá mais tarde salpicar d'aquelle sangue a face de quem o derramava.